14 de março de 2019

Capítulo 4


Na semana passada, o espetáculo mais emocionante em Sydney foi a partida para a Inglaterra do HMS Victorious, que levava a bordo 700 esposas australianas de soldados britânicos. Horas antes de o navio partir, o caminho que dava no cais de embarque já estava repleto de parentes e amigos… As esposas eram, em sua maioria, incrivelmente jovens.
THE BULLETIN, 10 DE JULHO DE 1946

EMBARQUE

Mais tarde, ela se deu conta de que não tinha certeza do que estava esperando.
Talvez uma fila bem organizada de mulheres carregando malas e passando diante do comandante. Após um aperto de mão dele e despedidas discretas e talvez chorosas, elas subiriam a passarela de embarque rumo ao grande navio branco. Ela acenaria até perder a família de vista, gritaria instruções de última hora sobre a alimentação da égua, onde estavam as botas de mamãe que Letty passaria a usar, o amor que sentia por todos e, por fim, o adeus. Sua voz ecoaria pelo porto enquanto o navio se afastaria lentamente para o mar. Ela seria corajosa, manteria os olhos fixos no que a esperava à frente, não no que ficava para trás.
O que ela não imaginara era encontrar congestionamento em todo o trajeto até a Baía de Sydney, carros serpenteando em filas mal-humoradas, para-choque encostado em outro para-choque sob o céu cinzento da cidade, uma multidão bloqueando o acesso ao cais, gritando e acenando para pessoas distantes demais ou apenas ensurdecidas pelo barulho para responder. A banda de sopro, os vendedores de sorvete, as crianças perdidas. Um milhão de cotoveladas e empurrões de quem forçava passagem para chegar ao cais. A histeria de inúmeras jovens que, agarradas aos pais, gritavam de tristeza ou riam de felicidade, enquanto tentavam arrastar malas e mantimentos empacotados pelo meio da multidão apertada para chegar ao enorme navio cinzento. O nervosismo pela apreensão da partida pairava como a névoa do mar sobre o cais.
— Caramba! Neste ritmo, nunca vamos chegar!
Sentado atrás do volante da picape, Murray Donleavy fumava mais um cigarro, e seu rosto sardento parecia resignado.
— Vai dar certo, papai.
Margaret apoiou a mão no braço dele.
— Esse homem dirige como um idiota. Olhe, ele está tão ocupado conversando que nem reparou que os carros recomeçaram a andar. Vamos, acorde!
Enfiou a mão na buzina, o que fez o carro da frente dar um solavanco e parar.
— Papai, pelo amor de Deus, ele não é uma das suas vacas. Olhe, está tudo bem. Chegaremos sem problema. Se piorar, posso desistir do carro e ir a pé.
— Ela pode tirar qualquer um do caminho com essa barriga enorme.
Daniel, sentado atrás da irmã, fazia comentários cada vez mais grosseiros sobre sua “saliência”, como dizia ele.
— Vou tirar você do caminho, se não moderar seu linguajar. Com um belo bofetão.
Margaret se inclinou para a frente para acariciar a fox terrier deitada entre seus pés. De vez em quando, o focinho de Maude Gonne se franzia por causa dos odores estranhos que entravam pela janela: sal marinho, fumaça do trânsito, pipoca e óleo diesel. Era uma cadela velha, quase cega, com o focinho salpicado de pequenas manchas cinza, que sua mãe lhe dera de presente de aniversário de dez anos, porque ela, ao contrário dos irmãos, não ganharia uma arma.
Margaret se inclinou para pegar a cesta, a colocou em cima do joelho e conferiu pela décima quarta vez se todos os papéis estavam em ordem.
Seu pai olhou de relance para ela.
— Parece que tem de tudo um pouco nessa sua cesta. Achei que Letty havia colocado alguns sanduíches aí para você.
— Devo ter tirado sem querer, quando mexi nela em casa. Desculpe, tinha coisa demais na minha cabeça hoje de manhã.
— Vamos torcer para que eles sirvam comida a bordo.
— Claro que sim, papai. Principalmente para mim.
— Vão precisar de outro navio só para carregar a quantidade de comida de que ela precisa…
— Daniel!
— Não tem problema, pai.
