14 de março de 2019

Capítulo 5

Uma jovem esposa australiana não conseguiu embarcar para a Inglaterra no HMS Victorious porque no último minuto foi apresentada contra ela uma queixa, posteriormente retirada. Logo após sua liberação, ela foi conduzida em uma viatura da polícia até o cais número 3 do porto de Woolloomooloo, mas o porta-aviões com as outras esposas já havia partido.
SYDNEY MORNING HERALD, 4 DE JULHO DE 1946

UM DIA A BORDO

O HMS Victorious media duzentos e trinta metros de comprimento e pesava vinte e três mil toneladas. Tinha nove andares abaixo do convés de voo e quatro conveses acima desse, que culminavam na vertiginosa altura onde ficava o passadiço.
Mesmo sem considerar as cabines especialmente criadas para as jovens esposas, o porta-aviões conseguiria abrigar no seu gigantesco interior cerca de duzentos diferentes depósitos, salas e compartimentos, talvez igualando o tamanho de várias lojas de departamento ou prédios luxuosos. Ou até, dependendo de onde as esposas tinham vindo, de uma infinidade de grandes celeiros. Só os hangares, onde a maioria das mulheres ficava acomodada, se alimentava e se distraía, tinham cento e cinquenta metros de comprimento e estavam nos mesmos níveis dos refeitórios, dos banheiros, da câmara do comandante e de pelo menos quatorze depósitos de tamanho considerável. Eram ligados por corredores estreitos que, caso alguém errasse o convés, poderiam levar tanto a uma oficina de manutenção de aviões quanto ao refeitório dos engenheiros ou a um banheiro utilizado pelas esposas, o que já causara várias situações constrangedoras.
Alguém fixara um mapa geral do navio no refeitório das mulheres, e Avice o estudara diversas vezes, sempre pensando, com extremo mau humor, que aqueles depósitos de legumes, locais para dobragem de paraquedas e salas cheias de revistas masculinas deviam, por direito, ter sido salões de baile fantásticos e cabines de primeira classe. Aquele navio era um mundo flutuante de regras e códigos ininteligíveis, de rotinas bem organizadas, ainda que não reveladas, um verdadeiro labirinto de salas de teto baixo, corredores e paióis, que em geral levavam a lugares em que as mulheres não eram admitidas. Era um local enorme, porém abarrotado, barulhento — ainda mais para quem tinha sido alojado perto das casas de máquinas —, maltratado, cheio até quase explodir de mulheres tagarelas e homens que tentavam, em alguns casos com pouca motivação, fazer seu trabalho. Por causa do número absurdo de gente que ia e vinha e da total falta de familiaridade quanto à localização das diferentes escadas e passarelas de embarque, muitas vezes era preciso gastar meia hora apenas para atravessar um convés, sempre empurrando as outras pessoas ou se espremendo entre as tubulações que percorriam as paredes para dar passagem aos demais.
Ainda assim, Avice não conseguia se livrar de Jean.
Desde que descobriu que haviam sido colocadas na mesma cabine (mais de seiscentas mulheres e tinham juntado ela justamente com Jean!), a garota decidira desempenhar um novo papel: o de melhor amiga de Avice. Esquecendo oportunamente a antipatia mútua que caracterizara os encontros delas no Clube das Esposas Americanas, Jean passara a maior parte das últimas vinte e quatro horas atrás de Avice, interrompendo-a sempre que ela tentava conversar com alguém e justificando sua intromissão com a insinuação de uma cumplicidade existente entre elas desde Sydney.
Isso começava ainda cedo, na mesa de café da manhã (“Avice! Lembra-se da menina que costumava costurar tudo com ponto reforçado? Inclusive as calcinhas?”), continuava quando andavam pelos conveses na tentativa de encontrar a cabine (“Avice! Lembra-se de quando precisávamos usar aqueles colares feitos com as anilhas de identificar galinhas? Você ainda tem o seu?”), ou na interminável fila para o banheiro (“Avice! Você usou aquela calcinha de renda na sua noite de núpcias? Parece um pouco chique demais para o dia a dia… Ou você está tentando impressionar alguém? Hein? Hein?”). Avice sabia que precisava ser mais simpática com Jean, principalmente depois de ter descoberto que ela tinha apenas dezesseis anos. Mas que dificuldade! Ela era uma garota exasperante. Além disso, não estava convencida de que Jean era sempre verdadeira com ela. Durante a conversa que tiveram uma vez, durante o café da manhã, Jean comentou que planejava arranjar um emprego em uma loja de departamentos onde a tia do seu marido trabalhava como gerente.
