18 de março de 2019

Capítulo 27

A manhã seguinte também foi quente. O ar estava tão espesso e úmido que o simples fato de andar pela rua já era desagradável, como ser golpeado com um pano de prato quente e molhado. Até dentro do carro com o ar condicionado ligado, Elena sentia seu cabelo, normalmente liso, frisar com a umidade.
Stefan tinha aparecido em sua casa depois do café da manhã, desta vez com um lista de ervas mágicas e suprimentos mágicos que a Sra. Flowers queria que eles comprassem na cidade para fazer novos feitiços de proteção.
Ao seguirem no carro, Elena observava pela janela as casas brancas e limpas e os gramado verdes e aparados da área residencial de Fell’s Church, que aos poucos dava lugar aos prédios de tijolos e vitrines de bom gosto do bairro comercial do centro da cidade.
Stefan estacionou na rua principal, na frente de uma pequena cafeteria bonitinha onde eles beberam um cappuccino juntos no último outono, pouco depois de ela descobrir o que ele era. Sentado em uma das mesinhas, Stefan lhe contou como fazer um cappuccino italiano tradicional, e isso o levou à reminiscências dos grandes banquetes de sua juventude durante o Renascimento: sopas aromáticas polvilhadas com sementes de romã, assados suculentos regados com água de rosas, tortas com flores de sabugueiro e castanhas. Prato após prato de comidas temperadas macias e suculentas que um italiano moderno nunca reconheceria como parte da culinária de sua cozinha natal.
Elena se assustou quando percebeu como o mundo ficou diferente desde a última vez que Stefan tinha ingerido comida humana. Ele falou de passagem que os garfos haviam acabado de entrar na moda quando ele era jovem, e que o pai os ridicularizava considerando-os uma mania passageira dos ricos. Até Katherine levar uma influência mais moderna e refinada à casa, eles comiam apenas com colheres e facas afiadas para cortar.
— Era elegante, no entanto — dissera ele, rindo da expressão de Elena. — Todos tinham excelentes maneiras à mesa. Você mal teria percebido.
Na época, ela achava que as diferenças entre ele e os meninos que ela conhecia, o escopo de toda a história que ele testemunhou, eram românticas.
Agora... Bem, agora ela não sabia o que pensar.
— Fica bem aqui, creio — disse Stefan, pegando a mão dela e levando-a de volta ao hoje. — A Sra. Flores disse que uma loja exotérica abriu e que eles devem ter a maioria das coisas de que precisamos.
A loja se chamava Spirit and Soul, era pequena, mas vibrante, cheia de cristais e estatuetas de unicórnios, cartas de tarô e apanhadores de sonhos. Tudo era pintado em tons de roxo e prata, e panos de seda sopravam uma brisa de um pequeno condicionador de ar no peitoril da janela. O ar condicionado não era forte o suficiente para combater o calor pegajoso do dia, porém, e a baixinha de cabelos pretos compridos e colares chocalhantes, que surgiu do fundo da loja parecia cansada e suarenta.
— Como posso ajudar? — disse ela numa voz lenta e musical que Elena desconfiava ser adotada para combinar com a atmosfera da loja.
Stefan pegou um pedaço de papel coberto com a letra embolada da Sra. Flores e semicerrou os olhos para ele. Com ou sem visão de vampiro, decifrar a letra da Sra. Flowers podia ser um desafio.
Ah, Stefan. Ele era franco, doce e nobre. Sua alma poética brilhava através daqueles belos olhos verdes. Ela não podia se arrepender de amar Stefan. Mas, às vezes, no fundo, desejava ter conhecido Stefan de uma forma menos complicada, que a alma e a inteligência, o amor e a paixão, a sofisticação e a delicadeza, de alguma forma fossem possíveis em um menino real de 18 anos, que ele fosse o que fingia ser quando ela o conheceu: misterioso, estranho, mas humano.
— Você tem alguma coisa feita de hematita? — perguntava ele agora. — Uma joia ou talvez uma bugiganga? E incenso com... — ele franziu o cenho para o papel. — Malva? É malva mesmo?
— Claro! — disse a lojista com entusiasmo. — A malva é boa para proteção e segurança. E tem um cheiro ótimo. Os diferentes tipos de incenso estão aqui.
Stefan a seguiu, entrando mais na loja, mas Elena se demorou perto da porta. Estava exausta, embora o dia mal tivesse começado.
