19 de março de 2019

Capítulo 33

— Pare! — gritou Elena. — Stefan! Pare com isso! Você vai matá-lo!
Ao dizer isso, ela percebeu que matar Damon poderia ser exatamente o que Stefan tinha em mente. Stefan partiu para cima de Damon com dentes e mãos, não o socando, mas rasgando ferozmente, com presas e garras. Stefan com seu corpo agachado de um jeito primal, nefasto, os caninos estendidos, o rosto distorcido por uma fúria animal, nunca pareceu tanto um vampiro sedento por sangue.
E atrás de Elena que os observava, aquela voz sedutora e arrepiante continuava dizendo a Stefan que ele perderia tudo, como sempre perdia tudo. Que Damon tirou tudo dele e depois jogou de lado com cuidado e crueldade, porque Damon simplesmente queria estragar o que Stefan tivesse.
Elena se virou, e assustada demais pelo que Stefan estava fazendo com Damon para ter algum medo do espectro, bateu nele com os punhos. Depois de momento, Matt e Bonnie se juntaram a ela.
Como antes, suas mãos só atravessavam a névoa do espectro. O peito do espectro era sólido, porém, e Elena concentrou sua raiva ali, golpeando o gelo duro com o máximo de energia que conseguia.
Por baixo do gelo no peito da criatura, uma rosa brilhava num vermelho escuro e denso. Era uma linda flor, mas de aparência mortal, sua cor lembrava sangue envenenado. Seu caule com espinhos parecia inchado, mais grosso do que o de uma flor normal. Enquanto Elena a olhava, o brilho se aprofundou e as pétalas da flor se abriram mais, amadurecendo inteiramente a flor. Esse é o coração dela? Perguntou-se Elena. O ciúme de Stefan está nutrindo isso? Ele bateu com o punho no peito do espectro de novo, bem acima do rosa, e o espectro olhou para ela por um momento.
— Pare! — disse Elena ferozmente. — Deixe Stefan em paz.
O fantasma estava realmente olhando para ela agora, e, o sorriso dele, não, dela, se alargou, os dentes de vidros afiados e brilhantes sob os lábios de névoa. Nas profundezas glaciais de seus olhos, Elena pensou ter visto uma centelha gélida, mas genuína, e o coração de Elena congelou.
Então, o espectro voltou a atenção para Stefan e Damon, e embora Elena não acreditasse ser possível, as coisas pioraram.
— Damon — disse o espectro numa voz gutural, e Damon, que estava fraco e exausto, de olhos bem fechados, passivo sob o ataque de Stefan, protegendo o rosto, mas sem revidar, abriu os olhos. — Damon — continuou o espectro, com os olhos faiscando. — Que direito Stefan tem de atacar você? Quando você tentava tirar alguma coisa dele, só estava lutando contra o fato de que ele tinha tudo, todo o amor de seu pai, as mulheres que você queria e você não tinha nada. Ele é um pirralho hipócrita, um fracote que odeia a si mesmo, mas ele consegue tudo.
Os olhos de Damon se arregalaram como se ele reconhecesse a verbalização de suas infelicidades mais profundas, e seu rosto se contorceu de emoção. Stefan ainda o arranhava e mordia, mas recuou um pouco quando Damon entrou em ação, agarrando seu braço e torcendo-o. Elena estremeceu de pavor ao ouvir o esmagar de alguma coisa, ah, meu Deus, algo no braço ou no ombro de Stefan se quebrando.
Sem se abalar, Stefan só fez uma cara e se atirou em Damon de novo, o braço ferido pendendo desajeitadamente. Damon era mais forte, Elena observou num torpor, mas estava exausto, certamente não seria capaz de manter a vantagem por muito tempo. De então adiante, eles pareciam equivalentes, os dois estavam furiosos, e ambos lutavam sem reservas. Um rugido bestial e desagradável veio de um deles, o riso trêmulo e cruel do outro, e Elena percebeu com horror que não sabia qual som vinha de quem.
O espectro sibilou de prazer. Elena se afastou dela, e pelo canto do olho, viu Bonnie e Matt se afastarem também.
