30 de março de 2019

Capítulo 2

Meredith segurou firme o calibrador na válvula do pneu traseiro esquerdo, verificando a pressão. Estava boa.
A pressão nos quatro pneus estava normal. O anticongelante, o óleo e os fluidos de transmissão estavam completos, a bateria do carro era nova, e o macaco e o estepe estavam em perfeitas condições. Ela sabia muito bem. Os pais não eram do tipo que deixariam de ir ao trabalho para vê-la partir para a faculdade. Eles sabiam que ela não precisava de mimos, mas mostraram seu amor certificando-se de todos os preparativos, que ela estivesse segura e perfeitamente preparada para qualquer coisa que pudesse acontecer. É claro que eles também não diriam a ela que tinham verificado tudo; queriam que ela continuasse protegendo a si mesma.
Não havia nada que ela tivesse de fazer a não ser partir. E esta era a única coisa que Meredith não queria fazer.
— Venha comigo — disse ela sem levantar a cabeça, desprezando o fraco tremor que ouviu na própria voz. — Só por umas semanas.
— Sabe que não posso. — Alaric roçou a mão de leve em suas costas. — Se eu fosse com você, não ia querer ir embora. Assim é melhor. Você vai curtir as primeiras semanas de faculdade como todos os outros novos alunos, sem ninguém a prendendo. E, logo, vou visitá-la.
Meredith se virou e viu que ele a olhava. A boca de Alaric se retesou, a mais leve tensão, e ela entendeu que se separarem de novo depois de apenas algumas semanas juntos era tão difícil para ele quanto para ela. Meredith se curvou e o beijou com doçura.
— Melhor do que se eu fosse para Harvard — murmurou ela. — Muito mais perto.
Quando o verão terminou, ela e Matt tinham percebido que não podiam deixar os amigos e partir para faculdades em outros estados, como tinham planejado. Todos haviam passado por muita coisa juntos e queriam ficar juntos, protegendo uns aos outros, mais do que queriam ir a qualquer outro lugar.
O lar de todos quase foi destruído mais de uma vez, e só a chantagem de Elena sobre a Corte Celestial conseguiu restaurar a cidade e salvar suas famílias. Eles não podiam se separar. Não quando eram os únicos que se colocavam contra as trevas lá fora, a escuridão que sempre seria atraída ao Poder das mágicas linhas de força que cruzavam a área ao redor de Fell’s Church. A Dalcrest era perto o bastante para eles voltarem se houvesse ameaça de perigo novamente.
Eles precisavam proteger a cidade.
Então Stefan tinha ido aos escritórios de administração da Dalcrest e usado seu mojo de vampiro. De repente, Matt tinha a bolsa de futebol da Dalcrest, que ele rejeitara em favor da Kent State na primavera, e Meredith não só era esperada como caloura, como fora colocada em um quarto para três no melhor alojamento do campus, com Bonnie e Elena. O sobrenatural havia trabalhado a favor deles, para variar.
Ainda assim, ela teve de abrir mão de alguns sonhos para ficar ali. Harvard. Alaric a seu lado.
Meredith balançou a cabeça. Esses sonhos eram incompatíveis, de qualquer maneira. Alaric não podia ir para Harvard com ela. Ia ficar em Fell’s Church e pesquisar a origem de todas as coisas sobrenaturais que haviam marcado a história da cidade. Por sorte, a Duke deixou que ele considerasse isso parte de sua tese sobre o paranormal. E ao mesmo tempo ele poderia monitorar a cidade, procurando perigos. Eles teriam de se separar, aonde quer que Meredith escolhesse ir, mas pelo menos a Dalcrest ficava a uma curta distância de carro.
A pele de Alaric estava com um leve bronzeado, e um salpico de sardas cruzava as maçãs do rosto. Os dois estavam com as faces tão próximas que ela sentia o calor da respiração dele.
— No que está pensando? — A voz de Alaric era um murmúrio baixo.
— Em suas sardas. São lindas. — Ela respirou fundo e se afastou. — Eu te amo — disse, depois se apressou a sair antes que uma onda de desejo a dominasse. — Preciso ir.