Havia uma arara de roupas perto da vitrine, e ela mexeu distraidamente ali, empurrando cabides de um lado para o outro. Viu um blusão rosa e leve cravejado de espelhinhos, meio hippie, mas bonito. Bonnie ia gostar disso, Elena pensou automaticamente, depois se encolheu.
Pela vitrine, ela vislumbrou um rosto que conhecia, e se virou com um cabide esquecido na mão. Procurou o nome em sua mente. Tom Parker, era isso? Ela havia saído com ele algumas vezes no penúltimo ano, antes de ela e Matt ficarem juntos. Parecia fazer muito mais do que um ano e meio. Tom foi bem simpático e era bem bonito, um encontro perfeitamente satisfatório, mas ela não sentiu uma faísca entre eles e, como Meredith disse, praticou o pesque e solte com ele, libertando-o para nadar nas águas do namoro.
Mas ele era louco por ela. Mesmo depois de tê-lo liberado, ele ficava por perto, observando-a com olhos de cachorrinho, implorando que ela o aceitasse de volta. Se as coisas tivessem sido diferentes, se ela tivesse sentido alguma coisa por Tom, será que sua vida seria mais simples agora?
Ela observou Tom. Ele caminhava pela rua sorridente, de mãos dadas com Marissa Peterson, a garota que ele começou a namorar perto do final do ano passado. Tom era alto e baixava a cabeça morena e desgrenhada para ouvir o que Marissa estava dizendo. Eles sorriram um para o outro, e ele ergueu a mão livre para puxar com gentileza e brincadeira uma mecha de seu cabelo comprido. Eles pareciam felizes juntos.
Ora, que bom para eles. Era fácil ser feliz quando se estava apaixonado, sem complicações, quando não havia nada mais difícil na vida do que um verão passado com os amigos antes de ir para a faculdade. Era fácil ser feliz quando eles nem conseguiam se lembrar do caos em que a cidade esteve antes de Elena os salvar.
Eles não eram nem mesmo agradecidos. Tinham sorte também: não sabiam nada das trevas espreitando nas fronteiras de sua vida segura e ensolarada.
O estômago de Elena se retorceu. Os vampiros, demônios, espectros, amores proibidos. Por que ela precisava lidar com tudo isso?
Ela escutou por um momento. Stefan ainda consultava a lojista e ela o ouviu dizer, num tom preocupado:
— Mas os ramos de Tramazeira terão o mesmo efeito? — E a mulher respondeu num murmúrio tranquilizador. Ele ficaria ocupado por mais tempo, então. Só estava no primeiro terço da lista que Sra. Flowers lhes dera.
Elena recolou a blusa na arara e saiu da loja, e com cuidado para não ser vista pelo casal no outro lado da rua, ela os seguiu de longe, dando uma boa olhada em Marissa. Ela era magra, tinha sardas e um nariz meio arrebitado. Bem bonita, supôs Elena, tinha cabelos pretos, lisos e compridos e lábios grossos, mas a boca não era exatamente atraente. E na escola também, não era ninguém. Talvez fosse do time de vôlei. Anuário com notas passáveis, mas não estelares. Tinha amigos, mas não era popular. Um ou outro namoro, mas não uma menina que os garotos percebessem. Com um emprego de meio expediente numa loja, ou talvez na biblioteca. Comum. Nada de especial.
Então, por que essa Marissa comum e nada especial, tinha uma vida descomplicada e leve, enquanto Elena passava pelo inferno, literalmente, para ter o que Marissa parecia ter com Tom, e ainda assim não tinha?
Uma brisa fria tocou a pele de Elena e ela estremeceu, apesar do calor do manhã. Ela olhou para cima.
Filetes escuros e frios de névoa vagavam em volta dela, mas o resto da rua estava tão ensolarado como alguns minutos antes. O coração de Elena começou a martelar antes de seu cérebro entender e perceber o que estava acontecendo. Corra! Algo dentro dela gritou, mas era tarde demais. Seus braços e pernas de repente ficaram pesados como chumbo.
Uma voz fria e seca falou bem atrás dela, uma voz que parecia sinistramente a observadora dentro de sua mente, aquela que lhe dizia as verdade desagradáveis que eu não queria reconhecer.