— Não apaguem as linhas — Alaric gritou do outro lado da... onde eles estavam mesmo? Ah, na garagem da Sra. Flowers. Ele parecia desesperado, e Elena se perguntou se ele estava gritando havia muito tempo. Havia algum ruído de fundo, mas não teve um momento sequer para prestar atenção. — Elena! Bonnie! Matt! Não apaguem as linhas — gritou de novo. — podem sair, mas passem por cima das linhas com cuidado!
Elena olhou para baixo. Um desenho complexo de linhas em diferentes cores tinha sido feito com giz sob seus pés, e ela, Bonnie, Matt, e o espectro estavam todos juntos em um pequeno círculo no centro desse desenho.
Bonnie foi a primeira a perceber claramente o que Alaric estava dizendo.
— Vamos — ela murmurou, puxando Elena e Matt pelo braço. Depois partiu com cautela mas rapidamente pelo chão, para longe do espectro e na direção dos amigos. Matt a seguiu. Ele teve que parar com um pé em uma pequena seção e esticar o outro pé, e houve um instante em que cambaleou, o tênis quase borrando uma linha azul de giz. Mas recuperou o equilíbrio e seguiu em frente.
Elena, ainda concentrada nas figuras de Damon e Stefan que lutavam desesperadamente, levou alguns segundos a mais para entender que também precisava se mexer. Quase foi tarde demais para ela. Quando estava prestes a dar o primeiro passo para fora do círculo interno, o espectro lhe voltou os olhos vítreos.
Elena voou, pulando rapidamente para fora do círculo e mal conseguindo deixar de patinar pelo diagrama. O espectro ia dar um golpe nela, mas sua mão parou antes de cruzar uma linha de giz, e ele grunhiu de frustração.
Alaric, tremendo, tirou o cabelo desgrenhado dos olhos.
— Não sabia se isso a conteria — admitiu, — mas parece que está dando certo. Agora, cuidado, Elena, veja onde pisa, venha por aqui — Matt e Bonnie já haviam chegado à parede da garagem, a uma distância de onde Stefan e Damon estavam numa batalha, e Meredith os abraçava, a cabeça escura enterrada no ombro Matt, e Bonnie aninhada em sua lateral, com os olhos redondos como os de uma gatinha assustada.
Elena olhou o desenho complexo no chão e começou a se mover cuidadosamente entre as linhas, indo não em direção aos outros amigos, mas aos dois vampiros que lutavam.
— Elena! Não! Por aqui! — gritou Alaric, mas Elena o ignorou. Ela precisava chegar até Damon e Stefan.
— Por favor — disse ela, meio chorando ao abraça-los. — Damon, Stefan, vocês precisam parar. O espectro está fazendo isso com vocês. Não querem realmente ferir um ao outro. Não são vocês. Por favor.
Nenhum dos dois deu a menor atenção a ela. Elena não sabia se eles e ouviam. Estavam quase imóveis agora, com os músculos tensos no aperto do outro, enquanto cada um tentava atacar e se defender ao mesmo tempo. Lentamente, enquanto Elena observava, Damon começou a superar Stefan, afastando aos poucos os braços dele, inclinando-se para seu pescoço, os dentes branco faiscando.
— Damon, não! — gritou Elena. Ela tentou pegar o braço dele para afastá-lo de Stefan. Sem sequer olhar para ela, Damon a jogou de lado de um jeito casual e cruel, fazendo-a voar.
Ela caiu de costas com um forte impacto e deslizou pelo chão, e aquilo doeu, fazendo seus dentes baterem e chocando a cabeça no concreto, com uma dor ardendo atrás dos olhos. Ao começar a se levantar novamente, ela viu com horror Damon ultrapassar as últimas defesas de Stefan defesas e afundar as presas no pescoço do irmão mais novo.
— Não! — gritou ela novamente. — Damon, não!
— Elena, tenha cuidado — gritou Alaric. — Você está no diagrama. Por favor, faça o que quiser, mas não apague mais nenhuma linha.
Elena olhou em volta. Sua queda a fizera deslizar por várias marcas de giz, que agora eram manchas de cor em volta dela. Ela enrijeceu apavorada e reprimiu um gemido. Agora a coisa estava solta? Será que ela a libertara?