A expressão maldosa do irmão ficava um pouco escondida sob sua franja comprida. Ele parecia ter cada vez mais dificuldade de olhar para Margaret. Ela pensou em lhe estender a mão para mostrar que entendia e que não levaria a mal essas maldades tão pouco características dele, mas suspeitava que o menino também repeliria esse gesto. Agora que estavam tão perto de se despedir, ela não sabia muito bem se seria forte o suficiente para aguentar.
Letty não queria que ele os acompanhasse, pois considerava a rabugice do irmão um mau presságio para a viagem.
— Você não quer que a última lembrança da sua família seja uma cara dessas — dissera ela, quando Daniel bateu a porta com força pela enésima vez.
— Ele está bem — respondera Margaret.
Letty balançara a cabeça e redobrara a atenção ao pacote de comida. Elas tinham direito a levar onze quilos cada, e Letty, com medo de que a mãe de Joe pudesse considerar a família australiana pouco generosa, tinha pesado e repesado o pacote até usar cada grama permitida.
Portanto, o dote de Margaret era composto, entre outras coisas, por uma lata com o melhor bolo de frutas de Letty, uma garrafa de xerez, uma lata de salmão, bife e aspargos, além de uma caixa com biscoitos recheados de geleia que ela comprara com os cupons da loja de departamentos Hordern Brothers. Letty pretendera embalar uma dúzia de ovos, mas Margaret comentara que, mesmo se resistissem à viagem de carro até Sydney, após seis semanas no navio os ovos correriam o risco de representar mais um perigo para a saúde do que uma coisa boa.
— Os ingleses não são os únicos sofrendo racionamento — reclamara Colm. Ele adorava o bolo de frutas da tia.
— Quanto mais atenção dermos a eles, mais atenção darão a Maggie — respondera Letty, irritada.
Ela fixara os olhos no vazio à sua frente antes de correr para a cozinha e enxugar as lágrimas com um pano de prato. Não se preocupava mais em arrumar o cabelo.
— Está com todos os papéis?
Eles tinham chegado aos portões do cais de Woolloomooloo. Em seu novo uniforme, o oficial que fizera a pergunta estava tenso por causa da importância daquele dia. Ele se debruçou na janela da picape, e Margaret pegou na cestinha seus documentos já bastante manuseados e os entregou.
O oficial percorreu com o dedo a lista de nomes até que, aparentemente satisfeito, fez sinal para que avançassem.
— Todas as esposas para o Victorious. Ancoradouro número seis. Talvez o senhor precise deixá-la por aqui. Não tem onde estacionar.
— Não posso fazer isso, amigo. Olhe o estado dela.
O oficial espiou pela janela do motorista, depois desviou o olhar e observou a multidão.
— Com um pouco de sorte, talvez encontre um lugar mais adiante, à esquerda. Siga a sinalização para o cais, depois vire à direita na pilastra azul.
— Obrigado, amigo.
O homem deu dois tapinhas no teto da picape.
— Só tente não atropelar ninguém. Lá está uma loucura.
— Vou fazer o melhor que puder.
Murray enfiou ainda mais o chapéu na cabeça e tentou abrir caminho até o cais.
— Mas não posso prometer nada.
O motor da picape rugiu e gemeu enquanto Murray seguia no meio da multidão, freando uma vez ou outra quando alguém no meio-fio caía na pista, ou desviando de alguma mãe chorosa abraçada à filha aos prantos, alheias ao que acontecia ao redor.
— É mesmo verdade que não são como vacas — murmurou ele para si mesmo. — Vacas têm um pouco mais de bom senso.
Murray não gostava de aglomerações, mesmo quando estava bem-disposto. Apesar da relativa proximidade entre Woodside e a cidade, Margaret achava que era possível contar nos dedos de uma única mão as vezes em que o pai tinha ido a Sydney desde que ela nascera. Era um lugar barulhento, fedido, cheio de trapaceiros. Ele se queixava de não conseguir andar em linha reta e de ser obrigado a desviar de alguém o tempo inteiro. Ela também não gostava muito dos moradores da cidade, mas naquele dia estava sentindo apenas uma curiosa indiferença, como se fosse mera observadora, incapaz de assimilar a magnitude do que estava prestes a fazer.
