19 de março de 2019

Capítulo 36

Damon foi o primeiro a se mexer, o que não surpreendeu Elena. Sua jaqueta de couro estava em brasas, e ele tinha longas queimaduras no rosto e nos braços, cambaleou, passando pelos outros e pelo fogo, e abrindo a porta da garagem. Lá fora, um trovão roncou no alto e uma chuva pesada caía.
Apesar da chuva, a garagem ardia com ferocidade, as chamas lambendo as paredes da pequena construção e atingindo o telhado. Quando todos saíram trôpegos, Meredith, tossindo, virou o rosto para cima sentindo a chuva. Matt e Alaric apoiavam a Sra. Flowers e a colocaram no banco do motorista do carro dela. Elena estendeu as mãos, deixando que a chuva lavasse a fuligem e aliviasse as queimaduras. O resto dos amigos se reuniu não muito longe da garagem em chamas, ainda aturdidos.
— Ah, Damon — disse Bonnie. Ela parou de tossir e ofegou por uns segundos, depois se curvou cuidadosamente em direção a Damon, evitando suas lesões, e lhe deu um beijo no rosto. — Estou tão feliz por você ter voltado.
— Obrigado, ruivinha — agradeceu Damon, afagando suas costas. — Com licença por um segundo, preciso cuidar de uma coisa. — Ele se afastou e pegou Elena pela mão.
De longe, vinha o gemido de sirenes, indicando o avanço de caminhões de bombeiros e carros de polícia atraídos pelo fogo. Damon puxou Elena para as sombras escuras sob uma árvore perto da casa.
— Venha — disse ele. — Você precisa de sangue agora. — Ele tateou o pescoço com os dedos calcinados, depois passou a unha em uma das veias. Sua jaqueta de couro estava praticamente destruída, apenas trapos e cinzas pendendo dela, e as longas queimaduras no rosto e no corpo ainda estavam vermelhas e pareciam em carne viva, mas já estavam melhores do que alguns minutos antes.
— Posso fazer isso — disse Stefan, aproximando-se deles e recostando-se na parede da casa. Ele parecia cansado e sujo, mas seus ferimentos também já estavam se curando. — Elena sempre recebeu bem o meu sangue.
— Definitivamente você pode, mas ela está com ferimentos graves — disse Damon sem rodeios, — e você não tem Poder para curá-la agora.
Elena esteve tentando não olhar para a mão direita. Embora não conseguisse mexê-la, não doía muito agora. O que provavelmente era um mau sinal. Será que isso significava que as terminações nervosas estavam mortas? Um olhar rápido e angustiado para a mão fez seu estômago revirar. Mesmo aquele ligeiro vislumbre mostrou como a carne parecia horrivelmente enegrecida e avermelhada, descamando.
— Meu Deus — ela pensou ter visto o osso por baixo da carne. Elena soltou um gemido baixo, involuntário.
— Beba — Damon disse, impaciente. — Me deixe consertar isso antes que eles cheguem e a arrastem para a unidade de queimados. — Elena ainda hesitava, e Damon suspirou, virando para Stefan novamente. — Olhe — disse ele, suavizando sua voz — nem sempre se trata de Poder. Às vezes, usamos o sangue para cuidar de alguém.
— Sei disso — Stefan respondeu, piscando cansado para ele. — Só não sabia que você sabia.
A boca de Damon se torceu num sorriso irônico.
— Eu sou um velho, maninho —disse ele. — Sei de muitas coisas. — Ele se virou para Elena. — Agora beba — insistiu, e Stefan sorriu tranquilizador para ela.
Elena assentiu para Stefan antes de colocar a boca firmemente no pescoço de Damon. No segundo em que provou seu sangue, Elena foi envolvida em calor e a dor na mão parou. Ela não sentia mais o frio desagradável do tamborilar da chuva na cabeça e nos ombros, a água gelada escorrendo pelo corpo. Ela estava confortável, segura e amada, e o tempo tinha parado o suficiente para que ela recuperasse o fôlego.
Damon? Pensou ela, e o procurou com a mente. Ele respondeu, sem palavras, mas com uma onda de afeto e carinho, de amor incondicional. Pela bruma, Elena percebeu que havia algo novo ali...
Antigamente, quando ela e Damon permitiam que a mente dos dois se tocassem, ela em geral sentia que Damon estava escondendo parte de si mesmo. Ou, nas raras ocasiões em que ultrapassou as barreiras internas que ele erguia contra invasores, encontrava mágoa e fúria, uma criança perdida acorrentada a uma pedra.
Agora Elena sentiu apenas amor e paz quando ela e Damon se fundiram. Quando enfim se afastou dele, precisou de um instante para voltar ao mundo real. Stefan não estava mais ao lado deles. Ainda chovia, a água fria escorria por seu cabelo, sobre os ombros, descendo pelo pescoço, pelos braços e pelo corpo.
