30 de março de 2019

Capítulo 34


— Gosto de sua casa — disse Elena a Damon, olhando em volta.
Ela ficou um tanto surpresa quando ele a convidou para jantar. Um encontro convencional não era algo que ela um dia tenha associado a Damon, mas no caminho para lá ela estava se coçando de empolgação e curiosidade. Apesar de ter morado no mesmo palácio que Damon na Dimensão das Trevas, ela nunca viu uma casa que Damon montasse para si mesmo. Apesar de toda a ostentação, percebeu Elena, Damon era estranhamente reservado.
Ela esperava que o apartamento dele tivesse decoração gótica em preto e vermelho, como as mansões de vampiro que ela visitou na Dimensão das Trevas. Mas não era nada disso. Era minimalista, refinado e elegante em sua simplicidade, com paredes claras e despojadas, muitas janelas, mobília de vidro e metal e cores suaves e frias.
De algum modo, combinava com ele. Se não se olhasse muito fundo em seus olhos escuros e antigos, ele podia ser um lindo jovem modelo ou arquiteto, vestido de preto, na moda, e firmemente arraigado no mundo moderno.
Mas não inteiramente moderno. Elena parou na sala de estar para admirar a vista da cidade: estrelas cintilavam no céu acima das luzes suaves das casas e dos faróis dos carros nas ruas. Em uma mesa de cromo e vidro abaixo da janela, algo mais emitia um brilho semelhante.
— O que é isto? — perguntou ela, pegando o objeto. Parecia uma esfera dourada coberta com uma filigrana de diamantes, do tamanho ideal para caber confortavelmente na palma de sua mão.
— Um tesouro — disse Damon, sorrindo. — Veja se consegue encontrar o fecho do lado.
Elena tateou a esfera com dedos cautelosos, enfim encontrando um fecho inteligentemente escondido. Apertou-o. A bola se abriu em suas mãos, revelando uma pequena figura dourada. Um beija-flor, viu Elena ao erguer o objeto, o ouro cravejado de rubis, esmeraldas e safiras.
— Gire a chave — orientou Damon parando atrás dela, com as mãos frias em sua cintura.
Elena encontrou a pequena chave atrás do passarinho e girou. A ave arqueou o pescoço e abriu as asas, movendo-se lenta e suavemente enquanto começava a tocar uma música delicada.
— É lindo — disse ela.
— Feito para uma princesa — falou Damon, de olhos fixos na ave. — Um brinquedinho delicado, da Rússia anterior à Revolução. Tinham bons artesãos lá nos velhos tempos. Também era um lugar divertido de se estar, se você não fosse camponês. Palácios, banquetes e cavalgadas pela neve em trenós amontoados de peles.
— Você esteve na Rússia durante a Revolução? — perguntou Elena.
Damon riu, um som curto, seco e afiado.
— Eu estive lá antes da Revolução, querida. “Saia antes que as coisas fiquem ruins” sempre foi o meu lema. Nunca me importei o suficiente para ficar e ver as coisas até o fim. Antes de conhecer você, quero dizer.
A música parou de tocar, e Elena se virou um pouco, querendo ver o rosto de Damon. Ele sorriu e pegou a mão dela, fechando a ave na esfera.
— Fique com isto — disse ele. Elena tentou protestar (certamente era inestimável), mas Damon deu de ombros levemente. — Quero que fique com ele. Além disso, tenho muitos tesouros. Tende-se a acumular coisas quando se vive várias vidas.
Ele a conduziu à sala de jantar, onde a mesa estava posta para um.
— Está com fome, princesa? — perguntou. — Comprei comida para você.
Ele lhe serviu uma sopa maravilhosa — de algo que ela não reconheceu e que era suave e aveludado na língua, com um leve toque de especiarias —, seguida de uma ave mínima assada, que Elena dissecou cuidadosamente com o garfo, estalando os ossinhos. Damon não comeu, jamais comia, mas bebeu uma taça de vinho e observou Elena, sorrindo quando ela lhe contou das aulas e assentindo com seriedade quando ela lhe falou do quanto custava a Meredith patrulhar toda noite.
