30 de março de 2019

Capítulo 40

Damon se deslocava rapidamente, e Elena e os outros quase tinham de correr para acompanhá-lo em direção à biblioteca.
— É típico de Stefan se sacrificar — murmurou ele, com raiva. — Ele podia ter pedido ajuda quando percebeu que alguma coisa estava acontecendo. — Ele parou por um segundo para deixar os outros o alcançarem e os olhou com raiva. — Se Stefan não consegue lidar sozinho com alguns vampiros recém-criados, tenho vergonha dele — disse. — Talvez a gente deva deixá-lo, afinal. Sobrevivência do mais apto.
Elena tocou sua mão de leve e, depois de um momento, Damon correu para a biblioteca. Ela nem por um segundo acreditou que ele deixaria Stefan cativo. Nenhum deles acreditou. As linhas tensas no rosto dele mostravam que Damon estava inteiramente concentrado no perigo que o irmão corria, esquecendo-se temporariamente da rivalidade entre os dois.
— Não são só alguns vampiros — disse Matt. — São cerca de 25. Desculpe, gente, eu fui um imbecil. — Ele girou, decidido, o bastão que Meredith tinha lhe dado, o bastão de Samantha.
— Não é sua culpa — falou Bonnie. — Você não podia saber que sua fraternidade, ou sei lá o que, era do mal, podia?
Se alguém os visse atravessando o campus, Elena tinha certeza de que eles teriam sido uma visão alarmante: ela e Bonnie levavam as facas de caça largas e afiadas que Meredith lhes dera meio escondidas sob os casacos. Matt brandia o bastão e Meredith levava seu próprio numa das mãos. Mas passava da meia-noite, e o caminho que seguiam estava deserto.
Só Damon não portava uma arma, mas ele claramente era uma arma.
Sua fachada humana parecia ter sido retirada, e a expressão de raiva podia ser entalhada em pedra, a não ser pelo vislumbre de dentes brancos e afiados entre os lábios e a escuridão aparentemente sem fim dos olhos.
Quando eles chegaram à biblioteca fechada, Damon não parou, forçando suas portas de metal a se abrirem com um rangido alto. Elena olhou em volta, nervosa. A última coisa de que precisavam era o segurança do campus. Mas as calçadas perto da biblioteca estavam escuras e vazias.
Todos seguiram Damon até o porão e os corredores das salas da administração. Por fim, ele parou na frente da porta com a placa Sala de Pesquisa, onde ele e Elena tinham encontrado Matt uma vez.
— É esta a entrada? — perguntou a Matt e, quando ele assentiu, arrombou com eficiência a fechadura. — Vocês vão ficar aqui em cima. Só Meredith e eu vamos descer. — Ele olhou para Meredith. — Quer matar uns vampiros, caçadora? Vamos cumprir seu destino?
Meredith cortou o ar com o bastão, e um lento sorriso se formou nos cantos da boca.
— Estou pronta — concordou ela por fim.
— Também vou entrar — disse Elena, com a voz firme. — Não vou ficar esperando aqui em cima enquanto Stefan está em perigo. — Damon prendeu a respiração, e ela pensou que ele ia argumentar, mas em vez disso apenas suspirou.
— Muito bem, princesa — falou, com a voz mais suave que saía dele desde que Matt lhes contara o que tinha acontecido com Stefan. — Mas vai fazer o que eu ou Meredith mandarmos.
— Não vou esperar aqui em cima — disse Matt, teimoso. — A culpa disto tudo é minha.
Damon se virou para ele, torcendo a boca num esgar.
— Sim, a culpa é sua. E nos disse que Ethan pode controlar você. Não quero sua faca nas minhas costas enquanto estivermos lutando com seus inimigos.
Matt baixou a cabeça, derrotado.
— Tudo bem. Desçam dois lances de escada e verão as portas para a sala em que eles estão. — Damon assentiu incisivamente e abriu o alçapão.
Meredith o seguiu pela escada, mas Matt pegou o braço de Elena antes de ela ir atrás deles.
— Por favor — disse ele rapidamente. — Se algum dos aspirantes ainda parecer racional, mesmo que seja vampiro, procure tirá-lo de lá. Talvez possamos ajudar. Minha amiga Chloe... — Nas linhas amargas de seu rosto, os olhos azul-claros estavam assustados.
— Vou tentar — prometeu Elena, apertando sua mão. Ela trocou um olhar com Bonnie, depois seguiu Meredith pelo alçapão.
Quando chegaram à entrada para a câmara da Vitale Society, Meredith e Damon ficaram de costas para as portas de madeira entalhada. Observando, Elena viu pela primeira vez uma semelhança entre os dois. Agora que estavam diante de uma batalha, Meredith e Damon carregavam um sorriso ávido.