— Como estamos de horário? — perguntou ele.
Estavam parados, com o motor ligado, esperando que mais uma fila de pessoas passasse arrastando malas volumosas ou crianças pirracentas.
— Papai, estamos bem, já falei. Posso sair do carro e ir andando daqui, se quiser.
— Até parece que vou deixá-la sozinha no meio dessa gente toda!
De repente, ela se deu conta de que o pai sentia que era sua grande responsabilidade levá-la até seu destino, que, por mais que odiasse perdê-la, estava com medo de não conseguir fazer a coisa certa para ela naquela última vez.
— Estamos a apenas uma centena de metros do cais e, afinal de contas, não sou uma inválida.
— Prometi que iria acompanhá-la até o navio, Maggie. Então, fiquei aí sentada.
Seu rosto estava tenso, e ela se perguntou vagamente a quem ele tinha feito essa promessa.
— Lá, papai! Olhe!
Daniel batia na janela de trás, fazendo gestos frenéticos para onde um carro que parecia oficial acabava de liberar uma vaga.
— Ótimo.
Murray projetou o queixo e acelerou o carro, obrigando as pessoas à sua frente a pular para o lado e abrir caminho.
— Saiam daí! — gritou ele pela janela e, segundos depois, a picape já estava estacionada no pequeno espaço, frustrando os motoristas de vários outros carros que tinham se aproximado. — Chegamos!
Desligou o carro e, enquanto o motor silenciava aos poucos, virou-se para a filha.
— Chegamos — repetiu, sem muita convicção.
Ela estendeu o braço, segurou a mão do pai e disse:
— Eu sabia que o senhor conseguiria me trazer até aqui.

* * *

O navio era enorme, grande o suficiente para ocupar todo o comprimento do cais e bloquear a vista do mar e do céu, portanto apenas uma imensa superfície metálica se elevava acima da multidão posicionada ao longo das barreiras tentando desesperadamente se comunicar com quem já estava a bordo. O navio era tão grande que deixava Maggie sem fôlego.
Na lateral da embarcação, as torres de tiro se sobressaíam como se fossem sacadas, algumas com os canhões ainda posicionados ou com guinchos já preparados, curvados feito pescoços de pássaros elegantes. No convés de voo, visível apenas a distância, os aviões estavam dispostos em fileiras de três, com as asas dobradas. Havia Corsairs, Fireflies e, possivelmente, um Walrus. Margaret, impregnada por osmose com a paixão do irmão por aeronaves, era capaz de identificar cada uma. Centenas de mulheres já tinham subido a bordo e formavam uma fila no convés de voo ou se sentavam nos canos dos canhões, acenando dos corredores, e seus gestos pareciam minúsculos em contraste com o enorme porta-aviões. Usavam casacos fechados até o pescoço e lenços de cabeça bem amarrados para se protegerem da forte brisa do mar. Algumas espiavam das vigias e apenas mexiam os lábios para mandar recados silenciosos a quem estava no cais. Era impossível ouvir alguma coisa no meio daquela algazarra geral, por isso muitas agitavam os braços como se sinalizassem um trânsito caótico.
De um lado, uma banda de sopro tocava. Ela conseguiu identificar The Maori’s Farewell e Bell-bottomed Trousers quando partes da melodia chegaram aos seus ouvidos apesar do ruído da multidão. Enquanto isso, alguém ajudava uma jovem aos prantos a descer a passarela de embarque. Serpentinas de cores brilhantes tinham grudado no casaco dela.
— Ela mudou de ideia — disse um oficial. — Alguém precisa levá-la para o hangar de carga com as outras.
Margaret se permitiu sentir uma pequena inquietação e percebeu que seria muito fácil deixar a histeria dominá-la.
— Nervosa? — perguntou seu pai. Ele também vira a jovem.
— Não. Só quero rever Joe.
A resposta dela pareceu deixá-lo satisfeito.
— Sua mãe ficaria orgulhosa.
— Minha mãe falaria que eu deveria estar vestindo algo mais elegante.
— Isso também.
Ele a cutucou com o cotovelo e ela fez o mesmo. Em seguida, ajeitou o chapéu na cabeça.
