19 de março de 2019

Capítulo 30

Stefan dirigiu como um louco na volta ao pensionato.
— Nem acredito que esqueci de dizer que o nome dele foi chamado — disse pelo que parecia ser a centésima vez. — Não acredito que o deixamos sozinho.
— Acalme-se — pediu Meredith, tentando segurar firme o corpo de Matt no banco traseiro, enquanto Stefan virava uma esquina, cantando pneu. — Você está correndo demais.
— Estamos com pressa — grunhiu Stefan, girando o volante para dar uma guinada à direita.
Alaric se virou no banco do carona e olhou para Meredith em pânico quando Stefan errou por pouco um caminhão de lixo. Ela suspirou. Sabia que ele estava tentando compensar seu erro por não ter contado a eles imediatamente que o nome de Matt tinha aparecido na loja de ervas, mas matar todos eles numa corrida para chegar em casa não era exatamente a solução. Além disso, embora eles provavelmente tivessem feito as coisas de um jeito diferente se soubessem, talvez isso não mudasse o resultado para Matt. Suas precauções não salvaram Bonnie nem Elena.
— Pelo menos você tem reflexos de vampiro — disse ela, mais para tranquilizar Alaric do que por qualquer confiança particular que sentisse em relação às habilidades de direção de Stefan. Ela havia insistido em ficar no bando de trás com Matt, e agora voltava sua atenção para ele. Colocou a mão em seu peito para ele não cair no chão quando o carro dava solavancos e guinadas.
Matt estava tão quieto. Sem as contorções e os movimentos dos olhos que costumam acompanhar o sonho, só o subir e descer superficial e constante da respiração. Ele nem mesmo roncava. E ela sabia pelas excursões de camping da época da sexta série que Matt roncava como uma motosserra. Sempre.
Meredith nunca chorava. Nem mesmo quando o pior acontecia. E não ia começar agora, não quando seus amigos precisavam de sua calma e concentração para tentar descobrir como salvá-los. Mas se fosse do tipo que chorava, em vez de ser a garota que erma estratégias estaria aos prantos. Mesmo agora, sentiu sua respiração presa na garganta de um jeito um tanto doloroso, até ela se obrigar a retornar a calma impassível.
Só restava ela. Dos quatro amigos que tinham passado juntos pela escola, os verões e a adolescência e todos os horrores que o mundo sobrenatural podia lançar neles, ela era a única que o espectro não havia capturado. Ainda. Meredith cerrou os dentes e segurou Matt com firmeza.
Stefan parou o carro na frente do pensionato, tendo evitado de algum modo causar algum dano a outros veículos ou pedestres no caminho. Alaric e Meredith começaram a tirar Matt com cuidado e aos poucos do carro, passando os braços dele nos pescoços e colocando-o meio de pé. Mas Stefan simplesmente agarrou Matt e o jogou sobre o ombro.
— Vamos — disse ele, e partiu para o pensionato, equilibrando com facilidade o corpo inconsciente de Matt com uma das mãos, sem olhar para trás.
— Ele se tornou um cara meio estranho — comentou Alaric observando Stefan com cuidado. O sol bateu no queixo com a barba por fazer de Alaric e ela brilhou com toque de dourado. Ele se virou para Meredith e deu um sorriso triste que a desarmou. — Uma vez mais rumo à brecha... — comentou ele.
Meredith pegou a mão dele, quente e sólida, na dela.
— Vamos — disse ela.
Depois de entrarem no pensionato, Stefan subiu a escada para depositar Matt com os outros corpos, as outras adormecidas, Meredith lembrou-se furiosa. Meredith e Alaric, de mãos dadas, foram para a cozinha. Ao abriu a porta, ela ouviu a voz da Sra. Flowers.
— Muito útil, de certo, minha cara — dizia ela, um tom caloroso de aprovação na voz. — Você fez muito bem. Estou muito agradecida.
Meredith ficou boquiaberta. Na mesa da cozinha com a Sra. Flowers, fria, calma e linda num vestido de linho azul, estava a Dra. Celia Connor, bebendo chá.
— Oi, Alaric. Oi, Meredith — disse Celia. Seus olhos escuros se demoraram friamente nos de Meredith. — Não vão acreditar no que eu descobri.
— O quê? — perguntou Alaric ansioso, soltando a mão de Meredith. O coração dela se apertou.
