30 de março de 2019

Capítulo 5

O sol brilhava demais. Bonnie protegeu os olhos com uma das mãos e examinou ansiosamente em volta ao atravessar o pátio em direção à livraria. Ela demorou muito a dormir depois que as três voltaram ao alojamento na noite anterior. E se um louco estivesse vigiando o campus?
Estou em plena luz do dia, disse para si mesma. Tem gente por todo lado. Não tenho por que temer. Mas coisas ruins também podiam acontecer durante o dia. Meninas eram atraídas para carros por homens horríveis ou levavam pancadas na cabeça e eram carregadas para lugares escuros. Os monstros não espreitavam só à noite. Afinal, ela sabia de vários vampiros que andavam de dia o tempo todo. Damon e Stefan não lhe davam medo, não mais, porém havia outros monstros diurnos. Eu só quero me sentir segura pelo menos uma vez na vida, pensou com tristeza.
Estava chegando à área em que a polícia fizera buscas na noite anterior, ainda isolada com a fita amarela. Havia estudantes parados ali perto em grupos de dois ou três, conversando em voz baixa. Bonnie notou uma mancha marrom avermelhada na calçada que ela achava que podia ser sangue e passou mais rapidamente por ali.
Em seguida ouviu um farfalhar nos arbustos. Apressou ainda mais o passo, imaginando um agressor de olhos arregalados escondido nas plantas, e observou em volta, nervosa. Ninguém olhava em sua direção. Será que ajudariam, se ela gritasse?
Ela se arriscou a dar outra espiada atrás do arbusto — será que deveria correr? — e parou, constrangida com o martelar furioso de seu coração. Um esquilinho lindo pulou hesitante de sob os galhos. Farejou o ar, disparou pelo caminho e subiu numa árvore atrás da fita da polícia.
— Sinceramente, Bonnie McCullough, você é uma monga — murmurou ela para si mesma. Um sujeito passando por ela na outra direção a ouviu e riu, fazendo Bonnie corar de raiva.
Quando ela chegou à livraria, o rubor estava sob controle. Ter a típica pele de ruiva era chato — tudo que sentia era transmitido pelo rubor ou pela palidez da pele. Com sorte, porém, ela conseguiria lidar com um simples passeio para comprar livros sem se humilhar.
Bonnie começara a se familiarizar com a livraria quando fez sua farra de compras na véspera, mas não tinha investigado a parte dos livros. Hoje, porém, estava com a lista de livros para as matérias em que se matriculou, e precisava se preparar para estudar seriamente. Nunca foi muito fã dos estudos, mas talvez a faculdade fosse diferente. Endireitando os ombros resolutamente, ela se afastou dos artigos reluzentes e se voltou para os livros didáticos.
Mas a lista era medonha de tão comprida. Ela achou o gordo Introdução à psicologia com certa satisfação: este definitivamente lhe daria a terminologia para diagnosticar as amigas. O seminário de inglês para o primeiro ano em que se matriculou cobria alguns romances, então ela andou pela seção de ficção, pegando nas prateleiras O vermelho e o negro, Oliver Twist e A era da inocência.
Virou em um canto em busca do resto dos Ws, pretendendo acrescentar Rumo ao farol à sua pilha crescente de livros, e ficou paralisada.
Zander. O lindo, maravilhoso Zander estava encostado graciosamente numa estante, a cabeça loura-clara tombada sobre um livro. Ele ainda não a vira, então Bonnie se abaixou no corredor anterior imediatamente.
Ela se encostou à parede, respirando com dificuldade. Sentia o rosto esquentando de novo, aquele medonho rubor revelador.
Com cuidado, ela espiou pelo canto. Ele não a vira; ainda lia atentamente. Estava com uma camiseta cinza, e seu cabelo, que parecia macio, enroscava-se um pouco na nuca. O rosto parecia meio triste com aqueles lindos olhos azuis escondidos sob os cílios longos, e não havia sinal de seu fabuloso sorriso. Ele estava com olheiras.
O primeiro instinto de Bonnie foi escapulir dali. Ela podia esperar e procurar o livro de Virginia Woolf no dia seguinte; não ia ler hoje mesmo. Não queria que Zander pensasse que ela o estava perseguindo. Seria melhor se ele a visse em algum lugar, quando ela não estivesse prestando atenção. Se ele a abordasse, ela saberia que ele estava interessado.
Afinal, talvez ele não estivesse interessado em Bonnie. Ele foi meio sedutor quando esbarrou nela, mas quase a derrubou. E se só estivesse sendo simpático? E se nem se lembrasse dela?