— Foi maravilhoso — disse ela por fim, comendo a saborosa torta de chocolate que ele comprara para a sobremesa. — Acho que foi a melhor refeição que já tive.
Damon sorriu.
— Quero lhe dar o melhor de tudo. Você devia ter o mundo aos seus pés, sabe.
Algo em Elena se agitou. Ela baixou o garfo e se levantou, indo à janela para olhar as estrelas novamente.
— Você esteve em toda parte, não foi, Damon? — perguntou. Ela colocou a palma no vidro.
Damon se aproximou por trás e a puxou para ficarem frente a frente, acariciando delicadamente seu cabelo.
— Ah, Elena — disse ele. — Eu estive mesmo em toda parte, mas o que sei do mundo é que ele sempre muda, então é sempre novo e emocionante. São tantos lugares que quero lhe mostrar, que quero que veja com seus próprios olhos. Há tanta coisa lá fora, tanto a viver.
Ele beijou seu pescoço, os caninos apertando gentilmente a veia na lateral, depois colocou as mãos em seus quadris, virando-a para a janela, onde um manto de estrelas brilhava na noite.
— A maioria das pessoas nunca viu um décimo do que existe no mundo humano — murmurou ele em seu ouvido. — Seja extraordinária comigo, Elena. — Seu hálito estava quente no pescoço dela. — Seja minha princesa das trevas.
Elena se encostou nele, tremendo.

Querido Diário,
Não sei mais quem sou.
Esta noite, com Damon, quase pude imaginar minha vida se eu aceitasse a proposta que ele me fez, de me tornar sua “princesa das trevas”. Nós dois, de mãos dadas, fortes, lindos e livres. Tudo o que eu quisesse sem ter de levantar um dedo que fosse: joias, roupas, uma comida maravilhosa. Uma vida acima das preocupações que eu costumava ter, em algum lugar distante. Vivendo e vendo maravilhas que nem mesmo imagino.
Mas seria um mundo sem Stefan. Ele tem me rejeitado ultimamente. Mas me ver com Damon — não só nos beijando, mas sendo quem Damon quer que eu seja — o magoaria, eu sei. E não suporto mais fazer isso.
É como se existissem dois caminhos à minha frente. Um leva à luz do dia, e é o da menina comum que eu pensei que quisesse ser: festas, aulas e, no futuro, um emprego, uma casa e uma vida normal. Stefan quer me dar isso. O outro leva às trevas, com Damon, e estou apenas começando a perceber o quanto esse mundo tem a oferecer e o quanto quero viver tudo que há nele.
Sempre pensei que Stefan estaria comigo no caminho do dia. Mas agora o perdi, e esse caminho me parece tão solitário. Talvez o caminho das trevas realmente seja meu futuro. Talvez Damon tenha razão e eu deva ficar com ele, na noite.


— Estou louca para ver minha surpresa. — Bonnie ria enquanto ela e Zander atravessavam o gramado do prédio de ciências de mãos dadas. — Você é tão romântico. Espere só até eu contar aos meninos.
Zander roçou um beijo leve como uma pluma em seu rosto, com os lábios quentes.
— Eles já sabem que perdi todos os meus pontos de cara descolado por sua causa. Eu cantei no karaokê com você ontem à noite.
Bonnie deu uma risadinha.
— Bem, depois que eu te mostrei Dirty Dancing, tínhamos que cantar o grande dueto, não é? Nem acredito que você nunca tivesse visto esse filme.
— Isso porque eu costumava ser mais homem — admitiu Zander. — Mas agora vi o erro que cometi. — Ele abriu um de seus sorrisos lentos e os joelhos de Bonnie quase se vergaram. — É um filme legal.
Eles chegaram ao pé da escada de incêndio, e Zander a impeliu, subindo atrás dela em seguida. Quando chegaram ao terraço, Zander gesticulou grandiosamente para a cena diante deles.
— Em nosso aniversário de seis semanas, Bonnie, uma recriação de nosso primeiro encontro.
— Ah! Que amor!
