19 de março de 2019

Capítulo 32

Matt olhava apavorado enquanto o espectro sacodia Damon como uma boneca de trapos. Elena se virou para olhar fixamente nos olhos de Matt e Bonnie.
— Temos que salva-lo — sussurrou ela, com uma determinação violenta no rosto, e imediatamente saiu correndo, abrindo caminho pelas pilhas de cinzas.
Matt deduziu que se Damon, com toda a sua força de vampiro e habilidades de luta aperfeiçoadas por séculos, estava tão completamente indefeso nas mãos deste espectro, e meu Deus, pelo jeito como a coisa o balançava de um lado para o outro, sua cabeça ia realmente se separar do corpo, Matt, Bonnie, e Elena não tinha a menor chance de fazer diferença naquilo. A única pergunta era se o espectro também os mataria.
E a verdade era que Matt nem gostava de Damon, nem um pouquinho. É claro que Damon tinha ajudado a salvar Fell’s Church de Katherine e Klaus, e dos demônios Kitsune, mas ainda era um vampiro assassino, sarcástico, incorrigível, presunçoso, arrogante, antipático e geralmente desagradável. Damon certamente ferira mais pessoas do que ajudara em sua longa vida, mesmo que se creditasse generosamente a ele ter salvado cada morador de Fell’s Church. E ele sempre chamava Matt de "Mutt", fingindo que não se lembrava de seu nome, o que era de enfurecer, como Damon pretendia que fosse.
No entanto, Elena amava Damon. Por motivo qualquer. Provavelmente pelo mesmo motivo inexplicável que levava garotas comuns a se apaixonarem por bad boys, desconfiava Matt. Sendo um sujeito bonzinho até debaixo d’água, ele nunca vira atrativo nenhum nisso. Mas Elena vira.
E Damon meio que fazia parte da equipe, e ninguém podia deixar seus companheiros serem decapitados por mulheres-gelo-demônios em Luas cobertas de cinzas em outras dimensões, sem, pelo menos, fazer o possível para impedir.
Mesmo que não gostassem nenhum pouquinho deles.
Matt correu atrás de Elena, e Bonnie os seguiu. Quando eles chegaram ao espectro, Elena já estava arranhando a mão de gelo azulada que agarrava o pescoço de Damon, tentando soltar seus dedos o bastante para Damon deslizar pra baixo. O espetro mal olhou para ela. Matt suspirou inconscientemente com o desespero da situação e deu um potente soco no estômago do espectro.
Antes que seu punho fizesse contato, seu alvo se transformou de gelo em névoa, intangível em redemoinho, e o golpe atravessou o espectro. Desequilibrado, Matt cambaleou e caiu no peito agora de vapor do espectro.
Era como cair em um rio congelante de esgoto. Um frio de entorpecer e um fedor horrível e nauseante o tomaram. Ele recuou da névoa, enjoado e tremendo, mas de pé. Piscou confuso, olhando em volta.
Elena lutava com os dedos do espectro, arranhando e puxando, e o espectro a olhava com um tipo de prazer distante, nem pouco alarmado ou desconfortável pelos esforços da garota. Então ele se deslocou tão rapidamente, que Matt só viu um borrão de verde azulado fazendo Elena voar, os braços e pernas se debatendo, para um monte de cinzas. Ela se levantou de imediato, sangue escorrendo de seu couro cabeludo e deixando traços vermelhos pelas cinzas que cobriam sua pele agora.
Bonnie tentava também: tinha conseguido se aproximar por trás do espectro e estava batendo e chutando. Seus pés e punhos balançavam-se inofensivos através da névoa do espectro, mas ocasionalmente um golpe atingia a parte mais sólida do gelo. Mas esses golpes pareciam totalmente ineficazes, Matt não sabia dizer se o espectro sequer percebera que Bonnie o estava atacando.
As veias inchavam no rosto e no pescoço de Damon e ele pendia da mão do espectro. A carne de seu pescoço estava branca em volta dos tendões esticados. Sendo ou não um vampiro antigo com superpoderes, Damon estava sofrendo. Matt lançou uma oração para um santo qualquer que cuidasse das pessoas que buscavam causas perdidas, e voltou à luta.


