14 de março de 2019

Capítulo 3

Para se qualificar para o Serviço de Enfermagem do Exército Australiano, a candidata precisa ser enfermeira diplomada e registrada, cidadã britânica, solteira, sem dependentes… ter boa saúde, bom caráter e os atributos pessoais indispensáveis para a formação de uma eficiente enfermeira do Exército.
JOAN CROUCH, “UM TIPO ESPECIAL DE SERVIÇO”, A HISTÓRIA DO HOSPITAL GERAL DA AUSTRÁLIA, 2º BATALHÃO, 9ª COMPANHIA 1940-46

MOROTAI, ILHAS HALMAHERAS
PACÍFICO SUL, 1946
UMA SEMANA PARA O EMBARQUE

A lua cheia de Morotai iluminava, com sua claridade melancólica, a noite tranquila. O calor era tão sufocante que nem a suave brisa do mar, que em geral soprava através dos biombos de sisal, conseguia atenuar. As folhas das palmeiras pendiam, flácidas. O único som era o ruído seco quando um coco caía no chão. Não havia ninguém para arrancar os maduros, que despencavam sem controle, um risco para os imprudentes.
No momento, a ilha estava quase toda imersa na escuridão, a não ser por algumas luzes que piscavam nos prédios ao longo da estrada que se estendia por toda a península. Nos últimos cinco anos, aquela área da ilha tinha sido invadida pelo tráfego das Forças Aliadas. O rugido dos motores dos aviões e a explosão dos gases de escape estavam sempre presentes, mas naquele instante o silêncio dominava a noite tranquila, interrompido apenas por algumas risadas distantes, pelo chiado de um gramofone e pelo quase inaudível tilintar de copos.
No interior da tenda das enfermeiras, a algumas centenas de metros do pavilhão que servira como base americana, a enfermeira-chefe Audrey Marshall, do Hospital Geral da Austrália, acabava de fazer seus registros no Diário de Guerra da Unidade.
— Autorizações para evacuação do navio dos prisioneiros de guerra do hospital de Morotai recebidas.
— Autorizações de movimentação para enviar à unidade: 12 prisioneiros de guerra e uma enfermeira transferidos amanhã para a Austrália, no Ariadne.
— Situação dos leitos: ocupados 12, vazios 24.
Ela observou os dois últimos números e pensou nos diversos anos em que aqueles dados haviam sido invertidos. Pensou também nas centenas de dias em que precisara preencher mais uma coluna: “falecidos”. A tenda era uma das poucas ainda abertas: quarenta e cinco das cinquenta e duas já estavam fechadas.
Os pacientes haviam sido entregues às suas famílias na Inglaterra, Austrália ou até Índia, as enfermeiras tinham retornado à vida civil, e os mantimentos em estoque aguardavam para serem vendidos às autoridades holandesas que ocupavam o território. O Ariadne seria o último navio de assistência hospitalar e carregaria um grupo variado de homens, alguns dos últimos prisioneiros de guerra a deixar a ilha. A partir daquele momento, ela teria que lidar apenas com eventuais acidentes de carro e doenças da população civil, até que também recebesse a ordem de voltar para casa.
— A enfermeira Frederick me pediu para avisá-la que o sargento Wilkes está dançando foxtrote com a enfermeira Cooper no centro cirúrgico… Ela já caiu duas vezes.
A enfermeira Gore enfiara a cabeça na abertura da cortina na porta. Seu rosto, sempre corado por causa do calor, estava quase vermelho de animação e por causa da dose de uísque que havia bebido. Com o hospital prestes a ser abandonado, as jovens estavam descontraídas e brincalhonas: cantavam e interpretavam cenas de filmes antigos para entreter os homens. O recato e a autoridade de antes tinham evaporado na umidade do ar. Embora, a rigor, elas ainda estivessem a serviço, Audrey Marshall não teve coragem de repreendê-las…
Não depois do que haviam passado nas últimas semanas. Ela não conseguia esquecer seus rostos extenuados e abalados quando os primeiros prisioneiros de guerra chegaram de Bornéu.