Celia pegou uma bolsa de viagem ao lado da cadeira e tirou dali um livro grosso com uma capa de couro marrom puída. Ela sorriu triunfante e anunciou:
— É um livro sobre espectros. A Dra. Beltram acabou me mandando para Dalcrest College, que tem uma coleção de textos sobre paranormalidade muito abrangente.
— Sugiro nos reunirmos na salinha — disse a Sra. Flowers, — onde poderíamos ficar mais confortáveis, e examinar seu conteúdo juntos.
Eles foram para a salinha, mas Stefan, quando se juntou a eles, não parecia mais à vontade.
— Diferentes tipos de espectros — leu ele, pegando o livro de Celia e folheando rapidamente. — A história dos espectros em nossa dimensão. Onde está o ritual de expulsão? Por que essa coisa não tem índice?
Celia deu de ombros.
— É muito antigo e raro — disse ela. — Foi difícil de encontrar, e é o único livro sobre o assunto em que provavelmente colocar as mãos, talvez o único que exista, então precisamos relevar essas coisas. Nesses textos mais antigos, os autores queriam que você lesse direto e realmente aprendesse sobre o tema, entendesse o que eles queriam dizer, e não apenas encontrasse a página necessária logo de cara. Mas você pode tentar procurar perto do final.
Alaric observou Stefan virar as páginas com uma expressão de dor.
— É um livro raro, Stefan — disse ele. — Por favor, seja mais cuidadoso com ele. Quer que eu procure? Estou acostumado a encontrar o que preciso nesse tipo de livros.
Stefan rosnou para ele, literalmente, e Meredith sentiu os pelos da nuca se eriçar.
— Eu mesmo farei isso, professor. Estou com pressa. — Ele semicerrou os olhos para o texto. — Por que tem que ser em caracteres tão adornados? — reclamou. — Não me diga que é porque é antigo. Sou mais velho do que isso, e mal consigo ler. Espectros que se alimentam como vampiros de uma sensibilidade preferida, seja ela culpa, desespero, rancor ou desejo por alimento, o Rum do demônio ou mulheres caídas. Quanto mais forte a sensibilidade, pior o resultado criado pelo espectro, acho que poderíamos ter deduzido isso sozinhos.
A Sra. Flowers estava um pouco distante do resto do grupo, com os olhos fixos no vazio, murmurando aparentemente consigo mesma enquanto se comunicava com a mãe.
— Eu sei — disse ela. — Contarei a eles. — Seus olhos focalizaram os outros que estavam em volta de Stefan, olhando por sobre o ombro dele. — A mama falou que o tempo está se esgotando — alertou.
Stefan se colocou de pé num salto e explodiu.
— Eu sei que está se esgotando — rugiu bem no rosto surpreso da Sra. Flowers, —sua mãe não pode dizer alguma coisa útil pelo menos uma vez na vida?
A Sra. Flores cambaleou para longe deles, estendendo a mão para se apoiar no encosto da cadeira. Seu rosto ficou branco, e de repente ela pareceu mais velha e mais frágil do que nunca. Os olhos de Stefan se arregalaram, a cor escureceu para um verde mar tempestuoso, e ele estendeu as mãos com uma expressão apavorada.
— Desculpe, Sra. Flowers, me desculpe. Eu não queria assustá-la. Não sei o que deu em mim... Só estou preocupado com Elena e os outros.
— Eu sei, Stefan — disse a Sra. Flowers séria. Ela recuperara o equilíbrio e parecia mais forte, calma e sábia novamente. — Nós vamos recuperá-los, você sabe disso. Precisa ter fé. A mama tem.
Stefan se sentou, voltando ao livro com lábios apertados numa linha reta.
Com a pelo formigando de apreensão, Meredith segurou o bastão com mais força enquanto o observava. Quando ela revelou aos outros que os membros de sua família eram caçadores de vampiros hereditários e que era a vez dela de assumir seus deveres, tinha dito a Elena e Stefan que nunca se voltaria contra Stefan, que ela entendia que ele não era como os outros vampiros, que era bom: inofensivo e benevolente com os humanos.
Ela não fez as mesmas promessas a respeito de Damon, e Elena e Stefan não lhe pediram isso. Todos compartilharam uma compreensão tácita de que Damon não podia ser caracterizado como inofensivo, nem mesmo quando ele trabalhou de má vontade com eles, e que Meredith precisaria manter suas opções em aberto quando se tratasse dele.