— Como você vai trabalhar? Achei que estivesse grávida — comentou Avice com frieza.
— Perdi — respondeu Jean, rindo.
Avice lhe lançou um olhar severo e cético.
— Foi muito triste — continuou Jean, acrescentando depois de uma breve pausa: — Acha que me vão me deixar pegar mais bacon?
Enquanto subia depressa o último lance de escada, Avice se deu conta de que Jean quase nunca falava sobre o marido, Stanley. Ela mesma gostaria de ter mencionado mais vezes o nome de Ian, porém nas poucas ocasiões em que fizera isso, Jean tentara arrancar dela alguma confissão íntima (“Deixou ele fazer aquilo com você antes da noite de núpcias?” E, ainda pior: “Não teve medo na primeira vez que viu o… você sabe… o negócio dele… subir?”).
Avice acabou desistindo de tentar se livrar dela. As duas haviam sido convocadas para o convés de voo às onze horas para o discurso do comandante.
Devia ser muito simples perdê-la no meio de mais de seiscentas mulheres, não é mesmo?
— Você tem vontade de assistir a essas palestras? — gritou Jean, mascando chiclete, enquanto elas passavam diante da sala de projeção. — Na próxima semana, terá uma sobre as implicações do casamento com um estrangeiro. — Sua voz, como durante toda a manhã, era mais alta que as vibrações sonoras dos motores e dos megafones que repetiam a convocação do suboficial Gardner ou de outro marinheiro para a sala do comandante.
Avice fingiu não ter escutado.
— Eu gostaria de ir a uma palestra que abordasse as dificuldades comuns no primeiro ano — continuou Jean. — Só que nosso primeiro ano foi fácil demais. Ele nunca estava presente.

* * *

— A tripulação do HMS Victorious vai fazer o melhor que pode para que a travessia até o Reino Unido transcorra da melhor forma possível… Ao mesmo tempo, lembrem-se de que não estão em um cruzeiro, mas têm o privilégio de serem passageiras de um dos navios de Sua Majestade. A vida a bordo precisa ser regida por regras e costumes militares.
Margaret estava no convés de voo, na terceira fila de mulheres. Algumas estavam rindo de nervoso, enquanto ouviam o comandante. Na opinião dela, o homem se mexia como se alguém tivesse costurado as mangas do uniforme no seu corpo.
O mar azul cintilante estava inofensivo e calmo, e o convés, com a dimensão de um hectare, quase não se mexia. Margaret observava com discrição toda a extensão do navio, que brilhava sob o sol. Ela respirava o ar salgado e sentia a brisa do mar na pele, enquanto aproveitava a primeira vez que sentia ter espaço e liberdade desde que haviam recolhido a âncora, no dia anterior. Imaginara que ficaria um pouco assustada quando não pudesse mais ver terra firme, mas, ao contrário, gostava de contemplar a imensidão do oceano e se perguntava — com curiosidade e sem medo — o que haveria sob a superfície.
Em cada extremidade do convés, refletidos em poças rasas de água do mar e combustível, estavam os aviões presos por correntes, com seus narizes reluzentes apontados para cima como se quisessem voar. Entre eles, na base da torre conhecida como “ilha”, grupos de homens usando macacão observavam as mulheres.
— Toda pessoa a bordo de um dos navios de Sua Majestade está sujeita à chamada Lei da Disciplina Naval, o que significa que não são permitidas bebidas alcoólicas, inclusive vinho e cerveja, e que são proibidos todos os tipos de jogos de azar. Também não é permitido fumar perto dos aviões em momento algum. E o mais importante: não desconcentrem os homens em serviço nem fiquem no caminho deles. As passageiras têm permissão para frequentar quase todas as áreas do navio, exceto os alojamentos da tripulação, mas o trabalho dos homens nunca deve ser interrompido.
Após essas palavras, algumas jovens olharam ao redor e um dos marinheiros deu uma piscadela. Risos dissimulados percorreram as fileiras das mulheres. Margaret trocou o peso do corpo de um pé para outro e suspirou.
Jean, uma das esposas escolhidas para dividir a cabine com ela, se enfiara no espaço à sua frente dois minutos depois de o comandante ter começado a falar, e dali não saiu, balançando o corpo e roendo as unhas. Ela havia passado a manhã na maior animação, tagarelando sem parar desde o nascer do dia sobre sua alegria, sobre o navio, sobre seus sapatos novos. Tudo que passara por sua cabeça tinha ido parar direto, sem filtro, nos ouvidos das suas novas companheiras. Agora, diante da postura inflexível do comandante e da ladainha sobre o que não era permitido no navio, Jean parecia temporariamente insegura, e seu entusiasmo estava sendo substituído pela impaciência.
