14 de março de 2019

Capítulo 27

É muito triste ter deixado para trás tantos colegas queridos e não ter recebido notícias deles até hoje… A gente conhece muitas pessoas durante a guerra, tempo de grandes amizades. A maior parte dos que se lembram dessa época admite ter cometido o mesmo erro de não ter permanecido em contato.
L. TROMAN, WINE, WOMEN AND WAR

2002
Com um imaculado sorriso padrão, a aeromoça percorreu o corredor para verificar se todos os cintos de segurança estavam afivelados para o pouso. Ela não reparou na senhora que secava os olhos muitas vezes mais do que teria sido necessário. Ao lado dela, a neta apertou seu cinto e guardou de volta a revista de bordo atrás do banco da frente.
— É a história mais triste que já ouvi.
A senhora balançou a cabeça.
— Não é tão triste assim, minha querida. Não quando comparada a outras.
— Acho que isso explica a reação que a senhora teve ao ver aquele navio. Meu Deus, quais eram as chances de isso acontecer, depois de tantos anos?
A avó deu de ombros, num gesto delicado.
— Muito pequenas, suponho. Mas acho que eu não devia ter me surpreendido. Vários navios que deixam a Marinha são reciclados, como aconteceu com aquele.
Ela recuperara sua antiga compostura. Jennifer notou sua calma voltar aos poucos, a carapaça transparente endurecendo conforme aumentava a distância entre elas e a Índia. Ela havia até conseguido repreender Jennifer várias vezes por ter colocado o passaporte no lugar errado e por beber cerveja antes do almoço. A menina se divertira com tudo aquilo e também ficara tranquila. Porque quando pegaram o avião, fazia quase dezesseis horas que sua avó estava sem dizer nada.
De algum modo, ela parecia menor, mais frágil, apesar do conforto revigorante do hotel de luxo e da sala de primeira classe onde os funcionários da companhia aérea tinham permitido que elas esperassem. Quando segurou a mão da avó e acariciou sua pele fina como papel, Jennifer se sentiu ainda mais culpada. Você não devia tê-la trazido, dizia sua consciência. Ela é velha demais. Você a arrastou pelos continentes e a fez esperar dentro de um veículo escaldante, como um cachorro.
Sanjay tinha sussurrado que Jennifer devia chamar um médico. A avó reclamara como se ele tivesse sugerido algo indecente.
E então, pouco depois da decolagem, ela começou a falar.
Jennifer havia ignorado a aeromoça oferecendo drinques e amendoins. Sua avó se acomodou melhor na poltrona e conversou como se as duas tivessem passado as últimas horas em um longo bate-papo, em vez de em um silêncio terrível.
— Eu não tinha pensado nele como nada além de um jeito de viajar, entende? — comentou ela, de repente. — Uma forma de ir do ponto A ao ponto B, de saltar pelos oceanos.
Jennifer se mexeu na poltrona, desconfortável, sem saber direito o que responder. Também não sabia se a avó esperava uma resposta. Deixou seus pensamentos vagarem por um instante e imaginou que talvez devesse ter ligado para os pais. Eles a culpariam, claro. Não tinham concordado com a ida da avó.
Ela é que insistira para que fossem juntas. Queria se exibir, supunha ela. Ampliar seus horizontes. Mostrar como as coisas haviam mudado.
Depois de se virar para a janela, parecendo falar com o céu, a avó tinha baixado o tom de voz:
— E lá estava eu, sentindo coisas que nunca tinha esperado sentir. E tão exposta no meio de tanta gente, sabendo que era apenas questão de tempo…
A avó, virada o tempo todo para a janela, manteve o olhar fixo na paisagem celeste e no tapete de nuvens brancas que flutuavam serenamente no espaço.
— Questão de tempo…?
— Até descobrirem.
— O quê?
Ela ficou quieta de repente.
— Descobrirem o quê, vó? — insistiu Jennifer
A avó arregalou os olhos quando olhou para a neta, como se estivesse surpresa de encontrá-la ao seu lado. Franziu um pouco a testa. Ergueu as mãos alguns centímetros acima dos braços da poltrona, como se quisesse confirmar que ainda conseguia fazer isso.
Quando voltou a falar, sua voz tinha um tom cordial e sem emoção; era uma voz neutra, matinal:
— Jennifer querida, pode fazer a gentileza de pegar um copo de água para mim? Estou morrendo de sede.
A garota esperou um instante, depois se levantou e logo encontrou uma aeromoça prestativa que lhe entregou uma garrafa de água mineral. Jennifer serviu um copo, que a avó bebeu quase em um gole só. Seu cabelo tinha ficado emaranhado durante a viagem e estava arrepiado, formando um halo ao redor da cabeça. Sua fragilidade deixou Jennifer com vontade de chorar.
— O que foi que descobriram?
— Nada.
— Pode me contar, vó — sussurrou ela, se inclinando para a frente. — O que aconteceu que deixou a senhora tão transtornada lá? Conte tudo. Nada do que disser vai me chocar.
A avó sorriu. Depois encarou a neta com tanta intensidade que quase a deixou nervosa.
— Você e suas atitudes modernas, Jenny. Seu casinho com Sanjay, suas frases terapêuticas e seu “conte tudo”… Eu me pergunto até que ponto suas ideias são realmente modernas.
Ela não sabia o que responder. Havia algo quase agressivo no tom de voz da avó. Então as duas se acomodaram, assistiram ao filme de bordo e dormiram.