— Mais alguma esposa para embarcar? — perguntou uma representante da Cruz Vermelha que circulava com uma prancheta. — Senhoras, precisam embarcar agora. Preparem os papéis.
Quando cada uma delas chegava à passarela de embarque, recebia uma chuva de serpentinas e os trabalhadores portuários gritavam “Você vai se arrepender!”, em um tom que podia ou não ter sido simpático.
Murray levara o baú para o posto da alfândega. Maggie deu uma olhada ao redor em busca do irmão mais novo e o localizou, mas ele não estava prestando atenção nela nem no navio.
— Tome conta da égua para mim, Daniel — pediu ela, tendo que gritar um pouco para ser ouvida. — Não deixe seus irmãos incompetentes se aproximarem dela.
Ele não desviava os olhos do chão, recusando-se a encará-la.
— E deixe ela no bridão durante o máximo de tempo que der. Não está puxando nada no momento, mas vai melhorar a longo prazo se você conseguir manter o maxilar dela flexível.
— Daniel, responda a sua irmã — ordenou o pai, cutucando o garoto.
— Está bem.
Ela observou os ombros magros do irmão, o rosto virado para a direção oposta do dela de propósito, e sentiu uma vontade irresistível de abraçá-lo, de dizer quanto o amava. Mas ele considerava seu corpo de grávida cada vez mais repugnante e recusara qualquer contato com ela desde a confirmação da partida.
Era como se ele culpasse a gravidez, e não Joe, por levá-la embora.
— Um aperto de mão?
Houve uma longa pausa, que pesou ainda mais diante da possibilidade de o pai desaprovar a atitude de Daniel, que então ergueu timidamente a mão e apertou a dela com firmeza. Logo a soltou, ainda sem olhar para a irmã.
— Vou escrever para você — disse ela. — E é melhor me responder.
Ele permaneceu calado.
Murray deu um passo à frente e a abraçou com força.
— Diga para o seu marido cuidar bem de você — murmurou ele, com a voz abafada e o rosto enfiado no cabelo da filha.
— Ah, não comece, papai.
Ela sentiu o cheiro do belo casaco do pai: naftalina e gado misturado a feno.
— Vocês vão ficar bem em casa. Letty vai tomar conta de vocês muito melhor do que eu.
— Bem, isso não seria difícil.
Ela percebeu o esforço do pai em fazer uma piada e lhe abraçou com ainda mais força.
— Eu queria… Eu queria…
— Papai… — Sua voz continha um tom de advertência.
— Muito bem.
Ele se afastou da filha, olhou ao redor diversas vezes, como se sua mente já estivesse em outro lugar. Depois, engoliu em seco.
— Bem, é melhor deixarmos você embarcar. Quer que eu carregue suas malas?
— Não, eu consigo.
Jogou a mala grande no ombro, colocou a cesta de mão e o pacote de comida embaixo do braço livre e tentou manter o equilíbrio. Respirou fundo e seguiu na direção do navio.
Seu pai a deteve.
— Espere, filha! Primeiro você precisa passar pela alfândega.
— O quê?
— A alfândega. Olhe, estão mandando todo mundo passar lá antes de embarcar.
Através do empurra-empurra da multidão, ela conseguiu ver o que seu pai apontava: um enorme galpão com teto de ferro corrugado do outro lado do cais.
— Foi o que a mulher da Cruz Vermelha falou. Todas precisam passar lá primeiro.
Duas jovens conversavam com os oficiais na porta de entrada da alfândega.
Uma apontava para a própria bolsa e ria.
Murray olhou para a filha.
— Você está bem? Ficou tão pálida.
— Não posso, pai — murmurou ela.
— Não consigo ouvir você, filha. Qual é o problema?
— Pai, não estou me sentindo bem.
O pai deu um passo à frente e a segurou pelo braço.
— O que houve? Precisa se sentar?
— Não… É a multidão. Estou me sentindo um pouco fraca. Diga que eles precisam me colocar a bordo.
Ela fechou os olhos. Ouviu o pai gritar com Daniel, que saiu correndo.
Alguns minutos depois, dois oficiais da Marinha estavam ao seu lado.
— Está tudo bem, senhora?
— Só preciso embarcar.