— As senhoras devem ter ouvido falar de outras esposas que tiveram a oportunidade de desembarcar em vários portos ao longo da viagem. É preciso lembrar que, em um navio de guerra, é provável que não tenham essa chance. Talvez haja a possibilidade de descer em Colombo e também em Bombaim, se a situação internacional permitir, mas isso não é uma certeza. Devo acrescentar ainda que as pessoas que não retornarem ao navio no horário estipulado correm o risco de serem deixadas para trás.
O olhar do comandante percorre as fileiras. Não havia nada de especulativo nele.
— Caso tenham uma reclamação geral sobre algum assunto, a oficial de serviço deverá ser informada, e ela vai repassar a questão a um dos capitães-tenentes. Mas os seguintes espaços vão permanecer interditados às mulheres: alojamentos dos marinheiros, cabines dos oficiais, andares abaixo do convés do hangar, primeiro nível acima do convés de voo. Também não poderão se aproximar dos canhões e das galerias que levam a eles, nem dos barcos a bordo. Um guia mais abrangente será distribuído a cada passageira esta tarde. Eu gostaria que todas lessem para que sigam as orientações ao pé da letra. Não consigo dar a ênfase necessária à gravidade das consequências para quem desobedecê-las.
Um silêncio se instaurou no convés, enquanto o comandante esperava suas palavras ressoarem entre as mulheres. Margaret sentiu as bochechas corarem quando pensou na sua cabine no convés do hangar, logo abaixo. Um pouco à frente, uma mulher chorava.
— Há oito oficiais mulheres a bordo para aconselhar e ajudar as passageiras durante a viagem.
Ele apontou para as oficiais em pé ao lado dos aviões Corsair, todas com uma aparência quase tão rígida e altiva quanto a do próprio comandante.
— Cada uma das oficiais é responsável por um determinado número de cabines e estará sempre pronta para ajudar. — Ele lançou um olhar severo para as mulheres à sua frente. — As oficiais farão rondas durante a noite.
— É o fim da minha diversão noturna — sussurrou a jovem ao lado de Margaret, o que provocou alguns risos abafados.
— Assim como as mulheres não têm acesso aos alojamentos dos marinheiros, eles também não estão autorizados a frequentar os das senhoras, nem as cabines, a menos que seja exigência de algum serviço. Gostaria de lembrar mais uma vez que as oficiais farão rondas noturnas.
— E as desobedientes serão jogadas ao mar.
Houve mais uma explosão de riso dissimulado embora evidente. Era preciso liberar a tensão.
— Meu Deus, o que ele acha que somos? — perguntou a jovem ao lado de Margaret, brincando com um broche.
O comandante parecia estar no fim do seu discurso interminável. Ele baixou os olhos para ler um bilhete preso aos seus folhetos, aparentemente decidindo se deveria ou não continuar. Após um instante, ergueu a cabeça.
— Também fui encarregado de dizer que… um pequeno salão de cabeleireiro… — nessa hora o comandante cerrou o maxilar — … foi instalado no final da área de lazer adjacente à cabine B. O salão ficará sob a responsabilidade de voluntárias entre as passageiras, se alguma quiser… oferecer seus serviços.
Ele olhou fixo para os papéis, depois observou as jovens com um olhar que poderia demonstrar frieza ou apenas resignação.
— É um sujeito simpático — disse Margaret, baixinho, depois que o grupo se dispersou.
— Estou com a impressão de ter voltado para a escola — murmurou Jean, na frente dela —, mas com menos lugares para fumar.

* * *

Highfield observou as mulheres à sua frente, que se cutucavam e cochichavam, agitadas e incapazes de sossegar até mesmo para ouvi-lo citar as regras e normas que regulamentariam a vida delas durante as seis semanas seguintes. Nas últimas vinte e quatro horas, ele prestara atenção em cada nova insubordinação, em cada novo exemplo que provava que aquela havia sido uma ideia desastrosa. Ele queria telegrafar a McManus para reclamar: “Está vendo? Não falei que isso ia acontecer?” Metade das mulheres estava histérica e parecia não saber se ria ou chorava. A outra metade só lotava o navio, se perdia nos conveses de baixo, se esquecia de baixar a cabeça ao passar e se machucava, incomodava os ajudantes do comandante ou até parava para perguntar alguma coisa, como acontecera naquela manhã, quando uma quis saber onde ficava o refeitório que servia sorvete.