Bonnie olhou em volta. Lá estava a manta puída do exército, com uma caixa de pizza e refrigerantes. As estrelas brilhavam no alto, como seis semanas antes. Era mesmo um amor; uma ideia romântica, mesmo que o primeiro encontro não tenha sido tão maravilhoso. Depois ela se corrigiu: foi um encontro maravilhoso, sim, embora tivesse sido simples.
Ela se sentou na manta, olhou a caixa de pizza, e involuntariamente sorriu. Azeitonas, linguiça e cogumelos. A preferida dela.
— Pelo menos houve uma melhoria na recriação, pelo que vejo.
Zander se sentou ao lado dela e passou o braço sobre seus ombros.
— Claro que agora sei como você gosta de sua pizza. Tenho que prestar atenção na minha garota.
Bonnie se aninhou sob seu braço e eles dividiram a pizza, olhando as estrelas e conversando confortavelmente sobre uma coisa ou outra. Quando a pizza acabou, Zander limpou as mãos engorduradas com cuidado num guardanapo e pegou as mãos de Bonnie.
— Preciso falar com você — disse com seriedade, os olhos azuis celestes intensos nos dela.
— Tudo bem. — Bonnie ficou nervosa, com um certo pânico surgindo no estômago. Zander não a teria levado ali e recriado o primeiro encontro se estivesse planejando deixá-la, não é? Não, essa ideia era ridícula. Mas ele parecia tão solene e preocupado. — Você não está doente, está? — perguntou ela, apavorada com a ideia.
O canto da boca de Zander se torceu num sorriso.
— Você é muito engraçada, Bonnie. Sempre diz o que lhe passa pela cabeça. Este é um dos motivos para eu amar você. — O coração de Bonnie saltou na garganta e ela sentiu as bochechas ficarem vermelhas. Zander a amava?
Zander ficou sério de novo.
— É sério. Eu sei que é muito cedo, e você não precisa se sentir obrigada a responder nada, mas quero que saiba que estou me apaixonando por você. Você é incrível. Nunca senti nada assim. Nunca.
Lágrimas de uma surpresa feliz brotaram nos olhos de Bonnie e ela fungou, apertando a mão de Zander com força.
— Eu também sinto isso — disse ela numa voz mínima. — As últimas semanas foram maravilhosas. Quero dizer, não acho que um dia eu tenha me divertido tanto quanto me divirto com você. Nós nos entendemos, sabe?
Eles se beijaram, um beijo longo, lento e doce. Bonnie se encostou em Zander e suspirou, satisfeita. Nunca tinha ficado tão à vontade. Em seguida, ele se afastou.
Bonnie se aproximou de novo, mas Zander pegou as mãos dela e olhou em seus olhos.
— E, como estou me apaixonando por você — explicou ele devagar —, preciso lhe contar uma coisa. Você tem o direito de saber. — Ele fechou bem os olhos por um momento e os abriu novamente, olhando para Bonnie como se quisesse entrar em sua cabeça e descobrir como ela reagiria ao que ele falou em seguida. — Eu sou um lobisomem — disse simplesmente.
Bonnie ficou paralisada por um minuto, a mente lutando para entender. Depois deu um gritinho e soltou as mãos dele, levantando-se num salto.
— Ah, não — disse ela, ofegante. — Ah, meu Deus.
Imagens disparavam por sua mente: o rosto distorcido de Tyler Smallwood, se alongando grotescamente num focinho, os olhos amarelos e com pupilas em fenda fixos nela com um ódio cruel e sedento por sangue. Meredith, encolhida na cama como uma boneca abandonada, com os olhos vagos ao lhe dizer como o corpo de Samantha tinha sido mutilado. O clarão de cabelo louro que Meredith viu ao perseguir a figura de preto que fugia de uma menina aos gritos. Os hematomas escuros no corpo de Zander.
— Meredith e Elena tinham razão — concluiu ela, afastando-se dele.
Não! Não, não é assim, Bonnie, por favor. — Zander levantou-se, atrapalhado, para os dois ficarem de frente um para o outro. Seu rosto estava lívido e tenso. — Sou um lobisomem bom, eu juro, eu não... não machucamos as pessoas.
