30 de março de 2019

Capítulo 4

— Só mesmo a Bonnie para conhecer um cara bonito no primeiro dia de faculdade — disse Elena. Aplicava cuidadosamente esmalte na unha do pé de Meredith, pintando-a de rosa acobreado. Elas passaram a tarde na orientação de novos alunos com os outros colegas de alojamento, e agora queriam relaxar. — Tem certeza de que é esta cor mesmo? — perguntou Elena a Meredith. — Não me parece um pôr do sol de verão.
— Eu gosto — respondeu Meredith, mexendo os dedos pintados.
— Cuidado! Não quero esmalte na minha colcha nova — avisou Elena.
— Zander é simplesmente lindo — disse Bonnie, espreguiçando-se suntuosamente na cama do outro lado do quarto. — Esperem só até conhecê-lo.
Meredith sorriu para Bonnie.
— Não é uma sensação maravilhosa? Quando você acaba de conhecer alguém e sente que tem alguma coisa entre vocês, mas não tem certeza do que vai rolar? — Ela soltou um suspiro exagerado, revirando os olhos num desmaio fingido. — É a expectativa, e você sente arrepios só de vê-lo. Adoro essa primeira parte. — Seu tom era leve, mas havia algo de solitário em seu rosto. Elena tinha certeza de que, por mais composta e calma que parecesse, Meredith já sentia falta de Alaric.
— Claro — disse Bonnie. — É demais, embora eu queira passar à próxima fase, para variar. Quero um relacionamento onde ambos se conheçam bem, um namoro sério, em vez de apenas uma paixonite. Como vocês têm. Isso é melhor, não é?
— Acho que sim — concordou Meredith. — Mas você não deve tentar apressar a fase de acabamos-de-nos-conhecer, porque só tem um tempo limitado para curtir isso. Não é, Elena?
Elena passou uma bola de algodão pelas bordas das unhas com esmalte de Meredith e pensou em quando conheceu Stefan. Com tudo que tinha acontecido desde então, era difícil acreditar que só fazia um ano.
O que ela se lembrava mais era da própria determinação de ter Stefan. Não importava o que se interpusesse no caminho. Ela sabia, com um propósito firme e claro, que ele seria dela. E de fato, naqueles dias depois que ele foi dela, havia sido glorioso. Parecia que a parte que faltava de si mesma tinha se encaixado em seu lugar.
— É verdade. — Elena enfim respondeu a Meredith. — Depois disso, as coisas ficam mais complicadas.
No início, Stefan tinha sido um prêmio que Elena queria ganhar: sofisticado e misterioso. Ele também era um prêmio cobiçado por Caroline, e Elena nunca permitiu que Caroline a derrotasse. Mas depois Stefan deixou Elena ver a dor e a paixão, a integridade e a nobreza que tinha dentro de si, então ela se esqueceu da competição e amou Stefan de todo coração.
E agora? Ainda amava Stefan com tudo o que tinha, e ele a amava. Mas ela também amava Damon e às vezes o compreendia — o Damon manipulador, que tramava, perigoso — melhor do que a Stefan. Damon era como ela de algumas maneiras: ele também era incansável na busca do que queria. Ela e Damon se ligavam, pensou Elena, em algum nível essencialmente profundo e instintivo que Stefan era bom e honrado demais para entender. Como se podia amar duas pessoas ao mesmo tempo?
— Complicado — zombou Bonnie. — Mais complicado do que nunca ter certeza se alguém gosta ou não de você? Mais complicado do que ter de esperar perto do telefone para saber se tem um encontro no sábado à noite ou não? Estou pronta para essa complicação. Sabia que 49% das mulheres com educação universitária conhecem seus futuros maridos no campus?
— Você inventou esta estatística — disse Meredith, levantando-se e indo para a própria cama, com o cuidado de não borrar o esmalte.
Bonnie deu de ombros.
— Tudo bem, talvez eu tenha inventado. Mas aposto que é um percentual alto, de qualquer forma. Seus pais não se conheceram aqui, Elena?
— Sim — disse Elena. — Acho que eles fizeram algumas matérias juntos no segundo ano.
