14 de março de 2019

Capítulo 6

Entre os integrantes do navio havia de trinta e cinco a quarenta fuzileiros navais, cuja elegância e boas maneiras contrastavam diretamente conosco, simples marinheiros, o que não deixava de nos causar espanto e diversão… Com seus botões de metal polido e botas impecavelmente engraxadas, eles eram muito meticulosos na aparência.
L. TROMAN, MARINHEIRO DO HMS VICTORIOUS
EXTRAÍDO DE WINE, WOMEN AND WAR

DOIS DIAS A BORDO

Na tentativa de manter ocupadas as esposas cujo entusiasmo inicial poderia se transformar em saudade de casa, o HMS Victorious ofereceu, durante todo o segundo dia de viagem, as seguintes atividades, cuidadosamente documentadas na edição inaugural do Daily Ship News:
10h Culto protestante (convés E)
13h  Audição de música gravada
14h30 Jogos no convés de voo
16h Ateliê de tricô (a Cruz Vermelha fornecerá dez gramas de lã cor-de-rosa ou branca e dois pares de agulhas por participante)
17h Palestra: “Casamento e vida em família”, a ser ministrada pelo capelão do navio
18h30 Bingo (área de lazer, convés principal)
19h30 Missa católica romana

Das atividades sugeridas, as mais populares pareciam ser os jogos no convés e o bingo, e a palestra era a que despertava menos interesse. Infelizmente, o capelão tinha uma postura muito severa, e pelo menos uma das jovens comentara que elas não precisavam de uma palestra sobre casamento feita por um homem que parecia querer se lavar toda vez que uma delas encostava nele por acaso.
Enquanto isso, o jornal com título criativo, editado por uma das oficiais com a ajuda de duas passageiras, também citou os aniversários da Sra. Josephine Darnforth, de dezenove anos, e da Sra. Alice Sutton, de vinte e dois, e pediu para as leitoras contribuírem com fofocas e amenidades que “pudessem fazer a viagem passar de forma agradável e conveniente”.
Fofoca, é?, pensou Jean, depois que alguém leu essa frase em voz alta. Aposto que até o fim da viagem eles vão ter fofoca suficiente para encher vinte malditos jornais.
Avice saiu cedo da cabine para ir ao culto protestante. Achou que encontraria mais gente do seu nível na igreja. Ficara um pouco surpresa ao ouvir Margaret dizer que assistiria à missa católica. Ela nunca encontrara alguém papista, como sua mãe chamava os católicos, mas tomou o cuidado de não demonstrar que sentia pena dela.
Jean, que já declarara sua aversão a qualquer religião (por causa de uma experiência desastrosa em uma escola cristã), estava se maquiando, quase pronta para a audição de música. Ela achava que poderia ter dança, e inclusive afirmou que estava “se coçando mais do que um canguru com a bunda em um cupinzeiro” para sair da cabine e ir para a pista de dança.
Margaret estava deitada no beliche, com a mão na cachorrinha, lendo uma das revistas de Avice. De vez em quando, dava uma risada de desdém.
— Está dizendo aqui que não se deve dormir com muita frequência sobre o mesmo lado do rosto para evitar rugas. Mas de que outro jeito dá para dormir, caramba?
Depois ela se lembrara de ter visto Avice na noite anterior deitada de costas no beliche acima do de Frances, apesar do óbvio desconforto causado pelos bobes na sua cabeça, e prometeu a si mesma que não voltaria a fazer comentários em voz alta.
Isso deixou Frances livre para sair dali sem dar explicações. Usando calça cáqui e blusa de mangas curtas, a roupa que mais se aproximava do seu antigo uniforme, saíra da cabine e, balançando discretamente a cabeça para as garotas que passavam por ela, desceu a escada.