— Vá lá e diga para aquela maluca trazê-lo de volta. Para mim, pouco importa que ela se machuque ou não, mas só faz quarenta e oito horas que Wilkes conseguiu voltar a se manter em pé. Não queremos que ele quebre uma perna e piore ainda mais seu estado.
— Farei isto, chefe.
A jovem saiu e a cortina caiu toda molenga. Um instante depois, seu rosto reapareceu.
— Você também vem? Os rapazes estão querendo saber onde você está.
— Vou daqui a pouco, enfermeira — respondeu, fechando o livro de registros e se levantando do banco dobrável. — Vá na frente.
— Sim, chefe.
Dando um sorriso, ela saiu.
Audrey Marshall conferiu seu cabelo no pequeno espelho pendurado acima da pia, depois secou o rosto com uma toalha. Deu um tapa em um mosquito que pousara na parte posterior do seu braço, alisou com as mãos a calça cinza de algodão e saiu, deixando para trás a área das enfermeiras. Passou pelo centro cirúrgico, que felizmente já estava em silêncio, e seguiu em direção ao Pavilhão G, pensando no raro prazer que era ouvir risadas e música em vez dos gritos de feridos.

* * *

A maior parte dos leitos da grande tenda conhecida como Pavilhão G tinha sido colocada no fundo, para que os homens ainda de cama conseguissem ver metade do espaço que se transformara em uma pista de dança de areia. Em um canto, em cima de uma escrivaninha, um gramofone reproduzia com som rouco as canções que haviam sobrevivido aos arranhões dos diversos anos de areia e uso excessivo. Um bar improvisado fora montado na sala de primeiros socorros, e os suportes para frascos de soro passaram a servir de apoio para garrafas de uísque e cerveja.
Naquela noite, muitos estavam sem uniforme: as mulheres vestiam blusas claras e saias floridas, os homens usavam camisas com calças que precisavam ser apertadas na cintura com cintos finos. Várias enfermeiras dançavam na pista, algumas com as próprias colegas, e outras com os últimos funcionários e fisioterapeutas da Cruz Vermelha, que se atrapalhavam toda vez que tentavam fazer passos mais elaborados. Um casal parou de dançar quando Audrey Marshall entrou, mas ela balançou a cabeça para que continuassem.
— Acho que chegou a hora da minha ronda final — anunciou ela, com um tom de voz falsamente severo, o que provocou uma reação divertida nas pessoas dentro da tenda.
— Vamos sentir sua falta, chefe — disse o sargento Levy, emocionado, no canto.
Ela conseguia ver apenas parte do seu rosto atrás das pernas suspensas, ainda engessadas.
— Vocês vão sentir falta dos banhos na cama, isso sim — sugeriu um dos seus companheiros.
Mais risadas.
Ela percorreu os leitos enfileirados, verificando a temperatura dos que estavam com suspeita de dengue, erguendo os curativos para examinar lesões tropicais que se recusavam a cicatrizar.
Aquele grupo não parecia muito mal. No início do ano, quando os prisioneiros de guerra indianos chegaram, até ela tivera pesadelos durante semanas. Não conseguia esquecer os ossos quebrados, os graves ferimentos de baioneta, os estômagos famintos, dilatados. Reduzidos a uma condição quase desumana, vários Sikhs tinham agredido as enfermeiras enquanto elas tentavam curá-los. Ao longo dos anos, eles haviam se acostumado com a brutalidade e, no estado de fraqueza em que estavam, eram incapazes de imaginar um tratamento diferente.
As enfermeiras tinham chorado depois, em suas tendas, principalmente pelo destino dos homens que os japoneses haviam superalimentado de propósito ao deixarem os campos de refugiados, e que haviam sofrido mortes dolorosas depois de sentirem o primeiro gosto da liberdade.
