30 de março de 2019

Capítulo 31

Por que eles sempre querem ficar no alto de prédios?, pensou Bonnie, irritada. Por que não dentro dele? Dentro é legal. Ninguém morre de uma queda se estiver dentro de um prédio. Mas lá vamos nós.
Olhar as estrelas do alto do prédio de ciências num encontro com Zander foi romântico. Bonnie estava disposta a ter outra noite de piquenique, só os dois. Mas uma festa num terraço diferente com um bando de amigos de Zander não era romântico, nem um pouco.
Ela tomou um gole da bebida e saiu do caminho sem nem olhar enquanto ouvia o bater de corpos no chão e os grunhidos dos meninos brigando. Depois de dois dias morando com Zander, ela começava a entender direito os nomes dos amigos: Tristan e Marcus eram os que estavam rolando no chão com Zander. Jonah, Camden e Spencer faziam algo que chamavam de parkour, que parecia envolver principalmente correr feito idiotas e quase cair do terraço. Enrique, Jared, Daniel e Chad estavam fazendo um jogo de bebida complicado no canto. Às vezes havia mais alguns meninos com eles, no entanto este era o grupo essencial.
Bonnie gostava deles, de verdade. Na maior parte do tempo. Eram turbulentos, claro, mas sempre foram muito legais com ela: pegavam bebidas, imediatamente tiravam o casaco se ela sentisse frio, diziam a ela que não sabiam o que ela via num mané como Zander, claramente o jeito masculino deles de declarar o quanto o amavam e que estavam felizes por ele ter uma namorada.
Ela olhou para Zander, que ria ao dar uma chave de braço em Tristan e esfregar os nós dos dedos no alto de sua cabeça.
— Desiste? — perguntou ele, e grunhiu de surpresa quando Marcus, uivando alegremente, atacou os dois.
Teria sido mais fácil se houvesse outras meninas com eles para ela conhecer. Se Marcus (que era uma graça de um jeito Pé-Grande gigante e descabelado) ou Spencer (que tinha a elegância de riquinho que algumas meninas achavam muito atraente) tivesse namorada, Bonnie teria alguém com quem trocar olhares irônicos enquanto os meninos se comportavam feito bobalhões.
Mas, embora de vez em quando aparecesse uma garota pendurada no braço de um dos meninos, Bonnie nunca a via de novo depois daquela noite. A não ser por Bonnie, Zander parecia viver num mundo quase exclusivamente masculino. E, depois de dois dias seguindo o desfile de machões pela cidade, Bonnie estava começando a ficar cansada. Sentia falta de conversar com meninas. Sentia falta de Elena e Meredith especificamente, embora ainda estivesse chateada com elas.
— Ei — disse ela, aproximando-se de Zander. — Quer sair um pouquinho daqui?
Zander passou o braço sobre seus ombros.
— Hummm. Por quê? — perguntou ele, curvando-se para lhe dar um beijo no pescoço.
Bonnie revirou os olhos.
— Está meio barulhento, não acha? A gente podia dar uma caminhada tranquila ou coisa assim.
Zander demonstrou surpresa, mas assentiu.
— Claro, o que você quiser.
Eles desceram pela escada de incêndio, seguidos por alguns gritos dos amigos de Zander, que pareciam pensar que ele ia buscar comida e logo voltaria com frango frito e tacos.
Depois de estarem a uma quadra de distância do terraço, o ruído diminuiu e tudo ficou pacífico, a não ser pelo som distante de um carro ou outro nas ruas próximas. Bonnie sabia que devia estar com medo, andando à noite pelo campus, mas não era assim. Não com a mão de Zander na dela.
— Isto é bom, não é? — comentou Bonnie, feliz, olhando a meia-lua no céu.
— É. — Zander balançou a mão de Bonnie entre eles. — Antigamente eu dava longas caminhadas... longas mesmo... com meu pai à noite. Íamos para o campo, à luz da lua. Adoro ficar ao ar livre à noite.