* * *

Frances precisara bater duas vezes antes de ter uma resposta, e mesmo assim conferiu várias vezes o nome escrito na porta.
— Entre.
Ela entrou na enfermaria, que tinha paredes cobertas de garrafas e frascos dispostos em prateleiras estreitas protegidas por portas de vidro. O homem atrás da escrivaninha tinha cabelo ruivo curto, rente à cabeça como um capacete de proteção, e vestia roupas civis. Tinha o rosto sardento e os olhos enrugados, talvez por tê-los apertado durante anos a fio. Porém, a julgar pelo seu jeito, naquele momento era provável que estivesse sorrindo.
— Entre, por favor. Você deve estar achando este lugar uma bagunça.
Frances corou por um instante, mas quando percebeu que ele estava apenas brincando, deu alguns passos na sua direção.
— Então, qual é o problema?
Ele deslizava a mão de um lado para outro pela escrivaninha, como se acompanhasse um ritmo inaudível.
— Não tem problema nenhum.
Ela se empertigou, toda dura com sua blusa engomada.
— O senhor é o cirurgião? Dr. Farraday?
— Não.
Ele a observou, aparentemente avaliando se deveria esclarecer mais alguma coisa.
— Vincent Duxbury. Passageiro civil. Acho que não sou a pessoa que a senhora esperava encontrar. Ele… hã… não conseguiu embarcar. Então, o comandante Highfield me pediu para substitui-lo. E, para falar a verdade, considerando o padrão de entretenimento a bordo, estou feliz por ter vindo. Em que posso ajudá-la?
— Não sei se pode — respondeu ela, confusa. — Pelo menos não no sentido que eu esperava. Eu era… Quer dizer, sou enfermeira. — Ela estendeu a mão. — Frances Mackenzie. Ouvi dizer que algumas das mulheres poderiam ajudar com secretariado, por isso pensei em me oferecer para trabalhar aqui.
Vincent Duxbury apertou sua mão e gesticulou para que se sentasse.
— Enfermeira, é? Imaginei que teríamos algumas a bordo. Tem experiência?
— Cinco anos no Pacífico. Meu último posto foi no Hospital Geral da Austrália, 2º batalhão, 7ª companhia de Morotai. — Ela fez um esforço para não acrescentar “senhor”.
— Meu primo esteve no Japão em 1943. E o seu marido?
— Meu…? Ah. — Por um instante, ela pareceu confusa. — Alfred Mackenzie. Da Marinha Real Escocesa.
— Marinha Real Escocesa… — repetiu devagar, como se aquilo significasse alguma coisa para ele.
Ela cruzou as mãos diante do corpo.
Dr. Duxbury se reclinou na cadeira, brincando com o gargalo de uma garrafa de vidro marrom. Ele parecia estar na sala já havia algum tempo, embora ainda estivesse de paletó. De repente, ela percebeu que o cheiro de álcool não vinha necessariamente dos medicamentos.
— Então…
Ela aguardou, tentando não olhar diretamente para o rótulo da garrafa.
— Então a senhora quer trabalhar como enfermeira. Durante as próximas seis semanas.
— Se eu puder ser útil, sim. — Ela respirou fundo. — Tenho experiência com queimaduras, tratamento de disenteria e complicações no sistema digestivo. Principalmente com prisioneiros de guerra — acrescentou. — Tivemos muitos casos desses.
— Aham…
— Não tenho muito conhecimento sobre ginecologia ou obstetrícia, mas achei que pelo menos poderia ajudar um pouco nos casos dos homens. Perguntei ao pessoal do navio de assistência hospitalar Ariadne, o último lugar em que trabalhei, e me disseram que os tripulantes de porta-aviões apresentam um número desproporcional de ferimentos, principalmente durante voos de treinamento.
— Boa pesquisa, Sra. Mackenzie.