Preparando-se, ela se virou para o círculo interno. O espectro tateava ao redor com os braços compridos dando tapinhas de um lado ao outro de uma parede invisível em volta do círculo que o mantinha preso. Enquanto Elena olhava, sua boca se afinou com o esforço e o espectro uniu as mãos em um ponto e empurrou.
O ar no ambiente reverberou, mas o espectro não conseguiu romper o círculo, e depois de um momento parou de empurrar e sibilou desapontado. Então seus olhos caíram sobre Elena, e ele sorriu novamente.
— Ah, Elena — disse o espectro, a voz suave com uma falsa compaixão. — A linda menina a que todo mundo quer, aquela por quem todos os meninos brigam. É tão difícil ser você. — A voz se distorceu, o tom mudando para uma zombaria amarga. — Mas eles não estão realmente pensando em você, estão? Os dois que você quer, você não é a garota para eles. Sabe por que eles se sentem atraídos por você? Katherine. Sempre Katherine. Eles querem você porque é parecida com ela, mas você não é ela. A mulher que eles amaram há tanto tempo, era meiga, doce e gentil. Uma inocente, uma vítima, um ornamento para as fantasias deles. Você não é nada parecida com ela. Eles vão perceber isso, sabe. Depois que sua forma mortal mudar, e vai mudar. Eles serão os mesmos para sempre, mas você está mudando e envelhecendo a cada dia, em alguns anos parecerá muito mais velha do que eles, então vão perceber que não é aquela que amam. Você não é Katherine, e nunca será.
Os olhos de Elena ardiam.
— Katherine era um monstro — cuspiu ela entredentes.
— Ela se tornou um monstro. Ela começou como uma doce e meiga jovem —corrigiu o espectro. — Damon e Stefan a destruíram. Como vão destruir você. Você nunca terá uma vida normal. Não é como Meredith, Bonnie ou Celia. Todas elas terão uma chance de normalidade quando estiverem prontas, apesar de você tê-las arrastado para suas batalhas. Mas você, você nunca será normal. E sabe a quem culpar por isso, não sabe?
Elena, sem pensar, olhou para Damon e Stefan, justo quando Stefan conseguiu empurrar Damon para longe. Damon cambaleou para trás em direção ao grupo de humanos amontoados na parede da garagem. O sangue escorria de um corte terrível em sua boca e sujava seu pescoço.
— Eles a condenaram, como condenaram aquela que eles realmente amaram —disse o espectro suavemente.
Elena se colocou de pé com o coração martelando de sofrimento e raiva.
— Elena, chega! — chamou uma voz de contralto forte repleta de autoridade, de modo que Elena afastou o olhar de Damon e Stefan, e piscando como se tivesse despertando de um sonho, olhou para os outros além do diagrama.
A Sra. Flowers estava na margem das linhas de giz com as mãos nos quadris, os pés firmemente plantados. Seus lábios formavam uma linha fina e reta de raiva, mas os olhos estavam claros e pensativos. Ele olhou nos olhos de Elena, que se acalmou e se fortaleceu. Então a Sra. Flowers olhou para os outros reunidos ao lado dela.
— Precisamos fazer o feitiço de expulsão agora — declarou. — Antes que o espectro consiga destruir a todos nós. Elena! Está me ouvindo?
Com uma onda de razão correndo para ela, Elena assentiu e voltou-se para se juntar aos outros.
A Sra. Flowers uniu as mãos incisivamente, e o ar reverberou de novo. A voz do espectro falhou e ele gritou furioso, debatendo-se no ar, com as mãos rapidamente encontrando resistência, sua prisão invisível ficando menor.
Meredith tateou com urgência a prateleira alta perto da porta da garagem, com as mãos tocando e rejeitando vários objetos. Onde a Sra. Flowers tinha colocado as velas? Pincéis, não. Lanternas, não. Lata antiga de inseticida, não. Terra para vaso, não. Uma coisa de metal estranha que ela não conseguiu entender o que era pelo toque, não.
Sacola de velas. Sim.
