18 de março de 2019

Capítulo 29


Não vou morrer, de novo não, Elena pensou furiosamente enquanto se contorcia de dor, as garras invisíveis se apertando ainda mais nela. Bonnie caiu na grama, ainda mais pálida do que antes, agarrando o estômago em uma imagem refletida de Elena.
Não pode me pegar!
E então, tão repentinamente como tinha começado, o ronco ensurdecedor cessou e a dor esmagadora parou. Elena desabou no chão, o ar voltando num silvo aos pulmões. Terminou de moer ossos para fazer pão, pensou Elena com certa histeria, e quase riu.
Bonnie arquejou, soltando um pequeno soluço.
— O que foi isso? — Perguntou Elena.
Bonnie balançou a cabeça.
— Parecia que alguma coisa estava sendo arrancada de dentro de nós — respondeu ela, ofegante. — Já senti isso antes, pouco antes de você aparecer. A sensação de ser arrastado.
Elena fez uma careta, a mente girando.
— Acho que é o espectro. Damon disse que ele quer esgotar nosso Poder. Deve ser assim que ele faz.
Bonnie a encarava com os lábios levemente separados, então sua língua cor-de-rosa disparou para fora e os lambeu.
— Damon disse? — Ela franziu o cenho ansiosa. — Damon está morto, Elena.
— Não, ele está vivo. A esfera estelar o trouxe de volta depois que já tínhamos saído da Lua Negra. Eu descobri depois que o espectro pegou você.
Bonnie soltou um ruído, uma espécie de eep! Que lembrou Elena de um coelho, de algo macio, pequeno e surpreso. Todo o sangue sumiu de seu rosto, deixando suas sardas geralmente fracas, nítidas sobre o branco das bochechas. Ela cobriu a boca com as mãos trêmulas, olhando para ela com imensos olhos escuros.
— Escute, Bonnie — Elena disse séria. — Ninguém mais sabe disso ainda. Ninguém além de mim e você, Bonnie. Damon queria guardar segredo até descobrir a melhor maneira de voltar. Então precisamos ficar de boca fechada sobre isso.
Bonnie assentiu, ainda boquiaberta. A cor voltava a seu rosto, e ela parecia estar entre a alegria e a completa confusão. Olhando por sobre o ombro da amiga, Elena percebeu que havia algo na relva aos pé de uma roseira, atrás de Bonnie, algo imóvel e branco. Um arrepio a tomou quando ela se lembrou do corpo de Caleb, junto ao monumento de mármore no cemitério.
— O que é aquilo? — perguntou incisivamente. A expressão de Bonnie denotou confusão.
Elena passou por ela e andou até lá, apertando os olhos ao sol. Quando chegou bem perto, viu com espanto que era Matt, imóvel e em silêncio sob a roseira. Um borrifo de pétalas pretas se espalhava por seu peito. Ao chegar perto dele, os olhos de Matt se mexeram, ela percebeu que as pálpebras se moviam rapidamente de um lado para o outro, como se estivesse num sonho intenso, e então se abriram enquanto ele tomava uma golfada longa e ruidosa de ar. Os olhos azul claro encontraram os dela.
— Elena — ele ofegou. Matt se apoiou nos cotovelos e olhou para além dela. — Bonnie! Graças a Deus! Você estão bem? Onde estamos?
— O espectro nos pegou, nos trouxe para o mundo subterrâneo e está nos usando para ficar mais poderoso — respondeu Elena sucintamente. — Como está se sentindo?
— Meio assustado — Matt brincou numa voz fraca. Ele olhou em volta depois lambeu os lábios nervoso. — Humm... então, o mundo subterrâneo é assim? É melhor do que eu imaginava pelas descrições de vocês. O céu não deveria ser vermelho? E onde estão todos os vampiros e demônios? — Ele olhou zangado para Elena e Bonnie. — Vocês disseram a verdade sobre tudo o que aconteceu aqui? Por que este lugar parece bem legal para uma Dimensão do Inferno, com essas rosas e tudo.
Elena o fitou.
— É possível que coisas estranhas demais tenham acontecido conosco.
Então ela percebeu um indício de pânico no rosto de Matt. Ele não estava inteiramente indiferente ao que acontecia, só estava sendo corajoso, brincando para manter todos bem nesse mais novo perigo.