— Bem… não quero só ocupar meu tempo livre com uma atividade útil, doutor. Gostaria de ter a oportunidade de ganhar um pouco mais de experiência… Aprendo depressa — acrescentou, porque ele continuou calado.
Houve um breve silêncio. Frances olhou para ele, mas ficou constrangida com a intensidade do olhar que o homem dirigiu a ela.
— Sabe cantar? — perguntou ele, por fim.
— O quê?
— Cantar, Sra. Mackenzie. Sabe como é, músicas de espetáculos, hinos, ópera.
Começou a cantarolar uma melodia que ela não conhecia.
— Infelizmente não.
— Que pena. — Ele franziu o nariz, depois bateu a palma da mão na escrivaninha. — Achei que poderíamos juntar algumas de suas colegas e montar um espetáculo. Seria uma oportunidade perfeita, não acha?
Ela notou que a garrafa marrom estava vazia. Ainda não conseguia ler o rótulo, mas o cheiro do conteúdo que já tinha acabado se espalhava pelo local cada vez que o homem dizia alguma coisa.
Ela respirou fundo.
— Tenho certeza de que seria uma ideia muito… útil, doutor. Mas será que poderíamos discutir…
— Long ago and far away… Conhece O barco das ilusões?
— Não. Acho que não.
— É uma pena. Old Man River
Ele fechou os olhos e continuou cantando. Ela se sentou, com as mãos entrelaçadas no colo, sem saber se devia ou não interrompê-lo.
— Doutor?
Sua cantoria se transformou numa melodia mais baixa. A cabeça dele estava inclinada para trás.
— Doutor? O senhor tem ideia de quando gostaria que eu começasse?
— He just keeps rollin’… — cantarolou ele, depois abriu os olhos e terminou o verso. — Sra. Mackenzie?
— Posso começar hoje, se quiser. Se achar que posso ser… útil. Meu uniforme está no dormitório. Coloquei de propósito na minha mala de mão.
Ele tinha parado de cantar e abrira um grande sorriso. Ela se perguntou se ele seria assim todos os dias. Nesse caso, ela precisaria começar a contar as garrafas em segredo, como havia feito com o Dr. Arbuthnot.
— Vou lhe dizer uma coisa, Frances. Posso chamá-la de Frances? — Ele usava a garrafa para apontar para ela. Parecia estar se divertindo com aquele momento em que demonstrava superioridade. — Vou lhe dizer para sair daqui.
— Não entendi.
Ele riu.
— Enganei você, não foi? Não, Frances Mackenzie. Faz cinco anos que você serve à sua pátria e à minha. Merece um descanso. Vou lhe receitar seis semanas de férias.
— Mas quero trabalhar — retrucou ela.
— Não insista, Sra. Mackenzie. A guerra acabou. Daqui a algumas semanas a senhora vai se dedicar à missão mais árdua da sua carreira. Estará criando filhos antes mesmo de se dar conta disso e, acredite, sua experiência com aqueles soldados doentes vai parecer férias. Esse será seu verdadeiro trabalho. Acredite em alguém que tem conhecimento de causa. Três filhos e uma filha. Cada um deles é um pequeno dínamo.
Ele contou os filhos nos dedos da mão, depois balançou a cabeça, como se estivesse imerso em uma profunda reflexão sobre seus descendentes.
— É o único trabalho ao qual quero que se dedique daqui em diante. O verdadeiro trabalho das mulheres. Então, por mais que me agrade ter a companhia de uma mulher jovem e atraente, vou insistir que aproveite seus últimos dias de liberdade. Vá ao cabeleireiro, assista a filmes, fique ainda mais bonita para o seu marido.
Ela apenas o encarava.
— Então, vá. Vá agora.
Frances levou alguns segundos para entender que sua oferta havia sido recusada. Ele não apertou a mão que ela estendeu.
— E divirta-se! Venha cantar alguma coisa! Make way for tomorrow
Ao longo de todo o corredor, ela o ouviu cantar.

