30 de março de 2019

Capítulo 32

A lua brilhava pela janela, iluminando uma faixa na cama de Elena. Meredith tinha se revirado por um tempo, mas agora Elena a ouvia respirando regularmente. Era bom que Meredith estivesse dormindo. Ela estava exausta: treinando constantemente, patrulhando toda noite, certificando-se de que todas as suas armas estivessem em ótimas condições, louca de frustração por não conseguir descobrir nenhuma pista sólida da identidade do assassino.
Mas dava solidão ser a única acordada.
Elena estendeu as pernas sob os lençóis e virou o travesseiro para descansar a cabeça no lado mais frio. Galhos batiam na janela, e Elena mexeu os ombros contra o colchão, tentando acalmar a mente turbulenta. Queria que Bonnie voltasse para casa.
As batidas na janela soaram de novo, depois mais uma vez, incisivas e peremptórias.
Devagar, ocorreu a Elena, um tanto tarde demais, que não havia nenhuma árvore que chegasse até a janela. Com o coração aos saltos, ela se sentou, ofegante.
Olhos negros como a noite espiavam pelo vidro, a pele clara como o luar. O cérebro de Elena precisou de um minuto para voltar a funcionar, mas ela saiu da cama e abriu a janela. Ele era tão rápido e gracioso que, quando ela fechou a janela e se virou, Damon já estava sentado em sua cama, recostado nos cotovelos e parecendo totalmente à vontade.
— Que caçadora de vampiros ela é — censurou ele friamente, olhando para Meredith, que soltava um ressonar suave no travesseiro. O olhar dele, porém, era quase afetuoso.
— Não é justo — disse Elena. — Ela está exausta.
— Um dia a vida dela pode depender de ela ficar alerta mesmo quando está exausta — alertou Damon incisivamente.
— Tudo bem, mas este dia não é hoje. Deixe Meredith em paz e me diga o que descobriu sobre Zander. — Sentando-se de pernas cruzadas ao lado dele, na cama, ela se inclinou para a frente para dar toda a atenção a Damon.
Ele pegou sua mão, entrelaçando os dedos lentamente nos dela.
— Não soube de nada definitivo — respondeu ele —, mas tenho minhas desconfianças.
— Como assim? — Elena estava distraída. Damon afagava seu braço levemente com a outra mão, toques de pluma, e ela percebeu que ele a olhava atentamente, querendo ver se ela protestaria.
Por dentro, ela estremeceu um pouco. O que importava, afinal? Stefan a deixara; agora não havia motivo para afastar Damon. Ela olhou para Meredith, mas a amiga morena ainda dormia profundamente.
Os olhos negros de Damon cintilavam ao luar. Ele parecia sentir o que ela pensava, porque se curvou para mais perto dela, puxando-a para se aninhar nele.
— Preciso investigar um pouco mais — disse Damon. — Mas definitivamente há alguma coisa estranha nele e nos meninos com quem anda. Eles são rápidos demais, para começar. Entretanto não acho que Bonnie corra perigo imediato.
Elena enrijeceu em seus braços.
— Que provas tem disso? — perguntou. — E não se trata só de Bonnie. Se todos estão em perigo, eles devem ser nossa prioridade máxima.
— Vou vigiá-los, não se preocupe. — Ele riu, um som seco e íntimo. — Ele e Bonnie certamente estavam ficando mais próximos. Ela parece inebriada.
Elena ficou tensa e se afastou do toque cuidadoso dele, ansiosa.
— Se ele pode ser perigoso, se há alguma coisa estranha nele, como você diz, temos que alertá-la. Não podemos ficar aqui sentados observando e esperando que ele faça algo errado. Pode ser tarde demais.
Damon a puxou de volta, com a mão aberta e firme em sua cintura.
— Você já tentou avisar a Bonnie e não deu certo, não foi? Por que ela daria ouvidos a você agora que passou mais tempo com ele, criando laços, e nada de mal lhe aconteceu? — Ele meneou a cabeça. — Não vai dar certo, princesa.
— Eu só queria poder fazer alguma coisa — comentou Elena, infeliz.
— Se eu desse uma olhada nos corpos — Damon estava pensativo —, poderia ter uma ideia melhor do que pode estar por trás disso. Acha que está fora de cogitação invadir o necrotério?
Elena pensou no assunto.
— Acho que, a esta altura, já devem ter liberado os corpos — respondeu, em dúvida —, e não sei para onde os mandaram. Espere! — Ela se sentou reta. — A sede da segurança do campus deve ter alguma coisa, não é? Registros, talvez até fotos dos corpos de Christopher e Samantha? Os seguranças do campus viram todas as cenas de crime antes de a polícia chegar.
— Podemos dar uma olhada amanhã, certamente — disse Damon casualmente. — Se isso a fizer se sentir melhor.
Sua voz e a expressão estavam quase desinteressadas e provocantes, e, mais uma vez, Elena sentiu a estranha mistura de desejo e irritação que Damon costumava incitar nela. Queria empurrá-lo e puxá-lo ao mesmo tempo.
Ela quase decidira pelo empurrão quando ele se virou para olhar em cheio para o rosto de Elena.
— Minha pobre Elena — falou num murmúrio tranquilizador, com os olhos cintilando à luz da lua. Ele passou a mão macia por seu braço, pelo ombro, pelo pescoço, parando delicadamente no queixo. — Não consegue se livrar das criaturas das trevas, não é, Elena? Por mais que tente. Casa nova, monstro novo. — Ele acariciou seu rosto com um dedo. Suas palavras eram quase sarcásticas, mas a voz era gentil e os olhos brilhavam de emoção.
Elena apertou o rosto contra a mão dele. Damon era elegante e inteligente, e algo nele falava à parte sombria e secreta dela. Não podia negar que era atraída por ele — que sempre fora atraída por ele, mesmo quando se conheceram e ele a amedrontou. E Elena o amava desde aquela noite de inverno em que ela acordou como vampira e ele cuidou dela, protegendo-a, ensinando-lhe o que precisava saber.
Stefan a havia abandonado. Não tinha motivo para não fazer isso.
— Nem sempre quero me livrar das criaturas das trevas, Damon.
Ele ficou em silêncio por um momento, a mão afagando seu rosto automaticamente, e a beijou. Os lábios dele eram uma seda fria nos dela, e Elena sentiu como se tivesse vagado por horas num deserto até finalmente receber água fria para beber.
Ela o beijou com mais intensidade, deixando que a mão dele entrelaçasse os dedos em seu cabelo macio.
Afastando-se de sua boca, Damon beijou seu pescoço gentilmente, esperando a permissão. Elena baixou a cabeça para trás para lhe dar melhor acesso. Ouviu o silvo da respiração de Damon entre os dentes, e ele a olhou nos olhos por um momento, a expressão suave e mais aberta do que ela já vira, antes de voltar a baixar o rosto em seu pescoço.
As ferroadas de vespa de suas presas doeram por um instante, mas depois ela estava deslizando para a escuridão, seguindo uma linha de prazer doloroso que a levou pela noite, até Damon. Ela sentiu a alegria dele e o encanto por tê-la nos braços sem culpa, sem reservas. Em troca, ela deixou que ele sentisse sua felicidade nele e sua confusão por querê-lo e ainda amar Stefan, sua dor pela ausência dele. Não havia culpa, não agora, mas um imenso espaço no formato de Stefan em seu coração, e ela deixou que Damon visse isso.
Está tudo bem, Elena, ela sentiu vindo dele, não em palavras, mas em um contentamento sólido como uma pedra, como um ronronar de gato. Só o que quero é isto.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!