30 de março de 2019

Capítulo 41

Parecia que ele e Bonnie esperavam há uma eternidade na salinha dos fundos da biblioteca, pensou Matt. Eles se retesavam a cada ruído, tentando saber de algo que estivesse acontecendo embaixo. Bonnie andava de um lado para o outro, torcendo as mãos e mordendo os lábios, e ele se encostou na parede, de cabeça baixa, segurando firme o bastão de Samantha. Só por precaução.
Ele sabia de todas as portas, passagens e túneis embaixo, muitos que nem imaginava aonde levavam, mas não tinha notado que era tão à prova de som. Não dava para ouvir nada.
De repente, o alçapão se abriu e Matt se retesou, erguendo o bastão até ver o rosto de Elena.
Meredith, Elena, Stefan e Damon saíram, cobertos de sangue, mas basicamente bem, embora a ânsia com que Elena e Meredith contavam a Bonnie o que tinha acontecido, com as palavras tropeçando umas nas outras, fosse reveladora.
— Ethan está morto — disse Stefan a Matt. — Havia outros Vitale lutando lá embaixo, mas nenhum aspirante. Ele os mandou caçar.
Matt sentiu-se nauseado e estranhamente feliz ao mesmo tempo. Imaginou-os mortos nas mãos de Damon e Stefan: Chloe e todos os amigos aspirantes. Mas não estavam. Não mortos de verdade. Mas transformados, agora vampiros.
— Vocês vão caçá-los — disse ele, voltando as palavras para Stefan e Damon, e também para Meredith. Ela assentiu, decidida, e Damon olhou para o outro lado.
— Temos que ir — afirmou Stefan. — Você sabe disto.
Matt olhou firme para os próprios sapatos.
— Sei. Eu sei. Mas, se tiver oportunidade, quem sabe não pode falar com um deles? Se você puder, se eles estiverem raciocinando e ninguém estiver em perigo? Talvez eles possam aprender a viver sem matar pessoas. Se você lhes mostrar como, Stefan. — Ele esfregou a nuca. — Chloe era... especial. E os outros aspirantes eram gente boa. Não sabiam no que estavam se metendo. Eles merecem uma chance.
Todos ficaram em silêncio e, depois de um momento, Matt levantou a cabeça e viu Stefan fitá-lo, os olhos verdes-escuros solidários, a boca repuxada em uma linha de dor.
— Farei o que puder — disse ele com gentileza. — Posso lhe prometer isso. Mas os vampiros novos... na verdade, os vampiros em geral... podem ser imprevisíveis. Talvez não consigamos salvar nenhum deles, e nossa prioridade tem que ser os inocentes. Mas vamos tentar.
Matt assentiu. Sua boca tinha um sabor amargo e os olhos ardiam. Começou a perceber o quanto estava cansado.
— É o máximo que posso esperar — respondeu severamente. — Obrigado.
— Quer dizer que tem uma sala cheia de vampiros mortos lá embaixo? — perguntou Bonnie, torcendo o nariz de nojo.
— Mais ou menos isso — disse Elena. — Passamos correntes nas portas, mas eu queria poder fechar a câmara mais permanentemente. Um dia alguém vai descer lá, e a última coisa que o campus precisa é de outra investigação de assassinato ou outra lenda medonha.
— Tanraaaaan! — Bonnie sorriu, radiante, pegando um saquinho no bolso. — Enfim algo que eu posso fazer. — Ela estendeu o saco. — Lembram de todas as horas que a Sra. Flowers me fez passar estudando ervas? Bem, sei de feitiços para trancar e repelir, e tenho as ervas necessárias bem aqui. Eu pensei que podiam ser úteis, assim que Matt nos disse que íamos a uma câmara subterrânea secreta.
Ela estava tão satisfeita consigo mesma que Matt teve de sorrir um pouco, apesar do peso que sentia dentro de si ao pensar em Chloe e nos outros em algum lugar da noite.
— Talvez não funcione por mais de um ou dois dias — acrescentou ela com modéstia —, mas vai desencorajar as pessoas a investigar o alçapão por esse tempo.