— Que romântico — falou Bonnie num tom feliz.
— Bem, se você vai se casar, terá de conhecer seu futuro marido em algum lugar — disse Meredith. — E há muitos possíveis futuros maridos na universidade. — Ela franziu a testa para a colcha de seda em sua cama. — Acha que posso secar minhas unhas com o secador de cabelo ou vou estragar o esmalte? Quero dormir.
Ela examinou o secador de cabelo como se fosse o principal objeto de algum experimento científico, com a expressão concentrada. Bonnie a olhava de cabeça para baixo, a cabeça tombada para trás na beira da cama e os cachos ruivos roçando o chão, batendo os pés com energia na parede. Elena sentiu uma onda de amor pelas duas. Lembrou-se das incontáveis festinhas de pijama que elas fizeram durante toda a época da escola, antes que a vida delas ficasse... complicada.
— Adoro nós três juntas — disse ela. — Espero que o ano todo seja exatamente assim.
Foi quando elas ouviram as sirenes pela primeira vez.


Meredith olhava pelas cortinas, reunindo os fatos, tentando analisar o que acontecia fora da Pruitt House. Uma ambulância e várias viaturas policiais estavam estacionadas do outro lado da rua, piscando suas luzes vermelhas e azuis. Holofotes iluminavam de um branco macabro o pátio apinhado de policiais.
— Acho que precisamos sair daqui — disse ela.
— Está brincando? — perguntou Bonnie de trás dela. — Por que a gente faria isso? Eu estou de pijama. — Meredith olhou para trás. Bonnie estava de pé, com as mãos nos quadris, os olhos castanhos indignados. Estava mesmo vestindo um pijama lindinho com estampa de sorvete de casquinha.
— Bem, rápido, vista a calça jeans — disse Meredith.
— Mas por quê? — perguntou Bonnie, melancólica.
Os olhos de Meredith encontraram os de Elena do outro lado do quarto, e elas assentiram rapidamente.
— Bonnie — disse Elena com paciência —, temos a responsabilidade de verificar tudo que acontece por aqui. Talvez a gente só queira ser normal, mas sabemos a verdade sobre o mundo... A verdade que os outros não percebem, sobre vampiros, lobisomens e monstros... E precisamos saber se o que está havendo lá fora não faz parte dessa verdade. Se for um problema humano, a polícia vai cuidar dele. Mas, se for outra coisa, a responsabilidade é nossa.
— Sinceramente — grunhiu Bonnie, já pegando suas roupas —, vocês duas têm um... complexo de salvar gente ou coisa assim. Depois que eu fizer psicologia, vou diagnosticar o problema de vocês.
— Então vamos lamentar — disse Meredith, concordando.
A caminho da porta, Meredith pegou o estojo comprido de veludo no qual guardava seu bastão de combate. Era uma arma especial, projetada para lutar com adversários humanos ou sobrenaturais, e fora feito segundo especificações transmitidas por sua família durante gerações. Só um Sulez podia ter um bastão daqueles. Ela acariciou o estojo, sentindo os cravos afiados de diferentes materiais que ocupavam suas extremidades: prata para os lobisomens, madeira para os vampiros, freixo para os Antigos, ferro para as criaturas sobrenaturais, seringas hipodérmicas mínimas que podiam ser enchidas com veneno. Ela sabia que não podia tirar o bastão do estojo no pátio, não cercada de policiais e espectadores inocentes, mas se sentia mais forte quando podia sopesá-lo.
Lá fora, a umidade do dia de setembro na Virgínia dava lugar a uma noite fria, e as meninas andaram rapidamente em direção à multidão que cercava o pátio.
— Não deem a impressão de que vamos direto para lá — cochichou Meredith. — Finjam que vamos a um dos prédios. Tipo o centro acadêmico. — Ela se desviou um pouco, como se estivessem passando pelo pátio, depois as levou para mais perto, olhando por cima da fita de isolamento policial que cercava a grama, fingindo surpresa com a atividade ali perto. Elena e Bonnie a seguiram, olhando em volta, com os olhos arregalados.
