30 de março de 2019

Capítulo 33

Matt observou que Ethan estava totalmente surtado. A compostura animada e costumeira do garoto sumira, e ele supervisionava os arranjos da iniciação com a intensidade de um sargentão.
— Não! — rosnou ele do outro lado da sala. Ele andou às pressas e bateu na perna de uma menina que subira numa cadeira e entrelaçava rosas no V de metal chumbado no alto do arco central.
— Ai! — gritou ela, deixando as rosas caírem no chão. — Ethan, qual é o seu problema?
— Não ponha nada no V, Lorelai — disse-lhe ele com frieza, e abaixou-se para pegar as flores. — Você deve respeitar os símbolos da Vitale Society. É uma questão de honra. Quando nosso líder finalmente se juntar a nós, devemos demonstrar a ele que somos disciplinados, que somos capazes. — Ele meteu as rosas nas mãos dela. — E não fazemos isso pendurando lixo no símbolo de nossa organização.
Lorelai o encarou.
— Desculpe, mas pensei que você fosse o líder da Vitale Society, Ethan.
Todos pararam de trabalhar para ver o surto de Ethan. Percebendo que era o centro das atenções, ele respirou fundo, claramente tentando recuperar a compostura.
Por fim dirigiu-se a todos, mordendo as palavras.
— Estou tentando preparar todos vocês, e a esta câmara, para a cerimônia de iniciação. Por vocês. — Sua voz se elevava enquanto ele fuzilava a todos com os olhos. — E é nessa hora que tomo conhecimento de que, apesar de todas as suas promessas, vocês são um bando de incompetentes. Nem conseguem colocar uma vela ou misturar umas ervas sem a minha ajuda. Estamos ficando sem tempo, e eu podia muito bem fazer tudo sozinho.
Matt olhou para os outros aspirantes. As expressões eram de assombro e cautela. Assim como ele, todos, o tempo todo, estiveram se mirando em Ethan, ficando lisonjeados e estimulados com seus elogios. Agora o exemplo se voltava contra eles, ninguém parecia saber como reagir. Chloe, dispondo velas na arcada, ficou ansiosa, unindo firmemente os lábios. Olhou rapidamente para Matt e virou o rosto, voltando-se para Ethan.
— Basta nos dizer o que fazer, Ethan — disse Matt, avançando um passo. Ele tentou manter a voz calma e estável. — Vamos fazer o máximo para que saia tudo perfeito.
Ethan virou-se, irritado, para ele.
— Você nem conseguiu que seu amigo Stefan se juntasse a nós — disse com amargura. — Uma tarefa simples e você fracassou.
— Ei — Matt se ofendeu —, isto não é justo. Eu trouxe Stefan para conversar com você. Se ele não ficou interessado, foi decisão dele. Stefan não precisa se juntar a nós.
— Questiono seu compromisso com a Vitale Society, Matt — disse Ethan categoricamente. — E a conversa com Stefan Salvatore não acabou. — Ele passou por Matt, olhando brevemente o resto dos aspirantes reunidos em volta dele. — Não há muito tempo. Voltem todos ao trabalho.
Matt sentiu o princípio de uma dor de cabeça nas têmporas. Pela primeira vez, perguntou-se se queria mesmo ingressar na Vitale Society.

— Eu podia abrir esta porta em um segundo — disse Damon com irritação. — Mas estamos parados aqui, esperando.
Meredith suspirou e mexeu com cuidado o grampo na tranca.
— Se arrombar à força, Damon, vão saber de cara que alguém invadiu a sede da segurança do campus. Soltando a tranca, podemos agir discretamente. Entendeu? — O grampo agarrou em alguma coisa e ela o deslizou para cima com cuidado, tentando virar para pegar os pinos da fechadura e mover o tambor. Depois o grampo entortou e ela perdeu o ângulo. Então resmungou e procurou outro grampo na bolsa. — Vinte e sete armas — grunhiu Meredith. — Trouxe 27 armas diferentes para a faculdade e nenhum kit de arrombamento.
— Bem, não se pode estar preparada para tudo — disse Elena. — Que tal usar um cartão de crédito?