Por que, perguntou a voz, você só consegue amar monstros? Elena não se atreveu a virar. Ou será que só os monstros conseguem amar você de verdade, Elena? A voz continuou, assumindo um tom ligeiramente triunfante. Todos aqueles meninos na escola, eles só queriam você como troféu. Viam seus cabelos dourados, seus olhos azuis e o rosto perfeito e pensavam como seria bom ser visto com você nos braços.
Preparando-se, Elena aos poucos se virou. Não havia ninguém ali, mas a névoa ficava mais densa. Uma mulher empurrando um carrinho de bebê passou por ela com um olhar plácido. Será que ela não via que Elena estava sendo envolvida numa névoa? Elena abriu a boca para gritar, mas as palavras ficaram presas na garganta.
A névoa estava mais fria agora, e parecia quase sólida, como se prendesse Elena. Com uma grande força de vontade, ela se obrigou a avançar, mas só conseguiu cambalear até o banco na frente de uma loja próxima. A voz falou novamente, sussurrando maliciosa em seu ouvido.
Eles nunca viram você, aqueles meninos. Meninas como Marissa, como Meredith, podem encontrar o amor e serem felizes. Apenas os monstros se dão o trabalho de encontrar a verdadeira Elena. Coitadinha da Elena, você nunca será normal, não é? Não como as outras garotas. A voz riu suavemente, com crueldade.
A névoa se adensava e pressionava em volta dela. Agora Elena não conseguia ver o resto do rua, nada além da escuridão. Ela tentou ficar de pé e avançar alguns passos, sacudir a névoa. Mas não conseguia se mexer. A névoa parecia um manto pesado prendendo-a, mas ela não conseguia tocá-la, não conseguia combatê-la.
Elena entrou em pânico, tentou mais uma vez se colocar de pé, abriu a boca para chamar Stefan, mas a névoa se torceu para dentro dela, através dela, inundando cada poro. Incapaz de lutar ou gritar, ela desmaiou.


Fazia um frio de congelar.
— Pelo menos desta vez estou de roupa — Damon murmurou, chutando um pedaço de madeira queimada enquanto andava de um lado para o outro na superfície estéril da Lua Negra.
O lugar começava afetá-lo, ele teve que admitir. Estivera vagando por essa paisagem desolada pelo que pareciam dias, embora a escuridão imutável ali impossibilitasse saber com certeza quanto tempo tinha passado.
Quando despertou, Damon supusera que encontraria a ruivinha a seu lado, ansiosa por sua companhia e proteção. Mas ele voltou a si sozinho, deitado no chão. Sem espectro, sem donzela agradecida.
Ele franziu o cenho e meteu um pé vacilante numa pilha de cinzas que podia esconder um corpo, mas não se surpreendeu quando nada encontrou além de lama por baixo das cinzas, sujando mais suas botas antes polidas. Depois de ter chegado ali e começado a procurar por Bonnie, ele esperava que a qualquer momento pudesse dar com seu corpo inconsciente. Tinha uma forte imagem de como estaria Bonnie, pálida e silenciosa no escuro, os cachos longos e ruivos cobertos de cinzas. Mas agora ele começava a se convencer de que para onde quer que o espectro tivesse levado Bonnie, ela não estava ali.
Ele tinha ido ali para ser um herói, derrotar o espectro, salvar a menina, e, por fim, salvar a sua garota. Que idiota, pensou ele, torcendo o lábio diante da própria estupidez. O espectro não o levara para onde guardava Bonnie. Sozinho naquela pilha de cinzas da Lua, ele se sentiu estranhamente rejeitado. O espectro não o queria?
Um forte vento repentino o empurrou e Damon cambaleou alguns passos para trás antes de recuperar o equilíbrio. O vento lhe trouxe um som: seria um gemido? Ele mudou de rumo, curvando-se e indo para onde pensava ser a origem do som. Depois, o som retornou, um gemido triste e soluçante que ecoava atrás dele. Damon se virou, mas seus passos estavam mais curtos e menos confiantes do que de costume.
E se ele estivesse errado e a bruxinha estivesse ferida e sozinha em algum lugar daquela Lua esquecida?
Damon estava com muita fome. Empurrou a língua contra os caninos doloridos e eles ficaram afiados como uma faca. Sua boca estava muita seca, ele imaginou o fluxo de sangue doce e suculento, a vida em si pulsando contra seus lábios. O gemido veio mais uma vez, agora da esquerda, e de novo ele se virou. O vento soprava em seu rosto, frio e úmido de névoa.