— Bem, a gente queria te impressionar — brincou ela também com um sorriso trêmulo, depois passou rapidamente ao que interessava.  — O que estava acontecendo quando você estava em casa? — perguntou ela.
— Hum — disse Matt — Meredith e Stefan estavam interrogando Caleb sobre a invocação do espectro.
— Caleb não é responsável pelo espectro — Elena disse com firmeza. — O espectro nos seguiu até em casa quando estivemos aqui antes. Temos que ir para casa agora mesmo, para dizer a eles que estão lidando com um dos originais, será muito mais difícil nos livrarmos dele do que de um comum.
Matt olhou para Bonnie interrogativo.
— Como ela sabe disso?
— Bem — disse Bonnie, com um brilhos nos olhos que sempre aparecia diante de fofocas, — ao que parece, Damon contou a ela. Ele está vivo e ela o viu!
Lá se foi o segredo de Damon, pensou Elena, revirando os olhos. No entanto, não importava realmente se Matt soubesse. Não era dele que Damon queria guardar segredo, e não era provável que ele pudesse contar a Stefan tão cedo.
Elena se desligou das exclamações de assombro de Matt e das explicações de Bonnie, enquanto examinava a área em volta. Sol. Roseiras. Roseiras. Sol. Grama. Céu azul claro. Tudo igual para todo lado. Para onde quer que olhasse, flores perfeitas, pretas e aveludadas acenavam serenamente sob o forte sol do meio-dia. Os arbustos eram idênticos, até no número e na posição das rosas em cada um e a distância entre eles. Até os talos de grama eram uniformes, todos paravam na mesma altura. O sol não se movera desde que ela havia chegado. Parecia que tudo devia ser lindo e relaxante, mas depois de alguns minutos aquela uniformidade se tornava irritante.
— Havia um portão — disse ela a Bonnie e Matt. — Quando olhamos este campo a partir do Portão dos Sete Tesouros. Havia um jeito de entrar aqui, então deve haver um jeito de sair para lá. Precisamos descobrir.
Eles tinham começado a se levantar, quando, sem aviso, a dor com um puxão agudo os atingiu novamente. Elena agarrou o estômago. Bonnie perdeu o equilíbrio e caiu sentada no chão, de olhos bem fechados. Matt soltou uma expressão sufocada e ofegou.
— O que é isso?
Elena esperou a dor desaparecer outra vez, antes de responder. Seus joelhos bambeavam. Ela estava tonta e nauseada.
— Outra razão para precisarmos sair daqui — disse ela. — O espectro está nos usando para aumentar seu poder. Acho que ele precisa de nós aqui para isso. E se não encontrarmos o Portão logo, talvez fiquemos fracos demais para voltar para casa. — Ela fitou outra vez a uniformidade quase vertiginosa ao redor. Cada roseira ficava no centro de um pequeno canteiro circular de argila negra e fértil. Entre estes círculos, a relva do campo era suave e aveludada, como o gramado de um solar inglês ou um campo de golfe realmente bom.
— Tudo bem — disse Elena, e respirou fundo para se acalmar. — Vamos nos espalhar e olhar com atenção. Ficaremos a uns três metros um do outro e vamos de uma extremidade à outra do jardim, procurando. Olhem tudo cuidadosamente, qualquer coisa que seja diferente do resto do campo pode ser a pista de que precisamos para encontrar a saída.
— Vamos procurar no campo todo? — Bonnie perguntou, parecendo desanimada. — É imenso.
— Vamos fazer um pouco de cada vez — explicou Elena encorajando-a.
Eles começaram numa linha aberta, olhando atentamente de um lado para o outro, acima e abaixo. No início, só havia o silêncio da concentração de sua busca. Nenhum sinal de Portão. Passo a passo pelo jardim, nada mudava. Intermináveis filas de roseiras idênticas se estendiam para todas as direções, a mais ou menos um metro uma da outra, com espaço suficiente entre elas para uma pessoa passar com facilidade.
O eterno sol do meio-dia batia desagradavelmente no alto de suas cabeças, e Elena limpou uma gota de suor da testa. O perfume das rosas pendia pesado no ar quente, no início Elena o achara agradável, mas agora era enjoativo, como um perfume doce demais.
Os perfeitos talos de grama vergavam sob seus pés, depois se erguiam normais, como se ela nunca os tivesse pisado.
