19 de março de 2019

Capítulo 35

Elena saltou para trás quando o espectro pegou fogo. Ela estava tão perto que o calor das chamas queimaram seu rosto, e ela sentiu o cheiro do próprio cabelo queimando.
Protegendo o rosto com as mãos, ela avançou o mais silenciosa e furtivamente que pôde, cada vez mais perto do espectro. Suas pernas tremiam, mas ela as obrigou a ficarem imóveis e firmes. Conscientemente ela não se permitia olhar ou pensar no corpo de Stefan amarfanhado no chão da garagem, da mesma forma que evitara olhar para a luta entre Damon e Stefan, quando precisou pensar.
De repente, uma explosão de chamas disparou no ar, e aturdida, por um segundo Elena ousou ter esperanças de que Damon tivesse feito isso. O espectro estava em chamas. Certamente, nenhuma criatura de gelo poderia suportar isso.
Mas então ela percebeu que o espectro não estava apenas queimado. Ela também estava rindo.
— Seu tolo — disse o espectro a Damon, numa voz suave e quase terna. — Você acha que o fogo pode me machucar? O ciúme pode arder mais quente que o fogo e mais frio que o gelo. Você, dentre todas as pessoas, deveria saber disso, Damon. — Ele soltou um estranho riso tilintante. — Posso sentir o ciúme, a raiva que queima em você o tempo todo, Damon, e queima com tal calor que sinto o cheiro do ódio e do desespero que vivem em você, suas pequenas raivas e mágoas mesquinhas, são carne e vinho para mim. Você se agarra a eles e os examina como um tesouro. Pode ter conseguido expulsar uma parte mínima da infinidade de mágoas que o sobrecarregam, mas nunca estará livre de mim.
Em volta dos pés do espectro, pequenas linhas azuis de chamas se acenderam e rapidamente se espalharam pelo chão da garagem. Elena observava apavorada. Seriam restos de óleo deixados pelo carro antigo da Sra. Flowers? Ou era simplesmente a maldade do espectro se solidificando, espalhando fogo entre eles? Na verdade, não importava.
O que importava era que a garagem estava pegando fogo, e embora o espectro pudesse ser imune às chamas, eles não eram. A fumaça encheu o espaço enevoado, e Elena e os amigos começara a tossir. Ela cobriu o nariz e a boca com a mão.
Passando furtivamente por Elena, Damon rosnou e saltou no pescoço do espectro. Mesmo no atual estado desesperador, Elena não conseguia evitar de admirar a velocidade e a elegância de Damon. Ele se chocou contra o espectro e o derrubou no chão, depois se retraiu, protegendo o rosto com o braço coberto de couro.
Fogo, lembrou-se Elena com um arrepio de horror. O fogo é uma das poucas coisas que podem matar um vampiro. Seus olhos lacrimejaram com a fumaça, mas ela os obrigou a permanecerem abertos ao se aproximar, contornando por trás do espectro que estava de novo de pé. Ela ouvia os amigos gritando, mas estava concentrada na luta.
O espectro se movimentava de uma forma mais desajeitada do que antes, e não atacou Damon imediatamente. Através das chamas, Elena via que o fluído espesso e esverdeado ainda escorria por seu tronco sólido a partir da ferida que Meredith provocara. Onde o líquido tocava as chamas, elas tremeluziam com um tom azul esverdeado.
Damon investiu em direção ao espectro de novo, e ele o fez voar com um safanão. Rosnando, eles se rondaram cautelosos. Elena os contornou tentando não atrapalhar Damon, procurando ver como poderia ajudar.
Um estalo do outro lado da garagem distraiu Elena por um segundo, e ela olhou para trás, vendo que o fogo estava subindo pela parede, chegando ás prateleiras de madeira instaladas em volta da garagem. Ela não viu exatamente o que aconteceu em seguida, mas de repente Damon estava derrapando de costas no chão, com uma queimadura vermelha e grave no rosto.
Em um segundo, ele pairava outra vez sobre o espectro, mas seus olhos tinham uma luz selvagem que deixou Elena nervosa. Mesmo ferido, o espectro era mais forte do que Damon, e, depois de sua longa batalha contra Stefan, as reservas de Damon deviam estar diminuindo. Ele estava se arriscando de forma imprudente.
