19 de março de 2019

Capítulo 37

A manhã seguinte encontrou todos de volta ao pensionato. Depois da chuva da noite anterior, o sol tinha uma frescor, e tudo parecia claro, úmido e limpo, apesar do cheiro de fumaça que permeava o pensionato e os restos carbonizados da garagem que podiam ser vistos da janela da salinha.
Elena estava sentada no sofá, recostada em Stefan. Ele acompanhou as linhas de queimaduras quase que completamente desaparecidas da mão de Elena.
— Como se sente, heroína? — perguntou ele.
— Quase não dói nada, graças a Damon. — Damon, do outro lado de Stefan, deu-lhe um breve sorriso ofuscante, mas não disse nada.
Todos estavam sendo muito cautelosos uns com os outros, Elena pensou. Ela se sentia e pensava que todos os outros deviam se sentir assim, como o dia: brilhante e fresco, mas ligeiramente frágil. Havia muitos murmúrios de um lado ao outro, sorrisos trocados e pausas agradáveis. Era como se eles tivessem completado uma longa viagem ou uma tarefa difícil juntos, e agora fosse hora de descansar.
Celia, com calças de linho claras e uma blusa de seda cinza elegante, confiante como sempre, limpou a garganta.
— Eu vou embora hoje — disse ela quando todos a olharam. Suas malas estavam arrumadas no chão a seus pés. — Sai um trem para Boston daqui a 45 minutos, se alguém me levar à estação.
— Claro que a levarei — Alaric afirmou prontamente, levantando-se. Elena olhou para Meredith, mas esta franziu a testa preocupada para Celia.
— Você não precisa ir, sabe disso — disse ela. — Todos gostaríamos que ficasse.
Celia encolheu os ombros expressivamente e deu um pequeno suspiro.
— Obrigada, mas está na hora de ir. Apesar do fato de termos destruído um livro raro de valor inestimável e, de provavelmente, eu nunca mais ter permissão para entrar no campus da Dalcrest de novo, eu não teria perdido essa experiência por nada no mundo.
Meredith sorriu para ela e levantou uma sobrancelha.
— Nem os encontros com a morte?
Celia levantou uma sobrancelha também.
— Em que parte não houve um encontro com a morte? — Elas riram, e Elena ficou grata por ver que a tensão entre as duas tinha evaporado.
— Será um prazer recebê-la a qualquer hora que quiser voltar, minha cara — disse a Sra. Flowers a Celia. — Sempre terei um quarto para você.
— Obrigada — agradeceu Celia, parecendo comovida. — Espero poder voltar e rever todos vocês, algum dia — Ela e Alaric saíram da sala, e logo os demais ouviram o som da porta da frente se fechando e um carro dando partida.
— Tchau, Celia — trinou Bonnie. — Ela acabou sendo legal no fim das contas, não é? — continuou, sem esperar por uma resposta. — O que vamos fazer hoje? Precisamos de uma aventura antes de o verão terminar.
— Já não teve aventura suficiente? — perguntou Matt sem acreditar, esparrado em uma cadeira de balanço no canto.
— Eu quis dizer, divertida, uma aventura de verão — respondeu ela. — Não um monte de coisas medonhas, e batalhas com a morte, mas coisas divertidas de verão. Sabia que temos umas três semanas antes de começarmos a estudar de novo? Se não quisermos que nossas únicas lembranças deste verão em Fell’s Church sejam de um piquenique desastroso e uma horrível batalha com um espectro, é melhor começarmos. Voto em irmos a feira do condado hoje. Vamos! — insistiu ela, quicando na poltrona. — Montanhas-russas! Casa de espelhos! Donuts! Algodão doce! Damon pode ganhar um urso de pelúcia grande para mim e me levar no Túnel do Amor, será uma aventura!
Ela bateu as pestanas para Damon sedutoramente, mas ele não caiu na provocação. Na verdade, ele olhava para o próprio colo com uma expressão tensa.
— Você se saíram muito bem, crianças— a Sra. Flowers disse com aprovação. — Certamente merecem um tempo para relaxar.
Ninguém respondeu. O silêncio tenso de Damon enchia a sala, atraindo todos os olhos para ele. Finalmente, Stefan limpou a garganta.
— Damon? — chamou com cautela.
Damon cerrou o queixo e ergueu os olhos para encontrar os dele. Elena franziu o cenho. Era culpa no rosto de Damon? Ele não sentia culpa, o remorso não era um de seus atributos.
— Escutem — disse ele abruptamente. — Eu percebi, quando estava voltando da Dimensão das Trevas... — Ele parou novamente.
Elena trocou um olhar preocupado com Stefan. Novamente, gaguejar e ter dificuldade para encontrar as palavras para dizer o que queria, não era típico de Damon.
Ele meneou a cabeça e se recompôs.
