30 de março de 2019

Capítulo 28

 É claro que a Bonnie está chateada — disse Alaric. — Este é o primeiro namorado de verdade dela. Mas vocês três já passaram por muita coisa juntas. Ela vai voltar para vocês e vai lhes dar ouvidos quando tiver a oportunidade de esfriar a cabeça. — Sua voz estava grave e carinhosa, e Meredith fechou os olhos e segurou o telefone mais perto do ouvido, imaginando o apartamento de doutorando dele, o sofá marrom confortável e a estante de caixotes de leite. Ela jamais teve tanta vontade de estar lá.
— E se acontecer alguma coisa com ela? — indagou Meredith. — Não posso ficar esperando Bonnie deixar de ficar chateada comigo, se ela estiver em perigo.
Alaric fez um ruído de quem pensa ao telefone, e Meredith imaginou sua testa se vincando daquele jeito fofo que ele fazia quando analisava um problema de diferentes ângulos.
— Bem — comentou ele por fim —, Bonnie está passando muito tempo com Zander, não é? Não ficam muito tempo sozinhos? E até agora ela esteve bem. Acho que podemos concluir que, mesmo que Zander esteja por trás dos ataques no campus, ele não pretende ferir Bonnie.
— Acho que seu raciocínio aqui é um tanto falacioso — disse Meredith, ainda assim se sentindo estranhamente reconfortada com as palavras.
Alaric riu de surpresa.
— Você me pegou — disse ele. — Tenho a fama de ser lógico. — Meredith ouviu o rangido da cadeira de Alaric do outro lado da linha e imaginou-o recostando-se, com o telefone preso no ombro, as mãos atrás da cabeça. — Lamento muito por Samantha. — Sua voz estava mais séria.
Meredith se aninhou mais na cama, apertando o rosto no travesseiro.
— Ainda nem consigo falar nisto. — Ela fechou os olhos. — Só preciso descobrir quem a matou.
— Não sei se será útil, mas estive pesquisando um pouco sobre a história da Dalcrest.
— Tipo os fantasmas e mistérios estranhos do campus, de que o professor da Elena andou falando em aula?
— Bem, há mais coisas na história da universidade do que ele contou. — Meredith o ouviu mexer em papéis, provavelmente folheando um de seus cadernos de pesquisa. — A Dalcrest parece ser uma espécie de foco paranormal. Houve incidentes que parecem ataques de vampiros e lobisomens por toda sua história, e não é a primeira vez que há uma série de desaparecimentos misteriosos no campus.
— É mesmo? — Meredith se sentou. — Como a universidade pode continuar funcionando, se desaparece gente o tempo todo?
— Não é o tempo todo — respondeu Alaric. — A última grande onda de desaparecimentos aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial. Houve muita mobilidade da população na época e, embora os alunos desaparecidos tenham deixado amigos e familiares preocupados, a polícia supôs que os jovens que sumiram tinham fugido para se alistar e as meninas, se casado com soldados ou ido trabalhar em fábricas de munição. O fato de que os alunos nunca mais apareceram parece ter sido desconsiderado, e ninguém viu relação entre os casos.
— Que trabalho sensacional do departamento de polícia — disse Meredith com acidez.
— Também há muitos comportamentos estranhos no campus — continuou Alaric. — Irmandades nos anos 1970 praticando magia negra, esse tipo de coisa.
— Alguma dessas irmandades ainda existe? — perguntou Meredith.
— Nenhuma especificamente, mas é uma coisa a se ter em mente. Pode haver algo no campus que deixa as pessoas mais propensas a experimentar o sobrenatural.
— E o que é? — Meredith arriou na cama de novo. — Qual é a sua teoria, professor?
— Bem, não é a minha teoria, mas conheci alguém on-line que sugeriu que a Dalcrest pode ficar numa área com grande concentração de linhas de força, como Fell’s Church. Toda essa parte da Virgínia tem muito poder sobrenatural, algumas mais do que outras.
Meredith franziu o cenho. As linhas de força, as linhas de Poder que corriam sob a superfície da terra, brilhavam como faróis para o mundo sobrenatural.
— E algumas pessoas teorizam que as barreiras entre nosso mundo e as Dimensões das Trevas são mais tênues onde existem essas linhas de força — continuou Alaric.
Estremecendo, Meredith lembrou-se das criaturas que ela, Bonnie e Elena enfrentaram na Dimensão das Trevas. Se fossem capazes de atravessar, de ir à Dalcrest como os kitsune foram para Fell’s Church, todo mundo corria perigo.
— Mas ainda não temos provas disso — disse Alaric, tranquilizador, apressando-se a preencher o silêncio entre os dois. — Só o que sabemos é que a Dalcrest tem uma história de atividade sobrenatural. Nem mesmo temos certeza se é isso que estamos enfrentando agora.
Uma imagem dos olhos mortos e vagos de Samantha encheu a mente de Meredith. Havia uma mancha de sangue em sua bochecha abaixo do olho direito. A cena do crime era tão macabra, e Samantha tinha sido morta de um jeito tão horrível. Bem no fundo, Meredith acreditava que a teoria de Alaric devia estar correta: de maneira nenhuma Samantha havia sido morta por um ser humano.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!