30 de março de 2019

Capítulo 29

 Devem estar orgulhosos. — Os aspirantes da Vitale Society estavam enfileirados na sala de reuniões do porão, como no primeiro dia, quando retiraram as vendas. Sob a arcada na frente deles, os Vitale de máscara preta observavam-os em silêncio.
Ethan andava entre os aspirantes, e seus olhos brilhavam.
— Vocês devem estar orgulhosos — repetiu. — A Vitale Society lhes ofereceu uma oportunidade. A chance de se tornarem um de nós, de se unirem a uma organização que pode lhes dar muito poder, ajudá-los na estrada para o sucesso.
Ethan parou e olhou para eles com determinação.
— Nem todos foram dignos — disse ele com seriedade. — Nós os observamos, como sabem. Não só quando estão aqui ou cumprindo os eventos do processo, mas o tempo todo. Os candidatos que não conseguiram, que não merecem ser parte deste grupo, foram eliminados.
Matt olhou em volta. Era verdade, havia menos deles agora do que na primeira reunião. O barbudo alto do último ano que era uma espécie de mago da biogenética se fora. Uma loura magricela que Matt se lembrava de se esforçar teimosamente na corrida também não estava ali. Só restavam dez aspirantes.
— Aqueles que continuam? — Ethan ergueu as mãos como se lhes desse uma bênção. — Enfim é hora de serem iniciados, de tornarem-se membros plenos da Vitale Society, aprenderem nossos segredos e trilharem nosso caminho.
Matt sentiu uma pequena onda de orgulho enquanto Ethan sorria para todos. Parecia que os olhos de Ethan se demoraram mais em Matt do que nos outros, assim como parecia que o sorriso para Matt era um pouco mais caloroso. Como se, em meio a todos aqueles aspirantes excepcionais, Matt fosse especial.
Ethan começou a andar pelo grupo e voltou a falar, desta vez dos preparativos que precisavam ser feitos para a iniciação. Pediu a dois aspirantes para trazerem rosas e lírios para decorar a sala — parecia esperar que esvaziassem algumas floriculturas — e a outros que achassem velas. Uma pessoa teve a tarefa de comprar determinado vinho. Francamente, isso lembrou a Matt de Elena e das outras meninas planejando um baile do ensino médio.
— Muito bem. — Ethan dirigiu-se a Chloe e a uma menina de cabelo comprido chamada Anna. — Gostaria que as duas fossem a um herbanário e comprassem erva-mate, guaraná, pilriteiro, ginseng, camomila e sálvia. Querem anotar?
Matt se empertigou um pouco. As ervas eram um pouco mais místicas e misteriosas, adequadas a uma sociedade secreta, embora ginseng e camomila o lembrassem do chá que a mãe bebia quando ficava resfriada.
Ethan desviou-se das meninas, de olhos fixos em Matt, que se preparou para ser enviado em busca de ponche ou molho ranch.
Mas Ethan, encarando Matt, inclinou um pouco a cabeça, indicando que Matt deveria se juntar a ele um pouco afastado do resto do grupo. Matt apressou-se a encontrar Ethan, ligeiramente intrigado. O que Ethan não podia dizer na frente dos outros?
— Tenho um trabalho especial para você, Matt — disse Ethan, esfregando as mãos num prazer evidente com a perspectiva. — Quero que convide seu amigo Stefan Salvatore para se juntar a nós.
— Como? — Matt ficou confuso.
— Para ser membro da Vitale Society — explicou Ethan. — Deixamos ele passar quando selecionamos candidatos no início do ano, mas agora que o conheci, acho... nós achamos — e gesticulou para as figuras mascaradas e silenciosas do outro lado da sala — que ele seria um membro ideal para nós.
Matt franziu o cenho. Não queria parecer um idiota na frente de Ethan, mas algo lhe parecia despropositado.
— Mas ele não passou pelo processo dos aspirantes. Não é tarde demais para entrar este ano?
Ethan sorriu ligeiramente, apenas um leve curvar dos lábios.
— Creio que podemos abrir uma exceção para Stefan.
— Mas... — Matt ia protestar, depois decidiu sorrir para Ethan. — Vou ligar para ele e ver se está interessado — prometeu.
Ethan lhe deu um leve tapinha nas costas.
— Obrigado, Matt. Você é um Vitale nato, sabia? Tenho certeza de que pode convencê-lo.
Enquanto Ethan se afastava, Matt o observou, perguntando-se por que o elogio desta vez pareceu acre.
Era porque não fazia sentido, decidiu Matt, voltando ao alojamento depois da reunião. O que havia de tão especial em Stefan que Ethan decidira tê-lo na Vitale Society agora em vez de esperar até o próximo ano? Tudo bem: vampiro — isto era especial em Stefan, mas ninguém sabia. E ele era bonito e sofisticado daquele jeito europeu que fazia com que todas as meninas da escola se jogassem aos seus pés, mas não era tão bonito, e havia muitos alunos estrangeiros no campus.
Matt parou de repente. Ele estava com ciúme? Não era justo, talvez, que Stefan simplesmente entrasse direto e recebesse a oferta de algo que Matt se esforçou para conseguir, que Matt pensava que era só dele.
Mas e daí? Não era culpa de Stefan que Ethan quisesse lhe dar um tratamento especial. Stefan estava arrasado com o término do namoro com Elena; talvez fizesse bem a ele se juntar à Vitale. E seria divertido ter um dos amigos na sociedade. Stefan merecia, na verdade; era corajoso e nobre, um líder, mesmo que de maneira nenhuma Ethan e os outros pudessem saber disso.
Expulsando firmemente qualquer não é justo ranheta que lhe restava, Matt sacou o celular e telefonou para Stefan.
— E aí? Escute, lembra daquele cara, o Ethan?