O auge foi quando ele percorreu a galeria do andar de cima nas primeiras horas daquela manhã e sentiu um cheiro suave, não de combustível de avião, mas de perfume. Perfume! A única coisa que faltava era amarrarem uma calcinha no lugar da flâmula do navio e acharem que isso estava certo.
Por mais que precisasse admitir que não houvera uma mudança drástica no comportamento dos homens, ele sabia que era apenas questão de tempo: naquele exato instante, as mulheres seriam o assunto principal de todas as conversas, tanto entre os marinheiros e fornalheiros quanto entre os oficiais e até os fuzileiros navais. Ele percebia uma inquietação sutil no ar, assim como os cachorros sentem uma tempestade se aproximando.
Ou talvez fosse simplesmente porque nada parecia ter se acalmado desde a morte de Hart. A tripulação perdera a motivação e o entusiasmo que tinham caracterizado seus últimos nove meses no Pacífico. Os homens — os que continuavam — cada vez ficavam mais retraídos, mais propensos a contestação e insubordinação. Diversas vezes, desde que haviam puxado a âncora, ele os flagrara cochichando, e se perguntara até que ponto eles o culpavam. Concluiu seu discurso e tentou, como fazia com frequência, afastar esses pensamentos.
A aparência das mulheres não lhe agradava. As cores que usavam eram vistosas demais, os cabelos longos demais e suas echarpes esvoaçavam por todo lado. Até então, os tons dominantes no navio haviam sido o cinza e o branco, quase uma monocromia. A simples introdução de cores causava desequilíbrio, como se alguém tivesse soltado várias aves exóticas à sua volta e as deixado voar descontroladamente para causar estrago. Algumas mulheres estavam usando sapatos de salto alto, pelo amor de Deus.
Não é que eu não goste de mulheres, pensou ele, como fazia diversas vezes a cada hora. A questão é que tudo tem seu devido lugar. As pessoas têm o seu lugar. Ele era um homem sensato. Não considerava que seu ponto de vista fosse irracional.
Dobrou o folheto, colocou-o embaixo do braço e viu que alguns marinheiros pareciam estar passeando perto das amarras, que eram as correntes que mantinham os aviões presos ao convés.
— Vocês não têm nada melhor para fazer? — gritou.
Em seguida, deu meia-volta e, com passos largos, seguiu para o lobby.

Querido Joe,
Bem, aqui estou, a bordo do Victorious com as outras esposas, e posso dizer o seguinte: sou, com certeza, uma pessoa da terra. Até para um navio deste tamanho, é terrivelmente apertado, e aonde quer que a gente vá, acaba esbarrando em alguém, como se estivesse na cidade, só que pior. Imagino que você esteja acostumado a isso, mas já estou sonhando com campos e lugares desertos. Ontem à noite, até sonhei com as vacas do meu pai…
Nossa cabine, com quatro beliches, é uma das muitas que foram instaladas no que aparentemente foi um monta-cargas gigantesco, e eu a divido com três garotas que parecem boas pessoas. Uma delas, Jean, tem só dezesseis anos, mas, por incrível que pareça, ela não é a mais jovem. Pelo visto, tem duas meninas de quinze anos a bordo. Elas são casadas com ingleses e estão viajando sozinhas. Não consigo imaginar o que meu pai teria feito se, aos quinze anos, eu tivesse avisado que ia me casar… mesmo que fosse com você, querido. Também estou dividindo a cabine com uma mulher muito quieta que trabalhou no Hospital Geral da Austrália no Pacífico. Há uma terceira, que acho um pouco esnobe. Não posso dizer que temos muito em comum, a não ser pelo objetivo.
Parece que uma das esposas não chegou a tempo de embarcar no navio em Sydney e vão levá-la de avião até Fremantle, onde a buscaremos. Portanto, não podemos dizer que a Marinha não está fazendo o possível para nos levar até vocês.
Todos os homens são simpáticos, mas não temos permissão para falar muito com eles. Algumas mulheres ficam bobas quando passam perto de um. Sinceramente, daria até para achar que elas nunca tinham visto um homem, muito menos que já são casadas. O comandante fez um discurso sobre o comportamento a bordo, e somos lembradas o tempo inteiro de que precisamos economizar água. Tomei um banho rápido hoje de manhã, mas não me imagino passando toda a viagem assim, a seco. Penso em você a todo instante e me sinto reconfortada de imaginar que estamos, talvez neste minuto mesmo, navegando no mesmo oceano.
Joe Junior, tenho certeza, manda um beijo (ele chuta minha barriga sem parar quando tento dormir!).