— Enquanto eu me lembrava de quem era, enquanto mal estava vivo de novo, e depois, quando me preparava para voltar para Fell’s Church, e tudo era muito doloroso e difícil — disse ele, — eu só conseguia pensar era como nós... como Elena, tinha movido céus e terra para encontrar Stefan. Ela não desistiu da procura, por mais obstáculos que enfrentasse. Eu a ajudei, arrisquei tudo para fazer isso, e nós conseguimos. Encontramos Stefan e o trouxemos para casa, são e salvo. Mas quando foi a minha vez de ficar perdido, vocês todos me deixaram sozinho naquela Lua.
— Mas Damon — começou Elena, estendendo a mão para ele, — nós pensamos que você estivesse morto.
— E tentamos mover céus e terra para salvar você — Bonnie disse com franqueza, os grandes olhos castanhos enchendo-se de lágrimas. — Você sabe disso. Elena tentou de tudo para subornar as Guardiãs para ter você de volta. Ela quase enlouqueceu de tristeza. Ela só ficava dizendo que quando um vampiro morria, ele ia embora para sempre.
— Agora eu sei disso — falou Damon. — Não estou mais com raiva, não tenho raiva disso pelo que parecem séculos. Não é por isso que eu estou falando nesse assunto — Ele olhou culpado para Elena. — Preciso pedir desculpas a todos vocês.
Houve um leve ofegar coletivo. Damon simplesmente não se desculpava. Nunca.
Elena franziu o cenho.
— Pelo que?
Damon deu de ombros, e o fantasma de um sorriso cruzou seu rosto.
— Pelo que não, minha princesa — Ele ficou sério. — A verdade é que eu não merecia ser salvo. Fiz coisas terríveis com todos vocês como vampiro, e mesmo quando me tornei humano de novo. Briguei com Meredith, coloquei Bonnie em perigo na Dimensão das Trevas. Coloquei todos vocês em perigo. — Ele olhou pela sala. — Desculpem — disse a todos, uma nota de sinceridade e pesar na voz.
Os lábios de Bonnie tremeram, depois, ela lançou os braços em volta de Damon.
— Eu te perdoo!
Damon sorriu e acariciou seu cabelo sem jeito. Ele trocou um gesto de cabeça solene com Meredith, que parecia indicar que ela também o perdoava desta vez.
— Damon — disse Matt disse, meneando a cabeça. — Tem certeza de que não está possuído? Você parece meio... fora de si. Nunca foi educado com nenhum de nós, só com Elena.
— Bem — ponderou Damon, parecendo aliviado por tirar essa confissão do peito, — não se acostume com isso, Matt.
Matt ficou tão sobressaltado e satisfeito por Damon ter usado seu nome correto, para variar, em vez de "Mutt" ou nada, que Damon podia muito bem ter dado um presente a ele. Elena viu Stefan dar um cutucão furtivo e afetuoso no irmão, e Damon retribuiu o gesto.
Não, ela não se acostumaria com isso. Damon, temporariamente esgotado de seus ciúmes e ressentimentos, estava lindo e intrigante como sempre, porém muito mais fácil de lidar. Isso não ia durar, mas ela por hora estava desfrutando.
Elena tirou um momento para observar os dois irmãos Salvatore. Os vampiros que ela amava. Stefan, com seus cachos pretos sedosos e os olhos verdes como o mar, pernas e braços longos e a curva sensível da boca, que ela sempre queria beijar. A doçura, a solidez e uma tristeza que ela sempre conseguia aliviar. Damon, de couro e seda e feições elegantes e cinzeladas. Intempestivo e devastador. Ela amava os dois. Não conseguia se lamentar, não conseguia ser nada além de sincera e inteiramente grata ao destino por ter colocado os dois em seu caminho.
Mas não seria fácil. Ela não conseguiria imaginar o que aconteceria quando o novo apoio e amizade entre os irmãos, entre todos eles, terminasse. Ela não duvidava de que isso se dissolveria. Irritação e ciúmes faziam parte da vida, e surgiriam de novo.
Ela apertou a mão de Stefan e sorriu para Damon, cujos olhos pretos se aqueceram. Por dentro, Elena suspirou um pouco, então sorriu largamente. Bonnie tinha razão: a universidade logo começaria, toda uma nova aventura. Até lá, eles deviam ter prazer, onde pudessem achar.
— Algodão doce? — perguntou ela. — Nem me lembro quando foi a última vez que comi algodão doce. Apoio inteiramente a ideia da aventura de Bonnie.
Stefan roçou os lábios nos dela num beijo tão doce e leve quanto o próprio algodão doce, e ela se recostou no conforto de seus braços.
Não podia durar. Elena sabia disso. Mas ela estava muito feliz. Stefan era ele mesmo de novo, não estava furioso, aterrorizante ou triste, mas era ele mesmo, aquele que ela amava. E Damon estava vivo, seguro, e com eles. Todos os seus amigos a cercavam.
Ela enfim estava verdadeiramente em casa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!