Um... dois... começou a contagem silenciosa de Damon... três.
Eles empurraram juntos. As portas duplas se abriram para dentro e as correntes que as mantinham fechadas voaram. Damon atacou, ainda com o sorriso reluzente e cruel, Meredith ereta e atenta atrás dele, com o bastão a postos.
Figuras escuras correram em direção a eles, mas Elena estava olhando além delas, procurando Stefan.
Então seus olhos o encontraram e todo o ar a deixou. Ele estava ferido. Bem amarrado a uma cadeira, ele levantou o rosto pálido para recebê-la, os olhos verdes agoniados. De seu braço, pingava constantemente um sangue escuro, empoçando-se no chão abaixo da cadeira.
Elena ficou meio louca.
Disparando pela sala até Stefan, ela só estava meio consciente de uma das figuras encapuzadas que saltavam para ela e de Damon pegando-a no ar, quebrando despreocupadamente seu pescoço e deixando o corpo cair no chão. Distraída, ela registrou o estalo da madeira contra a carne quando Meredith atingiu outro atacante com o bastão e ele caiu em convulsões quando a essência concentrada de verbena dos cravos do bastão atingiu sua corrente sanguínea.
Em seguida ela estava agachada ao lado de Stefan e, pelo menos por um instante, nada mais importava. Ele tremia um pouco, só o mais leve dos tremores, e ela afagou sua mão, cautelosa com a ferida no braço. Riscos vermelhos corriam pelos pulsos sob a corda, manchada de sangue.
— Verbena nas cordas — murmurou ele. — Estou bem, mas seja rápida. — E então: — Elena? — Por baixo da dor em sua voz, havia um toque de alegria.
Elena torcia para ele poder ler todo o amor que ela sentia em seus olhos.
— Estou aqui, Stefan. Eu sinto tanto. — Ela pegou a faca que Meredith lhe dera e começou a serrar a corda que o segurava, com o cuidado de não o cortar, tentando não apertar as cordas ainda mais. Ele estremeceu de dor, e as cordas em seus pulsos se romperam. — Seu pobre braço — disse ela, e tateou nos bolsos à procura de algo para estancar o sangue, finalmente tirando o casaco e pressionando. Stefan segurou o casaco para ele.
— Terá que cortar o resto das cordas também — disse ele, com a voz tensa. — Não posso tocar nelas por causa da verbena.
Ela assentiu e passou a trabalhar nas cordas que prendiam suas pernas.
— Eu te amo — afirmou ela, concentrando-se no trabalho, sem levantar a cabeça. — Eu te amo muito. Eu o magoei e jamais quis isso. Nunca, Stefan. Por favor, acredite em mim. — Ela terminou de cortar as cordas em volta dos joelhos e tornozelos e se arriscou a olhar o rosto de Stefan. Lágrimas, ela percebeu, escorriam pelo próprio rosto, e ela as enxugou.
O baque de outro corpo caindo no chão e um grito de fúria vieram de trás deles. Mas os olhos de Stefan se fixaram, inabaláveis, nos dela.
— Elena, eu... — Ele suspirou. — Te amo mais do que qualquer coisa no mundo — disse simplesmente. — Você sabe disto. Incondicionalmente.
Ela tomou um fôlego longo e trêmulo e enxugou as lágrimas mais uma vez. Precisava enxergar, tinha de impedir o tremor nas mãos. As cordas pelo tronco de Stefan estavam enlaçadas e torcidas. Ela as puxou, descobrindo onde havia espaço suficiente para cortar, e Stefan sibilou de dor.
— Desculpe, desculpe — disse ela apressadamente, e começou a cortar a corda com a maior rapidez que se atrevia a ter. — Stefan — recomeçou —, o beijo com Damon... bem, não posso mentir e dizer que não sinto nada por ele... mas não foi planejado. Eu nem mesmo pretendia estar com ele naquela noite, simplesmente aconteceu. E, quando você nos viu, aquele beijo, ele tinha acabado de salvar a minha vida... — Ela agora tropeçava nas palavras, e deixou que falhassem. — Não tenho desculpas de verdade, Stefan — revelou ela. — Só quero que me perdoe. Acho que não posso viver sem você.
O que restava das cordas se partiu, e ela as tirou de Stefan antes de olhar para cima, assustada e esperançosa.
Stefan a fitava, os lábios encurvados num meio-sorriso.
— Elena — disse ele, e a puxou num breve e terno beijo. Depois a empurrou para a parede. — Fique fora disto, por favor. — Ele mancou até a luta, ainda fraco da verbena, mas puxando um vampiro para longe de Meredith e cravando as presas em seu pescoço.