Havia escuridão. E depois havia dor e a escuridão se avermelhou, depois clareou, e Damon conseguia enxergar mais uma vez. O espectro, aquela vaca, o segurava pelo pescoço, e sua pele era tão fria, tão fria que queimava onde quer que tocasse. Ele não conseguia se mexer.
Mas ele via Elena de pé embaixo dele. A linda Elena, coberta de cinzas, manchada de sangue, os dentes à mostra e os olhos faiscando como uma deusa guerreira. Seu coração inchou de amor e medo. A ruivinha corajosa e o garoto Mutt lutavam ao lado dela.
Por favor, ele queria dizer. Não tentem me salvar. Corram. Elena, você precisa fugir. Mas não conseguia se mover, não conseguia falar.
Então o espectro mudou de posição e, sob o olhar de Damon, Elena parou o ataque e agarrou o próprio estômago, fazendo uma careta de dor. Matt e Bonnie também se seguraram, com os rostos pálidos e tensos, as bocas abertas em gritos.
Com um gemido, Bonnie desmaiou. Ah, não, pensou Damon, com uma onda de pavor. Elena não. A ruivinha não. Não por mim.
Então, de repente, uma lufada de vento girou em volta dele, e ele foi lançado do aperto do espectro. Houve um rugido em seus ouvidos e uma ardência nos olhos. Olhando em volta, ele viu Bonnie e Elena, com o cabelo comprido voando loucamente em volta delas, Matt, girando os braços, e o espectro, com o rosto de vidro esverdeado, pela primeira vez, assustado em vez de malicioso.
Tornado, Damon pensou vagamente, e então percebeu que estava sendo jogado para cima, de volta à escuridão mais uma vez.