— Mentira! — gritou Bonnie, furiosa. — Eu conheci lobisomens, Zander. Para se tornar um, você tem que matar! — Com essa, ela fugiu, descendo a escada de incêndio em direção à segurança relativa do chão. Não olhe para trás, não olhe para trás, martelava em sua cabeça. Fuja, fuja.
Bonnie! — Zander a chamou do alto da escada de incêndio, e Bonnie o ouviu descer atrás dela.
Bonnie saltou os últimos degraus e bateu com força no chão, cambaleando. Endireitou o corpo e disparou a correr de pronto. Tinha de entrar, encontrar um lugar onde não ficasse sozinha.
Pelo canto do olho, teve um vislumbre de movimento nas sombras do prédio. Jared e Tristan e, ah, não, o musculoso e grandalhão Marcus. Lobisomens, percebeu ela, assim como Zander; parte do bando dele. Bonnie pensou que estava correndo na maior velocidade possível, mas, ao se aproximar da luz, encontrou uma energia renovada.
— Bonnie! — gritou Jared com a voz rouca, e eles foram atrás dela.
Ela corria com a maior rapidez possível, com soluços sem fôlego rasgando seu peito, mas não era veloz o suficiente. Eles estavam perto; ela ouvia os passos pesados alcançando-a.
— Só queremos conversar com você, Bonnie — chamou Tristan, com a voz estável e calma. Nem parecia sem fôlego.
— Pare — disse Marcus. — Espere por nós. — E, ah, meu Deus, ele agora estava chegando ao lado dela, e Tristan do outro, cercando-a. Eles estavam se aproximando, fechando o cerco.
Bonnie parou, com as mãos nos joelhos, arfando. Lágrimas quentes escorriam pelo rosto e pingavam do queixo. Eles a apanharam. Ela correu sem parar, com a maior velocidade possível, mas não conseguiu fugir. Os três andavam em volta dela, bloqueando-a, com a expressão preocupada.
Eles fingiram ser amigos, mas agora pareciam caçadores, rondando-a. Mentiram, todos eles.
Monstros — murmurou ela como uma maldição, e se endireitou, ainda ofegante.
Eles a apanharam, mas não a tinham derrotado ainda. Ela era uma bruxa, não era? Bonnie cerrou as mãos em punhos e começou a entoar os encantamentos que a Sra. Flowers lhe ensinou para proteção e defesa. Não pensava que podia derrotar três lobisomens, não sem tempo para fazer um círculo mágico, sem suprimento nenhum, mas talvez pudesse machucá-los.
— Ei, esperem. Parem. — Zander agora se aproximava, correndo pelo gramado da universidade em direção a eles.
Embora as lágrimas quentes toldassem sua visão, Bonnie via que ele era lindo, um corredor gracioso e natural, as pernas longas devorando a distância, e seu coração doeu um pouco mais. Ela o amava muito. Continuou a entoar, sentindo o poder crescer por dentro como a pressão em uma lata sacudida de refrigerante, pronta para estourar.
Zander parou quando os alcançou, agarrando o ombro de Marcus. Os outros três o olharam.
— Ela fugiu da gente — disse Tristan, parecendo perplexo e ressentido.
— É — concordou Zander. — Eu sei. — Lágrimas escorriam pelo rosto de Zander também, Bonnie percebeu, e ele não fez nenhum gesto para enxugar. Só olhava para ela, aqueles lindos olhos azuis bem abertos, dolorosamente tristes. — Para trás, pessoal — falou, sem desviar os olhos de Bonnie. A ela, então, acrescentou: — Faça o que tem de fazer.
Bonnie parou de entoar, deixando o poder acumulado se esvair. Tomou uma golfada áspera de ar e depois, rápida como uma flecha, o coração martelando como se pudesse explodir e escapar do peito, correu.

Um comentário:

  1. Ai eu fiquei com pena do Zander e dos meninos, já sabiam que eles eram lobisomens e desconfiei deles no começo mas agora tenho quase certeza de que não foram eles que assassinaram o povo lá, certeza que foi aquela organização maluca, os Vitale. Desconfio daquele professor tambem.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!