30 de março de 2019

Capítulo 37

Ethan estava com Chloe, e a segurava com força nos braços como uma paródia de abraço de amor. Matt gemeu profundamente e esforçou-se para ir até ela, mas não conseguia se mexer, nem mesmo abrir a boca para gritar. Os olhos castanhos e grandes de Chloe fixavam-se nos dele, cheios de pavor. Enquanto Ethan baixava a cabeça para seu pescoço, Matt sustentou o olhar dela e tentou enviar a Chloe uma mensagem reconfortante.
Está tudo bemChloe, pensou ele. Por favor, não vai doer por muito tempo. Seja forte. Chloe gemeu, paralisada, com os olhos nos de Matt como se a firmeza daquele olhar fosse a única coisa que a impedisse de se desfazer em pedaços.
Concentrando-se nos olhos nela e na própria respiração lenta, Matt tentou emanar calma, tentou tranquilizar Chloe enquanto sua mente trabalhava freneticamente. Incluindo Ethan, havia 15 Vitale. Todos eram vampiros. Os outros Vitale assistiam em silêncio de trás do altar, deixando que Ethan tomasse a frente e dominasse os aspirantes.
Agora os corpos de quatro aspirantes jaziam aos pés de Ethan. Ficariam fora do ar por várias horas, seus corpos atravessando a transição que os transformaria de cadáveres em vampiros. Contando com Matt e Chloe, restavam seis aspirantes. Quanto mais Matt esperasse para lutar, piores seriam suas chances.
Mas o que Matt podia fazer? Se ao menos conseguisse romper aquela imobilidade involuntária, se ao menos não fosse um prisioneiro impotente. Ele tentou se mexer de novo, desta vez concentrando toda a força em erguer o braço direito. Seus músculos se tencionaram com o esforço, mas depois de cerca de trinta segundos ele parou, enjoado. Estava se exaurindo, e não conseguia se mexer nem um centímetro. O que o segurava era forte.
Mas, se pensasse num jeito de se libertar, talvez conseguisse pegar um archote na parede. Por baixo do manto, o canivete pesava no bolso da calça. Vampiros queimavam. Cortar suas cabeças os mataria. Se conseguisse manter os vampiros distantes por tempo suficiente para puxar Chloe e os outros aspirantes que conseguisse tirar da sala, ele voltaria com reforços e os combateria com chances de vencer.
Mas, se não conseguisse romper o feitiço ou coerção que o mantinha preso, qualquer plano que bolasse seria inútil.
Ethan levantou a cabeça do pescoço de Chloe, retirando os dentes longos e afiados de seu pescoço, e lambeu gentilmente o sangue vermelho que escorria da ferida.
— Eu sei, meu amor — murmurou ele —, mas é só por um instante. Depois viveremos para sempre. — Os olhos de Chloe ficaram vidrados e se fecharam, palpitando, mas ela ainda respirava, ainda estava viva. Ainda havia uma chance para ela.
Aos pés de Ethan, Anna se agitou e gemeu. Enquanto Matt olhava apavorado, os olhos dela se abriram e ela olhou para Ethan com a expressão confusa, porém venerada.
Não!, pensou Matt. É cedo demais!
Como se tivesse captado o pensamento, Ethan se virou para Matt e piscou.
— As ervas na mistura que vocês todos beberam afinam o sangue e aceleram o metabolismo — disse ele, com a voz despreocupada e amistosa de quem conversa numa lanchonete. — Eu não tinha certeza se daria certo, mas parece que sim. Acelera muito a transição. — Seu sorriso se alargou. — Estou me formando em bioquímica, sabiam? — A boca de Ethan estava suja de sangue, e Matt estremeceu, mas não conseguiu se desviar dos olhos dourados fixos nos dele.
É possível, pensou Matt pela primeira vez, que eu não sobreviva a isto. Seu estômago se encolheu de náusea. Ele realmente não queria se tornar vampiro.
Se os aspirantes recém-transformados despertavam tão cedo, as chances já pequenas rapidamente se tornavam impossíveis. Os novos vampiros, ele se lembrou da transformação de Elena no inverno, despertam cruéis, insensatos, famintos e fanaticamente comprometidos com o vampiro que os transformou.
Ethan baixou a cabeça para morder o pescoço de Chloe novamente, enquanto Anna se colocava de pé com uma graça fluida e sobrenatural. Do outro lado do altar, Stuart agora começava a se agitar, uma perna longa se mexendo incansavelmente na madeira escura do piso.
