30 de março de 2019

Capítulo 35

A noite de iniciação dos mais novos integrantes da Vitale Society enfim chegara. A sala imensa estava iluminada apenas pela luz dourada de velas em longos castiçais colocados em torno do espaço e pelo fogo de archotes de chama alta encostados nas paredes. Na luz bruxuleante, os animais entalhados na madeira dos pilares e arcadas quase pareciam se mexer. Matt, com um manto de capuz escuro como os outros iniciados, olhou em volta com orgulho. Eles se esforçaram muito, e a sala ficou incrível.
Na frente da sala, abaixo do arco mais alto, fora colocada uma longa mesa, coberta com um cetim vermelho pesado e parecendo uma espécie de altar. No meio da mesa havia uma imensa tigela funda de pedra, quase uma pia batismal, e em volta dela rosas e orquídeas. Outras flores foram espalhadas pelo chão, e o cheiro dos botões pisoteados era tão forte que chegava a provocar vertigens. Os aspirantes estavam enfileirados, a espaços regulares, diante do altar.
Como se compartilhasse o orgulho dele por como tudo tinha ficado, Chloe puxou um pouco o capuz preto para trás e se inclinou em direção a ele.
— Fabuloso, não é? — cochichou.
Matt sorriu para ela. E daí que ela estava namorando outro? Ele ainda gostava dela. Queria que fossem amigos, mesmo que só pudesse haver isso entre eles.
Ele puxou o manto, constrangido; o tecido era pesado e ele não gostava de como bloqueava sua visão periférica.
Os atuais membros mascarados da Vitale Society andavam em silêncio e sinuosamente entre os aspirantes, entregando cálices com um líquido. Matt o farejou e sentiu cheiro de camomila e gengibre, assim como odores menos conhecidos: então era para isso que precisavam das ervas.
Ele sorriu para a garota que lhe entregou o chá, mas não teve resposta. Os olhos dela por trás da máscara passaram por ele, neutros, e ela continuou. Depois que fosse um membro pleno da Vitale Society, saberia quem eram os atuais integrantes, veria todos sem máscaras. Ele bebericou do cálice e fez uma careta: o sabor era estranho e amargo.
O farfalhar suave de figuras de manto se movendo pelo chão foi silenciado quando o último cálice foi entregue, e os Vitale mascarados rapidamente se retiraram sob o arco para trás do altar, observando. Ethan deu um passo à frente, subiu ao altar e puxou o capuz para trás.
— Bem-vindos. — Ele estendeu as mãos para os aspirantes reunidos. — Bem-vindos enfim ao poder verdadeiro. — A luz das velas bruxuleava em seu rosto, distorcendo-o em algo desconhecido e quase sinistro. Matt se remexeu, nervoso, e tomou outro gole da mistura amarga de ervas.
— Um brinde! — gritou Ethan. Ele ergueu o próprio cálice e, diante dele, os aspirantes fizeram o mesmo. Ethan hesitou por um momento, depois disse: — À passagem para além do véu e à descoberta da verdade.
Matt ergueu o cálice e o bebeu todo, assim como os outros aspirantes. A mistura deixou uma sensação arenosa na língua, e ele a raspou distraidamente nos dentes.
Ethan olhou para os aspirantes e sorriu, fitando um depois de outro.
— Todos vocês alcançaram seu auge pessoal de inteligência, força e capacidade de liderança. Juntos, são uma força a ser considerada. Estão perfeitos.