Alguns dos Sikhs sequer podiam ser considerados homens: pesavam tão pouco que, mudos ou delirantes, bastava uma única enfermeira para carregá-los nos braços. Durante semanas, elas os haviam alimentado como bebês recém-nascidos: a cada duas horas davam porções de leite em pó, seguidas de purê de batata em colheradas de chá, coelho picado e arroz cozido, na tentativa de fazer seus sistemas digestivos voltarem a funcionar. Elas tinham enfaixado cabeças esqueléticas, limpado migalhas de comida de lábios rachados, convencendo pouco a pouco os homens, com sussurros e sorrisos, de que aquilo não indicava que algum ato de violência estava por vir. Gradualmente, apesar dos olhos fundos e tristes por causa de tudo o que tinham visto, eles começaram a entender aonde haviam chegado.
As enfermeiras haviam ficado tão comovidas com aquele sofrimento, com a demonstração silenciosa de gratidão e com o fato de muitos não receberem notícias de casa havia anos que, algumas semanas mais tarde, pediram para um dos intérpretes ajudá-las a preparar um prato com curry para os que tivessem condições de digerir. Nada muito elaborado, apenas um pouco de carne de carneiro e condimentos, além de pedaços de pão indiano para acompanhar o arroz cozido. Serviram a refeição em bandejas decoradas com flores. Para elas, parecia importante convencer aqueles homens de que ainda havia um pouco de beleza no mundo. No entanto, quando as enfermeiras entraram no pavilhão e colocaram orgulhosamente as bandejas na frente dos ex-prisioneiros de guerra, muitos deles se debulharam em lágrimas, menos capazes de suportar tamanha gentileza do que os trabalhos pesados e os golpes.
— Toma um drinque com a gente, chefe?
O comandante ergueu a garrafa, convidando-a. A música terminou, e no fundo da tenda ouviu-se um palavrão quando alguém deixou o disco seguinte escapulir das mãos e cair no chão. Por um instante, ela ficou observando o comandante, que não devia estar bebendo devido à medicação que tomava.
— Tomo, sim, comandante Baillie — respondeu ela. — Um drinque pelos homens que não voltarão para casa.
O semblante das mulheres relaxou.
— Aos amigos ausentes — murmuraram as jovens, com os copos erguidos.
— Quem dera se os americanos ainda estivessem aqui — comentou a enfermeira Fisher, enxugando a testa. — Sinto falta daqueles baldes de gelo picado.
Apenas alguns pacientes britânicos continuavam lá.
Houve um murmúrio coletivo de concordância.
— Só quero ir para o mar — afirmou o soldado Lerwick no canto. — Fico sonhando com a brisa.
— Xícaras de chá sem água clorada.
— Cerveja inglesa gelada.
— Nem fale disso, companheiro.
Em geral, um calor como aquele teria deixado todo mundo completamente apático, os doentes ficariam cochilando na cama, as enfermeiras circulariam devagar entre eles, secando os rostos úmidos com toalhas frias, verificando se havia feridas, infecções, disenteria. Contudo, a partida iminente dos prisioneiros de guerra, o fato de estarem se restabelecendo, de que simplesmente continuavam ali, havia modificado o ambiente. Talvez fosse a súbita percepção de que unidades que tinham permanecido juntas por muito tempo, grupos que haviam criado elos estreitos ajudando uns aos outros a enfrentar o horror dos últimos anos, estavam prestes a se dispersar, a ficarem separados por quilômetros, em alguns casos por continentes, e talvez nunca mais se reencontrassem.
Diante daquelas pessoas, Audrey Marshall sentiu um nó na garganta. Era uma sensação tão rara que, por um instante, ela mesma ficou perplexa. De repente, compreendeu a necessidade que as jovens tinham de se divertir, a determinação dos homens de beber, dançar e passar aquelas últimas horas juntos, partilhando alegria, ainda que um pouco forçada.
— Quer saber de uma coisa? — começou ela, apontando para o tubo de soro com as bebidas, no canto, onde um dos fisioterapeutas tomava cerveja com a ajuda de sua mão artificial. — Sirva uma dose dupla para mim.