— Você é um prodígio, Bonnie — disse Elena, e espontaneamente a abraçou.
Stefan assentiu.
— Podemos nos livrar dos corpos amanhã. Está perto demais do amanhecer para fazermos isso agora.
Bonnie passou ao trabalho, espalhando plantas secas pelo alçapão.
— Hissopo, selo-de-salomão e folha de damiana — disse ela quando viu que Matt a olhava. — Servem para fortalecer as trancas, proteger contra o mal e para proteção geral. A Sra. Flowers me cobrou tanto sobre essas coisas que finalmente entendi tudo. Que pena que ela não estava lá para me ajudar no dever da escola. Talvez eu tivesse aprendido alguns verbos em francês.
Damon os observava com os olhos meio caídos.
— Precisamos procurar os novos vampiros também — disse. — Sabe que os vampiros não são animais de bando. Eles não vão caçar juntos por muito tempo. Depois que se dividirem, poderemos pegá-los — falou a Stefan.
— Eu também vou — afirmou Meredith. Ela olhou com desafio para Damon. — Só vou levar Matt para casa e encontro vocês dois.
Damon abriu um sorriso peculiarmente caloroso que Matt nunca o viu dirigir a Meredith.
— Eu também estava falando com você, caçadora — disse ele. — Você melhorou muito. — Depois de um segundo, ela sorriu também, um torcer bem-humorado dos lábios, e Matt pensou ter visto algo que podia ser o início de uma amizade vacilando entre eles.
— Então os Vitale definitivamente estão por trás de todos os assassinatos e desaparecimentos? — perguntou Matt a Stefan, nauseado. Como pôde passar tanto tempo com Ethan e não desconfiar de que ele era um assassino?
O rosto de Bonnie ficou tão branco que suas sardas se destacaram como pontos escuros em papel. Depois sua cor voltou, o rosto e as orelhas assumindo um tom de rosa vivo. Ela se levantou, instável.
— Preciso ver Zander — disse ela.
— Ei — falou Matt, preocupado, e avançou para bloquear a porta. — Ainda tem um bando de vampiros lá fora, Bonnie. Espere que alguém vá com você.
— Sem contar que você tem outros compromissos — lembrou Damon secamente, olhado para as ervas espalhadas sobre o alçapão. — Depois de seu trabalho com os feitiços de bruxa, você pode ver seu cachorrinho.
— Desculpe, Bonnie — disse Meredith, remexendo-se pouco à vontade de um pé para o outro. — Devíamos ter acreditado que você reconheceria um bom sujeito quando visse um.
— Tudo bem! Está tudo perdoado — falou Bonnie, animada, e se jogou no alçapão de novo. — Só preciso dizer o feitiço. — Ela passou as mãos pelas ervas. — Existo signum — murmurou. — Servo quis est intus.
Ao pegar algumas ervas no saco, Bonnie continuava sorrindo e parando, olhando o vazio, depois se sacudindo um pouco. Matt sorriu para ela, cansado. Que bom para Bonnie. Alguém precisava ter um final feliz.
Ele sentiu uma mão forte e firme pegar a dele e se virou, vendo Meredith a seu lado. Ela sorriu com solidariedade. Perto deles, Elena colocava a mão, insegura, no braço de Stefan, e os dois olhavam para Bonnie. Damon ficou parado, observando-os com uma expressão quase terna.
Matt se encostou em Meredith, reconfortado. Não importava o que tinha acontecido; pelo menos eles estavam juntos. Seus verdadeiros amigos estavam com ele. Enfim, ele estava em casa.


O sol estava baixo a oeste quando Bonnie subiu na escada de incêndio, os pés tinindo a cada passo. Ao cruzar a beira do prédio, viu Zander sentado de costas para a parede de concreto bruto, na beira do terraço. Ele se virou e a olhou quando ela se aproximou dele.
— Oi — disse ela.
No caminho até ali, tinha estado muito empolgada para vê-lo, o suficiente para que Elena e Meredith vencessem sua culpa e começassem a rir dela, mas agora se sentia estranha e desconcertada, como se sua cabeça fosse grande demais. Ela percebeu que era totalmente possível que ele não quisesse falar com ela. Afinal, ela o acusara de assassinato, um grande erro que uma namorada podia cometer.
