30 de março de 2019

Capítulo 39

Stefan não tinha um plano quando concordou em ficar no lugar de Matt. Só sabia que precisava salvar Matt, e agora torcia para que Damon viesse até ele. Os punhos de Stefan emanavam uma dor surda, latejante e insistente, quase impossível de ser ignorada. Ele tentou mais uma vez puxar as cordas que o mantinham na cadeira, virando as mãos da esquerda para a direita numa tentativa de afrouxar as amarras, mas era inútil. Não conseguia deslocá-las.
Confuso, Stefan olhou em volta. A sala parecia ao mesmo tempo serena e misteriosa novamente, como na primeira vez em que tinha passado pela porta. Um bom lugar para uma sociedade secreta. Archotes ardiam com força, flores estavam arrumadas no altar improvisado. Os Vitale não tiveram pressa de limpar depois de amarrá-lo e matar os aspirantes.
As cordas estavam cruzadas em seu peito, estômago e costas, os tornozelos e joelhos estavam amarrados às pernas da cadeira, e os cotovelos e pulsos, aos braços. Ele fora bem amarrado, mas a corda nos pulsos era a que mais doía, porque pegava a pele nua. E queimava.
— Estão ensopadas de verbena para que você fique fraco demais para se libertar, mas creio que deve arder um pouco — disse Ethan num tom simpático, como se explicasse um elemento interessante da arquitetura da câmera secreta ao convidado. — Veja bem, eu posso ser novo nisto, mas conheço todos os truques.
Stefan pousou a cabeça nas costas da cadeira e olhou para Ethan com uma repulsa fervorosa.
— Nem todos os truques, desconfio.
Ethan era convencido, mas Stefan tinha certeza de que não era vampiro há muito tempo. Se Ethan ainda fosse humano, se nunca tivesse se tornado vampiro, Stefan imaginava que ele seria mais ou menos como era agora.
Ethan se agachou na frente da cadeira para olhar no rosto de Stefan, com o mesmo sorriso caloroso e simpático de quando tentou convencê-lo a se juntar a eles. Parecia um cara agradável, alguém com quem você quer relaxar e em quem quer confiar, e Stefan o olhou com raiva. O sorriso era uma farsa. Ethan era um assassino cuja máscara era menos evidente que a dos outros vampiros Vitale, só isso.
— Você deve ter razão nisso — disse Ethan, pensativo. — Imagino que exista todo tipo de truque que você aprendeu em... o quê, mais de quinhentos anos? Truques que ainda não conheço. Você pode ser muito útil a mim dessa maneira, se finalmente decidir se juntar a nós. Há muitas coisas que pode nos ensinar sobre toda essa coisa de vampiro. — Ele abriu aquele sorriso atraente de novo. — Sempre fui um bom aluno.
Coisa de vampiro.
— O que quer de mim, Ethan? — perguntou Stefan, cansado. Tinha sido uma noite longa entre semanas longas, e as cordas com verbena feriam seus braços, toldando os pensamentos.
Ethan sabia que idade ele tinha. Ethan sabia o que oferecer a ele quando conversaram pela primeira vez sobre a Vitale Society. Não era coincidência que ele estivesse nessa sala, então; Ethan não procurava um vampiro qualquer.
— Qual é o seu plano? — perguntou Stefan novamente.
O sorriso de Ethan ficou maior.
— Estou formando um exército invencível de vampiros, é claro. — Seu tom era animado. — Sei que parece meio ridículo, mas tudo se trata de poder. E o poder nunca é ridículo. — Ele lambeu os lábios, nervoso, mostrando um flash de língua rosa e fina. — Veja só, antigamente eu era apenas uma pessoinha comum. Era como todo mundo no campus. Minhas maiores realizações eram boas notas nas provas ou o fato de que eu tinha a liderança de um clube universitário secreto. Você nem acreditaria em como a Vitale Society era fraca. Só magia branca e adoração da natureza. — Ele fez uma careta autodepreciativa: Veja como eu era tolo. Estou lhe contando algo constrangedor a respeito de mim mesmo, então confie em mim. — Mas depois entendi como ter poder real.
Uma das figuras de preto apareceu atrás de Ethan, e este ergueu um dedo para Stefan.
— Espere um minuto, sim? — Ele se levantou e virou-se para falar com seu comandado.
Depois de amarrar Stefan, Ethan tinha voltado eficientemente a esgotar os aspirantes, um depois do outro, largando os corpos assim que terminava com eles. Todos agora tinham passado pela transição e estavam de pé. Pareciam irritadiços e desorientados, grunhindo e brigando entre eles, olhando para Ethan com uma adoração patente.