Não muito tempo depois, eles começaram a cantar Shenandoah. As vozes agudas e lubrificadas pela bebida atravessaram a lona e seguiram para o céu noturno.
Foi na metade do refrão que a jovem entrou. De início, Audrey não a viu: talvez o uísque tivesse entorpecido seu senso de observação, que em geral garantia que ela não perdesse um único detalhe. Mas enquanto soltava a voz para acompanhar a canção e admirava os homens que se recuperavam cantando em seus leitos, e as enfermeiras emocionadas, abraçadas umas às outras e com os olhos cheios d’água, ela notou uma súbita frieza no ar, e olhares de soslaio que indicavam que alguma coisa mudara.
Ela estava parada na porta, e seu rosto sardento e pálido como porcelana não demonstrava qualquer emoção. Seus ombros magros se sobressaíam sob o uniforme enquanto ela observava o interior da tenda. Carregava uma mala pequena e uma mochila. Não era muita coisa depois de seis anos no Hospital Geral da Austrália. Ela ficou olhando o interior da tenda lotada como se não tivesse certeza se deveria entrar, como se de repente pudesse mudar de ideia.
Então percebeu que Audrey Marshall olhava para ela e se aproximou devagar, parando o mais perto possível da lateral da tenda.
— Já arrumou suas coisas?
Ela hesitou antes de responder:
— Vou embarcar no navio de assistência hospitalar esta noite, chefe, se você estiver de acordo. Poderei ajudar um pouco, com tantos homens doentes.
— Não me pediram nada — respondeu Audrey, tentando não demonstrar tristeza.
A menina olhou para o chão.
— Eu… eu me ofereci. Espero que não se importe. Achei que poderia ser mais útil… que provavelmente você não precisasse mais de mim aqui.
Era difícil escutá-la por causa da música.
— Não quer ficar e tomar um último drinque com a gente?
Assim que fez o convite, Audrey se deu conta de que não sabia por que dissera aquilo. Durante os quatro anos em que haviam trabalhado juntas, a enfermeira Mackenzie nunca demonstrara interesse por festas. Agora ela provavelmente entendia o motivo.
— É muita gentileza sua, mas, não, obrigada.
Ela já olhava para a porta, como se calculasse quanto tempo levaria para ir embora.
Audrey pensou em insistir: não queria deixá-la ir embora daquele jeito, não queria que seus anos de serviço acabassem daquele modo. Entretanto, enquanto tentava encontrar as palavras certas, percebeu que grande parte das garotas havia parado de dançar. Várias estavam reunidas em grupos, com olhares frios e avaliadores.
— Eu gostaria de dizer… — começou ela, mas um dos homens a interrompeu.
— É a enfermeira Mackenzie? Está escondendo ela aí, chefe? Vamos, colega, não pode ir embora sem uma despedida adequada.
O soldado Lerwick tentava sair da cama. Já colocara os pés no chão e começava a se erguer apoiando uma das mãos na cabeceira de ferro.
— Não vá, enfermeira. Você me fez uma promessa, lembra?
Audrey reparou no sorriso pretensioso que a enfermeira Fisher e as duas garotas ao seu lado trocaram. Olhou para a enfermeira Mackenzie e entendeu que ela também percebera. As mãos da enfermeira Mackenzie seguravam com força suas duas malas. Ela enrijeceu o corpo e disse, baixinho:
— Não posso ficar, soldado. Preciso embarcar no navio de assistência hospitalar.
— Ah, então não vai tomar um drinque com a gente? Um último drinque?
— A enfermeira Mackenzie tem trabalho a fazer, sargento O’Brien — explicou a chefe com firmeza.
— Ah, que pena. Mas pelo menos me dê um aperto de mão.