Sua Maggie

Havia coisas que ela não contara a Joe: que passara quase toda a primeira noite acordada, ouvindo barulho de correntes, portas batendo no andar de cima e de baixo, risos e gritos histéricos de outras mulheres atrás das paredes muito finas, e sentindo as vibrações do enorme navio se movendo, como um animal pré-histórico.
Tudo isso em meio aos comunicados incompreensíveis que soavam a cada quinze minutos mais ou menos (“Todos aos seus postos”, “Preparem-se para receber barcaça de lixo a bombordo”, “Suboficiais de serviço, reúnam suas equipes”), o alto-falante acordava todo mundo com o toque de despertar: “Acordem, acordem, pulem da cama” (e às cinco e meia da manhã ela havia escutado a versão bem menos elegante para os homens: “Acordem, acordem, pulem da cama, mãos longe do pinto, afivelem o cinto”). Não contara que, para ela, o navio era uma enorme confusão de postos e atribuições, de marinheiros a fornalheiros, passando pelos aviadores. Que o refeitório era grande o bastante para acomodar trezentas pessoas de uma só vez, mas todas aquelas mulheres juntas faziam tanto barulho quanto uma revoada de pássaros pousando. Ou que a comida servida no jantar da noite anterior tinha sido a melhor que ela comera nos últimos dois anos. Nem que praticamente a primeira regra naval que haviam aprendido — com grande ênfase para sua importância — era “a ducha do submarino”: se molhar por apenas alguns segundos, se ensaboar com a torneira fechada e depois dar uma rápida enxaguada no corpo com água corrente. Era vital, como deixara bem claro a representante da Cruz Vermelha, que economizassem água para que as bombas conseguissem dessalinizar rapidamente a água do mar e substitui-la logo, possibilitando assim uma viagem com boas condições de higiene. Pelo que tinha escutado nos banheiros, ela era a única que seguia essas instruções.
Atrás dela, escondida pelo seu pequeno tamanho e por um cobertor dobrado com cuidado, dormia Maude Gonne. Depois do discurso do comandante, Margaret correra para a cabine (Daniel teria dito que ela “se arrastara”) para acalmar os latidos da cadela com biscoitos roubados, e, em seguida, a levara sorrateiramente para o banheiro com o intuito de evitar que fizesse suas necessidades dentro da cabine. Margaret tinha acabado de voltar para o quarto quando Frances entrou. Ela se enfiara na cama com uma das mãos em cima da cabeça do animal para escondê-lo, torcendo para que continuasse quieto.
Isso era um problema. Margaret achara que ficaria sozinha em uma cabine, como acontecia com a maioria das grávidas. Sequer passara pela sua cabeça que talvez precisasse dividir.
Ela se perguntou se poderia confiar em Frances, que ocupava o beliche na frente do seu. Parecia uma boa pessoa, mas falava tão pouco que não tinha como saber alguma coisa sobre ela. Além do mais, Frances era enfermeira, e algumas eram extremamente rígidas com relação a regras e normas.
Margaret mudou de posição no beliche, tentando ficar mais confortável, enquanto sentia o ronco dos motores mais abaixo. Havia tantas coisas que ela queria contar para Joe, tantas impressões sobre a estranheza de tudo aquilo… de ter sido tirada de casa e jogada em um mundo em que as mulheres ficavam histéricas não só com o próprio futuro, mas com marcas de xampu ou de meias finas compridas (“Onde você comprou? Tenho procurado em todo lugar!”), e faziam confidências íntimas a ponto de passarem a impressão de se conhecerem havia anos, não apenas vinte e quatro horas.
Mamãe teria sido capaz de explicar tudo isso, pensou Margaret. Teria conseguido falar a língua delas, traduzi-la e depois neutralizar seu poder com algumas observações enérgicas. Se eu soubesse que minha mãe ia partir, teria prestado mais atenção no que ela dizia. Teria agido com um pouco mais de respeito, em vez de passar a vida tentando agradar os meninos. Nunca nos contam que não ficamos só com o vazio da perda, mas também com uma infinidade de perguntas que jamais serão respondidas.
Ela olhou para o relógio. Eles deviam estar do lado de fora da casa naquele instante, talvez em cima do trator, arrancando os brotos das plantas que cresciam nos pastos, como pretenderam fazer o verão inteiro. Colm dissera de brincadeira que as semanas que ela passaria em meio a tantas mulheres a deixariam maluca. Seu pai comentara que talvez aquela experiência lhe ensinasse um monte de coisas. Margaret deu uma olhada nos acessórios femininos à sua volta: seda, nylon e tecidos florais, cremes para o rosto e kits de manicure. Ela nunca poderia imaginar que se sentiria tão deslocada.