Típico de novos vampiros. Stefan os observou com cautela. Até que se alimentassem plenamente, eles iam pairar à beira da loucura, e seria fácil Ethan perder o controle deles. Depois ficariam ainda mais perigosos.
— Os aspirantes precisam se alimentar — disse Ethan calmamente à mulher de manto ao lado dele. — Cinco de vocês devem levá-los para fora e ensiná-los a caçar. Você lidera o grupo de caça e escolhe quem quiser para ir com você. O resto ficará aqui e ajudará a guardar nosso convidado.
Stefan viu os Vitale se arrumarem. Oito seguidores de Ethan continuavam ali, parados nas laterais da sala. Stefan conseguiu matar um deles durante a briga, rasgando sua garganta, mas o corpo fora levado para algum lugar.
Stefan soltou um gemido involuntário. Era difícil pensar direito — estava cansado demais, e a verbena começava a machucar o corpo todo; não só os pulsos, mas todos os lugares em que as cordas tocavam as roupas. Damon, por favor, venha rápido. Por favor, Damon, pensou.
— Vai soltar nove vampiros recém-criados pelo campus? — perguntou a Ethan, com a mente voltando ao problema atual. — Ethan, eles vão matar. Pessoas que talvez sejam suas amigas. Vão chamar atenção para vocês. O campus já está cheio de policiais. Por favor, leve-os ao bosque para caçar animais. Eles podem viver de sangue animal. — Ele ouviu um tom suplicante tomar a própria voz enquanto Ethan apenas sorria distraidamente para ele, como se Stefan fosse uma criança implorando para ir à Disney. — Vamos lá, Ethan, não faz muito tempo que você também era humano. Não pode querer ficar estático e ver alunos inocentes serem assassinados.
Ethan deu de ombros, batendo levemente no ombro de Stefan enquanto começava a andar para conferenciar com outro de seus capangas.
— Eles precisam ser fortes, Stefan. Quero que estejam no auge durante o próximo equinócio. E já matamos muitos alunos inocentes — disse por sobre o ombro.
— Equinócio? Ethan — gritou Stefan às costas dele, frustrado.
Olhou freneticamente para a porta pela qual os aspirantes e seus acompanhantes estavam saindo. Eles levariam algum tempo para escolher as vítimas. Atualmente não havia muitos alunos andando sozinhos pelo campus à noite. Se ele se soltasse, se Damon aparecesse agora e o libertasse, eles podiam impedir a chacina. Se todos esses vampiros novos ficassem à solta no campus, seria um massacre.
Ethan não pode ter transformado o resto da Vitale Society ao mesmo tempo, percebeu ele. Teria sido impossível disfarçar o número de assassinatos que teriam acontecido. Esta deve ter sido a primeira iniciação em massa. E quem transformou Ethan?, perguntou-se. Havia um vampiro mais velho em algum lugar no campus?
Damon, onde você está? Ele não tinha dúvida de que Damon viria, se pudesse.
Apesar da desavença entre eles por causa de Elena, as coisas tinham mudado o bastante entre os irmãos para Stefan saber que podia confiar que Damon o resgataria. Ele havia salvado sua vida antes, afinal, quando lutaram com Katherine e Klaus. Agora havia algo sólido como uma rocha entre eles, algo que não existia um ano antes, nem nas centenas de anos antes disso. Ele fechou os olhos e se ouviu soltar um riso seco e doloroso. Parecia um momento inoportuno para começar a ter revelações sobre os próprios problemas familiares.
— Então — disse Ethan, batendo papo, voltando para seu lado e puxando uma cadeira —, estávamos falando do equinócio.
— Sim — disse Stefan, com acidez na voz.
Não ia deixar que Ethan visse que estava ansioso em relação à porta, na expectativa. Precisava manter a frieza para que Damon tivesse o elemento surpresa ao seu favor. Ele devia manter Ethan falando, distraído, para o caso de Damon chegar, então fixou uma expressão de interesse no rosto e olhou atentamente para Ethan.
— Na época do equinócio, quando dia e noite estão perfeitamente equilibrados, a linha entre vida e morte fica em seu ponto mais fraco e permeável. É quando os espíritos podem atravessar os mundos — começou Ethan teatralmente, com gestos largos.
Stefan suspirou.
— Eu sei disso, Ethan — disse com impaciência. — Passe ao que interessa. — Ele tinha que manter Ethan distraído, mas não precisava alimentar seu ego.
Ethan baixou a mão.
— Lembra-se de Klaus, não é? — perguntou. — O criador de sua linhagem? Nós o estamos ressuscitando. Tendo ele como chefe de nosso grupo, seremos invencíveis.