* * *

Naquela noite, o fuzileiro naval chegou um minuto antes das nove e meia da noite.
Era um homem magro, de cabelo preto e liso, que economizava nos gestos como se quisesse parecer invisível. Ele se posicionou diante da porta do quarto delas, os pés afastados meio metro um do outro, as costas viradas para a porta, os olhos fixos no vazio. Ele era responsável por tomar conta das duas cabines vizinhas às delas e também das cinco acima. Outros fuzileiros estavam posicionados a intervalos regulares diante de cada grupo de cabines.
— É bom ter um deles bem na frente da nossa porta — murmurou Margaret.
Estavam todas deitadas nos beliches, lendo ou escrevendo, e Avice pintava as unhas com um esmalte comprado na loja que abriram na área de lazer. Não era uma cor muito bonita, mas ela sentira necessidade de se cuidar para enfrentar melhor a viagem que já estava sendo difícil.
Elas escutaram os passos do fuzileiro, viram uma parte do corpo dele através da porta semiaberta e se entreolharam. Sem querer, Margaret olhou para baixo para conferir se a cachorrinha dormia. Elas esperaram para saber se o homem entraria para cumprimentá-las ou talvez passar alguma instrução, mas ele apenas continuou parado ali.
Às nove e quarenta e cinco, Jean saiu da cabine com seu maço de cigarros e ofereceu um para ele, que recusou. Ela acendeu um e, enquanto fumava, começou a lhe fazer perguntas. Onde ficava o cinema? Os homens comiam a mesma coisa que elas? Ele gostava de purê de batata? O fuzileiro respondia com monossílabos e sorriu apenas uma vez, quando ela perguntou o que ele fazia quando sentia vontade de ir ao banheiro.
(— Ah, Jean — murmurou Avice do outro lado da porta.)
— Somos treinados para não sentir vontade — respondeu ele secamente.
— E onde você dorme? — perguntou ela, insinuante, se apoiando em um dos canos da parede.
— Na minha cabine, senhora.
— E onde fica a sua cabine?
— Segredo oficial.
— Ah, conte — insistiu Jean.
O fuzileiro manteve o olhar fixo à frente.
— Só estou curiosa… — Ela se aproximou um pouco mais e o encarou. — Ah, responda. Já tive soldadinhos de brinquedo que falavam mais do que você.
— Senhora…
Jean parecia avaliar o poder de fogo que lhe restava. As armas convencionais não estavam funcionando.
— Na verdade — disse ela, apagando o cigarro —, eu queria perguntar uma coisa… mas é um pouco constrangedora.
O fuzileiro parecia desconfiado. E com razão, pensou Avice.
Jean fez um desenho no chão com o bico do sapato.
— Por favor, não conte para ninguém, mas me perco toda hora — contou ela. — Eu gostaria de dar uma volta no navio, mas já me perdi duas vezes e até virei piada entre as minhas colegas. Por isso, não gosto de perguntar nada para elas. Teve uma noite que eu nem jantei, porque não consegui encontrar o refeitório.
O fuzileiro relaxou um pouco. Estava escutando com atenção.
— É porque tenho só dezesseis anos, entende? Nunca fui muito bem na escola. Em leitura, essas coisas. E não consigo… — sua voz virou um sussurro — … não consigo entender o mapa. O do navio. Poderia me explicar?
O fuzileiro hesitou, mas em seguida assentiu.
— Tem um no quadro de avisos. Quer que eu lhe mostre? — Sua voz estava grave e ressonante, com se ele fosse começar a cantar.
— Ah, faria isso? — perguntou Jean, com um sorriso de partir o coração.
— Deus do céu, ela é brilhante — disse Margaret, ouvindo tudo atrás da porta.
Quando ela e Avice olharam para fora, os dois estavam diante do mapa, a uns cinco metros de distância, no fim do corredor. Margaret, vestindo um robe e carregando uma enorme bolsa de roupa suja embaixo do braço, acenou com simpatia para eles e seguiu apressada. O fuzileiro a cumprimentou, mas logo se voltou para Jean e explicou como ela poderia usar o mapa para ir, por exemplo, do convés do hangar até a lavanderia. Jean parecia muito concentrada no que ele dizia.
— Não é o ideal — disse Margaret mais tarde, ao se sentar pesadamente no beliche enquanto a cachorrinha circulava pelo quarto, farejando o chão. — Não é a caminhada adequada para ela. Quer dizer, ela está acostumada a andar no campo.
Avice se conteve para não comentar que Margaret devia ter pensado nisso antes. Ela se olhava no seu espelhinho de viagem enquanto passava hidratante no rosto. A brisa do mar fazia muito mal à pele, todas sabiam, e ela não queria reencontrar Ian parecendo uma ameixa seca.
A porta se abriu.
— Excelente! — exclamou Margaret, quando Jean entrou sorrindo e fechou a porta. — Você foi excelente, Jean.
— Bem, meninas, charme é uma coisa que a pessoa tem ou não… — Fez uma pausa. — Caramba, Avice, você parece um peixe com a boca aberta desse jeito.
Avice a fechou.
— Não sei como agradecer, Jean — disse Margaret. — Eu estava achando que ele não fosse se afastar. Essa sua história de não saber ler foi um golpe de mestre.
— O quê?
— Eu nunca teria pensado numa coisa dessas. Você é mesmo rápida na hora de inventar desculpas.
Jean a olhou de um jeito confuso.
— Não inventei nada, amiga — explicou ela. — Não consigo ler uma palavra sequer. Só o meu nome. Nunca estudei — acrescentou, com os olhos fixos no chão.
Houve um silêncio constrangedor. Avice tentou descobrir se aquilo era mais uma das brincadeiras de Jean, mas ela estava séria.
A menina quebrou o silêncio:
— Caramba! O que é isso?
Ela se levantou e abanou as mãos na frente do rosto. Logo um cheiro repugnante justificou sua reação. Margaret fez uma careta.
— Desculpe, meninas. Falei que ela era limpa. Nunca disse que não soltava pum.
Jean deu uma gargalhada, e até Frances conseguiu sorrir de leve.
Avice ergueu os olhos e pensou no Queen Mary, na tentativa de afastar a amargura do seu coração.