— Oi — disse ele devagar. Houve uma longa pausa, e ele deu um tapinha no concreto ao seu lado. — Quer se sentar? — perguntou. — Só estou olhando o céu. — Ele hesitou. — Vai ter lua cheia daqui a alguns dias.
Falar na lua cheia parecia um desafio, e Bonnie se acomodou ao lado dele. Depois apertou as mãos e desatou a falar.
— Desculpe por ter chamado você de assassino — disse ela. — Agora sei que eu estava errada em acusar você de ser responsável pelas mortes no campus. Eu devia ter confiado mais em você. Por favor, aceite minhas desculpas — terminou ela, apressada. — Porque eu sinto sua falta.
— Também sinto sua falta — falou Zander. — E entendo que foi um choque.
— Mas, sério, Zander — disse Bonnie, e deu uma pancadinha nele com o quadril. — Você simplesmente me diz que é um lobisomem? Foi mordido quando criança ou coisa assim? Porque eu sei que ser mordido é a única maneira de se tornar um lobisomem sem matar alguém. E, tudo bem, sei que você não é um assassino agora, mas Meredith viu você com uma garota que tinha acabado de ser atacada. E... e você tem hematomas, muito feios, em toda parte. Acho que eu tinha todo o direito de pensar que havia alguma coisa esquisita com você.
— Esquisita? — Zander riu um pouco, mas havia uma certa tristeza na ação, pensou Bonnie. — Acho que é meio esquisito, se quiser colocar deste jeito.
— Pode explicar? — perguntou Bonnie.
— Tudo bem, vou tentar — respondeu Zander, pensativo. Ele pegou a mão dela, virando-a na dele e brincando com seus dedos, puxando-os levemente. — Como deve saber, a maioria dos lobisomens é transformado sendo mordida ou tendo o vírus do lobisomem na família e ativando-o ao matar alguém num ritual especial. Então as opções são: um ataque terrível, que na verdade acaba com a vítima, ou um ato deliberado de maldade para pegar o poder do lobo. — Ele fez uma careta. — Isso de certo modo explica por que os lobisomens têm uma fama tão ruim. Mas existe outro tipo de lobisomem.
Ele olhou para Bonnie com um certo orgulho tímido.
— Eu vim do bando Original de lobisomens.
Original. A mente de Bonnie disparou. Imortal, pensou ela, e lembrou-se de Klaus, que nunca foi humano.
— Então... você é bem velho? — perguntou ela, hesitante.
Tudo bem, pensou ela, porque Elena namorava caras que viram séculos passarem. Era até romântico. Mais ou menos.
Apesar da paixão que teve por Damon, porém, Bonnie sempre se imaginou namorando alguém mais perto de sua idade. Até o gracinha inteligente do Alaric de Meredith parecia meio velho para ela, e ele só tinha uns 20 e poucos anos.
Zander bufou de rir subitamente e apertou mais sua mão.
— Não! — disse ele. — Acabei de fazer 20 no mês passado! Os lobisomens não são assim... Estamos vivos. Nós vivemos e morremos. Somos como qualquer outra pessoa, só que...
— Se transformam em lobos superfortes e super-rápidos — continuou Bonnie, afiada.
— É, isso mesmo — concordou Zander. — Bom argumento. Mas, então, o bando Original é tipo a família original de lobisomens. A maioria dos lobisomens é infectada por uma espécie de vírus místico. Pode ser transmitido, mas fica latente. O bando Original descende dos primeiros lobisomens, aqueles que eram homens das cavernas, exceto durante a lua cheia. Está em nossos genes. Somos diferentes dos lobisomens comuns. Podemos impedir a transformação, se precisarmos. Podemos aprender a mudar quando a lua não está cheia também, embora seja difícil.
— Se pode impedir a transformação, isso faz com que alguns de vocês deixem de ser lobisomens? — perguntou Bonnie.
Zander a puxou para mais perto.