— Posso ajudá-las, senhoritas? — perguntou um dos seguranças do campus, avançando para bloquear o progresso das meninas.
Elena sorriu para ele de um jeito cativante.
— Estávamos indo para o centro acadêmico e vimos todo mundo aqui fora. O que está acontecendo?
Meredith esticou o pescoço para ver o que havia além dele. Só o que conseguiu distinguir eram grupos de policiais conversando e mais seguranças do campus. Alguns policiais estavam de quatro, examinando a grama com cuidado. Peritos criminais, pensou ela vagamente, desejando saber mais sobre os procedimentos da polícia do que via na TV.
O segurança deu um passo de lado para bloquear sua visão.
— Nada sério, só uma menina que acabou tendo um probleminha por andar sozinha aqui fora. — Ele sorriu, tranquilizador.
— Que tipo de problema? — perguntou Meredith, tentando ver ela mesma.
Ele se remexeu, bloqueando sua visão novamente.
— Nada com que se preocupar. Desta vez, todos ficarão bem.
— Desta vez? — perguntou Bonnie, franzindo a testa.
Ele deu um pigarro.
— Meninas, fiquem juntas à noite, está bem? Tratem de andar aos pares ou em grupos quando saírem pelo campus, e ficarão bem. Regras básicas de segurança, entenderam?
— Mas o que aconteceu com a garota? Onde ela está? — perguntou Meredith.
— Nada com que se preocupar — disse ele, desta vez com mais firmeza. Seus olhos estavam no estojo de veludo preto na mão de Meredith. — O que tem aí dentro?
— Taco de sinuca — mentiu Meredith. — Vamos jogar no centro acadêmico.
— Divirtam-se — disse ele, num tom que era claramente uma dispensa.
— Pode deixar — falou Elena com doçura, com a mão no braço de Meredith. Ela abriu a boca para fazer outra pergunta, mas Elena a puxou para longe do segurança e em direção ao centro acadêmico.
— Ei — protestou Meredith em voz baixa quando elas estavam fora de alcance. — Eu ia fazer outras perguntas.
— Ele não ia nos dizer nada. — A boca de Elena era uma linha firme e séria. — Aposto que aconteceu muito mais do que alguém tendo um probleminha. Viu as ambulâncias?
— Não vamos ao centro acadêmico, vamos? — perguntou Bonnie, suplicante. — Estou muito cansada.
Meredith fez que não com a cabeça.
— Mas é melhor a gente dar a volta pelos prédios até nosso alojamento. Vai parecer suspeito se voltarmos direto para lá.
— Isso não foi assustador? — perguntou Bonnie. — Vocês acham... — Ela se interrompeu, e Meredith viu que a amiga engoliu em seco — Acham que aconteceu alguma coisa muito ruim?
— Não sei — respondeu Meredith. — Ele disse que uma menina teve um probleminha. Isso pode significar qualquer coisa.
— Acha que alguém a atacou? — perguntou Elena.
Meredith lançou um olhar sugestivo.
— Talvez. Ou talvez tenha sido atacada por alguma coisa.
— Espero que não. — Bonnie estremeceu. — Já vivenciei o suficiente para uma vida inteira. — Elas tinham passado por trás do prédio de ciências, por um caminho mais escuro e mais solitário, e contornado até chegar ao alojamento, cuja entrada estava fortemente iluminada como um farol. As três aceleraram o passo, indo em direção à luz.
— Estou com a minha chave — disse Bonnie, tateando o bolso dos jeans. Bonnie abriu a porta, e ela e Elena correram para dentro.
Meredith parou e olhou o pátio movimentado, depois para o céu escuro acima do campus. Qualquer que tenha sido o “problema”, quer a causa tenha sido humana ou não, ela sabia que precisava estar em ótimas condições, pronta para lutar.
Ela quase podia ouvir a voz do pai: “Acabou a época de diversão, Meredith.” Era hora de se concentrar em seu treinamento novamente, de trabalhar em seu destino de protetora, como uma Sulez, para manter os inocentes seguros das trevas.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!