— Ah, que fofo — disse Bonnie. — Vocês ainda fazem isso quando você está na sua cidade?
— Não. — Zander hesitou e recurvou os ombros, o cabelo caindo no rosto. Bonnie não conseguia ver sua expressão. — Meu pai... ele morreu. Há algum tempo.
— Sinto muito — disse Bonnie com sinceridade, apertando a mão dele.
— Está tudo bem. — Zander ainda encarava os sapatos. — Mas, sabe, não tenho irmãos, e os meninos se tornaram uma família para mim. Sei que eles às vezes podem ser um saco, mas são gente muito boa. E são importantes para mim. — Ele olhou para Bonnie pelo canto do olho.
Parecia tão apreensivo que Bonnie sentiu uma pontada de afeto por ele. Era fofo Zander e os amigos serem tão próximos; deve ter sido a história de família que ele teve de resolver outra noite. Ele era leal, disso ela sabia.
— Zander — disse ela. — Sei que eles são importantes para você. Não quero afastá-lo de seus amigos, seu bobalhão. — Ela passou o braço pelo pescoço dele e lhe deu um leve beijo na boca. — Talvez só por uma ou duas horas, às vezes, mas não por muito tempo. Eu prometo.
Ele retribuiu o beijo com entusiasmo, e Bonnie se arrepiou até os dedos dos pés.
Abraçados, eles foram a um banco junto da calçada e se sentaram para dar mais uns beijos. Era tão bom tocá-lo, todo músculos suaves e pele macia. Bonnie passou as mãos pelos ombros e pelos braços dele, descendo pela lateral do corpo.
Ao toque dela, Zander de repente estremeceu.
— O que foi? — perguntou ela, levantando a cabeça.
— Nada — disse Zander. — É que eu andei me atracando com a galera. Eles pegam pesado.
— Deixe eu ver. — Bonnie pegou a bainha da camiseta, meio preocupada e meio querendo ver o abdome de Zander. Ele se revelara surpreendentemente recatado, considerando que os dois dividiam um quarto.
Estremecendo de novo, ele respirou fundo entredentes enquanto Bonnie levantava a camiseta. Ela ofegou. Toda a lateral do corpo de Zander estava coberto de feios hematomas roxos e pretos.
— Zander. — Bonnie ficou apavorada. — Isto parece muito ruim. Não é possível conseguir hematomas assim só numa brincadeira. — Parece que você esteve lutando pela própria vida. Ou outra pessoa esteve, pensou ela, e afugentou as palavras.
— Não é nada, não se preocupe. — Zander puxou a camiseta para baixo. Ele ia abraça-la de novo, mas Bonnie se afastou, vagamente nauseada.
— Queria que você me contasse o que aconteceu.
— Já contei — disse Zander, reconfortando-a. — Sabe como os caras são doidos.
Era verdade, ela jamais conhecera meninos tão agitados. Zander a abraçou de novo e, desta vez, Bonnie deixou-se ficar mais perto dele, virando o rosto para o beijo. Quando os lábios se encontraram, ela se lembrou de Zander dizendo: “Você me conhece. Você me vê.”
Ela o conhecia, disse Bonnie a si mesma. Podia confiar em Zander.


Do outro lado da rua, Damon estava à sombra de uma árvore, vendo os dois se beijando.
Tinha de admitir que sentia um pequeno aperto ao vê-la nos braços de outro. Havia algo tão doce em Bonnie, e ela era corajosa e inteligente sob aquela fachada de algodão doce. O lado bruxa também dava a ela um certo tempero. Ele sempre a considerou dele.
Mas a ruivinha não merecia alguém só dela? Por mais que Damon gostasse de Bonnie, ele não a amava, sabia disso. Vendo a expressão do garoto desajeitado em resposta ao sorriso dela, Damon pensou que talvez este sujeito a amasse.
Depois de ficarem se agarrando por mais alguns minutos, Bonnie e Zander se levantaram e andaram, de mãos dadas, em direção ao que Damon sabia ser o alojamento de Zander. Damon os seguiu, mantendo-se nas sombras.