Elena reuniu toda sua coragem e aproximou-se do espectro de novo, o mais próximo possível das chamas que podia suportar. O espectro a olhou por um segundo e, em seguida, se concentrou na ameaça mais forte. Ele avançou para atacar Damon, estendendo os braços com um sorriso alegre no rosto descontrolado.
E, de repente, Meredith estava lá com Damon. Pálida, mas como uma guerreira, os olhos cautelosos transformaram-se quando ela atacou, rápida com um relâmpago. Seu bastão de combate cortou o ar quase rápido demais para uma humana, deixando um longo corte no estômago do espectro, e este gritou, as chamas em seu tronco silvando quando o líquido esverdeado fluiu pela ferida.
Mas o espectro permaneceu de pé. Ele rosnou e avançou para Meredith, que recuou rapidamente, ficando fora do alcance. Ela e Damon se entreolharam num entendimento mudo e começaram a atacar o torso do espectro, um de cada lado, fazendo com que o espectro não pudesse ver ambos ao mesmo tempo.
Damon avançou, dando socos curtos e intensos, as mãos avermelhadas se enchendo de bolhas. Meredith girou o bastão novamente, tentando atingir o espectro no braço, mas atravessou apenas um fio de fumaça.
Uma prateleira em chamas caiu no chão, tornando a fumaça mais espessa. Longe da luta, Elena podia ouvir Bonnie e Matt tossindo. Ela se aproximou por trás do espectro uma vez mais, tentando não atrapalhar Meredith e Damon. O calor que emanava do espectro era como uma fogueira imensa.
Meredith e Damon estavam se movendo em conjunto agora, tão suavemente que era como se tivessem ensaiado uma dança para frente e para trás, acertando o espectro acidentalmente, mas na maioria das vezes só atingiam uma nuvem de fumaça ou névoa, quando o fantasma se transformava.
Uma voz soou.
— Expulsem seu ciúme — A Sra. Flowers se apoiava nos braços de Matt e Alaric, mas seus olhos estavam claros e sua voz firme. O Poder estalava no ar ao seu redor.
O espectro diminuiu um pouco a luta, talvez não mais do que por um segundo, esquecendo-se de golpear e se transformar. Mas foi o suficiente para fazer pelo menos uma pequena diferença. Os golpes de Damon e Meredith o acertaram, e eles conseguiram desviar um pouco do espectro.
Mas era o suficiente? O espectro balançou quando foi atingido, e o fluído verde escorreu do local onde o bastão o cortara, mas ele se manteve firme, enquanto Meredith e Damon tossiam e engasgavam com a fumaça e cambaleavam para fora das chamas. A rosa do peito pulsava num vermelho escuro.
Elena suspirou de frustração e imediatamente começou a tossir novamente. O espectro não parava por tempo suficiente para ser atingido por um bom golpe no coração de rosa.
Meredith atacou novamente, e desta vez o bastão deslizou através da fumaça, o espectro segurou o bastão em uma mão e empurrou Meredith contra Damon, ambos caindo pesadamente no chão, e o espectro, ainda mancando um pouco pelo feitiço da Sra. Flowers, aproximou-se deles.
— Eu invejava sua inteligência, Meredith — Bonnie choramingou. Seu rosto estava manchado pela fumaça e as lágrimas, e parecia muito pequena e frágil, mas ela ficou ereta e orgulhoso, gritando a plenos pulmões. — Eu sei que eu nunca vou ser tão boa na escola como você, mas tudo bem. Eu expulso meu ciúme!
A rosa desbotou para um rosa escuro por um momento, oscilando ligeiramente. O espectro olhou para Bonnie e assobiou. Foi apenas uma pequena pausa, mas foi o suficiente para fazê-lo esquecer Damon. Meredith se levantou. Sem sequer olhar para os outros, Meredith e Damon viraram na direção oposta novamente.
— Eu tinha inveja de meus amigos terem mais dinheiro que eu — gritou Matt, — mas eu expulso esse ciúme!
— Eu invejava como Alaric acreditava piamente em algo sem provas, e acabava tendo razão! — gritou Celia. — Mas eu expulso isso!
— Eu invejava as roupas de Elena! — gritou Bonnie. — Sou baixa demais para ficar bem em um monte de coisas! Mas eu expulso isso!