Não, era melhor dar um tempo e esperar até estar mais preparada. Ela nem tinha passado delineador, pelo amor de Deus. Decidindo-se, Bonnie virou-se, determinada.
Mas, por outro lado...
Bonnie hesitou. Havia uma ligação entre eles, não havia? Ela sentiu algo quando seus olhos encontraram os de Zander. E ele sorriu como se realmente a enxergasse, para além da agitação e futilidade dela.
E quanto à resolução que ela havia tomado no dia anterior, indo para o alojamento depois de sair desta mesma livraria? Se ela queria se tornar uma pessoa incrível e confiante que saía das sombras, não podia fugir sempre que via um cara de quem gostava.
Bonnie sempre admirou a maneira como Elena dava um jeito de conseguir o que queria. Elena simplesmente ia atrás, e nada a impedia. Quando Stefan chegou a Fell’s Church, não queria nada com Elena; certamente não queria cair em seus braços e começar uma espécie de romance maravilhoso e eterno. Mas Elena não se importou. Ela teria Stefan, mesmo que isso a matasse.
Ora essa, e matou mesmo, não foi? Bonnie estremeceu.
Ela meneou um pouco a cabeça. A questão era que, se você queria encontrar o amor, não podia ter medo de tentar, podia?
Empinou o queixo, decidida. Pelo menos não estava mais vermelha. Seu rosto parecia tão frio que ela provavelmente estava branca como uma boneca de neve, mas definitivamente não estava corada. Isso já era alguma coisa.
Antes que pudesse mudar de ideia outra vez, ela virou rapidamente a esquina para o corredor onde Zander lia.
— Oi! — Sua voz foi meio estridente. — Zander!
Ele levantou a cabeça, e aquele sorriso maravilhoso e lindo se espalhou por seu rosto.
— Bonnie! — respondeu com entusiasmo. — Oi, que bom te ver. Estive pensando em você.
— Esteve? — Bonnie de imediato quis se chutar por parecer tão abertamente entusiasmada.
— É — respondeu ele com brandura. — Estive. — Seus olhos azul-celeste se fixaram nos dela. — Eu queria ter pegado o seu telefone.
— Queria? — perguntou Bonnie, e desta vez nem se preocupou em como soava.
— Claro. — Ele remexia os pés no carpete, como se estivesse meio nervoso, e um calor brotou dentro de Bonnie. Ele estava nervoso de falar com ela! — Andei pensando — continuou Zander — que talvez a gente pudesse fazer alguma coisa uma hora dessas. Quero dizer, se você quiser.
— Ah. Quero dizer, sim! Quero. Se você quiser.
Zander sorriu novamente, e foi como se o cantinho deles da seção de ficção se iluminasse com uma luz radiante. Bonnie teve de se conter para não cair para trás, de tão lindo que ele era.
— Que tal neste fim de semana? — perguntou Zander, e Bonnie, subitamente leve e animada como se pudesse flutuar, sorriu para ele.


Meredith recuou o pé esquerdo e levantou o calcanhar direito, assumindo uma postura traseira enquanto levantava as mãos incisivamente, de punhos unidos, num movimento de bloqueio. Depois deslizou o pé de lado para uma postura frontal e socou com a mão esquerda. Ela adorava fazer as sequências de movimentos do taekwondo. Cada movimento era coreografado, e só o que se tinha a fazer era praticar sem parar até que toda a sequência fluísse com precisão, graça e controle. As sequências de movimentos de taekwondo podiam ser aperfeiçoadas, e Meredith gostava da perfeição.
O mais glorioso era que, depois de conhecer as sequências bem a ponto de passarem a ser naturais como respirar, ela estava pronta para tudo. Numa luta, poderia sentir qual seria o movimento seguinte do adversário e reagir com um bloqueio, pontapé ou soco sem nem mesmo pensar.
Ela se virou com rapidez, num bloqueio alto da mão direita e baixo da esquerda. Era a preparação. Meredith sabia. Se seu corpo estivesse preparado a ponto de sentir que movimento era necessário sem a ajuda do cérebro, conseguiria verdadeiramente proteger a si mesma e todos à volta.
Algumas semanas antes, quando ela e os amigos foram atacados pelo espectro e ela torceu o tornozelo, só Stefan tinha ficado com Poder suficiente para defender Fell’s Church.
Stefan, um vampiro.
Os lábios de Meredith se cerraram quando ela automaticamente deu um pontapé com o pé direito, deslizou numa pose de tigre e bloqueou com a mão esquerda.