— Certo. Já passou na…
— Olhem, como podem ver estou esperando um bebê. Estou me sentindo fraca. O bebê está pressionando minha bexiga e estou com medo de dar um vexame aqui. Não posso ficar nem mais um minuto no meio de tanta gente.
O desespero fizera lágrimas brotarem em seus olhos e ela teve certeza de que isso deixava os oficiais constrangidos.
— Ela não costuma ser assim — explicou seu pai, com um tom de voz preocupado. — Em geral, é uma mulher forte. Nunca a vi chegar ao ponto de quase desmaiar.
— Já tivemos algumas que passaram mal — comentou um dos oficiais. — É por causa de toda essa agitação. Vamos ajudá-la a embarcar. Nos dê sua bagagem, senhora.
Então Margaret largou a mala e o pacote de comida, cujo papel pardo amolecera com o suor das suas mãos.
— Ela vai ficar bem? Vocês têm um médico a bordo? — perguntou o pai, rondando os oficiais com o rosto tenso.
— Sim, senhor. Por favor, não se preocupe.
Maggie notou o pai parado ao seu lado.
— Desculpe, senhor, mas não tem permissão para passar deste ponto.
Um dos oficiais estendeu a mão para pegar a cesta de Margaret.
— Quer que eu leve isto para a senhora?
— Não! — disparou ela, puxando a cesta para perto. — Não, obrigada — acrescentou, tentando sorrir. — Todos os meus papéis e alguns objetos pessoais estão aqui dentro. Seria terrível perder isso.
O oficial sorriu para ela.
— Tem mesmo razão, senhora. Hoje não é dia de perder nada.
Eles a tinham ajudado a andar segurando-a pelos cotovelos e já se aproximavam da passarela que a levaria ao navio. Distraidamente, ela reparou que, ao contrário do Victorious em si, a passarela parecia gasta e os suportes de madeira estavam apodrecidos devido aos anos de uso e à água do mar.
— Adeus, então, Maggie — gritou o pai.
— Papai!
De repente, tudo pareceu acontecer depressa demais. Ela não tinha certeza se estava mesmo preparada. Tentou jogar um beijo com sua mão livre para expressar um pouco do que sentia.
— Dan? Daniel? Onde ele está?
Murray havia se virado para tentar encontrar o filho. Fez um sinal com a mão para que ela esperasse, que não fosse adiante, mas a multidão forçava a barreira e ele se sentiu engolido por ela.
— Não consegui me despedir direito.
— Maldito menino! — Murray estava quase chorando. — Dan! Sei que ele quer dizer adeus. Olhe, não pense mal do seu irmão por causa disso…
— Precisamos mesmo embarcá-la, senhora — disse o oficial ao seu lado.
Ela olhou para ele, depois para o galpão da alfândega. Seus pés alcançaram a passarela. Sentiu a mala grande pressionando sua perna quando o oficial parou atrás dela, impaciente para avançar.
— Não estou vendo ele, querida — gritou Murray. — Não sei onde se meteu.
— Diga a ele que está tudo bem, pai. Eu entendo.
Ela percebeu que o pai piscava sem parar.
— Você vai se arrepender!
Um jovem trabalhador portuário, com o boné enfiado fundo na cabeça, deu um sorriso zombeteiro para ela.
— Cuide-se — gritou seu pai. — Está me ouvindo? Cuide-se.
Então sua voz, seu rosto e o topo do seu chapéu gasto se perderam no meio das pessoas no cais.

* * *

O imediato do navio tentara três vezes chamar sua atenção. Aquele maldito homem continuava parado ali, trocando o peso de uma perna para outra, como se fosse uma criança morrendo de vontade de ir ao banheiro.
Dobson. Sempre um pouco mais informal do que a ocasião merecia. O comandante Highfield, já de péssimo humor, estava determinado a ignorá-lo. Ele se virou e, com passos ruidosos, desceu para a casa de máquinas.
A umidade provocava dores em uma de suas pernas. Para descansá-la por um instante, apoiou todo o seu peso na outra, com o corpo ligeiramente torto, numa posição em que não costumava ficar. Era um homem robusto, cuja postura ereta se enraizara nele ao longo dos anos de serviço, e levara a incontáveis imitações irreverentes nos conveses inferiores.
— Hawkins, como está o motor de propulsão? Ainda bloqueado?