— Quer meu travesseiro? — perguntou Frances, interrompendo sua leitura.
Apontou para a barriga de Margaret.
— Não, obrigada.
— Aceite… Você não deve estar confortável.
Esta foi a frase mais longa que ela disse desde que tinham sido apresentadas.
Margaret hesitou, depois aceitou o travesseiro, agradeceu e o colocou embaixo do quadril. Era verdade: os beliches eram tão largos e confortáveis quanto uma tábua de passar roupa.
— É para quando?
— Para daqui a dois meses, mais ou menos.
Margaret torceu o nariz e apalpou o colchão.
— Podia ter sido pior, eu acho — comentou ela. — Podiam ter nos dado redes.
O sorriso da outra garota esmoreceu, como se, após iniciar a conversa, não soubesse mais o que dizer. Então, voltou ao seu livro.
Maude Gonne se debatia e gania durante o sono, e suas patas arranhavam as costas de Margaret. O barulho era disfarçado pelo zumbido dos motores e pela conversa animada das mulheres que passavam diante da porta entreaberta. Mas ela precisaria dar um jeito nisso. Maude Gonne não poderia ficar trancada daquele jeito durante seis semanas inteiras. Ainda que ela só saísse para ir ao banheiro, com certeza haveria alguma ocasião em que as outras garotas estariam ali. Como manter a cachorrinha quieta, então?
Que se danem!, pensou, virando-se para o outro lado. Com o bebê se mexendo a todo instante e tantas mulheres ao seu redor durante todas as horas do dia e da noite, era impossível pensar com clareza.

* * *

A porta da cabine se abriu e Avice entrou. Ela se lembrou de baixar a cabeça, pois não pretendia encontrar Ian com um hematoma na testa, depois sorriu para as duas companheiras deitadas nos beliches de baixo. Feitos com colchonetes da Marinha colocados sobre uma plataforma elevada de tiras entrecruzadas, os beliches ficavam a menos de um metro e meio de distância um do outro. As malas, que continham o mínimo indispensável de cada uma, haviam sido empilhadas com cuidado em uma fina parede metálica provisória que separava as cabines.
O espaço inteiro era um pouco menor do que o banheiro da sua casa. A feminilidade das passageiras não lhes permitia nenhuma concessão: os tecidos eram grosseiros, não havia tapete no chão, e a única cor era o cinza do navio. Os espelhos ficavam nos cubículos embaçados dos banheiros. As malas maiores, com a maior parte das roupas e dos pertences delas, ficavam guardadas no convés de cima, que cheirava a combustível de avião. Para ter acesso, era preciso implorar permissão a uma oficial terrivelmente rabugenta, que já lembrara duas vezes a Avice que a vida a bordo não era um desfile de moda. Ela considerou estes comentários apenas fruto da inveja da oficial.
Avice estava extremamente decepcionada com suas companheiras de viagem. Em quase todos os lugares por onde andara naquela manhã, tinha visto mulheres com roupas mais elegantes, com uma aparência que ela considerava correta e que indicava um nível social semelhante ao seu. Na companhia delas, talvez Avice tivesse encontrado um conforto para o horror que era a viagem naquele navio. No entanto, ela havia sido escolhida para dividir a cabine com uma grávida criada em fazenda e uma enfermeira mal-humorada. (Avice tinha desejado que essa garota não fosse uma daquelas que se acham superiores, como se, por supostamente já ter testemunhado coisas terríveis, considerasse as outras superficiais só porque tentavam se divertir um pouco.) E, claro, havia Jean.
— Olá, colegas!
Com a ajuda dos braços e pernas magros e despidos como os de um macaco, Jean escalou o beliche que ficava acima do de Margaret e acendeu um cigarro.
— Avice e eu demos uma volta pelo navio para descobrir o que tem a bordo. Há um cinema perto da proa, na galeria inferior. Alguém gostaria de ver um filme mais tarde?
— Não, mas, de todo jeito, obrigada — respondeu Frances.
— Na verdade, acho que prefiro ficar aqui e escrever algumas cartas — disse Avice, que acabara de subir para o seu lugar no alto do beliche, segurando a saia com uma das mãos para esconder as coxas, o que lhe deu certo trabalho. — Estou um pouco cansada.
— E você, Maggie? — perguntou Jean, inclinando-se sobre a lateral do seu beliche.