Com a garganta ardendo por causa do choro mudo de frustração, Matt sentiu a última chama de esperança começar a dissipar e morrer. Não havia escapatória.
De repente, a porta na extremidade da câmara se abriu num rompante, e Stefan entrou.
Ethan levantou a cabeça, surpreso, mas antes que ele ou os outros vampiros conseguissem se mexer, Stefan voou pela câmara e arrancou Chloe dos braços de Ethan.
Ela caiu em cheio no altar, com o sangue escorrendo do pescoço. Matt não sabia se ela ainda estava respirando, ainda se agarrando à vida de humana.
Stefan pegou Ethan pelo manto longo e o jogou contra a parede. Sacudiu o vampiro de cabelo encaracolado com a facilidade com que um cão sacode um rato.
Por um momento, o medo terrível que mantinha Matt preso se afrouxou. Stefan sabia o que estava acontecendo, Stefan o encontrara. Stefan salvaria todos eles.
Os outros Vitale estavam correndo em direção a Stefan, que agora lutava com Ethan, os longos mantos flutuando às suas costas enquanto eles avançavam suavemente, movendo-se como um só.
Sem dúvida Stefan era muito mais forte que qualquer um deles. Ele jogou para longe e com facilidade uma vampira de preto — aquela que lhe entregou o cálice, pensou Matt — e ela voou pela câmara como se não pesasse mais que uma boneca de trapos, caindo num monte contra a parede oposta. Sorrindo cruelmente, Stefan dilacerou a garganta de outra com os dentes e ela caiu no chão, prostrada e imóvel.
Mas eles eram muitos, e Stefan, um só. Depois de alguns minutos assistindo à luta, Matt viu que era inútil, e seu coração ficou apertado. Stefan era muito mais velho e muito mais forte que qualquer outro vampiro na sala, mas, juntos, eles o sobrepujavam. A maré da batalha estava virando, e eles o dominavam graças à mera força numérica. Ethan agora estava livre, endireitando o manto, e quatro dos vampiros Vitale, trabalhando juntos, prenderam os braços de Stefan às suas costas. Anna, com os olhos brilhando, batia cruelmente nele.
Ethan pegou um archote na parede atrás dele e olhou para Stefan especulativamente, lambendo, distraído, o sangue das costas da mão.
— Você teve sua chance, Stefan — disse, sorrindo.
Stefan parou de lutar e se deixou pender, flácido, entre os vampiros que o seguravam pelos braços.
— Espere — disse, levantando a cabeça para Ethan. — Você queria que eu me unisse a vocês. Implorou para eu me unir. Ainda me quer?
Ethan inclinou a cabeça pensativamente, os olhos dourados brilhando.
— Quero. Mas o que pode me dizer para me fazer acreditar que quer ser um de nós?
Stefan lambeu os lábios.
— Deixe Matt ir embora. Se o deixar partir em segurança, ficarei no lugar dele. — Ele parou. — Dou minha palavra.
— Combinado — disse Ethan de imediato.
Ele agitou os dedos no ar sem tirar os olhos de Stefan e Matt cambaleou, de repente libertado da coerção que o mantinha aprisionado.
Matt respirou fundo e correu para o altar e para Chloe. Talvez não fosse tarde demais. Ele ainda podia salvá-la.
— Pare. — A voz de Ethan rompeu pela sala com autoridade. Matt ficou paralisado, mais uma vez incapaz de se mexer. Ethan o olhou com raiva. — Você não vai ajudar. Não vai lutar — disse com frieza. — Você vai embora.
Matt olhou para Stefan, suplicante. Não podia ir embora, abandonar Chloe, Stefan e os outros nas mãos dos vampiros Vitale. Stefan o encarou com as feições rígidas.
— Desculpe, Matt — disse friamente. — Uma coisa que aprendi com o passar dos anos é que às vezes é preciso se render. O melhor que pode fazer agora é ir embora. Ficarei bem.
Então, dissonante, invasiva e repentinamente na cabeça de Matt, surgiu a voz de Stefan. Damon, disse ele intensamente. Traga Damon.
Matt engoliu em seco e, enquanto a coerção de Ethan o libertava mais uma vez, assentiu devagar, tentando aparentar derrota e, ao mesmo tempo, indicar a Stefan com os olhos que a mensagem fora recebida.
Ele não conseguiu olhar para os outros aspirantes. Por mais que corresse, alguns morreriam antes que voltasse — ou todos. Talvez Stefan conseguisse salvar alguns. Talvez. Talvez conseguisse salvar Chloe.
Com o coração martelando de pavor e a cabeça girando de medo, Matt correu em direção à saída, em busca de ajuda. Não olhou para trás.

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!