30 de março de 2019

Capítulo 36

Ao abrir a porta e ver Elena, o rosto de James se enrugou, só por uma fração de segundo, e ele deu um passo para trás, como se considerasse fechar a porta na cara dela. Depois pareceu pensar melhor e a abriu mais, mudando a expressão para seu sorriso familiar.
— Ora, Elena. Minha cara, eu não esperava uma visita a esta hora. Creio não ser o melhor momento. — Ele deu um pigarro. — Ficaria deliciado em vê-la na faculdade, em minha sala. Às segundas e sextas, lembra? Agora, se me der licença. — E, ainda sorrindo com gentileza, avançou e tentou fechar a porta na cara dela.
Mas Elena ergueu a mão e o impediu.
— Espere. James, sei que não quer falar comigo sobre os broches, mas é importante. Preciso saber mais sobre a Vitale Society.
Seus olhos negros e brilhantes a fitaram e se desviaram, como se ele estivesse sem graça.
— Sim, bem — disse ele —, o problema, claramente, é que visitas desacompanhadas de uma aluna... de qualquer aluno, entenda, minha cara, não me refiro a você pessoalmente... à casa de um professor são, humm, reprovadas. No mundo inescrupuloso em que vivemos, sabe como é. — E, com um risinho leve, empurrou com firmeza a porta. — Existe hora e lugar para tudo.
Elena empurrou a porta.
— Não acredito nem por um minuto que esteja tentando me fazer ir embora porque minha visita é inadequada — disse categoricamente. — Não vai se livrar de mim com facilidade. Há pessoas correndo perigo, James.
“Sei que você e meus pais fizeram parte da Vitale Society”, continuou Elena, teimosa. “Preciso que me diga o que tem escondido nos últimos dias. Acho que a Vitale está ligada aos assassinatos e desaparecimentos no campus, e temos que detê-los. A essa altura, você é minha única pista, James.”
Ele hesitou, os olhos lacrimosos de emoção, e Elena fixou o olhar nele.
— Vai morrer mais gente — disse ela asperamente —, mas você pode salvá-los. Vai fazer isso?
Estava evidente que James vacilava e parecera ceder de repente, arriando os ombros.
— Não sei de nada que lhe possa ser de alguma ajuda. Não sei de nada dos assassinatos. Mas é melhor você entrar. — Ele a conduziu pelo hall e pela casa.
A cozinha reluzia de tão limpa, as superfícies brancas imaculadas. Panelas de cobre, cestos de vime e panos de prato vermelho-cereja e toalhas pendiam de ganchos e estavam arrumados no alto de bancadas. Gravuras emolduradas de frutas e vegetais estavam penduradas nas paredes a certos intervalos. James sentou-a à mesa, depois se ocupou de preparar uma xícara de chá.
Elena esperou pacientemente até que ele enfim se acomodou diante dela, dispondo xícaras de chá na frente dos dois.
— Leite? — perguntou ele, atrapalhado, entregando-lhe o jarro, sem a olhar nos olhos. — Açúcar?
— Obrigada — agradeceu Elena. Depois se inclinou sobre a mesa e colocou a mão na dele, mantendo-a ali até ele levantar a cabeça e olhar para ela. — Fale — disse simplesmente.
— Não sei nada dos assassinatos — repetiu James. — Acredite, eu não guardaria esse segredo se pensasse que alguém corria perigo por causa dele.
Elena assentiu.
— Sei que não faria isso. Mesmo que não haja uma ligação, se o segredo se refere a meus pais, eu mereço saber.
James suspirou longamente.
— Entenda que já faz muito tempo. Éramos jovens e meio ingênuos. Na época, a Vitale Society era uma força do bem. Venerávamos espíritos da natureza e tirávamos energia da Terra sagrada. Éramos uma força positiva na comunidade, interessados principalmente em paz, amor e criatividade. Prestávamos serviços aos outros. Soube que a Vitale Society mudou desde aquele tempo, que elementos mais sombrios a dominaram. Mas não sei muito agora. Nem me envolvo com os Vitale há anos, desde os eventos que vou lhe contar agora.
Elena bebeu o chá e esperou. Os olhos de James foram até seu rosto quase timidamente, depois se fixaram na mesa.