A súbita visão da cabeça dela fez Margaret se sobressaltar e se encolher em uma posição estranha. Avice se perguntou se essa garota acabaria se revelando ainda mais esquisita do que ela suspeitara. Margaret pareceu se dar conta de que sua reação tinha sido um pouco desconcertante, então estendeu o braço para trás, pegou uma revista e a folheou com uma indiferença proposital.
— Não, obrigada — respondeu. — E-eu deveria descansar um pouco.
— Sim, faça isso — disse Jean, voltando para o seu colchonete e dando uma longa tragada no cigarro. — A última coisa que queremos é que você tenha o bebê aqui.
Avice estava procurando sua escova de cabelo. Ela havia conferido no seu nécessaire várias vezes, e descera do beliche para dar uma olhada nos das outras.
Após a animação da partida ter se dissipado, ela começava a se dar conta das circunstâncias em que passaria as próximas seis semanas, por isso seu humor tinha piorado. Era difícil continuar sorrindo.
— Desculpa incomodar vocês, mas alguém viu minha escova?
Avice achou que era gentil não se dirigir diretamente a Jean.
— Como ela é?
— Prateada. Tem minhas iniciais na parte de trás. As de casada: AR.
— Aqui em cima não está — informou Jean. — Algumas coisas caíram dos nossos nécessaires quando os motores deram aquele solavanco mais cedo. Já procurou no chão?
Avice se ajoelhou, xingando a pouca luz que vinha da única lâmpada no teto. Se houvesse uma janela, ela conseguiria ver melhor. Na verdade, tudo seria mais agradável com vista para o mar. Ela tinha certeza de que algumas garotas haviam sido agraciadas com janelas. Não entendia por que seu pai não requisitara isso.
Assim que estendeu o braço embaixo do beliche de Frances, ela sentiu alguma coisa úmida e fria na parte interna das coxas. Gritou e deu um pulo, o que a fez bater a cabeça no beliche de Frances.
— Deus do céu, o que é…
Uma dor forte no topo da cabeça a fez cambalear. Puxou a saia, deixando-a mais justa ao redor das pernas, e se virou, tentando olhar para trás.
— Quem fez isso? De quem foi a ideia dessa brincadeira?
— O que aconteceu? — perguntou Jean, com os olhos arregalados.
— Alguém tocou na minha bunda. Uma coisa fria e úmida encostou em mim…
Ela não sabia mais o que dizer e olhou ao redor cheia de suspeita, como se talvez algum maluco tivesse se infiltrado entre elas enquanto ninguém olhava.
— Alguém tocou na minha bunda — repetiu.
Ninguém disse nada. Frances a observava em silêncio, com o rosto impassível.
— Não estou inventando — insistiu Avice, irritada.
Foi então que todos os olhares se voltaram para Margaret que, debruçada na beirada do beliche, murmurava alguma coisa para si mesma. Avice, com o rosto corado e o coração acelerado, cruzou as pernas na defensiva e fixou os olhos nela.
Margaret olhou para a companheira com uma expressão de culpa. Ela se levantou, foi até a porta, a fechou e suspirou.
— Ah, bem, preciso contar uma coisa para vocês. Achei que teria uma cabine só para mim por estar… assim.
Avice deu um passo para trás, o que era uma manobra difícil num espaço tão reduzido.
— Assim como? Ai, meu Deus! Você não é uma daquelas pessoas… pervertidas, é? Ai, meu Deus!
— Pervertida? — perguntou Margaret.
— Eu sabia que não deveria ter vindo.
— Grávida, sua boba! Achei que teria uma cabine só para mim porque estou grávida.
— Você está construindo um ninho embaixo do beliche? — perguntou Jean. — Minha gata fez isso quando teve filhotes. Ficou uma bagunça horrível.
— Não — respondeu Margaret. — Não estou construindo um ninho. Escutem, estou tentando contar uma coisa para vocês.
Maggie já estava ruborizada. Avice cruzou os braços como se quisesse se proteger e perguntou:
— É assim que você pede desculpa?
Margaret balançou a cabeça.
— Não é o que vocês estão pensando.
Ela ficou de quatro no chão e fez um som suave. Segundos depois, sua mão saiu de debaixo do beliche segurando um cãozinho.
— Meninas, apresento-lhes Maude Gonne.
Quatro pares de olhos encararam o animal, que retribuía os olhares com total indiferença.
— Eu sabia! Sabia que você estava escondendo alguma coisa! — exclamou Jean, triunfante. — Quando estávamos no convés de voo, pensei: “Essa Margaret é tão dissimulada quanto uma raposa comendo as tripas de um animal no gramado alto.”