Tudo ficou imóvel por um momento, como se o coração lento de Stefan finalmente tivesse parado. Depois ele respirou fundo. Sentia como se Ethan o tivesse estapeado na cara. Não conseguiu falar por um momento. Quando conseguiu, disse, ofegante:
— Klaus? Klaus, o vampiro que... — Nem conseguiu terminar a frase.
Sua mente se encheu de Klaus: o Antigo, o vampiro Original, o louco. O vampiro que controlava os raios, que se gabava de não ter sido feito, de simplesmente ser. Nas lembranças mais remotas de Klaus, ele havia dito a Stefan que portava um machado de bronze; era um bárbaro no portão, em meio àqueles que destruíram o Império Romano. Alegava ter começado a raça dos vampiros.
Klaus tinha mantido o espírito de Elena refém e torturado a inocente Vickie Bennett até a morte para se divertir. Ele transformara Katherine, primeiro em vampira, depois numa boneca cruel em vez de numa pessoa, transformando-a até torná-la impiedosa e obtusa, interessada apenas em atormentar aqueles que um dia amara. Stefan, Damon e Elena por fim o mataram, mas foi quase impossível, teria sido impossível sem um batalhão de fantasmas irrequietos da Guerra Civil, presos ao campo de batalha banhado de sangue de Fell’s Church.
— Klaus que fez a vampira que fez você — disse Ethan, animado. — Foi outra descendente dele, que conheci na Europa este verão em minha viagem ao exterior. Eu a convenci a me transformar em vampiro. Ela me ensinou uns truques também, como o uso da verbena, e que o lápis-lazúli pode nos proteger do sol. Coloquei lápis-lazúli nos broches que usamos agora, assim todos os membros o usam o tempo todo. Ela foi muito útil, essa vampira que me transformou. E me contou tudo sobre Klaus. — Ele sorriu calorosamente para Stefan de novo. — Veja só, você devia gostar de mim, Stefan. Somos praticamente primos.
Stefan fechou os olhos por um momento.
— Klaus era louco — tentou explicar. — Ele não vai trabalhar com você, vai destruí-lo.
Ethan suspirou.
— Mas eu sinceramente acho que posso trabalhar com ele. Sou muito convincente. E estou oferecendo soldados a ele. Soube que Klaus gosta de guerra. Não há motivo para ele se voltar contra nós; queremos dar a ele tudo que ele quer. — Ele parou e olhou para Stefan, ainda sorrindo, mas agora havia um elemento naquele sorriso largo que não agradou a Stefan: uma falsa inocência. Ethan ia perguntar alguma coisa e Stefan já sabia a resposta. — Isso quer dizer que não está interessado em se juntar ao nosso exército, primo? — perguntou com uma falsa surpresa.
Trincando os dentes, Stefan se retesou nas cordas mais uma vez, mas elas não cederam. Ele fuzilou Ethan com os olhos.
— Não vou ajudar você — disse ele. — Nunca.
Ethan chegou mais perto, inclinando-se até o rosto ficar no mesmo nível do de Stefan.
— Mas vai — disse levemente, com um certo orgulho nos olhos. — Quer queira, quer não. Veja só, o que mais preciso para trazer Klaus de volta é sangue. — Ele passou as mãos pelos cachos, meneando a cabeça. — Sempre se usa sangue para esse tipo de coisa, já percebeu? — acrescentou.
— Sangue? — perguntou Stefan, apreensivo.
Os jovens vampiros nunca eram racionais, em sua opinião; a excitação inicial dos novos sentidos e dos Poderes era suficiente para aturdir qualquer um. Estava começando a pensar, porém, que a sanidade que restava a Ethan não era muito forte. Ele convenceu alguém a transformá-lo em vampiro?
— O sangue dos descendentes dele, especificamente. — Ethan assentiu, presunçoso. — Por isso fiquei tão deliciado ao descobrir que você estava bem aqui, no campus. Localizar os descendentes de Klaus foi meu passatempo neste verão, depois de eu ter convencido a primeira que conheci a me transformar. Alguns me deram sangue de boa vontade, quando souberam o que eu queria fazer. Nem todos os descendentes de Klaus são ingratos como você. Só preciso de um pouco mais, então terei o bastante. O seu, é claro — e seus olhos voaram para a porta que Stefan vigiava disfarçadamente o tempo todo, esperando por Damon —, e o de seu irmão. Suponho que ele chegará a qualquer minuto, não?
O coração de Stefan pesou no peito, e ele olhou abertamente a porta. Damon, por favor, fique aí fora, pensou, desesperado.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!