30 de março de 2019

Capítulo 3

Bonnie afofou os cachos ruivos ao andar às pressas pelo gramado da Dalcrest. Era tão lindo ali. Estreitas calçadas de lajota margeavam o gramado, levando aos vários alojamentos e prédios de aulas. Flores de cores vivas — petúnias, beijo-turco, margaridas — cresciam em toda parte, pelas laterais do caminho e na frente dos prédios.
O cenário humano também era lindo, pensou Bonnie, disfarçadamente olhando um garoto bronzeado deitado numa toalha perto da margem do gramado. Mas não disfarçou tão bem — o cara levantou a cabeça morena e desgrenhada e piscou para ela. Bonnie riu e acelerou o passo, com o rosto em brasa. Sinceramente, ele não devia estar desfazendo as malas, arrumando o quarto ou coisa assim? Em vez de só ficar deitado seminu, piscando para meninas que passavam como um grande... sedutor.
A sacola de coisas que Bonnie tinha comprado na livraria do campus tilintava de leve em sua mão. É claro que ela não pôde comprar livro nenhum, já que eles só se matriculariam nas matérias no dia seguinte, mas aparentemente a livraria vendia de tudo. Ela comprou umas coisas ótimas: uma caneca da Dalcrest, um ursinho de pelúcia com uma camiseta fofa da Dalcrest e alguns artigos que viriam a calhar, como um porta-trecos de chuveiro bem organizado e uma coleção de canetas de todas as cores do arco-íris. Bonnie precisava admitir que estava muito animada com o início na faculdade.
Ela passou a sacola para a mão esquerda e flexionou os dedos dormentes da direita. Animada ou não, todas essas coisas que comprara eram pesadas.
Mas precisava delas. Seu plano era este: ela se tornaria uma nova pessoa na faculdade. Não inteiramente nova; gostava muito de si mesma, na maior parte do tempo. Mas ia se tornar mais líder, mais madura, o tipo de pessoa de quem os outros dizem “Pergunte à Bonnie” ou “Confie na Bonnie”, em vez de “Ah, Bonnie”, o que era completamente diferente.
Estava decidida a sair da sombra de Meredith e Elena. É claro que as duas eram demais, suas melhores amigas sem sombra de dúvida, mas elas nem percebiam o quanto eram terrivelmente mandonas o tempo todo. Bonnie queria se tornar uma pessoa incrível e cheia de autoridade por mérito próprio.
Além disso, talvez conhecesse um cara realmente especial. Isso seria ótimo. Bonnie não podia culpar Meredith nem Elena pelo fato de, por todo o ensino médio, ela ter tido muitos encontros, mas nenhum namorado sério. Mas a dura realidade era que, mesmo que todos a achassem uma graça, se duas de suas amigas mais íntimas eram lindas, inteligentes e poderosas, o tipo de garoto que quer se apaixonar pode achar você meio... banal, em comparação.
Bonnie tinha de admitir, porém, que ficou aliviada por ela, Meredith e Elena morarem juntas. Podia não querer ficar na sombra das duas, mas elas ainda eram suas melhores amigas. E, afinal...
Tum. Alguém esbarrou de lado em Bonnie, que perdeu o fio do raciocínio e cambaleou para trás. Um corpo masculino e grande arremeteu em direção a ela de novo, batendo brevemente o rosto de Bonnie em seu peito, e ela tropeçou, caindo na lateral de alguém. Havia meninos a toda volta, empurrando-se, brincando e brigando, sem prestar atenção nela, que era jogada entre eles, até que alguém de mão forte de repente a segurou no meio do tumulto.
Quando Bonnie conseguiu se equilibrar, eles estavam se mexendo de novo, cinco ou seis corpos masculinos se empurrando, sem parar para pedir desculpas, como se nem ao menos tivessem percebido Bonnie, como se ela não passasse de um obstáculo inanimado no caminho.
A não ser por um deles. Bonnie se viu olhando para uma camiseta azul desbotada e um tronco magro com braços musculosos. Ela se endireitou e ajeitou o cabelo, e a mão que segurava seu braço a soltou.
— Você está bem? — perguntou uma voz baixa.
