19 de março de 2019

Capítulo 31

Sabendo que não poderia realizar o ritual com o estômago vazio, Stefan caçou vários esquilos no quintal da Sra. Flowers, depois voltou para a garagem do pensionato. Meredith tinha estacionado o velho Ford da Sra. Flowers na entrada, e havia espaço mais do que suficiente para montar tudo o que precisavam para o ritual de expulsão.
Stefan inclinou a cabeça ao ouvir um ruído rastejante nas sombras, e identificou o coração acelerado de um ratinho. A atmosfera podia não ser muito confortável, mas o espaço da garagem e o piso de cimento davam um ótimo lugar para se trabalhar no feitiço.
— Dê-me a fita métrica, por favor — disse Alaric esparramado no meio do chão da garagem. — Preciso traçar essa linha com o tamanho certo.
A Sra. Flowers tinha desencavado uma caixa de giz colorido de algum lugar no pensionato, e Alaric estava com o livro aberto copiado os círculos cuidadosamente, símbolos arcanos, parábolas e elipses de suas páginas para o cimento liso.
Stefan lhe deu a fita e o observou medir com cuidado do círculo mais interno até uma fila de runas estranhas na parte externa do desenho.
— É importante que tudo seja bem preciso — disse Alaric franzindo a testa e verificando as extremidades da fita métrica. — O menor erro poderia nos levar a soltar essa coisa em Fell’s Church sem querer.
— Mas já não está solta? — perguntou Stefan.
— Não — explicou Alaric. — O ritual permitirá que o espectro apareça em sua forma corpórea, que é muito mais perigosa que a coisa substancial que é agora.
— Então é melhor você medir isso direito — concordou Stefan, sombrio.
— Se tudo correr como planejado, o espectro ficará preso no círculo interno — Alaric disse, apontando. — Ficaremos no mais externo, depois das runas. Acho que estaremos em segurança ali. — Ele levantou a cabeça e abriu um sorriso triste para Stefan. — Assim espero. Nunca fiz nenhum tipo de invocação na vida real, embora tenha lido muito sobre o assunto.
Ótimo, pensou Stefan, mas retribuiu o sorriso de Alaric sem comentários. O sujeito estava fazendo o melhor que podia. Só restava torcer para que fosse suficiente para salvar Elena e os outros.
Meredith e a Sra. Flores entraram na garagem, cada uma delas carregando uma sacola de compras. Celia as seguia.
— Água benta — Meredith disse, erguendo o borrifador de plantas da sacola para mostrar a ele.
— Não funciona em vampiros — lembrou Stefan.
— Não vamos invocar um vampiro — ela respondeu, e saiu para borrifar os espaços externos do diagrama, com o cuidado de não bagunçar as linhas de giz.
Alaric se levantou e começou a pular, com muita cautela, para fora do imenso diagrama multicolorido, segurando o livro com uma das mãos.
— Acho que estamos quase prontos — disse.
A Sra. Flowers olhou para Stefan.
— Precisamos dos outros — disse ela. — Todos os atingidos pelos Poderes do espectro tem que estar aqui.
— Eu ajudo você a trazê-los — ofereceu-se Alaric.
— Não é necessário — argumentou Stefan, e subiu sozinho. Parado ao lado da cama do pequeno quarto rosa e creme, ele olhou para Elena, Matt, e Bonnie. Nenhum deles se mexera desde que ele colocara Matt ali.
Ele suspirou e pegou primeiro Elena nos braços. Depois de um instante também pegou um travesseiro e um cobertor. Pelo menos ele podia tentar deixá-la confortável.
Poucos minutos depois, os três adormecidos estavam deitados na frente da garagem, bem fora do diagrama, com as cabeças apoiadas por travesseiros.
— E agora? — perguntou Stefan.
— Agora cada um de nós escolhe uma vela — respondeu a Sra. Flowers abrindo sua sacola plástica. — Uma que sintam que representa vocês na cor. Segundo o livro, elas devem ser feitas a mão e ter um cheiro especial, mas essas terão que servir. Eu não vou pegar uma — disse a Sra. Flowers passando a sacola a Stefan.
— O espectro não concentrou seus Poderes em mim, e não me lembro de ter ciúmes ou inveja de ninguém desde 1943.
— O que aconteceu em 1943? — Meredith perguntou, curiosa.