Matt conseguiu se conter educadamente e não revirar os olhos. Era bom ser elogiado, é claro, mas às vezes Ethan exagerava um pouco: perfeitos? Matt duvidava que isso fosse possível. Parecia-lhe que sempre se podia prosperar um pouco mais, ou um pouco menos, em alguma coisa. Sempre era possível querer ser melhor. Mas, mesmo que ele afinal pudesse ser perfeito, desconfiava que seria preciso muito mais do que algumas provas de obstáculos e exercícios em grupo de solução de problemas para isso.
— E agora é hora de enfim revelar nosso propósito — continuou Ethan. — Hora de completar a última fase de sua transformação de estudantes comuns em verdadeiros avatares do poder. — Ele pegou um copo de prata reluzente e limpo no altar e o mergulhou na tigela funda de pedra diante dele. — A cada passo rumo à evolução, deve haver algum sacrifício. Lamento qualquer dor que isso possa infligir a vocês. Reconfortem-se sabendo que todo sofrimento é temporário. Anna, um passo à frente.
Houve uma certa inquietação entre os aspirantes. Essa conversa de sofrimento e sacrifício era diferente da ênfase habitual de Ethan na honra e no poder. Matt franziu o cenho. Havia algo errado ali.
Mas Anna, parecendo minúscula no manto longo, aproximou-se sem hesitar do altar e puxou o capuz para trás.
— Beba-me — disse Ethan, entregando-lhe o copo de prata.
Anna piscou, indecisa; então, com os olhos em Ethan, virou a cabeça para trás e secou o copo. Ao devolvê-lo, lambeu os lábios automaticamente, e Matt tentou vê-la melhor. Na luz bruxuleante das velas, seus lábios assumiram um vermelho brilhante e nada natural.
Em seguida, Ethan levou-a para o lado do altar e pegou-a nos braços. Ele sorriu, e seu rosto se contorceu, os olhos se dilatando e os lábios se repuxando num esgar. Os dentes pareciam tão longos, tão afiados. Matt tentou gritar um alerta, mas percebeu com horror que não conseguia mexer a boca, não conseguia juntar fôlego para gritar.
Ele entendeu, subitamente, que tinha sido um tolo.
Ethan cravou fundo as presas no pescoço de Anna. Matt se esforçou, tentou correr para eles, atacar Ethan e arrancá-lo de Anna. Mas não conseguia se mexer. Devia estar sob algum tipo de coerção. Ou talvez algo na bebida, algum ingrediente mágico, fez com que todos ficassem dóceis e imóveis. Impotente, ele viu Anna lutar por uns minutos, depois ficar flácida, rolando os olhos para trás.
Sem a menor cerimônia, Ethan deixou o corpo cair no chão.
— Não temam — disse ele gentilmente, olhando para os aspirantes apavorados e paralisados. — Todos nós — gesticulou para os Vitale mascarados e silenciosos atrás dele — passamos por esta iniciação recentemente. Devem se preparar para sofrer o que é apenas uma morte pequena e temporária; depois serão um de nós, um verdadeiro Vitale. Nunca envelhecerão, jamais morrerão. Poderosos para sempre.
Com os dentes brancos e afiados e os olhos dourados brilhando à luz das velas, Ethan estendeu a mão para o aspirante seguinte enquanto Matt se esforçava novamente para gritar, para lutar.
— Stuart, um passo à frente.