Sua mão doía e ainda estava muito queimada, mas tinha se curado a ponto de precisar apenas de pomada e curativo, e não de cirurgia.
Alguns carros do corpo de bombeiros e da polícia pararam na entrada, com as luzes acesas e as sirenes gritando. Mais perto da garagem, ela viu Meredith largar abruptamente o braço de Stefan e percebeu que a amiga tinha bebido do pulso dele.
Percebeu vagamente que teria ficado impressionada com isso algumas horas antes, teria suposto que Meredith fugiria do contato com sangue de qualquer vampiro, e Stefan sempre reservava deu sangue para Elena, como parte da conexão que só eles partilhavam, mas agora, não conseguia ter nenhuma emoção real.
Parecia que todas as barreiras entre o grupo tinham se rompido. Durasse ou não esse novo estado de coisas, eles agora eram um só. Tinham visto o pior uns dos outros, haviam dito a verdade e saído ilesos. E agora se Meredith precisava ser curada, é claro que Stefan daria a ela seu sangue. Seria o mesmo para qualquer um deles.
Os bombeiros saltaram do caminhão e desenrolaram as mangueiras. Ao voltarem a atenção para apagar o fogo, alguns policiais uniformizados e um homem que devia ser o comandante dos bombeiros andaram decididos na direção da Sra. Flowers, Matt, Alaric, Celia, e Bonnie, todos espremidos no carro agora. Meredith e Stefan foram para lá, também.
— Por que eles não a levaram para dentro de casa? — Perguntou-se Elena em voz alta, de repente, Damon voltou um olhar vago de surpresa para ela.
— Não faço ideia — disse ele lentamente. — Nunca me ocorreu que poderíamos entrar. Acho que todos acharam que deviam ficar aqui fora olhando o incêndio para se certificar de que o espectro não saiu.
— Parece que fomos ao fim do mundo — comentou ela com brandura, pensando em voz alta. — O pensionato parecia tão distante que nem fazia parte do quadro. Agora que outras pessoas estão aqui, o mundo está começando a girar novamente.
Damon murmurou com indiferença.
— É melhor irmos até lá — disse ele. — Eles podem precisar de ajuda.
A voz da Sra. Flowers estava elevada com indignação, embora Elena não conseguisse distinguir o que ela dizia. Enquanto seguia Damon, Elena sorriu consigo mesma: desde quando Damon se importava que alguém, a não ser Elena, precisasse de ajuda?
Ao se aproximarem, Elena viu que a Sra. Flowers tinha saído do carro e assumido sua melhor expressão de excentricidade, com os olhos azuis arregalados e as mãos na cintura, enquanto Alaric segurava um guarda-chuva sobre sua cabeça.
— Meu rapaz — vociferou ela para o comandante dos bombeiros. — O que está tentando insinuar ao perguntar por que meu carro não estava na garagem? Certamente, eu tenho o direito de distribuir minhas posses onde quero em minha propriedade! Em que mundo vivemos, em que eu sou punida, onde sou julgada por não seguir as convenções? Como se atreve a sugerir que eu posso ter sabido antecipadamente do fogo?
— Bem, minha senhora, é notório que isso acontece. Não estou sugerindo nada, mas a questão precisa ser investigada — disse o comandante impassível.
— O que todos esses jovens estão fazendo aqui? — Perguntou um dos policiais, olhando ao redor. Seus olhos se demoraram na jaqueta de couro queimada de Damon, e na parte sem pele do rosto de Stefan. — Vamos ter que conversar com todos vocês — disse ele, — vamos começar pegando seus nomes e endereços.
Stefan avançou um passo e fixou os olhos nos do policial.
— Tenho certeza de que isso não será necessário —disse suavemente, influenciando-o. Elena sentiu que ele usava o Poder. — A garagem se incendiou porque foi atingida por um raio durante a tempestade. Ninguém estava aqui, a não ser a senhora na casa e alguns hóspedes delas. É tudo muito simples, não há necessidade de interrogar ninguém.
O policial pareceu confuso, então assentiu, a expressão se desanuviando.
— Estas tempestades podem causar muito estrago nas propriedade — ele respondeu.
O comandante bufou.
— Do que está falando? Não caiu raio em nenhum lugar perto daqui.
Stefan voltou o olhar para o comandante dos bombeiros.
— Não há porque se incomodar em investigar... — Mas o feitiço fora rompido, e agora os três homens olhavam para ele com desconfiança.
O Poder de Stefan não seria forte o bastante para usar nos três, Elena percebeu, e ele não conseguiria convencer nenhum deles se os homens ficassem juntos, despertando as dúvidas uns dos outros. O rosto de Stefan estava abatido e cansado. Ele havia travado uma longa batalha, mais de uma, na verdade. E Stefan nunca teve o Poder forte, não quando não bebia sangue humano. Se ele tinha andado preocupado com ela e se preparado para o espectro, provavelmente já fazia dias desde que havia tomado mais do que alguns goles de sangue animal.