— Ah, meu Deus! — Avice fez uma careta. — Você quer dizer que foi isso que…?
— Essas calcinhas de renda realmente funcionam, não é, Avice? — ironizou Jean.
Frances observou a cachorrinha.
— Mas não são permitidos animais a bordo!
— Eu sei.
— Desculpe, mas você não vai conseguir mantê-la aqui sem latir — observou Avice. — Além disso, a cabine vai ficar fedendo.
Houve um longo silêncio enquanto pensamentos não formulados pairavam no ar.
Por fim, a ansiedade superou a delicadeza natural de Avice.
— Vamos passar quase seis semanas neste navio. Onde a cadela vai fazer suas necessidades?
Margaret se sentou e baixou a cabeça para não bater no beliche de cima. A cachorrinha se acomodou em seus joelhos.
— Ela é muito limpa… e já pensei em tudo. Vocês não perceberam nada na noite passada, não é? Saí com ela no corredor, depois que vocês dormiram.
— Saiu com ela no corredor?
— E limpei tudo depois. Olhe, ela não late. Não tem cheiro. Vou tomar cuidado para que faça as necessidades bem longe do caminho de vocês. Mas, por favor, por favor, não me denunciem. Ela… já está velha… Foi minha mãe quem me deu e… — piscou repetidas vezes — …é a única coisa que me resta da minha mãe. Eu não poderia deixá-la, entendem?
As garotas se entreolharam em silêncio. Margaret encarou o chão, com o rosto vermelho de emoção. Era cedo demais para esse tipo de confidência, ela sabia disso, e as colegas também.
— São só algumas semanas, e é muito importante para mim — insistiu.
Houve mais um momento de silêncio. A enfermeira olhou para os próprios sapatos.
— Se quer tentar mantê-la aqui, não me oponho.
— Nem eu — acrescentou Jean. — Contanto que ela não morda meus sapatos. Ela é um amor… para uma ratinha.
Avice sabia que não poderia ser a única a discordar: isso a faria parecer uma pessoa cruel.
— E os fuzileiros navais? — perguntou ela.
— O que tem eles?
— Vão fazer plantão nas nossas portas a partir de amanhã à noite. Não ouviu o que aquela oficial disse? Você não vai conseguir sair com a cadela.
— Um fuzileiro? Para quê?
— Ele vem às nove e meia da noite. Imagino que seja para impedir que os homens subam e nos ataquem — explicou Jean. — Pense nisso: mil homens desesperados dormindo poucos metros abaixo de nós. Eles poderiam forçar as portas se quisessem e…
— Ai, meu Deus!
Avice levou as mãos ao pescoço.
— É claro que deve ser para nos manter trancadas aqui — disse Jean com um sorriso debochado.
— Bem, então vou ter que sair com ela antes que o fuzileiro chegue.
— O corredor está cheio demais — avisou Jean.
— Talvez devêssemos contar para alguém — sugeriu Avice. — Tenho certeza de que entenderiam. E talvez tenham… algum lugar para esse tipo de coisa. Um quarto onde a cachorrinha possa ficar. Ela seria muito mais feliz se tivesse um espaço maior para correr, não acha?
Avice percebeu que não era só a história da cachorra que a incomodava, e sim a sensação de que alguém estava levando vantagem. As bagagens de todas tinham sido pesadas até a última grama, os pacotes de comida, limitados e, além disso, elas haviam sido obrigadas a deixar para trás seus pertences favoritos. E essa garota tivera a petulância de transgredir o regulamento.
— Não — respondeu Margaret, com um semblante sombrio. — Você ouviu o que o comandante disse hoje de manhã. Ainda estamos muito perto da costa. Eles colocariam Maude Gonne em um barco e a mandariam de volta para Sydney. E eu nunca voltaria a vê-la. Não posso correr o risco. Não, por enquanto, pelo menos.
— Não vamos falar nada — afirmou Jean, acariciando a cabeça da cachorrinha.
Avice pensou que Jean era o tipo de pessoa que faria qualquer coisa que desafiasse a autoridade.
— Concordam comigo, meninas? Vai ser legal! Darei um jeito de roubar um pouco de comida do jantar.
— Avice? — perguntou Margaret.
Mais tarde, voltando a pensar no assunto, Avice percebeu que era como se desde o início ela estivesse destinada a ser uma desmancha-prazeres.
— Não vou dizer nada — respondeu com a voz um pouco forçada. — Só quero que ela fique bem longe de mim. E se alguém descobrir, diga que não temos nada a ver com isso.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!