* * *

Depois, finalmente, quando acordou, sua avó contou a história do fuzileiro naval.

* * *

Como elas já sabiam, ele estava esperando perto do portão de chegada. Elas o teriam reconhecido em qualquer lugar, mesmo no meio de tanta gente: o porte ereto, o terno impecavelmente passado. Apesar da idade e da visão já não muito boa, ele as viu primeiro e logo acenou com a mão.
Jennifer ficou para trás enquanto a avó acelerava o passo e, largando as malas no chão, correu para abraçá-lo. Permaneceram assim por algum tempo, os braços do avô envolvendo com firmeza o corpo da esposa, como se tivesse medo de que ela se afastasse de novo.
— Senti saudade — murmurou ele com os lábios no cabelo grisalho dela. — Ah, minha querida, senti saudade — repetiu.
Diante da declaração, Jennifer, um pouco afastada, olhou ao redor e perguntou a si mesma se alguém teria reparado. De certa forma, ela se sentia uma intrusa. Havia algo bastante inquietante na paixão de duas pessoas octogenárias.
— Na próxima vez, você vai junto — disse a avó.
— Você sabe que não gosto de ir muito longe — retrucou ele. — Sou bem feliz em casa.
— Então ficarei com você.
No carro, com a bagagem acomodada atrás deles e a avó parecendo ter rejuvenescido, Jennifer começou a contar para o avô a história do porta-aviões. Quando ele desligou o motor, ela tinha acabado de relatar o momento em que haviam descoberto o nome do navio desmontado. No instante em que ela tentou explicar o choque da avó — de um modo que não prejudicasse a imagem dela —, reparou que ele a olhava com uma intensidade inesperada. A menina parou de falar e o avô se virou para a esposa.
— O mesmo navio? — perguntou. — Era mesmo o Victorious?
A senhora concordou com a cabeça.
— Achei que nunca fosse vê-lo. Foi… Fiquei muito abalada, pode acreditar.
Os olhos do avô não se desviaram do rosto da esposa.
— Ah, Frances — disse ele. — Quando penso que nós quase…
— Espere um pouco — interrompeu Jennifer. — Está dizendo que você era o fuzileiro?
O casal se entreolhou.
— Você? — Ela se virou para a avó. — Era o vovô? A senhora nunca me contou! Nunca me disse que o fuzileiro era o vovô.
Frances Nicol sorriu.
— Você nunca perguntou.