Estaria melhor se você quase não tivesse me nocauteado, Bonnie estava prestes a responder, ferina. Estava sem fôlego, a sacola era pesada, e aquele cara e os amigos precisavam seriamente olhar por onde andavam. Então ela levantou a cabeça e seus olhos encontraram os dele.
Uau. O cara era lindo. Os olhos eram de um azul claro e sincero, a cor do céu ao amanhecer de um dia de verão. Suas feições eram bem definidas, as sobrancelhas arqueadas, as maçãs do rosto altas, mas a boca era macia e sensual. E ela nunca vira um cabelo daquela cor, só em crianças mais novas, aquele louro claro que a fazia pensar em praias tropicais sob um céu de verão...
— Você está bem? — repetiu ele, mais alto, com um franzido de preocupação na testa perfeita.
Meu Deus. Bonnie se sentia corando até a raiz do cabelo. Ela o estava encarando de boca aberta.
— Estou ótima. — Tentou se recompor. — Acho que não prestei atenção aonde estava indo.
Ele sorriu, e um zing! mínimo disparou por Bonnie. O sorriso dele também era lindo e iluminava todo seu rosto.
— Gentileza sua dizer isto — disse ele —, mas acho que talvez nós é que devíamos olhar aonde estávamos indo em vez de nos empurrarmos pelo caminho. Meus amigos às vezes ficam meio... turbulentos.
Ele olhou por cima do ombro de Bonnie, que olhou para trás. Os amigos tinham parado e esperavam por ele mais adiante. Enquanto Bonnie olhava, um deles, um cara moreno e alto, bateu na nuca de outro, e um instante depois eles estavam se atracando e se empurrando de novo.
— É, estou vendo — disse Bonnie, e o lindo louro riu. Seu sorriso vibrante fez Bonnie imitar o gesto, e ela voltou a atenção para aqueles olhos.
— Mas, então, aceite minhas desculpas — disse ele. — Sinto muito. — E estendeu a mão. — Meu nome é Zander.
O aperto dele era agradável e firme, a mão grande e quente envolvendo a dela. Bonnie se sentiu ruborizar de novo, jogou os cachos ruivos para trás e empinou o queixo corajosamente. Não ia demonstrar que estava toda afobada. E daí que ele era lindo? Ela era amiga — mais ou menos — de Damon. A essa altura, devia ser imune a homens bonitos.
— Meu nome é Bonnie. — Ela sorriu para ele. — É meu primeiro dia aqui. Você também é calouro?
— Bonnie — disse ele, pensativo, arrastando a pronúncia do nome dela um pouco, como se o saboreasse. — Não, já estou aqui há algum tempo.
— Zander... Zander... — Os meninos na calçada começaram a entoar, as vozes ficando mais aceleradas e mais altas com as repetições. — Zander... Zander... Zander.
Ele estremeceu, voltando a atenção para os amigos.
— Desculpe, Bonnie, tenho que correr — disse ele. — Estamos numa espécie de... — ele se interrompeu. — Lance de clube. Mas, como eu disse, me desculpe por quase termos derrubado você. Espero que a gente se veja de novo logo, está bem?
Ele apertou a mão de Bonnie mais uma vez, abriu-lhe um sorriso demorado e se afastou, ganhando velocidade ao se aproximar dos amigos. Bonnie o viu se reunir ao grupo de meninos. Pouco antes de eles virarem para um alojamento, Zander olhou para ela, abriu aquele sorriso lindo e acenou.
Bonnie ergueu a mão para retribuir o aceno, acidentalmente batendo a sacola pesada contra o corpo enquanto ele virava.
Demais, pensou ela, lembrando-se da cor dos olhos dele. Eu poderia me apaixonar.


Matt se recostou na pilha instável de malas que tinha formado na entrada de seu quarto do alojamento.
— Droga — disse ele, mexendo com a chave na fechadura da porta. Eles nem haviam lhe dado a chave certa?
— Ei — chamou uma voz atrás dele, e Matt teve um sobressalto, derrubando uma das malas no chão. — Opa, desculpe por isto. Você é o Matt?