— Peguei — ela a puxou da prateleira e derrubou o que devia ser uma década de poeira em sua cabeça. — Ai!
Era um sinal da gravidade da situação, pensou Meredith, que Bonnie e Elena a estivessem olhando, com a cabeça e os ombros cobertos com de uma poeira grossa e teias de aranha, e nenhuma das duas estivesse rindo nem se mexendo para limpar. Todas tinham coisas mais importantes para se preocupar do que um pouco de sujeira.
— Muito bem — disse ela. — Primeiro, precisamos deduzir qual seria a cor da vela de Damon. — A Sra. Flowers tinha observado que Damon claramente também era uma vítima do espectro do ciúme, e assim teria de fazer parte de ritual de expulsão para que funcionasse plenamente.
Olhando os dois irmãos vampiros que ainda tentavam dilacerar um ao outro, Meredith duvidava seriamente de que Damon participaria. Stefan tampouco, aliás, eles estavam unicamente concentrados em infligir o maior dano possível ao outro. Ainda assim, eles teriam de fazer os dois vampiros voltarem para que o feitiço desse certo. De algum jeito.
Meredith se viu perguntando-se friamente se a morte de Damon e Stefan poderia excluí-los com segurança do ritual. Será que o resto deles conseguiria derrotar o espectro? E se os dois não se matassem, mas simplesmente continuassem a brigar, colocando todos em risco, ela seria capaz de matá-los? Deixou a ideia de lado. Stefan era seu amigo.
E, então, se obrigou a pensar em matá-lo novamente. Esse era seu dever. Era mais importante do que a amizade, tinha que ser. Sim, ela conseguiria matar os dois hoje, mesmo nos minutos seguintes, se fosse necessário, percebeu. Ela se arrependeria para sempre se tivesse que fazê-lo, mas conseguiria.
Além disso, uma parte de sua mente observou clinicamente, se as coisas continuassem como estavam agora, Damon e Stefan se matariam, e a poupariam desse fardo.
Elena estava pensando muito, ou talvez estivesse distraída, concentrada no que o espectro do ciúme lhe dissera, Meredith não tinha certeza, e resolveu falar.
— Vermelha — disse ela. — Tem uma vela vermelha para Damon?
Havia uma vela vermelha escura e também uma preta. Meredith pegou as duas e mostrou-as a Elena.
— Vermelha — escolheu Elena.
— De sangue? — Meredith perguntou, olhando para os combatentes, agora a apenas três metros de distância. Meu Deus, ambos estavam cobertos de sangue.
Enquanto ela olhava, Damon rosnou como um animal e bateu a cabeça de Stefan repetidamente contra a parede da garagem. Meredith fez uma careta ao ouvir o som oco do crânio de Stefan batendo na madeira e no gesso da parede. Damon estava com uma mão em volta do pescoço de Stefan, e a outra rasgando seu peito como se quisesse arrancar seu coração.
Uma voz suave e sinistra ainda vinha do espectro. Meredith não conseguia entender o que ele dizia, mas seus olhos estavam nos irmãos, e ele sorria ao falar. Parecia satisfeito.
— De paixão — respondeu Elena, e pegou a vela das mãos de Meredith e marchou com as costas retas e a cabeça erguida, como um soldado, até a fila de velas que Alaric reacendia na margem do diagrama. Meredith viu Elena acender a vela e pingar uma poça de cera quente para colocá-la de pé.
Stefan obrigou Damon a recuar aproximando-se dos outros e da linha das velas. As botas de Damon rasparam no chão quando ele se escorou contra Stefan.
— Muito bem — disse Alaric, olhando apreensivo para as vela, depois para o livro. — Cada um de nós declarará os ciúmes que tem dentro de si. A fraqueza com que o espectro é capaz de jogar e os expulsará. Se realmente formos sinceros, se conseguirmos pelo menos agora, verdadeira e sinceramente expulsar nossos ciúmes, nossas velas vão se apagar e o espectro será enfraquecido. O truque é realmente conseguir expulsar o ciúmes e a inveja de nossos corações e parar de alimentar o espectro, e se todos fizerem isso a um só tempo, o fantasma deverá desaparecer, ou talvez até morrer.