— Eu perdi a coroa de pequena Miss Fell’s Church para Nancy Sue Baker — respondeu a Sra. Flowers. Quando Meredith ficou boquiaberta, ela lançou os braços para o ar. — Até eu fui criança um dia, sabe. Eu era linda, com cachos de Shirley Temple, e minha mãe gostava de me vestir com babados e me exibir.
Tirando da mente a imagem surpreendente da Sra. Flowers com cachos de Shirley Temple, Stefan vasculhou o sortimento de velas e escolheu uma azul escura. Parecia certa para ele de alguma maneira.
— Precisamos de velas para os outros também — disse ele. Cuidadosamente ele escolheu uma dourada para Elena e uma rosa para Bonnie.
— Está escolhendo de acordo com a cor dos cabelos? — Meredith perguntou. — Você é tão... homem.
— Mas você sabe que estas são as cores certas para elas — Stefan argumentou. — Além disso, o cabelo de Bonnie é vermelho, não rosa.
Meredith assentiu com relutância.
— Acho que tem razão. Mas, branca para Matt.
— Sério? — perguntou Stefan. Ele não sabia o que teria escolhido para Matt. Um padrão da bandeira americana, talvez, se houvesse uma vela assim.
— Ele é a pessoa mais pura que conheço — disse Meredith em voz baixa. Alaric ergueu uma sobrancelha para ela e lhe deu uma cotovelada. — Puro de espírito, quero dizer. Matt é transparente, bom e confiável o tempo todo.
— Acho que sim — concordou Stefan, e observou sem comentar nada enquanto Meredith escolhia uma vela marrom escura para si mesma.
Alaric remexeu na sacola e pegou uma vela verde escura, e Celia escolheu uma lavanda clara.
A Sra. Flowers pegou a sacola com as velas restantes e a guardou numa prateleira alta, perto da porta da garagem, entre um saco de terra para vasos e o que parecia um antigo lampião a querosene.
Todos se sentaram no chão da garagem em um semicírculo fora do diagrama, de frente para o círculo interno vazio, segurando suas velas apagadas. Os adormecidos ficaram atrás deles, e Meredith segurava a vela de Bonnie no colo, assim como a própria, Stefan estava com a de Elena e Alaric com a de Matt.
— Agora vamos ungi-las com nosso sangue — disse Alaric. Todos o olharam, e ele encolheu os ombros defensivamente. — É o que diz o livro.
Meredith tirou um pequeno canivete da bolsa, cortou o dedo, e rapidamente, sem rodeios, passou uma gota de sangue do topo até a base de sua vela marrom, depois passou o canivete para Alaric, junto com um frasco de desinfetante. Um por um, os outros fizeram o mesmo.
— Isso é muito anti-higiênico — disse Celia, estremecendo, mas fez o mesmo.
Stefan estava muito consciente do cheiro de sangue humano em um espaço tão fechado. Embora tivesse se alimentando, seus caninos rosnaram numa reação automática.
Meredith pegou a vela e foi até os amigos adormecidos, passando de um ao seguinte e erguendo as mãos deles para fazer um corte rápido e passar o sangue nas velas. Nenhum deles sequer pestanejou. Quando ela terminou, Meredith redistribuiu as velas dos adormecidos e voltou ao seu lugar.
Alaric começou a ler em latim, as primeiras palavras do feitiço. Após algumas frases, hesitou em uma palavra e Stefan em silêncio pegou o Manual. Suavemente continuou a ler de onde Alaric tinha parado. As palavras fluíam de sua boca, a sensação do latim em seus lábios, lembrando-o de horas passadas com seu preceptor da infância centenas de anos antes, e de um período em que ele viveu em um monastério na Inglaterra nos primeiros tempos de sua lutar com o vampirismo.
Quando chegou a hora, ele estalou os dedos e, com um toque de Poder, sua vela se acendeu. Ele a entregou a Meredith, e pingou um pouco de cera derretida no chão da garagem na margem do diagrama e prendeu a vela ali. Um por um, nos pontos corretos do ritual, ele acendia uma vela e a posicionava, até que havia uma pequena fileira de velas multicoloridas queimando corajosamente entre eles e as linhas de giz do diagrama.
Stefan continuou lendo. De repente, as páginas do livro começaram a se agitar. Um vento frio e sobrenatural se ergueu dentro da garagem fechada, e as chamas das velas bruxulearam loucamente e depois se apagaram. Duas velas caíram.
O cabelo comprido de Meredith batia em seu rosto.