Meredith gostava de Stefan e confiava nele, de verdade, mas ainda assim... Podia imaginar gerações e mais gerações de Sulez se revirando no túmulo, xingando-a, se soubessem que ela deixara a si e aos amigos tão vulneráveis, com apenas um vampiro entre eles e o perigo. Os vampiros eram o inimigo.
Não Stefan, é claro. Apesar de todo seu treinamento, ela sabia que podia confiar em Stefan. Damon, por outro lado... por mais que tivesse sido útil em algumas batalhas, por mais que tivesse se comportado de forma razoavelmente agradável e, francamente, pouco característica nas últimas semanas, Meredith não conseguia crer nele.
Mas, se treinasse bem, se ela se aperfeiçoasse como guerreira, não teria de confiar. Ela passou a uma postura frontal e, precisa e fluida, deu um soco com a mão direita.
— Belo soco — disse uma voz atrás dela.
Meredith se virou e viu uma afro-americana de cabelo curto recostada na porta da sala de treino, observando-a.
— Obrigada — disse Meredith, surpresa.
A menina entrou na sala.
— O que você é — perguntou ela —, faixa preta?
— Sim — disse Meredith, sem conseguir deixar de acrescentar com orgulho: — Em taekwondo e caratê.
— Hummm. — Os olhos da menina brilharam. — Eu faço taekwondo e aikido. Meu nome é Samantha. Estava procurando uma parceira de treino. Interessada?
Apesar da despreocupação no tom, Samantha quicava nervosamente nos calcanhares, com um sorriso malicioso brincando nos cantos da boca, e os olhos de Meredith se estreitaram.
— Claro — respondeu ela, despreocupada. — Mostre-me suas habilidades.
O sorriso de Samantha se alargou. Ela tirou os sapatos aos pontapés e foi para o tatame ao lado de Meredith. As duas se encararam, avaliando-se. Ela era uma cabeça mais baixa que Meredith, magra, porém forte e elegantemente musculosa; se movimentava com a graça de um gato.
A expectativa nos olhos da menina entregava a crença de Samantha de que seria fácil derrotar Meredith. Ela pensava que Meredith era uma daquelas cheias de formas e técnica, mas sem o verdadeiro instinto de luta. Meredith conhecia bem esse tipo de lutadora, enfrentara muitas em competições. Se era isso que Samantha pensava de Meredith, ela teria uma surpresa.
— Pronta? — perguntou Samantha. Após um gesto de cabeça de Meredith, ela de imediato deu um soco enquanto lançava o pé do lado oposto numa tentativa de dar uma rasteira em Meredith. Esta reagiu por instinto, bloqueando o golpe, esquivando o pé e depois dando um chute, que Samantha evitou, sorrindo de prazer.
Elas trocaram mais alguns golpes, e, mesmo a contragosto, Meredith ficou impressionada. Essa menina era rápida, mais que a maioria das lutadoras com quem Meredith já havia lutado, até no nível de faixa preta, e muito mais forte do que parecia.
No entanto era presunçosa demais, uma lutadora agressiva e não defensiva; a pressa em dar o primeiro golpe mostrava isso. Meredith podia usar a presunção contra ela.
Samantha mudou o peso do corpo, e Meredith deslizou por baixo de suas defesas, dando um pontapé veloz que pegou Samantha fortemente na parte superior da coxa. Ela cambaleou um pouco, e Meredith saiu de seu alcance rapidamente.
O rosto da menina atingida mudou de pronto. Ela agora se enfurecia, Meredith sabia, e isso também era um ponto fraco. Estava de testa franzida, os lábios cerrados, enquanto Meredith mantinha a expressão vaga de propósito. Os punhos e pés de Samantha moviam-se rapidamente, mas ela perdera parte de sua precisão ao acelerar.
Meredith fingiu recuar do ataque e manter a adversária desequilibrada, se permitindo ser encurralada enquanto ainda bloqueava os golpes de Samantha. Quando estava quase sem saída, jogou o braço contra o punho de Samantha, detendo-a antes que ela pudesse estender inteiramente o golpe, e passou o pé por baixo dela.
Samantha tropeçou, pega pelo golpe de Meredith na parte inferior do corpo, e caiu com um baque no tatame. Ficou deitada ali e olhou Meredith por um momento com uma expressão pétrea, enquanto Meredith pairava acima dela, hesitando de repente. Será que havia machucado Samantha? A menina ia ficar colérica e explodir?
Então do rosto de Samantha brotou um sorriso largo e luminoso.
— Esta foi demais! — disse ela. — Pode me mostrar este movimento?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!