* * *

Foi na segunda noite que bateu a saudade de casa. Margaret estava acordada, deitada na cabine escura, ouvindo apenas a respiração das companheiras de viagem e os estranhos estalos dos beliches quando elas se mexiam.
Paradoxalmente, sua exaustão desaparecia quando havia a oportunidade de dormir. Ela achara que estava bem: a extravagância de toda aquela história, combinada com a animação da partida, tinha conspirado para que ela não pensasse muito naquele novo ambiente. Mas, no momento, ao imaginar o navio bem no meio do oceano deslizando na completa escuridão, ela havia sido tomada por um terror irracional, um desejo infantil de dar meia-volta e correr para a segurança familiar da única casa onde já dormira. Seus irmãos logo iriam para a cama: ela podia imaginá-los ao redor da mesa da cozinha (eles quase não usavam a sala desde que a mãe morrera), com as pernas compridas espichadas enquanto escutavam rádio ou jogavam cartas. Daniel devia estar lendo uma história em quadrinhos, talvez com Colm debruçado sobre seu ombro. O pai estaria acomodado na sua cadeira, as mãos cruzadas na nuca, exibindo a camisa puída nos cotovelos. Com os olhos fechados, como se já se preparasse para dormir, cochilaria de vez em quando. Letty estaria costurando ou polindo algum objeto, possivelmente sentada na cadeira que havia sido da sua mãe.
Letty, que ela tratara de forma tão desprezível.
Margaret ficava angustiada com a possibilidade de nunca mais vê-los, então mordeu com força os dedos, na esperança de que a dor física afastasse essa ideia. Ela respirou fundo, colocou a mão embaixo do cobertor e acariciou Maude Gonne, enfiada no pequeno espaço onde sua coxa encontrava a barriga. Ela não devia ter levado a cachorrinha: tinha sido egoísta. Não imaginara que o animal se sentiria tão infeliz, preso vinte e quatro horas por dia naquela cabine abafada e barulhenta. Era difícil até mesmo para Margaret, mas ela podia ir aos outros conveses quando quisesse. Por favor, me desculpe, pediu em silêncio à cadelinha. Prometo recompensá-la quando chegarmos à Inglaterra. Uma lágrima escorreu por seu rosto.
Do lado de fora, o fuzileiro trocou de posição no piso metálico e murmurou um cumprimento para alguém que passava. Margaret ouviu sua camisa roçar na porta. Ao longe, os passos de várias pessoas ressoaram nas escadas de ferro. No beliche de cima, Jean murmurou alguma coisa para si mesma, talvez dormindo, e Avice puxou o cobertor até cobrir a cabeça cheia de bobes.
Margaret nunca precisara dividir um quarto. Essa era uma das poucas vantagens de ter nascido mulher na família Donleavy. Por isso, aquela pequena cabine, com a porta fechada, a luz apagada e nenhuma corrente de ar estava sufocante. Ela jogou as pernas para fora do beliche e ficou sentada por um minuto. Não posso fazer isso, disse para si mesma, cobrindo os joelhos com a camisola grande demais. Preciso me recompor. Ela pensou em Joe, na sua expressão afetuosa e levemente zombeteira. “Controle-se, menina”, diria ele.
Fechou os olhos e tentou se concentrar no motivo da viagem.
— Margaret? — A voz de Jean interrompeu o silêncio da noite. — Vai a algum lugar?
— Não — respondeu, enfiando os pés debaixo das cobertas. — Não, só… — Ela não conseguia explicar. — Só não estou conseguindo dormir.
— Eu também não.
A voz de Jean saíra tão fraca que não parecia dela. Margaret sentiu pena da colega. Ela mal tinha passado da infância.
— Quer vir aqui um instante? — sussurrou.
Margaret mal conseguia enxergar as pernas e os braços esbeltos de Jean descendo depressa a escada do beliche, mas logo a jovem deslizou para baixo das cobertas na outra ponta do colchão.
— Não tem espaço ao seu lado. — Ela riu e, mesmo sem querer, Margaret riu também. — Não deixe o bebê me chutar. Nem essa cadela enfiar o focinho na minha calcinha.
As duas ficaram deitadas em silêncio por alguns minutos. Margaret não sabia se o contato da pele de Jean a tranquilizava ou incomodava. Jean parecia inquieta, mexendo as pernas com impaciência, e Margaret percebeu que Maude Gonne erguia a cabeça como se quisesse ver o que estava acontecendo.
— Qual é o nome do seu marido? — perguntou Jean, por fim.
— Joe.
— O do meu é Stan.
— Você já disse.
— Stan Castleforth. Ele vai fazer dezenove anos na terça. A mãe dele não ficou muito feliz quando ele contou que tínhamos nos casado, mas parece que está um pouco mais calma agora.
Margaret se deitou de costas, com os olhos fixos na escuridão acima, e pensou nas cartas afetuosas que recebera da mãe de Joe. Depois se perguntou se foi a coragem ou a imprudência que havia mandado alguém, que praticamente ainda era uma criança, sozinha para o outro lado do mundo.