Mas ela não precisava da ajuda dele. Meredith era incrível. Quando é que ela havia ficado tão boa? Elena a vira lutar, é claro, e ela era forte e rápida, mas agora a garota alta era graciosa como uma dançarina e letal como uma assassina.
Ela lutava com três vampiros que a cercavam, furiosos. Girando e chutando, movendo-se quase com a rapidez dos monstros que combatia, apesar do fato de a velocidade deles ser sobrenatural, ela derrubou um deles, fazendo-o voar e, num golpe tranquilo, bateu na cara de outro, deixando o vampiro cambaleando de mãos erguidas e meio cego.
Havia corpos espalhados pelo chão, prova da habilidade de Meredith e da fúria cruel de Damon. Enquanto Elena olhava, Stefan jogou longe o corpo esgotado do vampiro com que lutava e olhou em volta. Só Ethan e os três que cercavam Meredith continuavam de pé.
Damon fez Ethan recuar, nervoso, enquanto avançava em direção a ele, bombardeando-o com fortes golpes de mão aberta.
— ... meu irmão — ela ouviu Damon murmurar. — Cachorrinho insolente. Acha que sabe alguma coisa, criança, acha que quer poder? — Com um movimento súbito e violento, ele pegou o braço de Ethan e puxou. Elena ouviu o osso estalar.
Stefan passou por Elena, indo até Meredith novamente, e parou por um momento.
— Ethan estava preparando uma armadilha para Damon — disse ele secamente. — Não sei por que me preocupei. Claramente, ele não sabia o que estava tentando pegar.
Elena assentiu novamente, reprimindo um sorriso. A ideia de qualquer vampiro novo levar a melhor sobre Damon, com toda sua experiência e astúcia, parecia ridícula.
Mas a maré da batalha virou de repente.
Um dos vampiros que Meredith combatia esquivou-se de seu golpe e, meio recurvado, jogou-se contra ela, lançando a menina magra no ar. Houve um instante interminável em que Meredith pareceu estar voando, com os braços dobrados, então caiu, batendo de cabeça na pesada mesa que servia de altar na frente da sala.
A mesa virou, fazendo um baque pesado. Meredith jazia imóvel, com os olhos fechados, inconsciente. Elena correu até ela e se ajoelhou, aninhando sua cabeça no colo.
Os três vampiros com que Meredith lutava estavam bem debilitados. Um tinha sangue escorrendo constantemente pelo rosto, outro mancava, e o último estava curvado como se alguma coisa doesse por dentro, mas ainda conseguiam se movimentar com rapidez. Num instante, tinham cercado Stefan.
Quando Damon grunhiu e se virou, mudando de posição para ajudar o irmão, Ethan viu sua chance e se atirou em Damon. Mais rápido do que o olho de Elena podia acompanhar, seus dentes estavam cortando o pescoço de Damon, provocando um jato brilhante de sangue. Ele tinha uma faca na mão e tentava cortar Damon ao mesmo tempo em que mordia.
Com um grito de dor e choque, Damon arranhou Ethan, tentando afastá-lo. Elena pegou a faca novamente e correu em direção a eles.
Mas dois dos vampiros restantes já estavam em cima de Damon numa fração de segundo, puxando seus braços para trás. Um pegou o cabelo preto de Damon, puxando a cabeça do vampiro mais velho para expor o pescoço plenamente aos dentes de Ethan.
Desequilibrado, Damon cambaleou para trás e, por um momento, viu os olhos de Elena, o rosto dele fraco de desânimo.
Apavorada, Elena se agarrou nas costas de um dos vampiros, que a jogou no chão sem nem mesmo olhar. Enquanto isso, Stefan estava preso numa luta com outro vampiro, desesperado para chegar até o irmão. Damon era um guerreiro melhor e mais experiente que qualquer um dos vampiros que o atacavam, mas, se eles aproveitassem a vantagem momentânea, usando a superioridade numérica, ele seria derrubado antes de conseguir se recuperar.
Ela segurou a faca com mais força e se levantou, sabendo, no fundo, que era tarde demais para salvá-lo, mas que precisava tentar.
Um borrão passou disparado e rosnando por ela; Stefan, livre do adversário, se jogou em Ethan, arremessando-o pela sala e fazendo sua faca voar. Sem parar, ele arrancou um dos outros vampiros do braço de Damon e quebrou seu pescoço. Quando o corpo bateu no chão, Damon tinha despachado o outro com elegância.
Os irmãos, ambos ofegantes, trocaram um longo olhar que parecia transmitir muita comunicação silenciosa. Damon limpou uma mancha de sangue carmim da boca com as costas da mão.
De repente, um braço estava no pescoço de Elena, a faca arrancada de sua mão. Ela estava sendo arrastada para cima. Algo afiado a perfurava na cavidade macia da base do pescoço.