— E se não conseguirmos? E se tentarmos expulsar o ciúme, mas ele não sumir completamente? — perguntou Bonnie, com a testa vincada de preocupação.
— Então não vai dar certo e o espectro ficará — afirmou Alaric categoricamente. — Quem quer ser o primeiro?
Stefan jogou Damon brutalmente no chão de cimento, com um uivo de cólera. Eles estavam a apenas alguns centímetros da linha de velas, e Alaric se colocou entre eles e a fileira de chamas mínimas, tentando proteger a velas com o corpo. Celia estremeceu quando Stefan soltou um rosnado furioso e grave e abaixou a cabeça para morder o ombro de Damon. O Ciúme mantinha uma fluxo constante de palavras venenosa, com os olhos cintilando.
A Sra. Flowers bateu palmas para chamar a atenção de todos, com a expressão firme e encorajadora.
— Meninos, todos vocês precisam ser honestos e corajosos — disse ela. — Devem verdadeiramente admitir o que há de pior em vocês na frente dos amigos, o que será difícil. E vão precisar ser fortes o bastante para expulsar esses aspectos negativos, o que pode ser ainda mais difícil. Mas vocês se amam, e eu garanto que vamos conseguir passar por isso.
Um baque e um grito abafado de raiva e dor vieram de poucos centímetros dali, e Alaric olhou nervoso por sobre o ombro para a batalha atrás dele.
— O tempo é essencial — disse a Sra. Flores rapidamente. — Quem será o primeiro?
Meredith estava prestes a dar um passo à frente, segurando seu bastão para ter apoio, quando Bonnie falou.
— Eu vou — disse ela, hesitante. — Humm. Eu tive ciúmes de Meredith e de Elena. Eu Sempre... — ela engoliu em seco, e então falou com mais firmeza. — Às vezes sinto que sou apenas secundária quando estou com as duas. Elas são mais corajosas do que eu, lutam melhor, são mais inteligentes e mais bonitas, e... e mais altas do que eu. Tenho inveja e ciúmes porque parece que as pessoas não me respeitam como respeitam as duas, e não me levam a sério, como fazem com Elena e Meredith. Tenho ciúmes porque às vezes fico na sombra delas, e a sombra é muito grande, metaforicamente falando, é claro. E também tenho ciúmes porque nunca tive um namorado de verdade, e Meredith tem Alaric e Elena tem Stefan e porque Elena também tem Damon, que eu acho incrível e lindo, mas que nunca percebeu minha presença quando estou do lado dela, porque só tem olhos para ela. — Bonnie parou de novo e olhou para Elena com os olhos arregalados e brilhantes. — Mas eu amo Elena e Meredith. Sei que preciso parar de me comparar a elas. Não sou apenas secundária, também sou útil e talentosa. — E ela falou as palavras que Alaric dera a todos. — Eu alimentei o espectro do ciúme, mas agora expulso meu ciúme. — No semicírculo de velas, a chama da vela rosa de Bonnie bruxuleou e se apagou. Bonnie soltou um leve ofegar e sorriu, meio envergonhada, meio orgulhosa, para Meredith e Elena. De dentro do diagrama, o espectro do ciúme virou repentinamente a cabeça e fuzilou Bonnie com os olhos.
— Bonnie — começou Meredith querendo dizer a amiga que era óbvio que ela não era secundária. Será que Bonnie não sabia que era incrível?
Mas então Elena avançou em direção as velas e jogou o cabelo para trás de cabeça erguida.
— Eu tive ciúmes de outras pessoas de Fell’s Church — declarou. — Eu vi a tranquilidade com que outros casais ficam juntos, e depois de tudo que passamos, Stefan e eu, e Damon, e os meus outros amigos, e mesmo depois de termos salvado Fell’s Church e deixado a cidade normal de novo, tudo continuou tão difícil, tão estranho e sobrenatural. Acho que andei percebendo que as coisas nunca serão fáceis e normais para mim, e foi duro aceitar isso. Quando olhava para os outros e tinha ciúme e inveja deles, eu alimentava o espectro do ciúme. Eu expulso esse ciúme.