— Estar preparada para tudo é parte de minha descrição de cargo — murmurou Meredith. Ela se agachou sobre os calcanhares e encarou a porta. A tranca era bem frágil: não só Damon, mas ela ou Elena podia ter aberto à força. E, sim, um cartão de crédito ou coisa parecida devia funcionar bem. Largando o grampo na bolsa aberta, ela pegou a carteira e achou o cartão de estudante.
O cartão deslizou na fenda entre a porta e o batente, ela fez uma leve torção e, bingo, conseguiu deslizar facilmente a tranca e abrir a porta. Meredith sorriu para Elena por sobre o ombro, arqueando uma sobrancelha.
— Isto foi estranhamente satisfatório — disse ela.
Depois de entrarem e a porta se trancar novamente, Meredith verificou se as janelas estavam cobertas e acendeu a luz.
A sede da segurança era decorada com simplicidade: paredes brancas, duas mesas, cada uma com um computador, uma com meio copo de café esquecido no tampo, e um arquivo. Havia uma planta moribunda no peitoril, as folhas secas e amarronzadas.
— Temos certeza de que nenhum dos seguranças vai aparecer e nos dar um flagra? — perguntou Elena, nervosa.
— Já disse que verifiquei a rotina deles — respondeu Meredith. — Depois das oito da noite, todos os seguranças, menos um, ficam de patrulha no campus. O que não fica se senta no saguão do térreo da reitoria, mantendo contato por rádio com os outros e ajudando alunos que se trancaram nos alojamentos e coisas assim.
— Bem, vamos logo com isso — disse Damon. — Não me agrada muito a ideia de passar a noite toda neste buraco deprimente.
Sua voz parecia ao mesmo tempo educada e entediada, como sempre, mas havia algo de diferente nela. Damon estava muito perto de Elena, tão perto que seu braço roçava no dela e, Meredith observou, a mão de Damon subiu para tocar muito de leve as costas de Elena, só com a ponta dos dedos. Havia uma leve curva discreta em sua boca, quase como se Damon estivesse mais satisfeito consigo mesmo do que o habitual.
— Então? — perguntou ele, olhando novamente para Meredith. — E agora, caçadora?
Elena se afastou dele e se ajoelhou diante do arquivo antes que Meredith pudesse responder, abrindo a primeira gaveta.
— Qual era o sobrenome de Samantha? O arquivo deve estar ordenado por sobrenome.
— Dixon — respondeu Meredith, afugentando o leve choque que sempre lhe vinha quando alguém se referia a Samantha no pretérito. É que... ela era tão cheia de vida. — E o de Christopher era Nowicki.
Elena procurou nas pastas das duas gavetas, tirando primeiro uma pasta grossa, depois uma segunda.
— Achei. — Ela abriu a pasta de Samantha e soltou um leve ruído gutural. — É... pior do que eu pensava. — Sua voz tremia ao ver as fotos da cena do crime. Ela virou algumas páginas. — E aqui está o relatório do legista. Diz que ela morreu por causa da perda de sangue.
— Deixe-me ver — pediu Meredith. Ela pegou a pasta e se obrigou a examinar as fotos da cena do crime para ver se tinha deixado passar alguma coisa quando esteve lá. Seus olhos ficaram fugindo do pobre corpo indefeso de Sam, mas ela engoliu em seco e se concentrou nas áreas afastadas do corpo, no chão, nas paredes do quarto de Samantha. — Perda de sangue porque ela foi morta por um vampiro? Ou porque havia sangue demais para todo lado? — Ela se orgulhou de manter a voz firme; mais que a de Elena, pelo menos. Estendeu a pasta a Damon. — O que acha?
Damon pegou a pasta e examinou as fotos sem paixão, folheando algumas páginas para ler o relatório do legista. Depois estendeu a mão para pegar a pasta de Christopher com Elena e também analisou esta.
