30 de março de 2019

Capítulo 27

Quica
Quica
Quica
Lança
Pega
Quica
Quica
Lança
Pega
Stefan estava na linha de lance livre da quadra de basquete, driblando e arremessando mecanicamente a bola sozinho. Sentia-se vazio por dentro, um autômato fazendo cestas perfeitas.
Não gostava muito de basquete. Para ele, carecia do contato satisfatório do futebol americano e da precisão matemática da sinuca. Mas era alguma coisa para fazer. Ele ficou acordado a noite e a manhã todas, e não suportou o andar dos próprios pés pelo campus ou a visão das quatro paredes do quarto.
O que ia fazer agora? Não parecia ter sentido voltar às aulas sem Elena. Ele tentou bloquear as lembranças dos séculos vagando sozinho pelo mundo, sem ela, sem Damon, que precederam sua ida para Fell’s Church. Reprimia suas emoções ao máximo, obrigando-se ao entorpecimento, mas não conseguia deixar de se perguntar vagamente se séculos de solidão lhe estariam reservados de novo.
— Você tem um talento e tanto — disse uma sombra, saindo da arquibancada. —Devíamos tê-lo recrutado para o time de basquete também.
— Matt. — Stefan o cumprimentou fazendo outra cesta, depois jogando a bola para ele.
Matt mirou atentamente na cesta e arremessou, e a bola contornou o aro antes de passar por dentro.
Stefan esperou enquanto Matt corria para pegar a bola, depois se virou para ele.
— Estava me procurando? — perguntou, com o cuidado de não indagar se Elena o havia mandado.
Aparentando surpresa, Matt meneou a cabeça.
— Não. Gosto de jogar umas bolas quando preciso pensar. Sabe como é.
— O que está acontecendo? — perguntou Stefan.
Matt esfregou a nuca, sem graça.
— Tem uma garota de quem eu meio que gosto, e andei pensando nela por um tempo, querendo convidá-la para sair. E, hummm, por acaso ela já tem namorado.
— Ah. — Depois de alguns minutos, Stefan percebeu que devia responder com algo mais. — Lamento saber disso.
— É. — Matt suspirou. — Ela é mesmo especial. Eu pensei... sei lá, que seria legal ter algo parecido com o que você tem com Elena. Alguém para amar.
Stefan estremeceu. Parecia que Matt tinha torcido uma faca em suas entranhas. Ele jogou a bola para a cesta, desta vez sem mirar, e ela quicou de volta depois de bater na tabela. Matt pulou para pegar e se aproximou dele, estendendo a mão.
— Ei, ei, Stefan. Calma. O que foi?
— Elena e eu não estamos mais juntos — disse Stefan friamente, tentando ignorar a pontada de dor ao pronunciar as palavras. — Ela... Eu a vi beijando Damon.
Matt olhou para Stefan em silêncio pelo que pareceu um bom tempo, os olhos azul-claros firmes e compassivos. Stefan foi atingido pela forte lembrança de que Matt também tinha amado Elena e que eles haviam namorado antes de Stefan entrar na história.
— Olhe — disse Matt por fim. — Não é possível controlar Elena. Se há uma coisa que sei a respeito dela... e eu a conheço a vida toda. Ela sempre vai fazer o que quer, sem se importar com o que se coloca em seu caminho. Você não pode impedi-la. — Stefan começou a assentir, lágrimas quentes ardendo por trás de seus olhos. — Mas — acrescentou Matt — também sei que, no fim das contas, você é o escolhido dela. Elena nunca sentiu nada parecido por ninguém. E, sabe de uma coisa, estou começando a descobrir que existem outras garotas no mundo, mas não acho que você vai fazer isso. Não sei o que está havendo com Damon, mas Elena vai voltar para você. E você seria um idiota se não permitisse, porque ela é perfeita para você.
Stefan esfregou a ponte do nariz. Sentia-se quebradiço, como se tivesse ossos de vidro.
— Não sei, Matt — disse, cansado.
Matt sorriu com simpatia.
— Tudo bem, mas eu sei. — Ele jogou a bola para Stefan, que a pegou automaticamente. — Quer disputar um mano a mano?
Ele estava cansado e magoado, mas, ao driblar a bola, pensando que tinha de pegar mais leve para dar uma chance a Matt, Stefan sentiu um sinal de esperança. Talvez Matt tivesse razão.