No entanto, Stefan... ela nunca pensou que isso aconteceria, mas agora Meredith estava preocupada que um dia não fosse capaz de manter sua promessa em relação a Stefan. Ela nunca o vira agir como vinha se comportando ultimamente: irracional, irritado, imprevisivelmente violento. Sabia que o comportamento dele devia ser causado pelo espetro, mas será que Stefan estava se tornando perigoso demais? Será que ela conseguiria matá-lo se precisasse? Ele era seu amigo.
O coração de Meredith estava disparado. Ela percebeu que os nós dos dedos empalideceram contra o bastão de combate, sua mão doía. Sim, ela percebeu, lutaria com Stefan e tentaria matá-lo, se fosse preciso. É verdade que ele era seu amigo, mas seus deveres tinham de vir em primeiro lugar.
Ela respirou fundo e conscientemente relaxou as mãos. Calma, disse a si mesma. Respire. Stefan se mantinha mais ou menos sob controle. Não era uma decisão que ela tivesse de tomar. Pelo menos, por hora.
Poucos minutos depois, Stefan parou de folhear o livro.
— Aqui — disse ele. — Acho que é isso. — Ele entregou o livro a Sra. Flowers. Ela passou os olhos rapidamente na página e assentiu.
— Parece o ritual certo — concordou ela, séria. — Eu devo ter tudo de que precisamos para realizá-lo aqui mesmo na casa.
Alaric pegou o livro. Ele leu o feitiço, também, de cenho franzido.
— Precisa ser um feitiço de sangue? — perguntou à Sra. Flowers. — Se ele falhar, o espectro pode voltá-lo contra nós.
— Creio que terá de ser um feitiço de sangue — respondeu a Sra. Flores. — Precisamos de mais tempo para experimentar uma mudança no feitiço, e tempo é a única coisa que não temos. Se o espectro consegue usar seus cativos como pensamos que pode, ele só vai ficar mais poderoso.
Alaric começou a falar novamente, mas foi interrompido.
— Espere — disse Celia, com certa estridência na voz normalmente rouca. — Feitiço de sangue? O que significa isso? Não quero me envolver em nada... — ela procurou uma palavra — repugnante.
Ela estendeu a mão para o livro, mas Stefan bateu na mão dela.
— Repugnante ou não, é o que vamos fazer — disse ele em voz baixa, mas em um tom duro como aço. — E você faz parte disso. É tarde demais para voltar atrás. Eu não permitirei.
Celia teve um tremor convulsivo e se encolheu na cadeira.
— Não ouse me ameaçar — alertou ela com a voz trêmula.
— Acalmem-se todos — Meredith disse incisiva. — Celia, ninguém vai obrigar você a fazer nada que não concorde. Eu a protegerei se necessário. — Seus olhos voaram rapidamente até Alaric, que olhava de uma para outra, parecendo preocupado. — Mas precisamos de sua ajuda. Por favor. Você pode ter nos salvado encontrando esse feitiço, e somos gratos, mas Stefan está certo, você também faz parte disto. Não sei se vai funcionar sem você — ela hesitou por um instante, — ou, se funcionar, pode deixar você como o único alvo do espetro — acrescentou com astúcia.
Celia estremeceu de novo e se abraçou.
— Não sou covarde — afirmou categoricamente. — Sou uma cientista, e esse... misticismo irracional me preocupa. Mas estou dentro, vou ajudar no que puder.
Meredith, pela primeira vez, sentiu um lampejo de simpatia por ela. Entendia que devia ser difícil para Celia continuar a pensar em si mesma como uma pessoa lógica, ao passo que os limites do que ela sempre aceitara como realidade desmoronavam ao redor.
— Obrigada, Celia. — Meredith olhou para os outros. — Temos um ritual. Temos os ingredientes. Só precisamos juntar tudo e começar a lançar o feitiço. Estamos prontos?
Todo mundo se endireitou, com sérias expressões de determinação nos rostos. Por mais assustador que fosse, era bom finalmente ter um propósito e um plano.
Stefan respirou fundo e visivelmente se controlou, com os ombros relaxando e a atitude se ajustando a algo menos predatória.
— Ok, Meredith — disse ele. Seus olhos verdes tempestuosos encontraram os cinza dela, num consentimento perfeito. — Vamos começar.

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