— Eu queria que tivesse um ventinho — Bonnie reclamou. — Mas acho que o vento nunca sopra por aqui.
— Este campo deve terminar em algum lugar — disse Elena desesperadamente. — Não pode continuar para sempre. — No entanto, havia uma sensação estranha em seu estômago, que sugeria que talvez pudesse continuar para sempre. Aquele não era o mundo dela, afinal. As regras eram diferentes ali.
— E onde está Damon agora? — Bonnie perguntou de repente, ela não olhava para Elena, mantinha o passo constante, o mesmo olhar sistemático e atento, mas havia tensão em sua voz, e Elena interrompeu a busca para olhá-la rapidamente.
Então uma resposta possível para a pergunta de Bonnie ocorreu a Elena e ela estacou.
— É isso! — exclamou ela. — Bonnie, Matt, acho que Damon pode estar aqui. Ou não aqui, no jardim de rosas, mas em algum lugar no mundo subterrâneo, na Dimensão das Trevas.
Eles a olharam sem entender.
— Damon ia tentar vir aqui para procurar o espectro — explicou Elena. — Ele achou que o espectro nos seguiu daqui até em casa, quando voltamos ao nosso mundo, então é provavelmente aqui que ele começaria a procurar seu corpo físico. A última vez que o vi, ele me disse que achava que seria capaz de lutar melhor daqui, de onde ele vinha. Se ele estiver aqui, talvez possa nos ajudar a voltar para Fell’s Church. — Damon, por favor, esteja aqui em algum lugar. Por favor, nos ajude, implorou ela em silêncio.
Neste momento, algo chamou sua atenção. À frente deles, entre duas roseiras que pareciam exatamente iguais a todas as outras roseiras do jardim, havia a mais leve mudança, uma distorção mínima. Parecia a cintilação que o calor às vezes produz em uma estrada nos dias mais quentes de verão, quando os raios do sol se refletem no asfalto. Não havia asfalto ali para irradiar o calor do sol, mas algo devia estar causando aquele brilho trêmulo. A menos que ela estivesse imaginando. Será que seus olhos estavam lhe pregando uma peça, mostrando-lhe uma miragem entre as roseiras?
— Estão vendo aquilo? — perguntou ela aos outros. — Ali, um pouco à direita.
Eles pararam e olharam atentamente.
— Talvez ... — respondeu Bonnie, hesitante.
— Acho que sim — disse Matt. — Como ar quente subindo, certo?
— Isso mesmo — concordou Elena. Ela franziu a testa, calculando a distância. Talvez uns cinco metros. — Vamos ter que ir correndo — explicou, — para o caso de termos algum problema para passar, pode haver alguma barreira que tenhamos que romper para sair. Não acho que a hesitação vá nos ajudar.
— Vamos de mãos dadas — sugeriu Bonnie nervosa. Não quero me perder de vocês.
Elena não tirava os olhos daquele brilho no ar. Se o perdesse, talvez nunca o encontrasse de novo, não com a uniformidade de tudo que havia ali. Depois que eles se virassem, nunca mais conseguiriam distinguir aquele local de outros.
Os três deram as mãos, encarando a mesma pequena distorção que esperavam ser um Portão. Bonnie estava no meio e agarrou a mão esquerda de Elena com os dedos finos e quentes.
—Um, dois, três, e já! — Bonnie disse, e eles correram pisando na grama, costurando entre os arbustos. O espaço entre os arbustos não era suficiente para os três passarem correndo, e um galho espinhoso se prendeu no cabelo de Elena. Ela não podia soltar Bonnie e não podia parar, então forçou a cabeça para a frente apesar da dor e continuou correndo, deixando um tufo de cabelo pendurado em um arbusto atrás.
Então eles estavam na luz trêmula do ar entre os arbustos, de perto era ainda mais difícil de enxergar, e Elena teria duvidado de que estavam no local certo, não fosse pela mudança de temperatura. De longe, pode ter parecido um brilho de calor, mas era frio e estimulante como um lago montanhoso, apesar do sol quente no alto.
— Não parem! — Elena gritou e eles mergulharam no frio. Num instante, tudo ficou escuro, como se alguém tivesse desligado o sol. Elena se sentiu cair, e se agarrou desesperadamente à mão de Bonnie. Damon! Gritou ela em silêncio. Socorro!

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Boa leitura, E SEM SPOILER!