— Vocês ficaram loucas? — gritou Bonnie. Ela sempre pensou que “enxergar vermelho” fosse só uma metáfora, mas estava com tanta raiva que realmente via o toque escarlate em tudo, como se todo o quarto tivesse sido mergulhado em água ensanguentada.
Meredith e Elena trocaram um olhar.
— Não estamos dizendo que tem alguma coisa errada com Zander — disse Meredith com gentileza. — Só queremos que você tenha cuidado.
— Cuidado? — Bonnie soltou uma risadinha amarga e cruel e passou por elas para pegar uma bolsa de viagem no armário. — Vocês só estão com ciúme — disse ela sem olhar para as duas. Abriu o zíper da bolsa e começou a jogar algumas roupas ali.
— Ciúme do quê, Bonnie? — perguntou Elena. — Eu não quero o Zander.
— Ciúme porque finalmente sou eu que tenho namorado — retorquiu Bonnie. Alaric ficou em Fell’s Church, e você terminou com os seus dois namorados. Não gosta de me ver feliz quando está infeliz.
Elena cerrou a boca, pontos brancos apareceram nas maçãs do rosto e ela virou a cara. Olhando para Bonnie com atenção, Meredith falou.
— Eu te disse o que vi, Bonnie; não é nada definido, mas acho que a pessoa que atacou aquela garota pode ter sido Zander. Pode me dizer onde ele estava depois que vocês saíram da festa ontem à noite?
Concentrada em enfiar os jeans preferidos no que já parecia uma bolsa superlotada, Bonnie não respondeu. Sentia um irritante rubor revelador subir pelo pescoço e cobrir o rosto. Tudo bem, já devia ter roupas suficientes. Ela podia pegar a escova de dentes e o hidratante no banheiro a caminho do corredor.
Meredith se aproximou dela, de mãos abertas e estendidas, tentando aplacá-la.
— Bonnie — disse ela com gentileza —, queremos que você seja feliz. De verdade. Mas também queremos que esteja segura e temos medo que Zander não seja tudo que você acha que ele é. Talvez deva ficar longe dele, só por um tempinho. Enquanto verificamos as coisas.
Bonnie fechou a bolsa, jogou a alça por sobre o ombro e foi para a porta, roçando em Meredith ao passar, sem olhar para ela. Pretendia simplesmente sair, mas, no último segundo, girou na porta para encará-las novamente, incapaz de reprimir o que pensava.
— O que me mata aqui — disse ela — é a hipocrisia de vocês duas. Não se lembram de quando o Sr. Tanner foi assassinado? Ou do mendigo que quase morreu debaixo da ponte Wickery? — Ela verdadeiramente tremia de fúria. — Todo mundo na cidade toda achou que Stefan era o responsável. Todas as provas apontavam para ele. Mas Meredith e eu não pensávamos assim, porque Elena nos disse que sabia que Stefan não faria isso, que ele não teria feito isso. E acreditamos em você, embora não tivesse nenhuma prova para nos dar. — Ela encarava Elena, que baixou os olhos para o chão. — Achei que vocês confiariam em mim da mesma maneira. — Ela olhou de uma para a outra. — O fato de vocês desconfiarem de Zander, embora eu esteja aqui, dizendo que ele nunca machucaria ninguém, deixa claro que vocês não me respeitam — disse com frieza. — Talvez nunca tenham me respeitado.
Ela saiu do quarto pisando duro, subindo mais a alça da bolsa de viagem no ombro.
— Bonnie — chamaram às suas costas, e ela se virou para olhar mais uma vez. Meredith e Elena vinham atrás dela, com uma frustração idêntica transparecendo no rosto.
— Vou para o quarto de Zander — disse Bonnie rispidamente. Isso mostraria a elas o que achava das suspeitas sobre ele.
Ela bateu a porta ao sair.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Para comentar, por favor utilize a opção Nome/URL e preencha seu nome/apelido/nick; o URL pode deixar em branco.

Boa leitura, E SEM SPOILER!