— Sou. — Matt girou a chave uma última vez e finalmente abriu a porta. Ele se virou, sorrindo. — Você é o Christopher? — A faculdade havia lhe dito o nome do colega de quarto, e que ele também era do time de futebol americano, mas os dois ainda não tinham se encontrado. Christopher parecia legal. Era um grandalhão com corpo de zagueiro, sorriso simpático e cabelo louro-areia curto que ele coçava com uma das mãos ao recuar para abrir espaço ao animado casal de meia-idade que o seguia.
— Olá, você deve ser o Matt — disse a mulher, que carregava um tapete enrolado e uma flâmula da Dalcrest. — Meu nome é Jeniffer, mãe de Christopher, e este é Mark, o pai dele. É um prazer conhecê-lo. Seu pessoal está aqui?
— Hummm, não, vim sozinho de carro. Minha cidade, Fell’s Church, não fica muito longe daqui. — Matt pegou as malas e levou-as para o quarto, apressando-se para sair do caminho da família de Christopher.
O quarto dos dois era bem pequeno. Tinha um beliche junto a uma parede, um espaço estreito no meio e duas mesas e cômodas espremidas lado a lado na outra parede.
As meninas e Stefan sem dúvida moravam no luxo, mas não parecia muito certo Stefan usar seu Poder para conseguir um bom quarto para Matt. Já era bem ruim Matt ter pegado a vaga de um aluno e o lugar de outro no time de futebol.
Stefan o convencera a fazer exatamente isso.
— Olhe, Matt — disse ele, com os olhos verdes sérios. — Entendo como se sente, não gosto de influenciar as pessoas para fazerem o que eu quero. Mas a realidade é que precisamos ficar juntos. Com as linhas de Poder que correm por toda esta parte do país, temos que estar sempre de sobreaviso. Somos os únicos que sabem.
Quando Stefan colocou dessa forma, Matt teve de concordar. Mas rejeitou o quarto de alojamento suntuoso que Stefan se oferecera para arrumar e ficou com o que a administração tinha lhe atribuído. Tinha de se ater a pelo menos uma migalha de sua honra. Além do mais, se ficasse no mesmo alojamento dos outros, teria sido difícil se negar a dividir um quarto com Stefan. Ele gostava muito de Stefan, porém seria demais morar com ele, vê-lo com Elena, a menina por quem Matt tinha sido apaixonado, e que ainda amava apesar de tudo que acontecera. E seria divertido conhecer gente nova, expandir um pouco os horizontes depois de passar a vida toda em Fell’s Church.
Mas o quarto era mesmo pavorosamente pequeno.
E Christopher parecia ter uma tonelada de coisas. Ele e os pais subiram e desceram a escada, carregando um sistema de som, um frigobar, uma TV, um Wii. Matt enfiou suas três malas no canto e os ajudou a carregar tudo.
— Vamos dividir a geladeira e o sistema de entretenimento, claro — disse Christopher, olhando para as malas de Matt, que claramente não continham nada além de roupas e talvez alguns lençóis e toalhas. — Se conseguirmos achar um lugar onde enfiar tudo. — A mãe de Christopher andava pelo quarto, orientando o pai sobre onde colocar as coisas.
— Ótimo, obrigado... — Matt começou a falar, mas o pai de Christopher, depois de enfim conseguir alojar a TV no alto de uma das cômodas, virou-se para Matt.
— Ei — disse ele. — Acabo de me lembrar... Se é de Fell’s Church, vocês foram campeões estaduais no ano passado. Você deve ser um jogador e tanto. Em que posição joga?
— Hummm, obrigado — agradeceu Matt. — Sou quarterback.
— Titular? — perguntou o pai de Christopher.
Matt corou.
— É.
Agora todos o encaravam.
— Caramba — disse Christopher. — Não quero ofender, cara, mas por que você veio para a Dalcrest? Quero dizer, estou animadão de jogar na faculdade, mas você podia ter ido, tipo, para a primeira divisão.
Matt deu de ombros, pouco à vontade.
— Humm, eu precisava ficar perto de casa.