Isso tudo era culpa de Elena.
Ele era um monstro. Ele devia ser um monstro, tomar sangue sem se preocupar, matar sem pensar duas vezes e sem se importar. Mas Elena havia mudado tudo. Ela o fez querer protegê-la. Depois, ele começou a cuidar dos amigos dela, e, por fim, até salvou sua cidadezinha provinciana, quando qualquer vampiro de respeito teria ido embora muito tempo antes de os kitsune chegarem, ou curtido a devastação com sangue quente nos lábios.
Ele fez tudo isso, mudou por ela e ainda assim, ela não o amava. Não o bastante. Quando ele beijou o pescoço dela e acariciou seu cabelo na outra noite, em quem ela estava pensando? No maricas do Stefan.
— É sempre Stefan, não é? — Disse uma voz clara e fria atrás dele. Damon congelou, os pelos da nuca se eriçando. — Tudo que você tentou tirar dele — a voz continuou, — você só estava lutando para equilibrar a balança, porque o fato é que ele tinha tudo, e você não tinha nada. Você só queria que as coisas fossem justas.
Damon estremeceu, sem se virar. Ninguém nunca tinha compreendido isso. Ele só queria que as coisas fossem justas.
— Seu pai gostava muito mais dele do que de você. Você sempre soube disso — continuava a voz. — Você era o mais velho, o herdeiro, mas era Stefan que seu pai amava. E no amor, você estava sempre dois passos atrás de Stefan. Katherine já o amava quando você a conheceu, a mesma triste história se repetiu com Elena. Elas dizem que o amam, essas suas meninas, mas elas nunca o amaram mais, nem melhor, nem apenas você, nem mesmo quando você lhes deu todo o seu coração.
Damon estremeceu novamente. Sentiu uma lágrima escorrer pelo rosto, e enfurecido, enxugou-a.
— E sabe por que é assim, não sabe, Damon? — Prosseguia a criatura suavemente. — Stefan. Stefan sempre tomou tudo o que você queria. Ele conseguia as coisas que você queria antes mesmo que você as visse, e nada deixava para você. Elena não ama você. Ela nunca amou e nunca amará.
Algo se rompeu dentro de Damon com as palavras da criatura, e de imediato ele voltou a si. Como o espectro se atrevia a fazê-lo questionar o amor de Elena? Essa era a única coisa verdadeira que ele conhecia. Uma brisa fria agitou as roupas de Damon. Ele não ouvia mais os gemidos e tudo ficou silencioso.
— Sei o que está fazendo — rosnou Damon. — Acha que pode me enganar? Pensa que pode me colocar contra Elena?
Um passo suave na lama soou atrás dele.
— Ah, pequeno vampiro — disse a voz com zombaria.
— Ah, pequeno espectro — respondeu Damon no mesmo tom da criatura. — Você não tem ideia do erro que acaba de cometer. — Preparando-se para saltar, ele girou o corpo com as presas totalmente estendidas. Mas antes que conseguisse investir, mãos fortes e frias se apoderaram de seu pescoço e o puxaram no ar.


— Eu também recomendaria enterrar pedaços de ferro em volta do que estiver tentando proteger — sugeriu a lojista. — As ferraduras são tradicionais, mas qualquer coisa feita de ferro, em especial redonda ou curva, serve.
Ela passou por várias fases de descrença enquanto Stefan tentava comprar o que parecia cada objeto, erva ou encantamento relacionado a proteção na loja, e agora tornara-se loucamente prestativa.
— Acho que já tenho tudo o que preciso por hora — disse Stefan educadamente. —Muito obrigado por sua ajuda.
As covinhas da mulher brilhavam enquanto ela batia as compras na antiquada caixa registradora da loja, e ele também sorriu. Ele achava que tinha conseguido decifrar corretamente cada item da lista da Sra. Flowers, e sentiu orgulhoso de si mesmo.
Alguém abriu a porta para entrar, e uma brisa fria penetrou na loja, balançando os objetos de magia e fazendo bater os panôs.
— Você sentiu isso? — perguntou a lojista. — Acho que uma tempestade está chegando. — Seu cabelo apanhado pelo vento se abriu no ar.