Ele reprimiu o riso de escárnio. Estou amolecendo com a velhice, pensou. Nos velhos tempos, teria devorado Bonnie sem pensar duas vezes, e agora ali estava ele preocupado com sua vida amorosa.
Ainda assim, seria bom se a ruivinha pudesse ser feliz. Se o namorado dela não fosse uma ameaça.
Damon esperava que o casal feliz desaparecesse no alojamento juntos, mas em vez disso Zander deu um beijo de despedida em Bonnie e a observou entrar, depois voltou para a rua. Damon o seguiu, mantendo-se oculto, enquanto ele voltava ao grupo com quem estivera. Alguns minutos depois, Zander desceu novamente, seguido pelo bando de garotos barulhentos.
Damon se contorceu de irritação. Deus me livre dos universitários, pensou ele. Provavelmente iam se entupir de comida gordurosa de bar. Depois de alguns dias observando Zander, ele estava pronto para voltar a Elena e contar que o garoto não era culpado de nada além da falta de refinamento.
Mas, em vez de irem para o bar mais próximo, os meninos correram pelo campus, com velocidade e decisão, como se tivessem um destino importante em mente. Ao chegarem à margem do campus, foram para o bosque.
Damon lhes deu alguns segundos e os seguiu.
Ele era bom nisso; era um predador, um caçador natural, e precisou de alguns minutos escutando, enviando sondas de Poder, para enfim disparar pelas árvores, estalando os galhos escuros à frente... e perceber que Zander e os meninos tinham sumido.
Por fim, Damon parou e se recostou numa árvore para recuperar o fôlego. O bosque estava em silêncio, a não ser pelo som inocente de várias criaturas silvestres que cuidavam da vida e da sua própria respiração entrecortada. Aquele bando de crianças barulhentas e irritantes tinha escapado dele, desaparecendo sem o mais leve rastro. Ele cerrou os dentes e conteve a raiva por escaparem, até que praticamente só sobrou a curiosidade sobre o que eles estavam fazendo.
Pobre Bonnie, pensou Damon, alisando e ajeitando meticulosamente as roupas. Uma coisa tinha ficado claríssima: Zander e os amigos não eram inteiramente humanos.

Stefan se contorceu. Tudo aquilo era meio estranho.
Estava sentado numa cadeira com encosto de veludo numa sala imensa do subsolo enquanto universitários zanzavam por ali arrumando flores e velas. A sala era impressionante, Stefan tinha de admitir: enorme, mas elegante. No entanto os pequenos arranjos de flores pareciam baratos e falsos, como um cenário de palco no Vaticano. E as figuras de máscara preta à espreita no fundo da sala, observando, davam-lhe arrepios.
Matt ligara para ele contando do tipo de sociedade secreta universitária em que ingressara, e que o líder queria Stefan entre eles também. Stefan concordou em encontrá-lo e conversar sobre isso. Nunca foi de participar de grupos, mas gostava de Matt e era algo para fazer.
Isso o faria parar de pensar em Elena, refletiu. À espreita pelo campus — e sempre parecia que estava à espreita quando via Elena, pelo modo como seus olhos eram irresistivelmente atraídos para ela mesmo enquanto ele saía de vista às pressas —, ele a observara. Às vezes ela estava com Damon. As unhas de Stefan pressionaram as palmas das mãos. Relaxando conscientemente, ele voltou a atenção para Ethan, sentado diante dele a uma mesa pequena.
— Os membros da Vitale Society têm um lugar especial no mundo — dizia ele, curvando-se para a frente e sorrindo. — Só os melhores entre os melhores podem ter esperança de ser eleitos. Creio que as virtudes que procuramos estão bem exemplificadas em você, Stefan.
