30 de março de 2019

Capítulo 38

Bonnie não estava com as chaves. Sabia exatamente onde elas estavam, mas isso não ajudava muito: estavam na mesa de cabeceira ao lado da cama de solteiro simples e arrumada de Zander. Ela xingou e chutou a porta, as lágrimas escorrendo pelo rosto. Como ia pegar suas coisas?
Um aluno abriu a porta da frente do prédio para ela.
— Caramba, relaxe — disse ele, mas Bonnie já passava aos empurrões e corria escada acima até o quarto.
Por favor, que tenha alguém aqui, pensou, agarrada ao corrimão, por favor. Não tinha dúvida de que Elena e Meredith a reconfortariam e ajudariam, independentemente do que ela tivesse dito durante a briga. Elas ajudariam Bonnie a pensar no que fazer.
Mas talvez elas tivessem saído. E Bonnie não sabia onde encontrar Meredith e Elena, não tinha nenhuma ideia de onde elas passavam seu tempo livre ultimamente.
Como pude me afastar tanto das minhas melhores amigas?, perguntou-se Bonnie, passando as mãos pelo rosto para limpar as lágrimas e o muco. Por que havia tratado as duas tão mal? Elas só queriam protegê-la. E tinham razão sobre Zander; as duas tinham. Bonnie fungou, infeliz.
Quando chegou ao alto da escada, bateu o punho na porta do quarto, ouvindo um movimento rápido no interior. Elas estavam em casa. Graças a Deus.
— Bonnie? — disse Meredith, assustada ao abrir a porta. — Ah, Bonnie — suspirou enquanto a menina se atirava, aos prantos, em seus braços. Meredith a abraçou, apertado e com força, e pela primeira vez desde que fugiu de Zander e correu pela escada de incêndio, Bonnie se sentia segura.
— O que foi, Bonnie? O que aconteceu? — Elena estava atrás de Meredith, olhando com ansiedade.
Em algum lugar Bonnie percebeu que o rosto branco e assustado da amiga também estava marcado de lágrimas. Ela estava interrompendo alguma coisa, mas não podia se concentrar naquilo agora.
Atrás de Elena, ela se viu rapidamente no espelho. Seu cabelo se destacava em volta do rosto numa nuvem vermelha e rebelde, os olhos estavam vidrados e a face pálida, manchada de sujeira e lágrimas. Parece que fui perseguida por lobisomens, pensou Bonnie com um riso silencioso e meio histérico.
— Lobisomens — gemeu ela enquanto Meredith a puxava para dentro do quarto. — Todos eles são lobisomens.
— Do que você está... — Meredith se interrompeu. — Bonnie, está falando de Zander e dos amigos deles? Eles são lobisomens?
Bonnie assentiu com raiva, enterrando o rosto no ombro da outra menina. A amiga a afastou e olhou atentamente em seus olhos.
— Tem certeza, Bonnie? — perguntou com gentileza. Ela olhou para Elena, e as duas se viraram e olharam o céu pela janela. — Viu a transformação deles? Ainda não é lua cheia.
— Não — disse Bonnie. Ela tentou recuperar o fôlego, tomando golfadas abruptas e soluçantes de ar. — Zander me contou. E depois... ah, Meredith, foi tão apavorante... eu fugi, e eles vieram atrás de mim. — Ela explicou o que aconteceu, no terraço e nos gramados da faculdade.
Meredith e Elena se olharam indagativamente, depois voltaram a Bonnie.
— Por que ele contou a você? — perguntou Elena. — Ele não pode ter pensado que você teria uma boa reação a essa notícia; teria sido mais fácil continuar escondendo.
Bonnie meneou a cabeça, desamparada.
Meredith arqueou uma sobrancelha irônica para ela.
— Até os monstros podem se apaixonar — disse. — Pensei que soubesse disso, Elena. — Ela olhou para o bastão de caçadora, recostado ao pé da cama. — Quando vier a lua cheia, agora sei o que procurar.
Bonnie a encarou, horrorizada.
— Não vai machucá-los, vai? — Era uma pergunta estúpida, ela sabia.
Se Zander e os amigos realmente estavam por trás dos assassinatos e desaparecimentos do campus, Meredith tinha de caçá-los. Era responsabilidade dela. Responsabilidade de todos eles, aliás, porque, se eram os únicos que sabiam a verdade, eram os únicos que podiam garantir a segurança de todos.
Mas Zander... Algo dentro dela uivou de dor. Zander não...
— Nenhum dos ataques aconteceu durante a lua cheia — disse Elena pensativamente, e Meredith e Bonnie piscaram para ela.