— Posso matá-la antes que vocês consigam chegar aqui — disse a voz de Ethan, alta demais aos ouvidos dela. Elena jogou um braço para trás, tentando pegar o cabelo ou o rosto de Ethan, e ele chutou cruelmente suas pernas, tirando-lhe o equilíbrio e a puxando para mais perto. — Posso quebrar seu pescoço com um só braço. Posso esfaqueá-la com a própria faca e deixar que sangre. Seria divertido.
Elena percebeu que ele estava apertando a faca dela em seu pescoço. O outro braço pendia frouxo e curiosamente torto. Damon o havia quebrado, lembrou-se Elena.
Os dois irmãos ficaram paralisados e, muito lentamente, se viraram para Elena e Ethan, ambos de cara fechada e preocupada. Damon abriu um ricto de cólera.
— Solte-a — rosnou ele. — Nós o mataríamos no segundo em que ela caísse no chão.
Ethan riu, um riso extraordinariamente genuíno para alguém numa situação de vida ou morte.
— Mas ela ainda estará morta, então acho que pode valer a pena. Vocês não pretendem me deixar sair daqui mesmo, não é? — Ele se virou para Stefan com a voz sarcástica. — Sabe de uma coisa, ouvi tudo sobre os irmãos Salvatore dos outros descendentes de Klaus. Eles disseram que vocês eram aristocratas, bonitos e tinham um gênio terrível. Que Stefan era ético e Damon não tinha remorsos. Mas também disseram que os dois eram tolos quando se tratava de amor, sempre pelo amor. É seu defeito fatal. Então, sim, acho que minhas chances são muito melhores agora que tenho sua namorada em meu poder. Ela é namorada de quem, aliás? Não sei dizer.
Elena se encolheu.
— Espere um segundo, Ethan. — Stefan estendeu as mãos, conciliador. — Espere. Se concordar em não trazer Klaus de volta e deixar Elena ir embora em segurança, vamos lhe dar o que você quer. Saia da cidade e não iremos atrás de você. Ficará seguro. Se nos conhece, sabe que cumprimos nossa palavra.
Atrás dele, Damon assentiu com relutância, os olhos no rosto de Elena.
Ethan riu novamente.
— Acho que você não tem nada que eu ainda queira, Stefan — disse ele. — O resto da Vitale Society, inclusive nossos iniciados mais recentes, voltará logo, e acho que eles vão tombar a balança a meu favor novamente. — Ele apertou o braço no pescoço de Elena. — Matamos tantos alunos neste campus... Uma a mais certamente não vai fazer diferença.
Damon sibilou de fúria e avançou, mas Ethan exclamou:
— Pare bem aí ou...
De repente, ele deu um solavanco e Elena sentiu uma dor aguda e pungente no pescoço. Ela gritou de pavor e colocou a mão no local. Mas era só um arranhão da faca.
Enquanto Stefan e Damon ficavam parados, impotentes e furiosos, o braço de Ethan se afrouxou no pescoço de Elena e ele soltou um gorgolejar horrendo. Elena se afastou assim que seu aperto se desfez.
Sangue escorria em longas tiras grossas do tronco de Ethan, e sua boca se abriu de choque enquanto ele se segurava e caía devagar para a frente, com um buraco redondo no peito se enchendo de sangue.
Atrás dele, Meredith estava de pé, com o cabelo esvoaçando e os olhos cinzentos habitualmente frios ardendo como carvão escuro no rosto. Seu bastão estava coberto do sangue de Ethan.
— Eu o peguei no coração — disse ela com a voz feroz.
— Obrigada — murmurou Elena educadamente. Ela se sentia... sinceramente... muito peculiar, e foi apenas quando começou a cair que pensou: Ah, não, acho que vou desmaiar.
Num borrão, ela viu Damon e Stefan correndo para pegá-la e, quando voltou a si, um instante depois, estava segura por dois pares de braços.
— Eu estou bem — afirmou ela. — Foi só... por um segundo, eu fiquei... — Ela sentiu um par de braços puxando-a para mais perto por um instante, depois eles a soltaram, mudando seu peso para outro par. Quando levantou a cabeça, Stefan a segurava firmemente. Damon estava a alguns passos de distância, com uma expressão indecifrável.
— Eu sabia que você vinha me salvar — disse Stefan, abraçando Elena, mas olhando para Damon.
Os lábios de Damon se torceram num sorriso mínimo e relutante.
— Claro que viria, seu idiota — disse ele rispidamente. — Sou seu irmão.
Eles se olharam por um bom tempo, depois os olhos de Damon foram até Elena, ainda nos braços de Stefan, e se desviaram.
— Vamos apagar os archotes e sair — disse ele com rispidez. — Ainda temos que encontrar cerca de 14 vampiros.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!