* * *

— Acho que não estou entendendo — disse Zander. Seu braço no ombro de Bonnie era forte e solidamente tranquilizador, e a camiseta onde ela enterrara a cara cheirava a algodão limpo e amaciante. — Por que você brigou com suas amigas?
— A questão é que elas não confiam no meu discernimento — respondeu Bonnie, enxugando os olhos. — Se fosse uma das duas, elas não chegariam a conclusões tão precipitadas.
— Conclusões sobre o quê? — perguntou Zander, mas Bonnie não respondeu. Depois de um instante, Zander passou um dedo gentilmente pelo queixo de Bonnie e sobre seus lábios, com os olhos concentrados em seu rosto. — É claro que pode ficar aqui pelo tempo que quiser, Bonnie. Estou a seu dispor — disse ele num tom estranhamente formal.
Bonnie olhou com interesse o quarto de Zander. Nunca tinha estado ali; na realidade, teve de ligar para ele a fim de descobrir em que alojamento ele morava — não era estranho uma namorada não saber? Mas, se ela tentasse imaginar como seria o quarto dele, teria suposto que era bagunçado e muito masculino; caixas de pizza velhas no chão, roupa suja, cheiros estranhos. Talvez um pôster de uma mulher seminua. Mas a verdade é que era o contrário. Tudo parecia muito minimalista e arrumado: nada em cima da cômoda e da mesa, sem fotos nas paredes nem tapete no chão. A cama estava bem arrumada.
A cama de solteiro. Em que eles estavam sentados. Ela e o namorado.
Bonnie sentiu um rubor subir ao rosto. Em silêncio, xingou seu hábito de corar — tinha certeza de que até as orelhas ficavam vermelhas. Ela simplesmente perguntou ao namorado se podia se mudar para o quarto dele. É claro que ele era lindo e adorável, e que beijá-lo provavelmente era a experiência mais incrível que ela teve na vida, mas ela começara a beijar Zander só na noite passada. E se ele achasse que ela estava sugerindo mais alguma coisa?
Zander a olhava pensativamente enquanto Bonnie ruborizava.
— Sabe — disse ele —, eu posso dormir no chão. Não estou... humm... esperando que... — Zander se interrompeu, e agora era ele quem corava.
A visão dele atrapalhado fez Bonnie se sentir melhor de imediato. Ela acariciou o braço dele.
— Eu sei. Eu disse a Meredith e Elena que você era um cara legal.
Zander franziu o cenho.
— Como é? Elas acham que não sou? — Como Bonnie não respondeu, ele aos poucos a soltou, recostando-se para ver bem seu rosto. — Bonnie? Quando teve essa briga feia com suas amigas, vocês brigaram por minha causa?
Bonnie deu de ombros, abraçando-se. Ele continuou:
— Tudo bem. Uau. — Zander passou a mão pelo cabelo. — Desculpe. Sei que Elena e eu não nos entendemos de cara, mas tenho certeza de que vamos nos dar melhor quando nos conhecermos. Tudo isso vai passar. Não vale a pena deixar de ser amiga delas por isso.
— Não é... — Lágrimas brotaram dos olhos de Bonnie. Zander estava sendo um fofo e ele não tinha ideia de como Elena e Meredith haviam o interpretado mal. — Não posso te contar — disse ela.
— Bonnie? — Zander a puxou para mais perto. — Não chore. Não pode ser assim tão ruim. — Bonnie desatou a chorar mais, as lágrimas escorrendo pelo rosto, e ele a abraçou forte. — Conte-me — pediu ele.
— Não é que elas não gostem de você, Zander — disse ela entre os soluços. — Elas acham que você pode ser o assassino.
— O quê? Por quê? — Zander se retraiu, quase pulando da cama para longe dela, o rosto branco e chocado.
Bonnie explicou o que Meredith pensou ter visto, sua impressão do cabelo de Zander por baixo do capuz do agressor que ela perseguiu.
— O que é muito injusto — concluiu ela —, porque, mesmo que ela tivesse visto o que pensa que viu, você não é a única pessoa que tem o cabelo bem louro no campus. Elas estão sendo ridículas.
Zander respirou fundo, com os olhos arregalados, e se sentou imóvel e silencioso por alguns segundos. Depois estendeu a mão e a colocou gentilmente sob o queixo de Bonnie, virando seu rosto para que eles se olhassem bem nos olhos.
— Eu nunca machucaria você, Bonnie — disse ele devagar. — Você me conhece, você me vê. Acha que sou um assassino?
— Não — respondeu Bonnie, com os olhos cheios de lágrimas. — Não acho. Nunca achei.
Zander se curvou e a beijou, os lábios macios nos dela, como se eles estivessem selando um pacto. Bonnie fechou os olhos e se entregou no beijo.
Ela estava apaixonada por Zander, sabia disso. E, apesar de ele ter fugido tão de repente na noite anterior pouco antes da morte de Samantha, Bonnie tinha certeza de que ele nunca poderia ser um assassino.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!