Elena sorriu um pouco. Era um sorriso estranho e tristonho, e Meredith observou-a, pensou que embora Elena tivesse expulsado seu ciúme, ainda era assombrada pelo remorso da vida tranquila e dourada que antigamente tinha pela frente e que, provavelmente, lhe fora tomada para sempre.
A vela ainda ardia. Elena hesitou. Meredith seguiu seu olhar passando pela linha de velas até onde Stefan e Damon lutavam. Enquanto elas observavam, Damon levantou e rolou Stefan para debaixo dele, deixando um longo risco de sangue pelo chão da garagem. O pé de Stefan roçou na vela vermelha na ponta da fila, e Alaric saltou para equilibrá-la.
— E eu tenho ciúmes de Katherine — disse Elena. — Damon e Stefan a amaram primeiro, e ela os conheceu antes de tanta coisa ter acontecido para mudá-los... deformando quem eles deviam ser. E embora eu perceba que os dois sabem que não sou Katherine, e que eles me amam por quem eu sou, não consigo me esquecer de que eles inicialmente me notaram porque sou parecida com ela. Eu alimentei o espectro do ciúme por causa de Katherine, e expulso esse ciúme.
A vela bruxuleou, mas não se apagou. O Ciúme sorriu triunfante, mas então Elena continuou.
— Também tive ciúmes de Bonnie — a cabeça de Bonnie se ergueu repentinamente e ela encarou Elena com descrença. — Eu estava acostumada a ser a única humana de quem Damon gostava, a única que ele queria proteger — Ela olhou para Bonnie com os olhos cheios de lágrimas. — E estou muito, muito feliz por Bonnie estar viva, mas tive ciúme por que Damon se importava o bastante para morrer por ela. Quando tive ciúme de Bonnie, alimentei o espectro do ciúme, mas agora expulso esse ciúme.
A vela dourada se apagou. Elena olhou quase timidamente para Bonnie, e a ruiva sorriu para ela, um sorriso franco e amoroso e estendeu os braços. Elena a abraçou força.
Apesar da tristeza que sentia pela morte dos pais de Elena, Meredith nunca tinha se lamentado pela amiga. Por que deveria? Elena era bonita, inteligente, uma líder, amada com paixão... mas agora Meredith não pôde deixar de sentir uma onda de solidariedade por ela. Às vezes, deve ser mais fácil viver uma vida comum do que ser uma heroína. Meredith olhou para o espectro. Ele parecia ferver e agora estava completamente focado nos humanos.
Alaric contornou as velas em direção aos outros, olhando para Damon e Stefan. Damon tinha prendido Stefan dolorosamente na parede atrás de Alaric. O rosto de Stefan estava retorcido numa careta, e eles ouviram o raspar do seu corpo na superfície dura. Mas, pelo menos, Stefan e Damon não estavam colocando as velas em perigo no momento. Meredith voltou a atenção para o namorado. Do que Alaric podia ter ciúmes? No fundo, ele fora o foco do ciúme na última semana.
Ele pegou uma das mãos de Meredith.
— Eu tive ciúmes — disse Alaric, olhando-a nos olhos. — De você, Meredith. E de seus amigos. — Meredith por reflexo arqueou uma sobrancelha para ele. O que Alaric queria dizer com isso? — Meu Deus — ele riu um pouco. — Aqui estou eu, um estudante de pós-graduação em parapsicologia. A vida toda eu morri de vontade de provar a mim mesmo que há algo mais acontecendo no mundo além do que todo mundo sabe, que parte das coisas que consideramos sobrenaturais são reais. E então vim a esta pequena cidade da Virginia porque havia boatos, boatos nos quais eu não acreditava de verdade, e que poderia haver vampiros por aqui, e quando cheguei, encontrei uma menina maravilhosa, linda e confiante e ela vinha de uma família que caçava vampiros. E seus amigos eram vampiros, bruxas, videntes e meninas que voltavam dos mortos para combater o mal. Eles tinham acabado de se formar no ensino médio, mas viram coisas que nunca imaginei. Derrotaram monstros, salvaram cidades, viajaram para outras dimensões. E sabe, sou apenas um sujeito comum, e de repente metade das pessoas que eu conhecia e a garota que eu amo, são praticamente super-heróis — Ele meneou a cabeça, olhando Meredith com admiração. — Eu alimentei o espectro do ciúme, mas agora expulso meu ciúme. Só preciso aprender a ser o namorado de uma super-heroína. — Instantaneamente, a vela verde escuro se apagou.