Stefan, prestes a dar uma resposta simpática, olhou apavorado. O cabelo comprido, suspenso por um momento, torceu seus fios em uma mecha enroscada que dizia claramente, lhe dando arrepios: Matt.
 Mas se o espectro encontrara um novo alvo, isso significava que Elena... Stefan se virou, olhando freneticamente para a frente da loja. Elena não estava lá.
— Você está bem? — perguntou a lojista enquanto Stefan olhava em volta.
Ignorando-a, ele correu para a porta da loja, procurando em cada corredor, cada canto. Stefan deixou seu Poder se espalhar, procurando um vestígio da presença distinta de Elena. Nada. Ela não estava na loja. Como ele não percebeu que ela saíra?
Ele apertou os olhos com os punhos, até que estrelinhas explodiram por baixo das pálpebras. Era culpa dele. Não vinha se alimentando de sangue humano e seus Poderes tinham diminuído muito. Por que ele se deixou ficar tão fraco? Se estivesse com toda a sua força, teria percebido de pronto que ela saíra. Era egoísmo ceder a sua consciência quando havia pessoas a proteger.
— Você está bem? — perguntou a mulher de novo. Ela o seguira pelos corredores da loja, segurando sua sacola, e olhava para ele com ansiedade.
Stefan pegou a sacola.
— A garota que estava comigo — disse ele com urgência. — Você viu para onde ela foi?
— Ah — respondeu a mulher, de cenho franzido. — Ela saiu quando começamos ver a seção de incensos. Há muito tempo.
Até a lojista tinha visto Elena saindo. Stefan assentiu rispidamente em agradecimento antes de sair a passos largos para a luz ofuscante do sol. Olhou freneticamente para os dois lados da rua principal.
Ele sentiu uma onda de alívio quando a viu sentada em um banco na frente da farmácia a alguns metros dali. Mas então notou a postura arriada, a bela cabeça loira pousada flácida sobre um dos ombros.
Stefan chegou a seu lado em um instante, grato por encontrá-la respirando, superficial mas regularmente, e com a pulsação forte. Mas ela estava inconsciente.
— Elena — chamou ele, acariciando-lhe gentilmente o rosto. — Elena, acorde. Volte para mim. — Ela não se mexia. Ele sacudiu o braço dela com mais força. — Elena! — O corpo caiu no banco, mas nem a respiração nem a batida firme do coração se alteraram.
Exatamente como Bonnie. O espectro tinha pegado Elena e Stefan sentiu algo dentro dele se partir em dois. Ele falhou em protegê-la, não conseguira proteger nenhuma das duas.
Stefan deslizou suavemente a mão sob o corpo de Elena, pegando sua cabeça de forma protetora com a outra mão em concha e a puxou para seus braços. Aninhou-a contra ele, e canalizando o pouco Poder que lhe restava para a velocidade, começou a correr.


Meredith olhou o relógio no pulso pelo que parecia a centésima vez, perguntando-se por que Stefan e Elena ainda não tinham voltado.
— Não consigo entender essa palavra — reclamou Matt. — Eu juro que pensei que a minha letra fosse ruim. Parece que Caleb escreveu isso de olhos fechados.
Ele andara passando as mãos pelos cabelos de frustração e os fios estavam espetados, e ele tinha leves olheiras azuladas.
Meredith tomou um gole de café e estendeu a mão. Matt lhe passou o caderno que estivera examinando. Eles tinham descoberto que ela lia melhor a letra miúda e torta de Caleb.
— Acho que isso é um O — disse ela. — DOESIL é uma palavra?
— Sim — disse Alaric, sentando-se um pouco mais reto. — Significa no sentido no sentido horário. Representa a transformação da energia espiritual em formas físicas. Talvez haja alguma coisa aí. Posso ver?
Meredith lhe entregou o caderno. Seus olhos estavam ardendo e os músculos rígidos de ficar sentada a manhã toda vendo os recortes, cadernos e fotos de Caleb. Ela rodou os ombros para a frente e para trás, se alongando.
— Não — disse Alaric depois de ler por alguns minutos. — Não serve. Só fala de lançar um círculo mágico.
Meredith estava prestes a falar quando Stefan apareceu na porta, pálido e de olhos arregalados. Elena estava inconsciente em seus braços. Meredith deixou cair a xícara de café.
— Stefan! — ela exclamou, olhando apavorada. — O que aconteceu?