— É verdade. — Meredith franziu a testa, refletindo. — Não sei como não percebemos isso antes. Bonnie — disse ela. — Pense bem antes de responder. Você passou muito tempo com Zander e os amigos dele. Tinha alguma coisa neles que a fizesse pensar que eles podiam machucar alguém, de verdade, quando não estão na forma de lobo?
— Não! — disse Bonnie automaticamente. Depois parou, pensou e disse, mais devagar: — Acho que não. O Zander é realmente gentil, e não acho que ele conseguiria fingir isso. Não o tempo todo. Eles brincam de um jeito bruto, mas nunca vi nenhum deles brigar com ninguém de fora do grupo. E, mesmo entre eles, não brigam de verdade, só ficam se atracando.
— Sabemos o que quer dizer — falou Meredith com secura. — Nós vimos.
Elena colocou uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Os desaparecimentos também não aconteceram durante a lua cheia — disse ela, pensativa. — Embora eu ache que eles podiam levar as pessoas como prisioneiras, planejando matá-las quando estivessem na forma de lobo, mas isso não... quero dizer, não tive muita experiência com lobisomens além de Tyler, mas... não me parece muito lupino. É meio asséptico demais.
— Mas... — Bonnie se jogou na cama. — Acha que há uma possibilidade de Zander e os amigos não serem os assassinos? Então quem? — Ela estava perplexa.
Meredith e Elena trocaram um olhar firme.
— Você não vai acreditar em algumas coisas que acontecem neste campus — disse Elena. — Vamos te colocar a par.
Bonnie esfregou o rosto.
— Zander me disse que era um lobisomem bom — disse ela. — Que não machuca as pessoas. Isso é possível? Existe essa coisa de lobisomem bom?
Meredith e Elena se sentaram uma de cada lado e a abraçaram.
— Quem sabe? — disse Elena. — Eu realmente espero que sim, Bonnie. Pelo seu bem.
Bonnie suspirou e se aninhou mais nelas, descansando a cabeça no ombro de Meredith.
— Preciso pensar em tudo isso — disse —, mas pelo menos não estou sozinha. Que bom que eu tenho vocês. Desculpem pela briga.
Elena e Meredith a abraçaram com mais força.
— Você sempre teve nós duas — garantiu Elena.
Uma batida selvagem soou à porta.
Elena olhou para Bonnie, que se retesou visivelmente na cama sem tirar as mãos do rosto, depois para Meredith, que assentiu com firmeza e se levantou, pegando o bastão. Ocorreu às duas que, se quisesse falar com Bonnie, Zander sabia exatamente onde ela morava.
Elena abriu a porta, e Matt entrou aos tropeços. Vestia um manto de capuz longo e preto, e seus olhos estavam frenéticos enquanto ele ofegava.
— Matt? — chamou ela, surpresa, e olhou para Meredith, que deu de ombros levemente e baixou o bastão. — O que foi? E que roupa é esta?
Ele segurou Elena pelos ombros com força demasiada.
— Stefan está em perigo. — Ela ficou paralisada. — A Vitale Society... eles são vampiros. Stefan me salvou, mas não pode lutar com todos. — Ele explicou rapidamente o que aconteceu na câmara secreta abaixo da biblioteca, como Stefan veio ao seu resgate e depois o mandou procurar ajuda. — Não temos muito tempo — concluiu. — Eles estão matando... estão transformando todos os aspirantes em vampiros. Nem sei o que Ethan planeja para Stefan. Temos que voltar. E precisamos de Damon.
Meredith pegou o bastão de novo e, de cara fechada, tirou a bolsa de armas do armário. Bonnie também estava de pé, de punhos cerrados e queixo firme.
— Vou ligar para Damon. — Elena pegou o telefone.
Damon a deixou no alojamento depois de acompanhá-la na volta da casa de James, mas ainda devia estar por perto.
Stefan em perigo. Se ele... se acontecesse alguma coisa com ele, se acontecesse alguma coisa enquanto eles estivessem separados, enquanto ele ainda estivesse magoado e fosse culpa dela, Elena jamais se perdoaria. Ela não mereceria ser perdoada.
A culpa parecia uma faca em seu estômago. Como pôde magoar Stefan desse jeito? Sentia atração por Damon, é claro, até o amava, mas nunca teve dúvida nenhuma de que Stefan era seu verdadeiro amor. E partira seu coração.
Ela faria qualquer coisa para salvar Stefan. Morreria por ele, se necessário. E, ao ouvir o toque do outro lado da linha e esperar que Damon atendesse, ela percebeu que não havia dúvida de que Damon também faria qualquer coisa para salvar Stefan.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!