Christopher abriu a boca para falar mais alguma coisa, porém a mãe meneou a cabeça de leve e ele se calou. Quee ótimo, pensou Matt. Devem pensar que ele tinha problemas familiares.
Mas ele precisava admitir que ficara um pouco comovido por estar com pessoas que reconheciam tudo de que ele havia desistido. As meninas e Stefan não entendiam muito de futebol americano. Embora Stefan tivesse jogado em seu time da escola, a mentalidade dele ainda era a do aristocrata europeu da Renascença: os esportes eram passatempos agradáveis que mantinham o corpo em forma. Stefan não se importava, na realidade.
Mas Christopher e a família dele — eles entendiam o que significava para Matt desprezar a chance de jogar em um time de futebol universitário de primeira linha.
— Então — disse Christopher, meio de repente demais, como se tentasse pensar num jeito de mudar de assunto —, que cama vai querer? Não ligo de ficar com a de cima ou a de baixo.
Todos olharam para os beliches, e foi aí que Matt o viu pela primeira vez. Deve ter chegado enquanto ele estava no térreo ajudando Christopher com a bagagem. Um envelope de cor creme no beliche de baixo, feito de um papel grosso e elegante como um convite de casamento. Na frente estava escrito em caracteres elaborados: “Matthew Honeycutt”.
— O que é isso, querido? — perguntou a mãe de Christopher, com curiosidade.
Matt deu de ombros, mas começou a sentir a empolgação bater no peito. Ouvira falar alguma coisa sobre convites que certas pessoas da Dalcrest recebiam, que apareciam misteriosamente, mas ele sempre achou que era um mito.
Virando o envelope, ele viu um lacre de cera azul com a impressão de uma letra V ornamentada.
Hummm. Depois de olhar o envelope por um segundo, Matt o dobrou e colocou no bolso traseiro. Se fosse o que estava pensando, deveria abrir a sós.
— Acho que é o destino nos dizendo que o beliche de baixo é seu — disse Christopher afavelmente.
— É. — Matt estava distraído, com o coração aos saltos. — Podem me dar licença por um minuto?
Ele foi até o corredor, respirou fundo e abriu o envelope. Dentro dele havia mais um papel grosso e elegante com a mesma caligrafia e um pedaço estreito de tecido preto. Dizia:

Fortis Aeturnus
Por gerações, os melhores e mais brilhantes da Dalcrest College foram escolhidos para integrar a Vitale Society. Este ano, você foi selecionado.
Se desejar aceitar esta honra e se tornar um de nós, vá amanhã às oito horas ao portão principal do campus. Deve estar vendado e vestindo traje para ocasiões solenes.
Não conte a ninguém.

O leve retumbar de empolgação no peito de Matt aumentou até ele ouvir o coração martelando nos ouvidos. Ele escorregou pela parede e respirou fundo.
Já tinha ouvido histórias sobre a Vitale Society. Alguns atores conhecidos, escritores famosos e grandes generais da Guerra Civil que a Dalcrest contava entre os ex-alunos foram integrantes da Vital Society, segundo os boatos. Pertencer à lendária sociedade devia assegurar seu sucesso, ligar você a uma rede incrivelmente secreta que o ajudaria por toda a vida.
Mais que isso, falavam de feitos misteriosos, de segredos que só eram revelados aos membros. E eles deviam dar festas incríveis.
Mas tudo isso era apenas fofoca, e ninguém jamais admitiu abertamente pertencer à sociedade. Matt sempre imaginou que era um mito. A própria faculdade negava veementemente qualquer conhecimento sobre a Vitale Society, e Matt desconfiava que o pessoal da admissão pudesse ter inventado a coisa toda, tentando fazer com que a universidade parecesse um pouco mais exclusiva e misteriosa do que realmente era.
No entanto, ali — ele olhou o papel creme nas mãos — estava a prova de que todas as histórias podiam ser verdadeiras. Podia ser uma brincadeira, supôs ele, um trote que alguém pregava em alguns calouros. Mas não parecia brincadeira. O lacre, a cera, o papel caro; era muito esforço para um convite que não fosse genuíno.
A sociedade mais exclusiva e mais secreta da Dalcrest era real. E eles queriam Matt.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!