A jovem deu um passo à frente e cumprimentou os homens que estenderam a mão. A música recomeçara, o que desviou um pouco a atenção que todos prestavam nela. Enquanto ela se despedia, Audrey Marshall reparou nos olhos semicerrados das outras enfermeiras e nos vários homens que deliberadamente lhe viravam as costas. Então andou atrás dela, para garantir que não a segurariam por muito tempo em cada leito.
— Você significou muito para mim, enfermeira.
O sargento O’Brien pegou a mão pálida da jovem entre as suas, com a voz chorosa por causa da bebida.
— Não fiz nada que outra enfermeira não teria feito — respondeu, bruscamente.
— Enfermeira! Enfermeira, venha cá.
O soldado Lerwick estava acenando. Audrey percebeu que ela o tinha visto e depois contou o número de pessoas pelas quais seria necessário passar para chegar até ele.
— Venha, enfermeira Mackenzie. Você me fez uma promessa, está lembrada?
— Na verdade, acho que não…
— Você não quebraria a promessa feita a um homem ferido, não é mesmo?
O rosto abatido do soldado Lerwick tinha uma aparência particularmente cômica. Os homens ao seu redor insistiram em coro:
— Vá, enfermeira, você prometeu.
Então um silêncio profundo tomou conta do local. Audrey Marshall reparou que as outras meninas deram um passo atrás para ver qual seria a reação da enfermeira Mackenzie.
Por fim, para não prolongar ainda mais o mal-estar das jovens, ela interveio:
— Soldado, faça o favor de voltar para sua cama.
Ela andou depressa até onde ele estava sentado.
— Com ou sem promessa, você não está em condições de sair da cama.
— Ah, chefe. Dê um tempo.
Ela estava erguendo a perna do soldado para ajudá-lo a se deitar de novo, quando alguém disse:
— Está tudo bem, chefe.
Ela se virou e viu a jovem parada logo atrás, com o rosto iluminado. Apenas o leve tremor de suas mãos pálidas revelava seu desconforto.
— Eu realmente prometi.
Audrey sentiu, mais do que viu, os olhares das outras mulheres e, apesar do calor, um calafrio percorreu seu corpo.
— Se tem certeza, enfermeira…
Ela era alta, por isso precisou se curvar enquanto ajudava o soldado a se sentar na cama e depois, com o braço sob suas axilas num movimento muitas vezes repetido, o ergueu para que ficasse de pé.
Por um instante, ninguém falou nada. Até que o sargento Levy gritou que queria mais música e alguém fez o gramofone voltar à ativa.
— Vá em frente, amigão — incentivou o homem atrás dela. — Só não pise nos pés dela.
— Eu já não sabia dançar antes — brincou ele, enquanto seguiam devagar para o espaço cheio de areia que servia de pista de dança. — E um quilo de estilhaços de granada nos joelhos não vai ajudar muito.
Começaram a dançar. Audrey ouviu-o dizer:
— Ah, senhorita, não imagina há quanto tempo espero por este momento.
Os homens que continuavam ali perto aplaudiram o casal espontaneamente. Audrey Marshall também aplaudiu, comovida ao ver aquele homem frágil se mantendo de pé, cheio de orgulho, feliz por ter alcançado sua modesta ambição: estar em uma pista de dança com uma mulher em seus braços. Ela observou a enfermeira Mackenzie, que enfrentava o próprio desconforto para agradar ao soldado, os braços magros prontos para apoiá-lo caso perdesse o equilíbrio. Uma moça gentil. Uma boa enfermeira.
Essa era a parte mais triste de ir embora.
A música parou. O soldado Lerwick afundou de volta na cama, agradecido, ainda sorrindo apesar da exaustão visível. Audrey se sentiu triste, pois sabia que aquele pequeno gesto de gentileza deporia contra a enfermeira Mackenzie.
Quando a jovem deu uma olhada em busca de sua bagagem, Audrey percebeu que ela também tinha noção disso.
— Acompanho você até a saída, enfermeira — disse, na tentativa de poupá-la de uma exposição maior.