— Isso não devia acontecer — gritou Alaric.
Mas Stefan simplesmente semicerrou os olhos contra a ventania e continuou a leitura.


A escuridão de breu e a sensação desagradável de queda duraram apenas um momento, depois Elena caiu atabalhoadamente de pé e cambaleou para frente, apertando as mãos de Matt e Bonnie.
Eles estavam numa sala octogonal escura ladeada de portas. O único móvel ficava no meio. Atrás da mesa solitária recostava-se um vampiro bronzeado, belo, incrivelmente musculoso, o peito nu, com uma longa cabeleira de cachos cor de bronze caindo pelos ombros.
Elena soube imediatamente onde estava.
— Chegamos — ela arquejou. — O Portão!
Sage se colocou de pé num salto do outro lado da mesa, com o rosto quase comicamente surpreso.
— Elena? — exclamou ele. — Bonnie? Matt? O que está havendo?
Normalmente, Elena teria ficado aliviada ao ver Sage, que sempre foi gentil e prestativo para com ela, mas tinha de falar com Damon. Ela sabia onde ele devia estar. Quase conseguia ouvi-lo chamando por ela.
Elena atravessou a sala vazia, mal olhando para o sobressaltado Guardião do Portão, puxando Matt e Bonnie.
— Sinto muito, Sage — disse ela ao chegar a porta que queria. — Temos que encontrar Damon.
— Damon? — indagou Sage. — Ele voltou? — Depois eles passaram, ignorando os gritos de Sage. — Parem! Parem!
A porta se fechou atrás deles, e eles se viram numa paisagem de cinzas. Nada crescia ali, e não matos. Fortes ventos sopravam a cinza preta fina, em montes e vales cambiantes. Enquanto observavam, uma lufada pegou a camada leve de cinzas e a fez voar de uma nuvem que logo se assentou em novas formas. Abaixo da cinza mais leve, eles viam pântanos de cinza molhada e lamacenta. Perto dali havia uma poça d’água estagnada, sufocada de cinzas. Nada além de cinzas e lama, exceto por um ou outro pedaço de madeira calcinado e preto.
Acima deles estava um céu crepuscular em que pendia um enorme planeta e duas grandes Luas, uma de um branco azulado em espirais, outra prateada.
— Onde estamos? — perguntou Matt, boquiaberto para o céu.
— Antigamente, isto era um mundo, uma Lua, tecnicamente, à sombra de uma imensa árvore — Elena respondeu, avançando com firmeza. — Até que eu a destruí. Foi aqui que Damon morreu.
Ele sentiu sem ver que Matt e Bonnie trocaram um olhar.
— Mas, humm, ele voltou, certo? Você o viu em Fell’s Church outra noite, não foi? — indagou Matt hesitante. — Por que estamos aqui agora?
— Sei que Damon está perto— respondeu Elena disse, impaciente. — Posso senti-lo. Ele voltou para cá. Talvez tenha começado sua busca pelo espectro aqui.
Eles continuaram andando. Logo não andavam propriamente, mas se arrastavam pela cinza negra que grudava em suas pernas em nacos grossos e desagradáveis. A lama por baixo das cinzas pegava nos sapatos, soltando-os a cada passo com um ruído de sucção.
Eles estavam quase lá. Ela podia sentir. Elena acelerou o ritmo, e os outros, ainda ligados a ela, correram para acompanhar. As cinza era mais espessa e mais funda ali, porque eles se aproximavam de onde estivera o tronco, o centro daquele mundo. Elena se lembrava dele explodindo, disparando para o céu feito um foguete desintegrando-se ao subir. O corpo de Damon tinha caído por baixo e foi completamente enterrado nas cinzas.
Elena parou. Havia uma pilha grossa e remexida de cinzas que parecia ter pelo menos a altura de sua cintura em certos lugares. Ela pensou que conseguia ver onde Damon havia despertado, as cinzas estavam remexidas e cavadas, como se alguém tivesse aberto um túnel vindo de um dos depósitos mais fundos. Mas não havia ninguém por perto, só eles. Um vento frio soprou um borrifo de cinzas, e Bonnie tossiu. Elena, até os joelhos nas cinzas frias e pegajosas, soltou a mão de Bonnie e se abraçou.
— Ele não está aqui — disse ela, sem emoção. — Eu tinha tanta certeza de que estaria.