— Um dia — disse ele, devagar —, um estranho foi a uma de nossas reuniões secretas. Ele era... — James fechou os olhos e estremeceu. — Eu nunca vi um ser de poder tão puro ou que irradiasse tamanha sensação de paz e amor. Nós, todos nós, não tínhamos dúvida de que estávamos na presença de um anjo. Ele dizia que era um Guardião. — Involuntariamente, Elena inspirou entre os dentes, soltando um silvo. Os olhos de James se abriram num átimo e ele a olhou longamente. — Você os conhece? — A um gesto de concordância dela, James estremeceu um pouco. — Bem, pode imaginar como ele nos afetou.
— O que o Guardião queria? — perguntou Elena, com o estômago se contorcendo.
Ela conhecera as Guardiãs, e não gostava delas. Foram as Guardiãs que se recusaram de modo frio e eficiente a trazer Damon de volta à vida quando ele morreu na Dimensão das Trevas. E foram elas que provocaram o acidente de carro que matou seus pais numa tentativa de matar Elena e a recrutarem para ser uma delas. Mas todas as Guardiãs que ela conhecera eram mulheres; nem sabia que também havia Guardiões masculinos.
Elena sabia que, por mais que os Guardiões parecessem adoráveis, eles não eram anjos; não estavam do lado do bem, nem, a propósito, do lado do mal. Só acreditavam na ordem. Podiam ser muito perigosos.
James a olhou brevemente, depois mexeu na xícara de chá e no guardanapo que tinha diante de si.
— Quer um bolinho? — perguntou. Ela meneou a cabeça e o fitou, e ele suspirou novamente. — Precisa entender que seus pais eram muito novos. Eram idealistas.
Elena teve a sensação nauseante de que ia descobrir algo profundamente desagradável.
— Continue.
Mas, em vez de continuar, James dobrou o guardanapo em pedaços mínimos e exatos, cada vez menores, até que Elena deu um pigarro. Então ele recomeçou:
— O Guardião nos disse que havia a necessidade de um novo tipo de Guardiã. Que seria uma mortal, na Terra, e que teria poderes especiais dos quais precisaria para manter o equilíbrio entre as forças sobrenaturais do bem e do mal na Terra. Durante a visita dele, Elizabeth e Thomas, que eram jovens, inteligentes, bons e profundamente apaixonados, além de ter um futuro brilhante pela frente, foram escolhidos como os pais da Guardiã mortal.
Ele deixou o guardanapo se desdobrar nas mãos e olhou sugestivamente para Elena. Ela precisou de um instante para entender.
— Eu? Está brincando? Eu não... — Elena se calou. — Eu já tenho muitos problemas — disse friamente. Então parou ao entender melhor algo que ele havia dito. — Espere, por que acha que meus pais foram ingênuos? O que eles fizeram?
James tomou um gole do chá.
— Francamente, acho que preciso de uma coisinha nisto antes de continuar — disse ele. — Guardei este segredo por muito tempo e ainda tenho de lhe contar a pior parte. — Ele se levantou e vasculhou um dos armários, por fim pegando uma garrafa pequena e cheia de um líquido âmbar. Estendeu a Elena, indagativo, mas ela balançou a cabeça. Tinha certeza absoluta de que precisava da mente clara pelo resto daquela conversa. Ele serviu uma quantidade generosa na própria xícara.
— Então — continuou ele, sentando-se novamente. Elena sabia que ele ainda estava ansioso, mas que também estava começando a gostar de contar a história. Ele era um fofoqueiro natural (ensinava história como uma fofoca do passado) e isto era ainda mais familiar a ele, porque era sobre os pais de Elena, pessoas que os dois conheciam. — Thomas e Elizabeth ficaram tremendamente lisonjeados, é claro.
— E... — incitou Elena.
James entrelaçou os dedos sobre a barriga e a fitou, com os olhos caídos.
— Eles concordaram que, quando a criança tivesse 12 anos, abririam mão dela. Os Guardiões a levariam e eles nunca mais a veriam.
De repente, Elena sentiu muito frio. Os pais a criaram pretendendo abrir mão dela? Sentiu como se todas as suas lembranças de infância estivessem se estilhaçando. Num instante, James estava ao seu lado.
— Respire — disse ele gentilmente.
Ofegante, Elena fechou os olhos e se concentrou em inspirar e expirar, devagar e profundamente. Era arrasador que seus pais, seus amados pais, a considerassem uma espécie de projeto temporário. Até agora, ela jamais havia duvidado do amor deles.
Precisava saber toda a verdade.
— Continue.