Damon chutou o espectro, puxando rapidamente a perna em chamas. Meredith girou o bastão. A Sra. Flowers entoava em latim, e Alaric se uniu a ela, com a voz grave formando um contraponto a dela, reforçando o feitiço.
Bonnie, Celia, e Matt ainda gritavam, soltando pequenos ciúmes e mágoas de que eles provavelmente mal tinham consciência, expulsando-os para pontilhar o espectro com golpes minúsculos.
E, pela primeira vez, o espectro parecia atordoado... balançava a cabeça lentamente de um adversário para o outro: Damon o ameaçando de punhos erguidos; Meredith com o bastão oscilando seguramente, enquanto fitava o espectro com um olhar frio e cauteloso; Alaric e a Sra. Flowers recitando sequências de palavras em latim, de mãos erguidas; Bonnie, Matt e Celia gritando confissões como se atirassem pedras nele.
Os olhos vítreos do Ciúme passaram por Elena sem realmente percebê-la, imóvel e quieta em meio a toda confusão, ela não era uma ameaça.
Esta era a melhor oportunidade que Elena conseguiria. Criou coragem para avançar, mas congelou quando o espectro se voltou para ela. E então, como que por milagre, Stefan estava ali. Ele se agarrou as costas do espectro, jogando um braço ao redor de seu pescoço, enquanto as chamas o lambiam. Sua camisa pegou fogo. O espectro foi brevemente puxado para além de Elena, ficando com o tronco virado para ela, desprotegido.
Sem hesitar, Elena mergulhou a mão no fogo. Por um momento, ela mal sentiu as chamas, só um toque gentil e quase indiferente em sua mão enquanto o fogo lambia em volta dela. Não é tão ruim, Elena teve um momento para penar, e então sentiu a dor.
Era pura e agonizante, e fogos de artifício de choque explodiram por trás de seus olhos. Ela teve de se esforçar para superar o instinto quase irresistível de puxar a mão de volta do fogo. Em vez disso, tateou pelo tronco do espectro, procurando o corte que Meredith fizera pouco acima da rosa. Ele era escorregadio e liso, e sua mão se atrapalhava. Onde está? Onde está?
Damon se atirara nas chamas com Stefan, atingindo os braços e o pescoço do espectro, mantendo seu tronco livre para Elena, evitando que o espectro se soltasse e a atirasse pela garagem. Meredith bateu na lateral do Ciúme com o bastão, atrás dela, as vozes dos amigos se elevaram num tagarelar de confissões e feitiços, enquanto eles faziam sua parte para manter o espectro desorientado e sem equilíbrio.
Elena finalmente encontrou o corte e pressionou a mão para dentro. Era gelado no peito do espectro, e Elena gritou com o contraste, o frio era tão torturante depois do calor, e as chamas ainda lambiam seu pulso e o braço. O líquido congelante dentro do peito do espectro era tão grosso, que parecia que ela tateava uma gelatina. Elena empurrou e estendeu a mão, e o espectro gritou de dor.
Foi um som horrível, e apesar de tudo o que o espectro fizera com ela e os amigos, Elena não conseguiu evitar de se encolher de solidariedade. Um instante depois a mão de Elena se fechou no caule da rosa e mil espinhos furaram sua carne queimada. Ignorando a dor, ele puxou a rosa do líquido congelante para fora do fogo, e cambaleou para trás, para longe do espectro.
Ela não sabia o que esperava acontecer, exatamente. Que o espectro ia derreter como a Bruxa Má do Oeste, talvez deixando nada além de uma poça de água esverdeada e abjeta. Em vez disso, o espectro a encarou, de boca aberta, com os dentes afiados e brilhantes a plena mostra. O rasgo em seu peito tinha se expandido, e o fluído vazava rapidamente, como uma torneira aberta. As chamas ardiam baixas e verdes, onde o líquido escorria por seu corpo e pingava no chão.
— Me dê — disse Stefan, aparecendo ao lado de Elena. Ele pegou a rosa de sua mão e arrancou as pétalas, agora desbotando para um rosa mais claro, e espalhou as pétalas pelo fogo que queimava nas laterais da garagem.
O espectro olhou com uma expressão de assombro e, aos poucos, o fogo foi afinando até virar uma fumaça, sua forma sólida evaporando lentamente. Por um momento, uma imagem enevoada e malévola pendeu no ar diante deles, com os olhos carrancudos fixos em Elena. E então desapareceu.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!