— Dois homens estão verificando isso agora, comandante. Esperamos que esteja liberado em cerca de vinte minutos.
O comandante Highfield suspirou.
— Dê o seu melhor, Hawkins. Caso contrário, vamos precisar de mais dois rebocadores para nos puxar, e isso não parece a melhor coisa a fazer hoje, não acha?
— Não é exatamente a imagem que queremos passar para esses antigos colonos enquanto partimos com suas filhas.
— Passadiço, casa do leme, Coxswain no timão.
— Muito bem, Coxswain. Esteja pronto para seguir um-dois-zero. — O comandante Highfield ergueu os olhos do megafone e acrescentou: — O quê?
Dobson hesitou.
— Eu… estava apenas concordando com o senhor. Não é o tipo de imagem que queremos passar.
— Sim, bem, mas não é você que deve se preocupar com isso, Dobson. O que você queria mesmo?
Do passadiço dava para ver o porto inteiro: a enorme quantidade de pessoas que se espalhavam até as docas secas, as bandeirolas presas abaixo e, uma a uma, as mulheres subindo devagar pela passarela de embarque, acenando enquanto andavam. Highfield resmungara em silêncio para cada uma delas.
— Vim falar sobre a situação do alojamento, comandante. Alguns homens ainda não chegaram.
O comandante Highfield deu uma olhada no relógio de pulso.
— A esta hora? Quantos?
Dobson consultou a lista.
— Por enquanto, meia dúzia.
— Caramba! — Highfield deu um tapa no mostrador do relógio. A partida do navio estava se tornando um fiasco. — O que esses homens fizeram ontem à noite?
— Parece que houve uma festa em um dos bares, comandante. Alguns se envolveram em brigas, outros nem disso foram capazes. Um deles se desequilibrou na passarela e caiu na água. Por sorte, Jones e Morris estavam de serviço, caso contrário ele, sem dúvida, não estaria mais entre nós. E seis continuam ausentes.
— Bêbados desgraçados! — exclamou Highfield, olhando para além do passadiço.
Os homens que o rodeavam sabiam que o tom feroz na sua voz não se devia apenas àquelas ausências.
— Seiscentas jovens ansiosas conseguem embarcar no horário, mas os melhores homens da Marinha Britânica, não. Eles são uma vergonha sem tamanho.
— Tem mais uma coisa. Quatro delas já estão com a Cruz Vermelha.
— O quê? Só faz cinco minutos que embarcaram.
— É que não prestaram atenção quando dissemos que precisavam se abaixar ao passar pelas escotilhas. Estavam animadas demais, imagino.
Ele bateu na própria testa, para imitar o acidente mais comum a bordo de um navio.
— Uma precisa levar pontos.
— O cirurgião não pode dar um jeito nisso?
— Ah… Bem… Ele é um dos que ainda não chegaram.
Highfield ficou um bom tempo em silêncio. Os homens ao seu redor estavam quietos e na expectativa.
— Vinte minutos — disse ele, por fim. — Só até o motor de propulsão voltar a funcionar. Depois disso, avise ao pessoal do alojamento para começar a descarregar as coisas. Não vou permitir que este navio atrase mais. Principalmente hoje.

* * *

Avice se debruçou na amurada e com uma das mãos segurou o chapéu para que não voasse. Com uma perna de cada lado de um canhão, Jean dava um show particular. A garota de cabelo preto estava histérica, e depois de ter gritado até ficar rouca para quem quisesse ouvir, no momento ela apoiava os braços nos ombros de dois marinheiros, como se estivesse bêbada e precisasse do apoio deles para se manter de pé. Talvez ela estivesse bêbada: quando se tratava daquele tipo de mulher, pouca coisa surpreendia Avice. Por isso, tomara o cuidado de se afastar de Jean no instante em que subiram a bordo, meia hora antes.
Avice deu uma olhada nas pregas do seu novo tailleur, satisfeita por ser infinitamente mais elegante do que a roupa das meninas à sua volta. Seus pais, que não tinham podido acompanhá-la, mandaram um telegrama e um pouco de dinheiro. A mãe conseguira que o tailleur fosse entregue no hotel naquela manhã mesmo. Avice ficara indecisa sobre o que vestir, sem saber ao certo qual era a etiqueta para uma ocasião como aquela. Naquele momento, vendo pelo menos outras cem jovens, das quais praticamente nenhuma usava uma roupa adequada para a ocasião, ela não entendia por que tinha ficado tão aflita.