— Sinceramente, este foi o fim de minha amizade com seus pais e de meu envolvimento com a Vitale Society. — James tomou um longo gole do chá batizado com uísque. — Eu não conseguia acreditar que ninguém mais na sociedade visse problema em criar uma filha até o início da adolescência e depois abrir mão dela para sempre, e não acreditava que seus pais... que eu sabia que eram pessoas amorosas e inteligentes... concordariam com um plano desses. Nós nos formamos e tomamos rumos diferentes, e eu só soube de seus pais de novo mais de 12 anos depois.
— Soube deles, então? — perguntou Elena em voz baixa.
— Seu pai me telefonou. Os Guardiões entraram em contato com eles, prontos para levar você. Mas Thomas e Elizabeth não deixaram você ir. — James sorriu com tristeza. — Eles a amavam muito. Pensavam que você não estava pronta para sair de casa... era apenas uma criança. Eles perceberam que tinham concordado rápido demais com o plano do Guardião, que não sabiam realmente o que estava reservado para você, e que não podiam deixar a filha sem ter certeza de que isso era o melhor para ela. Então Thomas pediu minha ajuda para proteger você. Eles sabiam que eu me interessara por feitiçaria quando estava na faculdade. — Ele gesticulou com modéstia quando Elena o fitou. — Só magia pequena, e eu na época já tinha praticamente desistido disso. Mas ele e Elizabeth estavam desesperados. Então reuni o conhecimento que pude, pretendendo ajudá-los.
Ele parou, e uma sombra se alojou em seu rosto antes de continuar.
— Infelizmente, era tarde demais. Dias depois de nossa conversa, antes de eu partir para Fell’s Church, seus pais morreram num acidente de carro. Fiquei de olho em você por alguns anos, mas parecia que os Guardiões não tinham colocado as mãos em você. E, agora, aqui está. Não acho que seja coincidência.
— Os Guardiões mataram meus pais — disse Elena sem emoção. — Eu sabia disso, mas não sabia... Pensei que tinha sido um acidente. — Ela lutava para compreender os segredos de sua infância. Pelo menos, no fim, os pais não conseguiram abrir mão dela. Eles a amaram, como Elena pensava.
— Eles tendem a conseguir o que querem — disse James.
— Por que não me levaram, então? — perguntou Elena.
James meneou a cabeça.
— Não sei. Mas acho que há um motivo para você estar na Dalcrest agora, onde isso tudo começou para você e para seus pais. Creio que surgirá alguma tarefa aqui, e você estará em posse de seus Poderes.
— Uma tarefa? Mas eu já tive Poderes, e as Guardiãs os tiraram. — Elas a haviam despojado das Asas e de todas as suas capacidades sem piedade. Iam devolver quando chegasse a hora certa?
James suspirou e deu de ombros, incapaz de ajudar.
— Às vezes os planos têm meios curiosos de se apresentar, mesmo os que estão fadados desde o início — disse ele. — Talvez esses desaparecimentos sejam o primeiro sinal. Mas não sei. Como eu disse à turma em aula, a Dalcrest é o eixo de muita atividade paranormal. Tendo a pensar que, quando sua tarefa se apresentar, você saberá.
— Mas eu não... — Elena engoliu em seco. — Não entendo o que tudo isso significa. Só quero ser uma garota normal. Pensei que agora poderia. Aqui.
James estendeu o braço pela mesa e afagou a mão de Elena, os olhos parecendo poços fundos de solidariedade.
— Sinto muito, minha cara. Não queria que esse fardo lhe fosse dado por mim. Mas farei o que puder para ajudar. Thomas e Elizabeth iam querer isso.
Elena achou que não conseguia respirar. Precisava sair dessa cozinha aconchegante, se afastar dos olhos ávidos e preocupados de James.
— Obrigada. — Ela empurrou apressadamente a cadeira para longe da mesa e se levantou. — Mas agora preciso ir. Agradeço por ter me contado tudo isto, mas preciso pensar.
Ele se alvoroçou em volta dela a caminho da porta da frente, claramente sem saber se a deixava ir embora, e Elena estava a ponto de gritar quando chegou à varanda.
— Obrigada — disse novamente. — Tchau.
Ela se afastou rapidamente sem olhar para trás, estalando os sapatos no cimento da calçada. Quando estava fora de vista, Damon saiu das sombras para se juntar a ela. Elena mantinha a cabeça erguida, piscando para afugentar as lágrimas que se acumulavam nos olhos. Por ora, este segredo seria só dela.

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