— Ele deve estar em outro lugar, então — falou Matt com lógica. — Tenho certeza de que está combatendo o espectro, como você disse que ele faria. A Dimensão das Trevas é muito grande.
Bonnie tremeu e se aconchegou mais perto de Matt, com os olhos castanhos arregalados e cheios de emoção, como os de um cachorro faminto.
 — Podemos ir para casa agora? Por favor? Sage pode nos mandar de volta, não pode?
— Simplesmente não entendo — disse Elena, encarando o espaço vazio onde antes o grande tronco da árvore ficava. — Eu sabia que ele estaria aqui. Praticamente o ouvia me chamando.
Nessa hora, uma risada baixa e musical cortou o silêncio. Era um lindo som, mas havia algo de arrepiante e estranho nela, algo que fez Elena estremecer.
— Elena — Bonnie sussurrou, os olhos arregalados. — Foi essa coisa que eu ouvi antes de a névoa me pegar.
Eles se viraram. Atrás deles estava uma mulher. Na verdade um ser na forma de mulher, emendou-se Elena rapidamente. Não era uma mulher. E, como seu riso, este ser em forma de mulher era bonito, mas assustador. Ela — a coisa — era enorme, mais de uma vez e meia o tamanho de um ser humano, mas perfeitamente proporcional, e parecia feita de gelo e névoa em tons de azul e verde, como a mais pura geleira, seus olhos eram transparentes, com um leve toque de verde claro. Enquanto eles a observavam, seus quadris e pernas sólidos e transparentes como gelo se alternaram e se toldaram, mudando para um redemoinho de neblina.
Uma longa onda de cabelos verdes azulados vagava atrás de sua forma, como uma nuvem que se agitava devagar. Ela sorriu para Elena, e seus dentes afiados brilharam como pingentes de gelo prateados. Havia algo em seu peito, no entanto, que não era gelo, era sólido, redondo e de um vermelho bem escuro.
Elena viu tudo isso um instante antes de sua atenção ser plenamente desviada para o que pendia da mão estendida da coisa mulher de gelo.
— Damon — ela arquejou.
A mulher gelo o segurava casualmente pelo pescoço, ignorando sua luta, enquanto ele pairava no ar. Segurava-o com tanta facilidade que ele parecia um brinquedo. O vampiro vestido de preto balançava a perna, chutando a lateral da mulher gelo, mas seu pé simplesmente atravessava a névoa.
— Elena — disse Damon numa voz sufocada e fina.
A mulher-gelo-espectro inclinou a cabeça e olhou para Damon, depois apertou seu pescoço um pouco mais.
— Eu não preciso respirar, seu... espectro idiota — ofegou ele desafiador.
O sorriso do espectro se ampliou e a coisa disse numa voz fria e melodiosa, como cristais tinindo:
— Mas sua cabeça pode se soltar, não pode? E isso dará o mesmo resultado. — A coisa sacudiu Damon um pouco, depois transferiu seu sorriso para Elena, Bonnie e Matt. Elena instintivamente recuou um passo quando os olhos frios como um geleira a encontraram. — Bem-vindo — disse a coisa a ela em um tom de prazer, como se fossem velhas amigas. — Achei você e seus amigos tão revigorantes, todos os seus ciúmes. Cada um de vocês com seu próprio sabor especial de inveja. Vocês têm um monte de problemas, não é? Eu não me sentia tão forte ou tão bem nutrida há milênios. — Seu rosto se tornou pensativo, e ela começou a balançar Damon suavemente de um lado para o outro. Damon agora soltava uns ruídos guturais e lágrimas de dor escorriam por seu rosto.
— Mas vocês deviam ter ficado onde os coloquei —continuou o espectro, com a voz um pouco mais fria, e balançou Damon casualmente, formando um grande arco no ar. Ele ofegou e puxou a mão enorme do espectro. Seria mesmo verdade que ele não precisava respirar?
Elena não sabia. Damon não ia mentir sobre isso, se tivesse motivos, nem por motivo nenhum, exceto para irritar seu oponente.
— Chega! — gritou Elena.
O espectro riu outra vez, divertindo-se gentilmente.
— Vai em frente e me faça parar, baixinha — seu aperto se estreitou em volta da garganta de Damon e ele estremeceu. Então os olhos dele rolaram para trás até que Elena só via, horrorizada, o branco fantasmagórico e as veias vermelhas de seus olhos, e ele perdeu a energia.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!