O vento uivava agora em um tom ensurdecedor, e Stefan teve que levantar a voz a um grito, até para ouvir a si mesmo. Precisou manter ambas as mãos agarradas no livro, que estava sendo puxado de suas mãos, como se algo vivo e muito forte estivesse conscientemente tentando arrancar o livro dele.
— Mihi adi. Envoco. Necesse est tibi parere — disse Stefan. — Vinde a mim. Eu vos invoco. Deveis obedecer.
Esse era o fim do feitiço de invocação em latim. A parte seguinte era o feitiço de expulsão, que seria em Inglês. Claro que o espectro teria de estar ali para que essa parte do feitiço fosse eficaz. O vento que chicoteava a garagem ficou tornou-se ainda mais forte. Lá fora, um trovão retumbou.
Stefan olhou o círculo mais interno, no fundo das sombras da garagem, mas não havia nada ali. O vento sobrenatural começava a ceder. O pânico surgiu em seu peito. Será que eles tinham falhado? Olhou ansioso para Alaric e Meredith, depois para a Sra. Flowers, mas nenhum deles o olhava, encarando hipnotizados o círculo.
Stefan olhou novamente para lá, cheio de esperança. Mas não havia nada. Espere!
Havia o mais leve movimento de uma coisa, bem no meio do círculo, um lampejo mínimo de uma luz azul-esverdeada, e com ele veio um frio. Não como o vento frio que tinha circulado pela garagem, mas como um hálito gelado, inspira e expira, inspira e expira, lento e constante e com um frio de congelar vindo bem daquele ponto.
O brilho se ampliou, aprofundou-se e escureceu, e de repente o que Stefan via transformou-se de um brilho amorfo em uma mulher. Uma mulher gigantesca, de névoa e gelo, nos tons de azul e verde. Dentro de seu peito havia uma rosa vermelho escura, seu caule uma massa sólida de espinhos.
Celia e Meredith soltaram um ofegar audível. A Sra. Flowers olhava calmamente, enquanto Alaric estava de queixo caído. Este deve ser o espectro do ciúme. Stefan sempre pensou no ciúme como um calor ardente. Beijos ferozes, raiva feroz. Mas a raiva, a luxúria, a inveja, todas as coisas que compunham o ciúme, podiam ser frias, também, e ele não teve dúvida de que esse era o espectro certo.
Stefan notou todas essas coisas sobre o espectro e esqueceu-se delas novamente numa fração de segundo, porque não foi só a mulher-gelo que se materializou no centro do círculo. Confusos, chorosos, vacilantes, sujos de cinzas e lama, três humanos também tinham aparecido.
Sua bela e elegante Elena, coberta de sujeira, os cabelos dourados embaraçados, com riscos de sangue escorrendo pelo rosto. Bonnie, delicada e baixinha, manchada de lágrimas e pálida como leite, mas com uma expressão de fúria, enquanto esperneava e arranhava o espectro. E o típico americano e sempre confiável Matt, sujo e desgrenhado, virando-se para olhar para eles com uma expressão peculiarmente vazia, como se estivesse simplesmente se perguntando em qual inferno tinha caído agora.
E então, mais uma pessoa, uma quarta figura trêmula e ofegante, a última a ficar visível. Por um momento, Stefan não o reconheceu, não podia reconhecê-lo, por que este homem não devia existir mais. Em vez disso, ele parecia um estranho assustadoramente familiar. O estranho colocou as mãos no pescoço para se proteger e olhou para fora do círculo, diretamente para Stefan. Através de um lábio inchado e ensanguentado, e das fendas de olhos cheios de hematomas, apareceu o fantasma de um sorriso luminoso, e as engrenagens da mente de Stefan se encaixaram e finalmente voltaram a virar.
Damon.
Stefan ficou tão perplexo que não sabia o que sentir no início. Depois, bem no fundo dele, um calor lento se espalhou com a percepção de que o irmão tinha voltado. A última parte da sua estranha história estava ali novamente. Stefan não estava sozinho. Stefan avançou um passo em direção a margem do diagrama, prendendo a respiração.
— Damon? — perguntou suavemente, com admiração.
O Ciúme voltou sua cabeça para ele, e Stefan ficou preso onde estava por seu olhar vítreo e gélido.
— Ele voltou antes, sabia? — disse num tom amigável, e sua voz esfriou Stefan como se água gelada tivesse sido jogada em seu rosto. — Ele só não queria que você soubesse para poder ter Elena só para ele. Ele estava rondando discretamente, pregando peças, como sempre faz.
O Ciúme definitivamente era feminino, e seu tom frio de observação lembrou a Stefan da vozinha que às vezes falava no fundo de sua mente, apelando para seus pensamentos mais sombrios e vergonhosos. Será que os outros a ouviam? Ou a voz falando diretamente à sua mente?
Ele arriscou olhar ao redor. Todos eles, Meredith, Celia, Alaric, a Sra. Flowers estavam parados como estátuas, encarando o Ciúme. Atrás deles, as camas improvisadas estavam vazias. Quando as três formas astrais dos adormecidos entraram no círculo com o espectro, seus corpos devem, de algum modo, ter se juntado a eles, tornando-se sólidos dentro do círculo interno.
— Ele procurou Elena — provocou o espectro. — Escondeu de você a ressureição para poder ir atrás dela. Damon não se preocupou nem por um segundo com o que você sentia com a sua morte. E enquanto você estava ocupado chorando por ele, Damon estava ocupado visitando o quarto de Elena.
Stefan cambaleou para trás.
— Ele sempre quer o que você tem, e você sabe disso — continuou o espectro, os lábios transparentes curvados num sorriso. — Isso é verdade, desde que vocês eram mortais. Lembra de quando ele chegou da universidade e roubou Katherine de você? Ele usou todo o charme com ela, só porque sabia que você a amava. Até nas pequenas coisas: se você tivesse um brinquedo, ele o tomava. Se você quisesse um cavalo, ele o cavalgava. Se houvesse um pedaço de carne no prato entre os dois, ele pegava, mesmo que não estivesse com fome, só para você não pegar.
Stefan meneou a cabeça devagar, novamente se sentindo lento demais, como se mais uma vez tivesse perdido o momento importante.
Damon esteve visitando Elena? Quando ele chorou no ombro dela pelo irmão morto, Elena sabia que Damon estava vivo?
— Mas você achava que podia confiar em Elena, não é, Stefan? — Elena se voltou para ele, com as bochechas pálidas sob as camadas de cinzas. Ela parecia enjoada e apreensiva.
— Não, Stefan — Elena começou a falar, mas o espectro continuou rapidamente, suas palavras num veneno suave.
Stefan sabia o que ele estava fazendo. Não era bobo. No entanto, se sentia concordar com a cabeça, uma raiva vermelha e lenta crescendo dentro de si, apesar da luta de seu ser mais racional.
— Elena escondeu o segredo dele de você, Stefan. Ela sabia que você estava sofrendo e que saber que Damon estava vivo aliviaria esse sofrimento, mas ainda assim guardou segredo, porque Damon pediu a ela, e o que Damon queria era mais importante do que ajudar você. Elena sempre quis os dois irmãos Salvatore. É engraçado, na verdade, Stefan, como você nunca é o suficiente para as mulheres que ama. Não é a primeira vez que Elena prefere Damon a você, é?
Elena balançou a cabeça, mas Stefan mal a enxergava através da maré de fúria e desespero que crescia dentro dele.
— Segredos e mentiras — o espectro continuou alegremente, com um riso que tinia gelado — e o bobalhão do Stefan Salvatore sempre alguns passos atrás. Você sabia o tempo todo que havia algo entre Elena e Damon de que você não participava, e ainda assim, nunca teria suspeitado que ela trairia você com ele.
Damon pareceu sair em um estalo de seu torpor, como se de repente ouvisse o espectro pela primeira vez. Suas sobrancelhas se uniram numa careta séria e ele aos poucos virou a cabeça para encará-lo.
Ele abriu a boca para falar, mas nesse momento, algo em Stefan se rompeu, e antes que Damon conseguisse pronunciar qualquer negação ou provocação que estava na ponta da língua, Stefan avançou com um grito de raiva, atravessando direto o diagrama de giz. Mais rápido do que o olho humano poderia acompanhar, Stefan derrubou Damon de costas fora do círculo e o jogou na parede mais distante da garagem.

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