— Tenho certeza de que ela vai ficar bem quando vocês se conhecerem — disse Margaret, embora o silêncio prolongado possa ter sugerido o contrário.
— Ele é de Nottingham — continuou Jean. — Você conhece?
— Não.
— Nem eu. Mas ele disse que Robin Hood veio de lá. Por isso acho que fica em uma floresta.
Jean se mexeu de novo, e Margaret a ouviu procurar alguma coisa na outra ponta do beliche.
— Você se incomoda se eu fumar? — perguntou ela, baixinho.
— Fique à vontade.
Um breve clarão iluminou o rosto de Jean, que estava concentrada acendendo o cigarro. Em seguida, ela balançou o fósforo para apagá-lo, e a cabine voltou a ficar no escuro.
— Penso muito em Stan, sabe — prosseguiu Jean. — Ele é lindo demais. Todas as minhas amigas também acham. Eu o conheci na entrada de um cinema, quando ele e um colega se ofereceram para pagar meu ingresso e o da minha amiga. Folias de Ziegfeld. Em tecnicolor. — Soltou a fumaça. — Ele me disse que não beijava uma garota desde que saíra de Portsmouth, e naquelas circunstâncias eu não podia dizer não. Ele estava com a mão na minha saia antes de This heart of mine.
Margaret a ouviu cantarolar a melodia.
— Eu me casei com um vestido feito com a seda de um paraquedas. Minha tia Mavis arranjou para mim com um soldado que ela conhecia e que vendia rádios no mercado negro. Minha mãe não gosta muito dessas coisas. — Ela hesitou. — Na verdade, me dou melhor com minha tia Mavis. Sempre foi assim. Minha mãe acha que não sirvo para nada.
Margaret se virou de lado e pensou na própria mãe. Na sua perseverança, na sua presença maternal autoritária e nervosa, nas mãos sardentas se erguendo para prender o cabelo centenas de vezes por dia. Sentiu a boca seca.
— Foi diferente quando você… Sabe o que quero dizer?
— O quê?
— Você precisou fazer alguma coisa diferente… para ter bebê?
— Jean!
— O quê? — Jean ergueu a voz, indignada. — Alguém precisa me explicar.
Margaret se sentou na cama, tomando cuidado para não bater a cabeça no beliche de cima.
— Você deve saber.
— Eu não perguntaria se soubesse, não acha?
— Quer dizer que ninguém nunca lhe contou…. aquelas histórias de cegonha e sementinha?
Jean bufou.
— Sei onde o homem tem que enfiar o negócio, se é disso que você está falando. Até gosto dessa parte. Mas não sei como isso gera um bebê.
Margaret ficou em silêncio, chocada, mas uma voz veio de cima:
— Se vão falar sobre esses assuntos obscenos em público, podiam pelo menos falar baixo. Algumas de nós estão tentando dormir.
— Aposto que Avice sabe — disse Jean, rindo.
— Achei que você tivesse falado que perdeu um bebê — comentou Avice em tom mordaz.
— Ah, Jean. Sinto muito — falou Margaret, levando a mão à boca.
Todas ficaram em silêncio por um tempo.
— Na verdade — começou Jean —, eu não estava exatamente grávida.
Margaret ouviu Avice se mexer debaixo das cobertas.
— Eu estava… Bem, um pouco atrasada… Vocês sabem com o quê — explicou ela. — E minha amiga Polly falou que isso significava que eu estava grávida. Então eu disse que estava, porque sabia que isso me ajudaria a embarcar. Mas depois fiz as contas e percebi que não era possível… Enfim, acho que vocês sabem do que estou falando. E ainda precisaram adiar duas vezes minha consulta médica. Quando consegui ir ao médico, falei que tinha perdido o bebê e comecei a chorar, porque com tudo aquilo eu quase convencera a mim mesma de que estava grávida mesmo. A enfermeira sentiu pena de mim e disse que ninguém precisava saber a verdade, que o mais importante era que eu conseguisse encontrar Stan. Deve ser por isso que me colocaram com você, Maggie. — Ela deu uma longa tragada no cigarro. — Como vocês podem ver, não foi exatamente uma mentira. — Ela se virou, pegou um sapato e amassou a guimba do cigarro com a sola. De repente, sua voz ficou ainda mais rígida e ameaçadora: — Mas se alguma de vocês me denunciar, direi que perdi depois do embarque. Então, não adianta contar.
Margaret colocou as mãos na barriga e afirmou:
— Ninguém vai denunciar você, Jean.
Havia um silêncio ensurdecedor no beliche de Avice.
Do lado de fora, a uma distância desconhecida, ouviram uma sirene de neblina. Tocava uma única nota, grave e melancólica.
— Frances? — chamou Jean.
— Ela dormiu — sussurrou Margaret.
— Não, não dormiu. Vi os olhos dela quando acendi o cigarro. Você não vai me entregar, não é mesmo, Frances?
— Não — respondeu a garota do outro beliche. — Claro que não.
Jean saiu da cama. Deu um tapinha na perna de Margaret, depois subiu com agilidade para o seu beliche. As companheiras de cabine a ouviram se remexer debaixo das cobertas até encontrar uma posição confortável.
— Então, contem — falou ela, afinal. — Quem gosta de fazer aquilo e o que é que faz alguém realmente engravidar?