Ela pegou uma das bolsas de viagem ao lado do carro e colocou na mala.
— Eu também te amo. — Alaric segurou a mão de Meredith com força por um momento, olhando em seus olhos. Depois a soltou e colocou a última bolsa na mala, batendo a porta.
Meredith o beijou, com rapidez e intensidade, e entrou rapidamente no carro. Sentada com o cinto afivelado e o motor ligado, ela se permitiu olhá-lo de novo.
— Tchau — disse ela pela janela aberta. — Te ligo hoje à noite. Toda noite.
Alaric assentiu. Seus olhos estavam tristes, mas ele sorriu e acenou se despedindo.
Meredith deu a ré com cuidado na entrada da casa. Suas mãos estavam em dez para as duas e ela mantinha os olhos na rua e a respiração firme. Sem nem mesmo olhar, ela sabia que Alaric estava na entrada, vendo o carro sumir de vista. Meredith apertou os lábios com firmeza. Ela era uma Sulez. Era uma caçadora de vampiros, uma aluna excepcional e inteiramente equilibrada em todas as situações.
Não precisava chorar; afinal, veria Alaric novamente. Em breve. Nesse meio-tempo, seria uma verdadeira Sulez: pronta para tudo.


A Dalcrest era linda, pensou Elena. Já tinha estado lá, é claro. Elena, Bonnie e Meredith foram de carro a uma festa da fraternidade no penúltimo ano do ensino médio, quando Meredith namorava um universitário. E ela se lembrava vagamente de os pais a levarem a um evento de ex-alunos quando era pequena.
Mas, agora que fazia parte do corpo discente, quando este seria seu lar pelos quatro anos seguintes, tudo parecia diferente.
— Muito elegante — comentou Damon enquanto o carro passava entre os portões dourados na entrada da escola e pelos prédios neoclássicos de tijolinhos e mármore imitando o estilo georgiano. — Isto é, para a América.
— Bem, nem todos podem crescer em palácios italianos — respondeu Elena distraidamente, muito consciente da leve pressão da coxa dele na dela.
Estava sentada no banco da frente da pick-up, entre Stefan e Damon, e não havia muito espaço. Ter os dois tão perto era uma distração aflitiva.
Damon revirou os olhos e resmungou para Stefan:
— Bem, já que vai bancar o humano e fazer faculdade de novo, maninho, pelo menos não escolheu um lugar horrendo demais. E é claro que a companhia compensará qualquer inconveniência — acrescentou, galanteador, com um olhar de lado para Elena. — Mas ainda acho que é uma perda de tempo.
— Mesmo assim, você está aqui — disse Elena.
— Eu estou aqui para manter vocês longe de problemas — retorquiu Damon.
— Por favor, desculpe o Damon — pediu Stefan, de bom humor, a Elena. — Ele não entende. Foi expulso da universidade nos velhos tempos.
Damon riu.
— Mas me diverti muito enquanto estive lá. Havia todo tipo de prazer para um homem de posses na universidade. Mas imagino que as coisas tenham mudado um pouco.
Eles estavam trocando farpas, Elena sabia, mas não havia aquele travo amargo e duro que costumava haver antes. Damon sorria para Stefan por cima da cabeça de Elena com um afeto irônico, e os dedos de Stefan estavam soltos e relaxados no volante.
Ela pôs a mão no joelho de Stefan e apertou. Damon se retesou ao seu lado, mas, quando ela o olhou, ele observava pelo para-brisa com uma expressão neutra. Elena recolheu a mão. A última coisa que queria era perturbar o delicado equilíbrio entre os três.
— Chegamos. — Stefan parou junto a um prédio coberto de hera. — A Pruitt House.
O alojamento assomava diante deles, um prédio alto de tijolinhos com um torreão de um lado e janelas reluzentes ao sol da tarde.
— Dizem que é o alojamento mais bonito do campus — comentou Elena.
Damon abriu a porta, saltou e se virou para olhar longamente para Stefan.