O soldado Lerwick ainda segurava a mão da menina entre as suas.
— Sabemos o que todas vocês, enfermeiras, fizeram, vindo aqui inclusive nos seus dias de folga… Todas se comportaram como… como nossas irmãs. — Ele começou a chorar e, após uma breve hesitação, a enfermeira Mackenzie se curvou sobre ele, pedindo, com um sussurro, que se acalmasse. — É nisso que vou pensar quando me lembrar de você, enfermeira. Em nada mais. Só queria que o pobre Chalkie…
Audrey se posicionou rapidamente entre os dois.
— Tenho certeza de que todos nós somos muito gratos à enfermeira Mackenzie, não é mesmo? E também tenho certeza de que gostaríamos de desejar a ela um futuro brilhante.
Algumas enfermeiras aplaudiram educadamente. Dois homens trocaram um sorriso afetado.
— Obrigada — disse a enfermeira, em voz baixa. — Obrigada. Foi um grande prazer conhecer… todos… vocês.
Ela mordeu o lábio e olhou na direção da porta da tenda, parecendo desesperada para ir embora dali.
— Acompanho você até a saída, enfermeira.
— Cuide-se, enfermeira Mackenzie.
— Dê lembranças nossas aos companheiros que não vieram.
— Peça para minha esposa esquentar meu lado da cama.
Tudo isso foi acompanhado de risadas irreverentes.
Audrey, um pouco aliviada da estranha sensação de angústia que tomara conta dela, observava a cena com satisfação. Semanas antes, alguns daqueles homens não teriam sido capazes de dizer o nome da esposa.

* * *

As duas mulheres caminharam devagar até o navio. Apenas a fricção dos uniformes engomados e o ruído abafado dos sapatos na areia quebravam o silêncio, enquanto os sons da festa sumiam aos poucos. Elas seguiram ao longo da cerca que delimitava o perímetro do acampamento, passaram diante das tendas hospitalares enfileiradas que agora estavam desertas, dos alojamentos de funcionários com telhado de zinco, da cozinha e das privadas.
No portão, balançaram a cabeça, cumprimentando o sentinela, e ele respondeu com uma continência. Já fora do acampamento, percorreram a estrada deserta na direção da extremidade da península, e seus passos ecoaram no asfalto. Alcançaram, por fim, o local em que o navio de assistência hospitalar estava ancorado na água cintilante, iluminado pela lua.
Pararam ao chegar ao posto de controle. A enfermeira Mackenzie observou o navio com atenção e Audrey Marshall se perguntou o que estaria passando naquele momento pela cabeça da jovem. Ela suspeitava que sabia a resposta.
— A viagem até Sydney não é tão demorada, não é? — perguntou a enfermeira, quando o silêncio se tornou constrangedor.
— Não. Não é nem um pouco demorada.
Houve uma quantidade excessiva de perguntas inadequadas, uma quantidade excessiva de respostas banais. Audrey resistiu à vontade de passar o braço pelos ombros da enfermeira Mackenzie, desejando poder exprimir melhor um pouco do que sentia.
— Você está fazendo a coisa certa, Frances — disse ela, por fim. — Se eu fosse você, faria o mesmo.
Frances olhou para ela de frente, encarando-a nos olhos. Ela sempre fora reservada, pensou Audrey, mas nas últimas semanas seu semblante se fechara de vez, como se tivesse sido esculpido em mármore.
— Não ligue para os outros — acrescentou Audrey de repente. — Devem estar com inveja, só isso.
As duas sabiam que não era esse o caso.
— Começar do zero, certo? — sugeriu a jovem, estendendo a mão.
— Começar do zero.
A enfermeira Mackenzie apertou com firmeza a mão de Audrey, que estava fria, apesar do calor. O rosto, impassível.
— Obrigada.
— Cuide-se.
Audrey não era uma mulher muito sentimental ou emotiva. Quando a garota se virou para entrar no navio, ela assentiu, esfregou as mãos na calça e voltou para o acampamento.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!