* * *

No convés de voo, a bomba de quinhentos quilos de um avião Stuka curiosamente se parece com um barril de cerveja. Ela sai rolando de dentro do aviãozinho sinistro com a mesma despreocupação com que rolaria se estivesse sendo jogada escada abaixo em uma cervejaria. Cercada por diversos aviões de combate, a bomba parece parar por um instante no céu, depois desce na direção do navio, conduzida, como se por uma força invisível, para o convés.
Essa é uma das coisas em que o comandante Highfield pensa quando imagina sua morte iminente. Ele considera essa possibilidade, mas também uma parede de chamas azuis e brancas subindo pelo convés blindado e engolindo a ilha, o centro de comando do navio. Nesse momento, como sempre soube que aconteceria, ele é tomado por um terror paralisante por ter esquecido alguma coisa. Algo que precisava fazer. E na sua paralisia cega até ele tem vaga consciência de como é ridículo procurar à sua volta alguma tarefa esquecida enquanto encara o sacrifício.
Depois, no coração enfurecido do fogo, com as bombas caindo ao seu redor e ricocheteando nos conveses, enquanto suas narinas ardem com o cheiro de combustível queimado e os ouvidos se recusam a ignorar os gritos dos seus homens, ele ergue os olhos achando que vai se deparar com um avião, mas não há nenhum. O avião também é engolido, e chamas amarelas lambem a cabine, as asas inclinadas e escurecidas, mas não o suficiente para encobrir lá dentro o rosto de Hart, ainda intacto, que interroga o comandante com os olhos.
— Desculpe — choraminga Highfield, sem saber se, em meio ao rugido do fogo, o rapaz consegue ouvi-lo. — Desculpe.
Quando acorda, com o travesseiro úmido e o céu ainda escuro acima do oceano tranquilo, ele continua murmurando aquelas palavras em meio ao silêncio.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!