— Nunca deixamos de ser lobisomens, mesmo que não nos transformemos. É isso que somos. E dói não mudar quando a lua está cheia. É como se ela cantasse para nós, e a música fica mais alta e mais nítida quanto mais perto do estágio final. Então nos doemos para mudar quando chega a hora.
— Puxa vida — disse Bonnie. Depois seus olhos se arregalaram. — Então todos os seus amigos também são membros do bando Original? Todos são parentes?
— Hummm. Acho que sim. Mas o parentesco pode ser muito antigo... não somos primos em primeiro grau, nem nada.
— Que esquisito — disse Bonnie. — Tudo bem, bando Original, entendi. — Ela aninhou a cabeça confortavelmente no ombro de Zander. Agora me fale do resto.
— Está bem. — Zander voltou a falar. Tirou o cabelo dos olhos e abraçou Bonnie. O concreto estava ficando meio frio, e ela se recostou, agradecida, no calor de seu corpo. — Então, a Dalcrest fica num foco de atividade paranormal. Existem coisas chamadas linhas de força...
— Já sei disso — disse Bonnie rapidamente. — Continue com a sua parte.
Zander a fitou.
— Tudo... bem — continuou ele devagar. — Enfim, o Alto Conselho dos Lobos manda alguns de nós à Dalcrest todo ano como alunos. Assim podemos monitorar qualquer perigo. Somos como cães de guarda, acho. Os cães de guarda originais.
Bonnie bufou.
— O Alto Conselho dos Lobos.
Zander lhe deu um cutucão nas costelas.
— Pare com isso, não é piada — disse. — Eles são muito importantes. — Bonnie riu de novo, e ele lhe deu uma leve cotovelada. — Portanto, com todos os desaparecimentos e ataques, as coisas ficaram ruins no campus este ano — continuou ele, mais sério. — Muito pior do que de costume. Estivemos investigando. Um bando de vampiros de uma sociedade secreta no campus está por trás disso, e estamos lutando com eles e protegendo as pessoas quando podemos. Mas não somos tão fortes quanto eles, a não ser na lua cheia, mesmo que nos transformemos. Por isso os hematomas. E sua amiga me viu protegendo uma garota que tinha acabado de ser atacada.
— Não se preocupe. Já cuidamos da Vitale Society hoje à noite — disse Bonnie com presunção. — Bem, pelo menos do líder e de alguns outros — corrigiu-se ela. — Ainda tem um bando de vampiros no campus, mas vamos nos livrar deles.
Zander se virou e a encarou por um bom tempo antes de falar.
— Acho — disse por fim, numa voz cuidadosamente neutra — que é a sua vez de se explicar.
Bonnie não era tão boa em explicações lógicas e organizadas, mas fez o que pôde, avançando e voltando no tempo, acrescentando observações e se lembrando de detalhes ao prosseguir. Contou a ele sobre Stefan e Damon, como tudo mudou quando os irmãos vampiros foram para Fell’s Church no ano anterior e Elena se apaixonou por eles. Contou sobre o dever sagrado de Meredith como caçadora de vampiro e de suas próprias visões paranormais e seu treinamento de bruxa.
Ela deixou muita coisa de fora — tudo sobre a Dimensão das Trevas e a negociação de Elena com as Guardiãs, por exemplo, porque era muito confuso e talvez ela devesse contar isso mais tarde, para ele não ficar sobrecarregado —, mas ainda assim levou muito tempo falando.
— Hummm — disse Zander quando ela terminou, depois riu.
— O que foi? — perguntou Bonnie.
— Você é uma garota estranha — disse Zander. — Mas muito heroica.
Bonnie colocou o rosto em seu pescoço, respirando feliz o cheiro essencial de Zander: amaciante de tecido, algodão surrado e um garoto limpo.
— Você é que é estranho — brincou ela, e depois, com admiração: — E um verdadeiro herói. Esteve combatendo ataques de vampiros por semanas sem fim para proteger a todos.
— Somos uma dupla e tanto — disse Zander.
— É — respondeu Bonnie. Ela se sentou reta e o encarou, depois estendeu a mão e passou-a em seu cabelo claro, puxando-o para mais perto. — Ainda assim — continuou ela, pouco antes de seus lábios se tocarem —, o normal é superestimado.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!