— O espectro a pegou — disse Stefan com a voz embargada. — Não sei como.
Meredith achou que ia desmaiar.
— Ah não. Ah não — ela se ouviu dizer numa voz fininha, embargada. — Elena também, não.
Matt se levantou, furioso.
— Por que você não o impediu — perguntou ele num tom acusador.
— Não temos tempo para isso — Stefan disse friamente, e passou por eles em direção à escada, agarrado protetoramente a Elena. Num acordo silencioso, Matt, Meredith e Alaric o seguiram para o quarto onde Bonnie dormia.
A Sra. Flowers estava tricotando junto a cama, e sua boca se abriu em um O de desânimo quando ela viu quem Stefan carregava. Stefan colocou Elena gentilmente no outro lado da cama de casal junto da forma pequena e pálida de Bonnie.
— Desculpe — disse Matt devagar. — Eu não devia ter culpado você. Mas, o que aconteceu? — Stefan se limitou a dar de ombros, desmoralizado.
O coração de Meredith se apertou no peito ao ver as duas melhores amigas deitadas ali como bonecas de pano. Elas estavam tão imóveis. Mesmo dormindo, Elena sempre era mais móvel, mais expressiva do que isso. Durante umas mil festinhas do pijama, desde quando elas eram pequenas, Meredith vira Elena sorrir dormindo, se enrolar mais nos cobertores, aconchegar o rosto no travesseiros. Agora, o calor rosa, dourado e creme de Elena parecia desbotado e frio.
E Bonnie que era tão vibrante, de movimentos rápidos, que mal conseguia ficar parada por mais de dois segundos na vida. Agora estava imóvel, paralisada, quase sem cor, exceto pelos prontos pretos de suas sardas contra suas bochechas pálidas e a mecha brilhante de cabelo ruivo no travesseiro. Se não fosse pelo leve subir e descer do peito, as duas podiam ser manequins.
— Não sei — disse Stefan novamente, as palavras revelando mais pânico desta vez, e levantou a cabeça encontrando os olhos de Meredith. — Não sei o que fazer.
Meredith limpou a garganta.
— Ligamos para o hospital para saber de Caleb enquanto vocês estavam fora — disse ela com cautela, sabendo que efeito suas palavras teriam. — Ele teve alta.
Os olhos de Stefan faiscaram de um jeito homicida.
— Acho — disse ele, a voz tão cortante quanto uma navalha, — que devemos fazer uma visita a Caleb.


Elena estava suspensa na escuridão. Mas não se sentia alarmada. Era como flutuar lentamente sobre água quente, oscilando gentilmente com a corrente, e parte dela se perguntava distante e sem medo, se era possível que ela nunca tivesse saído do poço da cachoeira de Hot Springs. Será que esteve flutuando e sonhando esse tempo todo?
Então, de repente ela acelerou, investiu para a frente e abriu os olhos para a ofuscante luz do dia, engolindo uma golfada de ar, longa e trêmula.
Olhos castanhos escuros sinceros e preocupados fitavam os dela em um rosto pálido pairando acima.
— Bonnie? — Elena ofegou.
— Elena! Graças a Deus — exclamou Bonnie, pegando-a pelos braços com um aperto firme. — Estou sozinho aqui a dias, ou o que parecem dias e mais dias, porque a luz não muda, então não sei dizer pelo sol. E não há nada para fazer aqui. Nem imagino como sair, e não há nada para comer, embora eu estranhamente não sinta fome, então acho que isso não importa. Tentei dormir para passar o tempo, mas não fico cansada, também. E de repente você estava aqui, fiquei tão feliz de te ver, mas você não acordava, e eu estava começando a ficar muito preocupada. O que está acontecendo?
— Não sei — disse Elena atordoada. — A última coisa que me lembro é de estar em um banco. Acho que fui apanhada por um tipo de névoa mística.
— Eu também — exclamou Bonnie. — Não a parte do banco, mas, da névoa. Eu estava no meu quarto no pensionato, e uma névoa esquisita me pegou. — Ela estremeceu teatralmente. — Eu não conseguia me mexer de jeito nenhum, e estava tão frio. — De repente, seus olhos se arregalaram de culpa. — Eu estava fazendo um feitiço quando isso aconteceu, e algo apareceu atrás de mim e me disse coisas. Coisas horríveis.