O navio estava em péssimo estado. Avice havia sido fotografada e entrevistada para a coluna social do Bulletin, e recebera um aperto de mão de alguém que ela tinha quase certeza de que era o comandante. No entanto, isso não alterava o fato de que o Victorious tinha partes enferrujadas e exibia tanta semelhança com o Queen Mary quanto Jean com sua homônima Jean Harlow. Enquanto ela subia pela frágil passarela, franziu o nariz ao sentir o cheiro fraco, mas bem preciso, de repolho cozido, o que confirmava que seria uma viagem em navio de segunda classe.
Contudo, ninguém podia acusar Avice de falta de fibra. Isso, não. Ela empertigou os ombros e se forçou a pensar no objetivo da viagem. Em seis semanas, descobriria o que sua nova vida lhe reservava. Conheceria os sogros, tomaria chá na paróquia, se encontraria com as senhoras da pitoresca cidadezinha onde morariam, talvez até com algum duque ou duquesa. Seria apresentada aos amigos do marido, os que não faziam parte da Força Aérea Britânica e o conheciam desde criança. Ela ainda começaria a construir o lar do casal.
Finalmente seria a Sra. Ian Radley, e não mais apenas Avice (“Ah, Avice!”, ela ainda ouvia a mãe repreendê-la), pois, mesmo depois de casada, parecia não merecer mais respeito ou consideração por parte dos adultos da sua família do que quando era criança.
— Olhem ela!
Avice olhou para o convés logo abaixo: Jean acabara de deslizar pela lateral da torre de tiro. A menina ria, agarrada ao bolso da calça de um dos marinheiros, com a calcinha e boa parte das pernas expostas para quem quisesse ver. Avice estava prestes a dizer alguma coisa quando sentiu o convés vibrar de leve sob seus pés: os motores haviam sido ligados, ainda que não desse para ouvi-los em meio à algazarra. Então se debruçou na balaustrada e constatou, com surpresa, que a passarela de embarque havia sido recolhida. Houve um murmúrio geral. Não muito distante, um guindaste içava vários marinheiros que pareciam ter perdido a chance de subir a bordo pelos meios convencionais. Estavam rindo e batendo palmas, cobertos de marcas de beijo de batom. E possivelmente bêbados.
Que vergonha, pensou Avice, mas mesmo assim sorriu quando os homens foram descarregados, sem nenhuma cerimônia, no convés de voo. Na água, pequenos rebocadores orientavam e acompanhavam o grande navio na sua lenta saída do porto. As mulheres não paravam de falar, animadas, e de acenar com urgência. O tom das vozes delas aumentava sem parar, pois tentavam ser ouvidas apesar do tumulto.
— Mamãe! — gritou alguém logo abaixo de Avice, cada vez mais histérica. — Mamãe! Mamãe!
Ao seu lado, uma jovem interrompeu a oração que fazia e exclamou para si mesma:
— Não consigo acreditar! Não consigo acreditar!
A multidão, um mar de bandeiras australianas e britânicas, crescia e se animava à medida que o empurra-empurra aumentava na beira do cais. Cada um tentava se empoleirar na pessoa ao lado para ser visto por quem estava a bordo. Vários cartazes eram empunhados no alto: “Que Deus te proteja, Audrey”, “Os trabalhadores do estaleiro de Garden Island desejam boa sorte”. Ela observou o porto ao redor, depois as colinas ao longe. Então esta é minha última visão da Austrália?, pensou, de repente, sem fôlego. Depois, com um solavanco, os rebocadores se distanciaram e soltaram o navio das amarras. Com um rugido, o Victorious se afastou do cais, cambaleante, baixando um pouco na água enquanto a âncora era recolhida.
Houve um suspiro coletivo. Os motores começaram a ganhar potência. Uma garota deu um grito estridente e mais alto do que a banda, que naquele momento já estava bem visível no cais e começava a tocar Waltzing Matilda.