Damon adiantou-se.
— Senhor? — Disse gentilmente. O comandante olhou para ele. — Se eu puder falar com o senhor em particular por um momento, tenho certeza de que podemos esclarecer tudo.
O comandante franziu o cenho, mas o seguiu até a varanda dos fundos do pensionato, com o segundo policial atrás dele. Sob a luz da varanda, eles olhavam para Damon, a princípio com suspeita. Aos poucos, enquanto ele falava, seus ombros relaxaram e eles começaram a assentir e sorrir.
Stefan voltou a falar suavemente com o outro policial. Ele conseguia influenciar uma pessoa sozinha, Elena sabia, mesmo em seu estado atual.
Meredith e Bonnie tinham se metido no banco traseiro do carro antigo da Sra. Flowers, tão antigo que Elena suspeitava que podia ser mais velho que a própria Sra. Flowers, e estavam envolvidas numa conversa enquanto Alaric e Celia continuavam a apoiar a Sra. Flowers sob o guarda-chuva, e ela ouvia a conversa de Stefan com o policial, com Matt adejando por perto.
Elena passou em silêncio por eles e entrou na traseira do carro Bonnie e Meredith. A porta se fechou com um baque pesado e satisfatório, e o banco de couro preto rangeu e gemeu sob seu peso.
Os cachos ruivos de Bonnie estavam encharcados, os fios molhados caindo pelos ombros e grudados na testa. Mesmo com o rosto sujo de cinzas e os olhos vermelhos, ela deu a Elena um sorriso verdadeiramente feliz.
— Nós vencemos — disse ela. — Ele se foi para sempre, não foi? Nós conseguimos.
Meredith estava solene mas exultante, seus olhos cinzentos brilhando. Ainda havia uma mancha de sangue de Stefan em seus lábios e Elena reprimiu o impulso de limpar por ela.
— Vencemos — afirmou Meredith. — Você duas foram tão incríveis. Bonnie, foi muito inteligente da sua parte começar a expulsar ciúmes e inveja com a maior rapidez que pôde. Isso manteve o espectro desequilibrado. E Elena... — ela engoliu em seco. — Mergulhar no fogo foi muito corajoso de sua parte. Como está sua mão?
Elena estendeu a mão e flexionou os dedos diante delas.
— Os incríveis Poderes do sangue de vampiro — Elena disse levemente. — Muito úteis depois de uma batalha, não é, Meredith?
Meredith ficou vermelha com a provocação Elena, e então sorriu um pouco.
— Não sei — disse ela. — Parecia tolice não usar todos as nossas... vantagens. Já me sinto melhor.
— Você também foi demais, Meredith — Bonnie disse. — Lutou como se estivesse dançando com elegância, força, beleza, e tão durona pelo jeito como usava o bastão.
Elena concordou.
— Eu nunca teria pegado a rosa, se você não tivesse cortado o espectro.
— Acho que todos nós fomos fantásticos — disse Meredith. — Dou início aos primeiros trabalhos da sociedade de admiração mútua de ex-alunos da Robert E. Lee High School.
— Vamos ter que chamar Matt e dizer-lhe como ele é maravilhoso — comentou Bonnie. — E acho que Stefan também conta como ex-aluno, não é? Acho que agora que o mundo mudou, ele pode ter se formado com a gente. — Ela bocejou, mostrando uma pequena língua rosada como a de um gato. — Estou exausta.
Elena percebeu que também estava. Tinha sido um longo dia. Um ano muito longo desde que os irmãos Salvatore chegaram a Fell’s Church e a vida mudou para sempre. Ela arriou no assento e apoiou a cabeça no ombro de Meredith.
— Obrigada por salvarem a cidade mais uma vez, vocês duas — agradeceu ela sonolenta. Parecia importante dizer isso. — Talvez amanhã a gente possa tentar ter uma vida normal de novo.
Meredith riu um pouco e abraçou as duas.
—Nada pode derrotar nossa irmandade — afirmou ela. — Somos boas demais para o normal. — Sua respiração ficou suspensa. — Quando vocês duas foram levadas pelo espectro — disse ela em voz baixa, — eu tive medo de perder vocês para sempre. Vocês são minhas irmãs, de verdade, não só as minhas amigas, e eu preciso de vocês. Quero que saibam disso.
— Mas é claro que sim — concordou Bonnie, assentindo com fervor.
Elena estendeu a mão para as duas. As três amigas se apertaram num abraço entre risos e algumas lágrimas. O amanhã chegaria, e talvez o normal, o que quer que isso seja a essa altura, também viesse. Por hora, Elena tinha suas verdadeiras amigas. Isso significava muito. O que quer que acontecesse, isso bastaria.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!