Stefan assentiu educadamente e deixou a mente vagar de novo. As sociedades secretas eram algo que ele realmente conhecia um pouco. A Escola Noturna de Sir Walter Raleigh, na Inglaterra elisabetana, atracava-se com o que na época era conhecimento proibido: ciência e filosofia que a Igreja declarara proibidas. Il Carbonari, na Itália, trabalhavam para estimular a revolta contra o governo de várias cidades-estado, objetivando a unificação de toda a Itália. Damon, Stefan sabia, brincou com os integrantes do Hellfire Club em Londres por alguns meses nos anos 1700, até se entediar com sua atitude e blasfêmia pueril.
Todas essas sociedades secretas, porém, tinham um propósito. Rebelar-se contra a moralidade convencional, buscar a verdade, a revolução.
Stefan se curvou para a frente.
— Perdoe-me — disse ele educadamente —, mas qual é o sentido da Vitale Society?
Ethan parou no meio do discurso para encará-lo, depois molhou os lábios.
— Bem — disse ele devagar —, os verdadeiros segredos e rituais da Sociedade não podem ser revelados a ninguém de fora. Nenhum dos aspirantes conhece nossas verdadeiras práticas e propósitos, não ainda. Mas posso lhe dizer que existem inumeráveis benefícios de ser um de nós. Viagens, aventuras, poder.
— Nenhum dos aspirantes conhece seu verdadeiro propósito? — perguntou Stefan. Sua inclinação natural a se manter afastado tornava-se mais resoluta. — Por que não usa máscara como os outros?
Ethan pareceu surpreso.
— Sou o rosto da Vitale para os aspirantes — respondeu simplesmente. — Eles precisam de alguém que conheçam para guiá-los.
Stefan se decidiu. Não queria ser guiado.
— Peço desculpas, Ethan — disse formalmente —, mas acho que eu não seria um candidato adequado para sua organização. Agradeço o convite. — E começou a se levantar.
— Espere. — Os olhos de Ethan estavam arregalados e dourados, e tinham uma expressão ansiosa e impaciente. — Espere — repetiu, lambendo os lábios de novo. — Nós... temos uma cópia de De hominis dignitate, de Pico della Mirandola. — Ele tropeçou nas palavras, como se não soubesse o que significavam. — Antiga, de Florença, uma primeira edição. Você poderia ler. Poderia ficar com ele, se quisesse.
Stefan enrijeceu. Tinha estudado com entusiasmo a obra de Mirandola sobre a razão e a filosofia quando ainda estava vivo, quando era um jovem se preparando para a universidade. Teve um desejo súbito e visceral de sentir o couro e o pergaminho antigos, ver a tipologia em bloco dos primeiros dias da imprensa, tão mais correta do que os livros modernos, compostos em computadores. De maneira nenhuma Ethan saberia que devia oferecer este livro específico a ele. Seus olhos se semicerraram.
— O que o faz pensar que quero isso? — sibilou, curvando-se sobre a mesa em direção a Ethan. Sentia o Poder fluindo por ele, alimentado pela fúria, mas Ethan não o olhou nos olhos.
— Eu... Você me disse que gosta de livros antigos, Stefan — respondeu, e riu falsamente, olhando para a mesa. — Achei que se interessaria.
— Não, obrigado. — A voz de Stefan estava baixa e irritada. Não podia obrigar Ethan a olhá-lo nos olhos, não com tanta gente por perto, então, depois de um momento, ele se levantou. — Declino sua oferta — concluiu rispidamente. — Adeus.
Ele foi em direção à porta sem olhar para trás, mantendo-se ereto e altivo. Ao chegar à porta, olhou para Matt, que conversava com outro aluno, e deu de ombros para ele, meneando a cabeça, tentando telegrafar suas desculpas. Matt assentiu, decepcionado, mas sem questionar.
Ninguém tentou impedir Stefan de sair da sala, mas ele sentiu um nervosismo na boca do estômago. Havia algo errado ali. Não sabia o suficiente para dissuadir Matt de ingressar na sociedade, mas decidiu ficar de olho na Vitale Society. Assim que fechou a porta ao passar, sentiu que Ethan o observava.

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