Alguns objetos foram arremessados do ancoradouro, mas caíram no mar, formando pequenos respingos de futilidade. A estreita faixa de água azul se expandiu abaixo e foi ficando ainda maior. O navio, indiferente à loucura ao redor, deslizou com velocidade surpreendente para longe do porto.
— Você vai se arrepender! — gritou uma única voz mais alta do que a música. Ao que parecia, era em tom de brincadeira. — Todas vão se arrepender!
Foi nesse instante que as passageiras ficaram quietas. Depois, como se para quebrar o silêncio, uma delas começou a chorar.

* * *

Murray Donleavy abraçou o filho que chorava, depois ficou ao seu lado em silêncio enquanto a multidão se dispersava e o lamento das mulheres se tornava mais nítido. No final, só restaram pequenos grupos observando o navio se distanciando e se fundindo aos poucos com o horizonte. Estava ficando frio e o garoto tremia. Murray tirou o casaco, jogou-o sobre os ombros do filho, depois puxou o menino para perto para aquecê-lo.
De vez em quando, Daniel erguia a cabeça como se quisesse falar, mas não conseguia encontrar palavras e recomeçava a chorar em silêncio, tapando o rosto com as mãos, como se suas lágrimas fossem motivo de vergonha.
— Não há do que se desculpar, filho — sussurrou Murray. — Está sendo um dia difícil.
A picape deles era um dos poucos veículos que sobraram e estava estacionada no meio de um mar de serpentinas enlameadas e papéis de bala. Murray deu a volta no carro para abrir a porta do motorista, mas parou quando percebeu que o filho estava imóvel e encarando-o.
— Você está bem?
— Acha que ela vai me odiar, pai?
Murray se aproximou do filho e o abraçou de novo.
— Não seja tão sentimental — disse, bagunçando o cabelo do menino. — Ela vai implorar pela sua visita mais cedo do que você pensa.
— Na Inglaterra?
— Por que não? Continue economizando o dinheiro dos coelhos e logo vai poder voar para lá. As coisas estão mudando depressa.
Daniel olhou para o nada, sendo transportado para um mundo repleto de peles de animal de altíssimo valor e aviões enormes.
— Vou poder voar para lá.
— Como falei, filho, economize seu dinheiro. No ritmo que está, você vai conseguir pagar a viagem para todos nós.
Então Daniel sorriu, e o pai ficou com o coração apertado ao vê-lo enfrentar mais uma perda com tanta coragem. Devia ter sido isso que as mulheres sentiram durante a guerra, pensou ele, subindo na picape. A diferença é que elas não sabiam se voltaríamos. Cuide dela, pediu silenciosamente ao navio. Cuide da minha garota.
Eles ficaram um tempo sentados no carro, observando as pessoas saírem pelo portão do estaleiro e deixarem exposta a vasta extensão de terra que antes estivera invisível, escondida sob a multidão. O vento estava mais forte, fazendo pedacinhos de papel voarem por todo o cais, que depois eram afundados pelas gaivotas.
Murray suspirou e de repente se deu conta da distância que ainda precisava percorrer até chegar em casa.
— Papai, ela esqueceu os sanduíches.
Ao seu lado, Daniel ergueu a embalagem impermeável que Letty preparara naquela manhã.
— Estava aqui, no chão. Ela esqueceu o almoço.
Murray franziu a testa, tentando se lembrar do que a filha dissera sobre deixar os sanduíches em casa. Ah, bem, pensou, ela deve ter se atrapalhado. As mulheres são assim quando estão grávidas. Em qualquer lugar. Noreen tinha sido igual.
— Posso comer, papai? Estou morrendo de fome.
Murray enfiou a chave na ignição.
— Não vejo por que não. Não têm mais serventia para ela. Aliás, guarde um para mim.
Tinha finalmente começado a chover: o céu cinza que ameaçara vir abaixo durante o dia inteiro respingava no para-brisa. Murray deu partida e se afastou devagar, em marcha a ré. De repente, pisou no freio, jogando Daniel para a frente e espalhando pelo painel o pedaço de sanduíche que ele mastigava.
— Espere — gritou ele, o rosto se iluminando com a lembrança de uma cesta vazia e da pressa inexplicável da filha em subir a bordo. — Onde está o maldito cachorro?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!