Preso no círculo interno, o espectro sibilava e andava de um lado para o outro do pequeno espaço como um tigre enjaulado. Parecia furioso, mas não estava perceptivelmente mais fraco.
Celia foi a seguinte. Seu rosto estava cansado, mas calmo.
— Eu alimentei o espectro do ciúme — proclamou ela. — Tive ciúmes de Meredith Suarez — Ela não disse o porquê. — Mas agora eu vejo que não tem sentido. Eu alimentei o espectro do ciúme, mas agora expulso meu ciúme.
Ela falou como se tivesse jogado alguma coisa no lixo, mas ainda assim a vela se apagou. Meredith abriu a boca para falar, tinha certeza de que precisava falar, e não seria tão difícil, porque ela vencera, certo? Se é que um dia houve uma batalha em algum lugar, além da sua própria mente, mas Matt limpou a garganta e falou primeiro.
— Eu... — ele tropeçou nas palavras. — eu acho... não, eu sei que alimentei o espectro do ciúme. Sempre fui louco por Elena Gilbert, desde que a conheci. E tive ciúmes de Stefan, o tempo todo. Mesmo agora, quando o Ciúme conseguiu prendê-lo nessa batalha sangrenta, porque ele tem Elena. Ela o ama e não a mim. Mas, bom, isso não importa... também sei a muito tempo que Elena e eu não demos certo juntos, não aos olhos dela, e que isso não é culpa de Stefan. Eu alimentei o espectro do ciúme, mas agora expulso meu ciúme. — Ele corou e evitou olhar para Elena. A vela branca se apagou, enviando um longo filete de fumaça em direção ao teto.
Faltavam três velas, Meredith pensou, olhando para as últimas chamas firmes. A vela azul escuro de Stefan, a vermelha de Damon, e a marrom dela. O espectro estava mais fraco? De sua jaula invisível, o espectro grunhiu. Na realidade, parecia ter aumentado o espaço em torno de si de novo, e mais uma vez empurrava, aparentemente, procurando um ponto fraco. Meredith sabia que tinha que continuar com a confissão.
— Eu alimentei o espectro do ciúme — disse ela numa voz clara e forte. — Tive ciúme da Dra. Celia Connor. Eu amo Alaric, mas sei que sou muito mais nova do que ele, nem mesmo estou na faculdade, e nunca fui a nenhum lugar e nem vi nada do mundo, do mundo humano pelo menos, além da cidade onde cresci. Celia patilha muita coisa com ele, experiências, estudos, interesses e eu sabia que ele gostava muito dela. E ela é linda, muito inteligente e confiante. Eu tive ciúme porque tive medo de ela o tirar de mim. Mas se ela tivesse conseguido tirá-lo, significaria que ele não devia ser meu. Não se pode roubar um pessoa. — Ela sorriu hesitante para Celia, e depois de um momento, Celia sorriu levemente. — eu expulso...
— Cuidado! — gritou Alaric. — Damon! Stefan! Parem!
Meredith levantou a cabeça. Damon e Stefan cambaleavam pelo chão da garagem, ultrapassando a linha das velas, e passando por Alaric, que os segurou. Eles se soltaram de seus braços sem esforço algum, e aparentemente sem sequer sentir seu toque, empurrando o outro com desespero, lutando ferozmente. Distraídos de qualquer coisa além da batalha, eles se aproximavam cada vez mais do espectro.
— Não! — gritou Elena.
Damon empurrou Stefan para trás, e o salto da bota de Stefan raspou no giz que contornava o pequeno círculo que continha o espectro, passou pela linha de giz e a manchou, e o círculo não estava mais completo.
Com um uivo de triunfo, o espectro se libertou.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!