— O melhor alojamento do campus, é? Andou usando seus poderes de persuasão para obter recompensas pessoais, jovem Stefan? — Ele meneou a cabeça. — Sua moral está se desintegrando.
Stefan saiu do carro e se virou para estender a mão de forma cortês a Elena.
— É possível que você finalmente esteja me influenciando — disse ele a Damon, com os lábios se torcendo levemente de diversão. — Vou ficar no torreão, num quarto de solteiro. Tem sacada.
— Que bom para você — comentou Damon, com os olhos movendo-se rapidamente entre eles. — Este é um alojamento misto, então? Os pecados do mundo moderno...
Sua expressão ficou pensativa por um instante; depois ele abriu um sorriso luminoso e começou a tirar a bagagem da traseira.
Ele parecera quase solitário a Elena naquele segundo — o que era ridículo, Damon nunca era solitário —, mas essa impressão fugaz foi suficiente para que ela dissesse, impetuosamente:
— Podia ter vindo para a faculdade conosco, Damon. Não é tarde demais, se usar seu Poder para se matricular. Pode morar no campus também.
Ela sentiu Stefan paralisar. Depois ele respirou lentamente e se colocou ao lado de Damon, estendendo a mão para a pilha de caixas.
— Podia mesmo — disse ele, despreocupado. — Tentar estudar de novo pode ser mais divertido do que você pensa, Damon.
Ele balançou a cabeça com escárnio.
— Não, obrigado. Desliguei-me da academia há muitos séculos. Serei mais feliz em meu novo apartamento na cidade, onde posso ficar de olho em vocês sem ter de me misturar com os outros alunos.
Ele e Stefan sorriram um para o outro com o que parecia uma compreensão perfeita.
Muito bem, pensou Elena com um misto curioso de alívio e decepção. Ela ainda não vira o apartamento novo, mas Stefan lhe garantira que Damon moraria, como sempre, no luxo, pelo menos o máximo que a cidade mais próxima podia oferecer.
— Vamos, meninos — disse Damon, pegando várias malas sem esforço algum e indo em direção ao alojamento. Stefan ergueu a torre de caixas e o seguiu.
Elena pegou uma caixa e foi atrás deles, admirando a graça natural, a força elegante dos dois. Ao passarem por algumas portas abertas, ela ouviu uma garota uivar como um lobo, de brincadeira, e dar uma gargalhada com a colega de quarto.
Uma caixa virou da enorme pilha de Stefan enquanto ele começava a subir a escada, e Damon a pegou tranquilamente, apesar das malas. Stefan assentiu casualmente, agradecendo.
Eles passaram séculos como inimigos. Eles se mataram, uma vez. Centenas de anos de ódio mútuo, ligados pela infelicidade, pelo ciúme e pela tristeza. Katherine fez isso com os irmãos, tentando ter os dois quando cada um deles queria ser exclusivo.
Tudo agora era diferente. Eles tinham melhorado muito. Desde que Damon morreu e voltou, desde que batalharam e derrotaram o espectro do ciúme, eles se tornaram parceiros. Havia um reconhecimento tácito de que trabalhariam juntos para proteger o pequeno grupo de humanos. Mais que isso, havia um afeto, cauteloso mas verdadeiro, entre os dois. Eles dependiam um do outro; lamentariam perder um ao outro de novo. Não falavam nisso, mas Elena sabia que era verdade.
Ela fechou os olhos por um segundo. Sabia que os dois a amavam. Os dois sabiam que ela os amava. Mas, sua mente a corrigiu com certo escrúpulo, Stefan é meu verdadeiro amor. Algo mais nela, porém, aquela pantera imaginária, se alongou e sorriu. Mas Damon, meu Damon...
Ela balançou a cabeça. Não podia separá-los, não podia deixar que brigassem por sua causa. Não faria o que Katherine tinha feito. Se um dia tivesse de escolher, escolheria Stefan. É claro.
É mesmo?, a pantera ronronou tranquilamente, e Elena tentou afastar o pensamento.
Tudo podia se desintegrar com muita facilidade. E cabia a ela cuidar para que isso nunca mais acontecesse.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!