Elena tinha um cheiro tão bom, fragrante e doce quanto uma fruta madura e exótica. Damon queria simplesmente enterrar a cabeça na pele macia do vão de seu pescoço e respirá-la por uma ou duas décadas. Enroscando o braço no dela, puxou-a para mais perto.
— Não pode entrar comigo — disse ela pela segunda vez. — Posso conseguir que James fale porque é uma pergunta sobre meus pais, mas acho que ele não vai me dizer nada se houver mais alguém presente. Qualquer que seja a verdade sobre a Vitale Society e meus pais, acho que ele se sente constrangido com isso. Ou tem medo ou... algo assim. — Sem prestar atenção no que estava fazendo, Elena se aconchegou com mais firmeza no braço de Damon.
— Tudo bem — concordou Damon, obstinado. — Vou esperar do lado de fora. Não vou deixar que ele me veja. Mas você não vai andar pelo campus à noite sozinha. Não é seguro.
— Sim, Damon — disse Elena numa imitação convincente de docilidade, e pousou a cabeça em seu ombro. O cheiro de limão do xampu dela se misturou com o cheiro mais essencial de Elena. Damon suspirou de satisfação.
Ela gostava dele, Damon sabia, e Stefan estava fora do jogo. Ela ainda era jovem, sua princesa, e um coração humano podia se curar. Talvez, sem Stefan, ela finalmente visse o quanto era mais próxima de Damon, de alma e mente, e como os dois combinavam à perfeição.
De qualquer modo, por enquanto ela era dele. Ergueu a mão livre e acariciou sua cabeça, o cabelo sedoso e macio sob os dedos, e sorriu.
A casa do professor ficava fora do campus, do outro lado da rua, depois da entrada de portões dourados. Eles quase tinham chegado à margem do campus quando uma presença familiar que espreitava por perto enfim se aproximou.
Damon girou para examinar as sombras, puxando Elena com ele.
— O que foi? — perguntou Elena, alarmada.
Saia, pensou Damon exasperado, enviando a mensagem silenciosa para as sombras mais densas na base de um grupo de carvalhos. Sabe que não pode se esconder de mim.
Uma sombra escura se destacou das outras, avançando na calçada. Stefan simplesmente olhava para o chão, com os ombros arriados, as mãos frouxas e abertas ao lado do corpo. Elena soltou um arquejar curto e magoado.
Stefan estava péssimo, pensou Damon, não sem solidariedade. Seu rosto parecia vazio e tenso, as maçãs mais proeminentes do que de costume, e Damon teria apostado que ele não estava se alimentando direito. Damon sentiu uma pontada de inquietação. Não tinha prazer nenhum em fazer o irmão sofrer. Não mais.
— E aí? — disse Damon, erguendo as sobrancelhas.
Stefan o olhou. Não quero brigar com você, Damon, disse em silêncio.
Então não brigue, rebateu Damon, e a boca de Stefan se torceu num meio-sorriso de reconhecimento.
— Stefan — disse Elena de repente, dando a impressão de que a palavra foi arrancada dela. — Por favor, Stefan.
Ele olhou para a calçada em que pisava, sem a fitar nos olhos.
— Senti que você estava por perto, Elena, e senti sua ansiedade — disse ele, cansado. — Pensei que talvez estivesse com problemas. Desculpe, eu me enganei. Não devia ter vindo.
Elena enrijeceu, e seus longos cílios escuros caíram sobre os olhos, escondendo, Damon tinha quase certeza, o que logo seriam lágrimas.
Um longo silêncio se estendeu entre eles. Por fim, irritado com a tensão, Damon fez um esforço para atenuá-la.
— Então — disse casualmente —, invadimos a sede da segurança do campus ontem à noite.
Stefan o olhou com uma fagulha de interesse.
— Ah, é? Descobriram algo de útil?
— Fotos de cenas de crime, mas não foram de muita ajuda — respondeu Damon, dando de ombros. — As pastas tinham um V preto, então estamos tentando entender o que isso significa. Elena vai falar com o professor dela sobre a Vitale Society, ver se poderia ter algo a ver com eles.
— A... Vitale Society? — indagou Stefan, hesitante.
Damon gesticulou com desdém.
— Uma sociedade secreta do tempo em que os pais de Elena estudaram aqui — disse ele. — Quem sabe? Pode não ser nada.
Passando a mão no rosto, Stefan pareceu raciocinar.
— Ah, não — murmurou. Depois, olhando para Elena pela primeira vez, perguntou: — Onde está Matt?
— Matt? — repetiu Elena, arrancada de sua contemplação tristonha de Stefan. —Hummm, acho que tinha uma reunião esta noite. Coisas do futebol, talvez?
— Preciso ir — disse Stefan rigidamente, e partiu de imediato.
Com suas capacidades aprimoradas, Damon podia ouvir os passos leves de Stefan correndo. Mas para Elena, ele sabia, Stefan não passou de um borrão que desapareceu em silêncio.
Ela se virou para Damon, o rosto contorcido no que ele reconheceu como um prelúdio a mais lágrimas.
— Por que ele me seguiu se não queria falar comigo? — Sua voz estava rouca de tristeza.
Damon trincou os dentes. Tentava ao máximo ser paciente, esperar que Elena lhe desse seu coração, mas ela ainda pensava em Stefan.
— Ele falou — respondeu, mantendo a voz tranquila. — Quer garantir que você esteja segura, mas não quer ficar com você. Eu quero, no entanto. — Pegando novamente seu braço com firmeza, ele a puxou um pouco para a frente. — Vamos?

Um comentário:

  1. Aaaaaa sabia que esses Vitale eram do mal com esse papo de seremos perfeitos, corre Stefan, dashi run.
    Se o professor e os pais dela também era da Vitale então..?

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Boa leitura, E SEM SPOILER!