— Não posso dizer nada com certeza — explicou depois de alguns minutos. — Como os corpos que encontrei, eles podem ter sido mortos por lobisomens, que são primitivos assim. Ou podem ter sido vampiros relapsos. Demônios, tranquilamente. Até humanos podem fazer isso, se tiverem motivação suficiente. — Elena soltou um leve ruído de negação, e Damon lhe abriu um sorriso súbito e brilhante. — Ah, não se esqueça de que os humanos podem pensar em meios muito mais criativos de violência do que alguns simples monstros famintos, meu amor. — Sério de novo, ele olhou mais uma vez as fotografias. — Mas posso lhes dizer que mais de uma criatura... ou pessoa... foi responsável por isto.
Seu dedo traçou uma linha por uma das fotos e Meredith se obrigou a olhar. Manchas de sangue se espalhavam em um arco largo pelo quarto, para além dos braços estendidos de Samantha.
— Está vendo como o sangue espirrou aqui? — perguntou Damon. — Alguém segurou as mãos dela e outro segurou os pés, e pelo menos um terceiro, talvez mais, a matou. — Ele abriu a pasta de Christopher novamente. — A mesma coisa aqui. Isso pode ser prova de que a culpa é dos lobisomens, porque eles costumam andar em bandos, mas não é uma prova incontestável. Podemos ver grupos de quase qualquer coisa. Até de vampiros: nem todos são tão autossuficientes quanto eu.
— Matt viu só uma pessoa... ou coisa... perto do corpo de Chris — observou Elena. — E ele chegou logo depois de Christopher gritar.
Damon gesticulou com desprezo.
— Então eles foram rápidos. Um vampiro poderia fazer isso antes que um humano tivesse tempo de reagir ao grito. Quase qualquer ser sobrenatural poderia. A velocidade vem no pacote.
Meredith deu de ombros.
— Todo um bando de alguma coisa — disse num torpor. — Um só já era bem ruim.
— Um bando é muito pior — concordou Damon. — Agora estão prontas para ir?
— É melhor vermos se tem mais alguma coisa e depois arrumar tudo — disse Elena. — Quer montar guarda lá fora? Sinto que estamos provocando o destino, ficando muito tempo aqui. Você podia fazer algum sinal se vir alguém se aproximando ou usar seu Poder para se livrar deles. Por favor?
Damon sorriu para ela sedutoramente.
— Serei seu cão de guarda, princesa, mas só porque você pediu.
Meredith esperou até ele sair para num tom seco dizer:
— E, por falar em cães, lembra quando Damon matou o pug da Bonnie?
Elena abriu a primeira gaveta do arquivo de novo e procurou metodicamente.
— Não quero falar nisto, Meredith. De qualquer modo, foi Katherine que matou Yangtze.
— Só acho que você não entende no que está se metendo — disse Meredith. — Damon não serve para um relacionamento.
As mãos de Elena falharam em seu progresso eficiente.
— Eu não... não é isso. Não é um relacionamento, não quero ter um relacionamento com ninguém, só com Stefan.
Meredith franziu o cenho, confusa.
— Bem, então o que...
— É complicado — explicou Elena. — Eu gosto de Damon, você sabe disso. Estou vendo até onde as coisas podem ir com ele. Com Stefan longe — a voz falhou —, tenho que dar uma chance a ele. Só... deixe esta história de lado por enquanto, está bem?
Ela pegou a pasta de Samantha para devolver à gaveta. Seus lábios tremiam, e Meredith estava prestes a insistir no assunto: ela não ia deixar de lado. Não quando Elena estava perturbada e de algum modo envolvida (mais envolvida que antes) com Damon, o vampiro perigoso. Mas Elena a interrompeu antes que ela pudesse falar:
— Hummm. O que acha que isto quer dizer?
Meredith esticou o pescoço para ver do que ela falava, e Elena apontou. Na segunda pasta de Samantha, havia um V preto e grande na capa. Ela pegou a pasta de Christopher.
— Aqui também tem um — disse ela, mostrando a Elena.
— Vampiros? — perguntou Elena. — A Vitale Society? O que começa com V que possa ter relação com esses crimes?
— Não sei — Meredith começou a falar quando de repente elas ouviram o ronco de um motor de carro parando na frente do prédio. Um grasnado estridente atravessou a janela.
— É Damon — disse Elena, enfiando a pasta de Christopher de volta no arquivo. — Se não quisermos que ele tenha que influenciar toda a força de segurança, é melhor sairmos daqui rápido.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!