Elena estremeceu.
— Ouvi uma voz, também.
— Você acha que eu... libertei alguma coisa? Quando estava fazendo o feitiço? Tenho pensado que talvez eu possa ter feito isso por acidente.
O rosto de Bonnie estava branco.
— Não foi sua culpa — assegurou Elena. — Achamos que foi um espectro, a coisa que está causando os acidentes e roubou seu espírito para usar seu Poder. E agora me pegou, pelo que vejo. — Ela contou rapidamente a Bonnie sobre o espectro, depois, se apoiou nos cotovelos e olhou em volta pela primeira vez realmente. — Nem acredito que estamos aqui de novo.
— Onde? — Bonnie perguntou ansiosamente. — Onde estamos?
Era o meio do dia e o céu azul e ensolarado se estendia luminoso no alto. Elena tinha certeza de que sempre era meio-dia ali: certamente era, na última vez em que esteve nesse lugar. Elas estavam num campo largo e comprido, e parecia nunca acabar. Pelo que Elena podia ver, havia arbustos altos, roseiras com flores perfeitas pretas e aveludadas. Rosas da meia-noite. As rosas mágicas cultivadas para conter feitiços que só podiam ser invocados por kitsunes. O kitsune tinha enviado a Stefan uma dessas rosas, com um feitiço para torná-lo humano, mas Damon a interceptou acidentalmente, para o desespero dos dois irmãos.
— Estamos no campo de rosas mágicas dos kitsune, aquele depois do Portão dos Sete Tesouros — disse ela a Bonnie.
— Ah —Bonnie pensou por um momento e então perguntou, desesperançosa: — O que estamos fazendo aqui? O espectro é um kitsune?
— Não acho que seja — respondeu Elena. — Talvez este seja apenas um lugar conveniente para nos esconder.
Elena respirou fundo. Bonnie era uma boa pessoa para se ter como companhia numa crise. Não boa como Meredith, o jeito de Meredith era planejar e fazer coisas, mas bom no sentido de que Bonnie olhava para Elena com confiança, com aqueles olhos grandes e inocentes e fazia perguntas acreditando que Elena saberia as respostas. E Elena imediatamente se sentia competente e protetora, como se fosse capaz de lidar com qualquer problema em que estivessem envolvidas. Como agora. Com Bonnie dependendo dela, a mente de Elena trabalhava mais clareza do que tinha trabalhado por vários dias. A qualquer momento, ela pensaria em um plano para tirá-los dali. A qualquer momento, Elena tinha certeza.
Os dedos frios e pequenos de Bonnie procuraram a mão de Elena.
— Elena, nós estamos mortas? — perguntou baixinho, com um tremor na voz.
Estamos mortas? Perguntou-se Elena. Ela achava que não. Bonnie estava viva depois que o espectro a pegara, mas não despertava. Era mais provável que seus espíritos tivessem viajado para lá no plano astral e seus corpos estivessem em Fell’s Church.
— Elena? — Bonnie repetiu com ansiedade. — Você acha que estamos mortas?
Elena abriu a boca para responder quando um som rangido e estrondoso a interrompeu. As roseiras perto delas começaram a se debater violentamente, e houve um grande silvo que parecia vir de todas as direções ao mesmo tempo. O ruído de galhos quebrados era ensurdecedor, como se algo grande estivesse abrindo caminho pela vegetação. Em volta delas, galhos espinhosos de roseiras agitavam-se, embora não houvesse vento. Ela gritou quando um dos galhos golpeou seu braço, cortando sua pele.
Bonnie gemeu e o coração de Elena batia duas vezes mais rápido no peito. Ela girou o corpo, empurrando Bonnie para trás dela. Cerrou as mãos em punhos e se agachou, tentando lembrar o que Meredith lhe ensinara sobre como combater um agressor. Mas ao olhar em volta, só conseguia ver quilômetros de rosas.
Rosas pretas e perfeitas.
Bonnie soltou um leve gemido e se apertou mais contra as costas de Elena. De repente, Elena sentiu um puxão forte e doloroso, como se algo estivesse sendo arrancado lenta, mas firmemente de seu tronco. Ela arquejou e cambaleou, levando as mãos ao estômago. Acabou, pensou ela num torpor, sentindo como se cada osso de seu corpo estava sendo reduzido a uma polpa.
Eu vou morrer.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!