* * *

Quando saíram do engarrafamento de Heathrow, ele contou para Jennifer que tinha corrido o equivalente a não menos de dois quilômetros de um lado para outro do navio antes de perceber que ela já havia desembarcado. Ele não tinha parado de gritar o nome dela. Frances! Frances! Frances! Depois, fizera o mesmo em terra firme, abrindo caminho pelo meio das famílias reunidas no cais.
Com o uniforme amarrotado e sujo, suando em bicas, tinha corrido em círculos e empurrado as pessoas que atrapalhavam sua passagem. A emoção ao redor era tão forte que ninguém prestava qualquer atenção nele.
Gritara até ficar rouco. Correra até o peito doer. Depois, já desesperado, ofegante, com as mãos apoiadas nos joelhos e a multidão no cais se dispersando, ele a viu, por acaso. Sua silhueta alta e magra, com um pacote e a mala nas mãos, de costas para o mar, observando o país que a adotaria.

* * *

— O que aconteceu com as outras?
Frances alisou a saia.
— Margaret e Joe voltaram para a Austrália depois que a mãe dele morreu. Tiveram quatro filhos. Ela ainda me escreve no Natal.
— Nenhum arrependimento, então?
Frances balançou a cabeça.
— Acho que eles foram muito felizes. Ah, não me entenda mal, Jenny querida. Todo casamento tem altos e baixos. Mas sempre tive a impressão de que Margaret havia encontrado um homem bom em Joe.
— E Avice? — Ela enfatizou o A, como se ainda achasse graça na natureza anacrônica daquele nome.
— Na verdade, não sei.
Tinha começado a chover, e Frances prestou atenção nos pingos que escorriam em diagonal pelo vidro.
— Ela me escreveu uma vez — prosseguiu a avó — para dizer que tinha voltado para a Austrália e para me agradecer por tudo que eu havia feito. Uma carta muito formal, mas acho que isso não foi uma surpresa.
— O que será que aconteceu com ele? — perguntou Jennifer. — Aposto que no fim das contas se divorciou daquela mulher.
— Quer saber? Não se divorciou. Encontramos uma vez com ele, não foi? — Sua avó cutucou o marido. — Em um coquetel, há uns vinte anos. Fomos apresentados ao casal e me lembrei de onde eu conhecia aquele nome.
Jennifer se inclinou para a frente, interessada.
— Você comentou alguma coisa?
— Não. Bem, não diretamente. Mas durante a conversa fiz questão de mencionar o nome do navio em que eu chegara, e olhei de relance para ele. Queria ver sua reação. Ele ficou bastante pálido.
— E foi embora bem cedo, se lembro bem — acrescentou o avô.
— Foi isso mesmo.
Os dois deram um sorriso radiante.
Jennifer se recostou no banco estofado, com vontade de acender um cigarro. Pegou o celular no bolso de trás para ver se Jay tinha mandado outra mensagem, mas a caixa de entrada estava vazia. Ela mandaria uma mensagem para ele assim que chegasse em casa. Ele voltaria em duas semanas e ela gostaria de vê-lo outra vez, mas não queria que ele imaginasse coisas. Tinha potencial, pensou ela, para se tornar muito grudento.
— Sabe, não entendo por que vocês simplesmente não ficaram juntos no navio, se gostavam tanto um do outro — perguntou ela, deixando o telefone de lado.
Jennifer estava um pouco irritada com a maneira que os dois se olhavam, como se o que eles haviam compartilhado fosse algo que ela nunca conseguiria entender.
Seu tom de voz ficou mais agressivo:
— O que me intriga é que as pessoas da sua geração várias vezes dificultam muito mais as coisas para elas mesmas do que seria preciso.
Nenhum dos dois disse nada. Depois, do banco de trás, ela viu a mão do avô deslizar até a da esposa e apertá-la.
— Talvez você tenha razão — disse ele.

* * *

Depois de ele ter contado a verdade sobre seu casamento, sobre o que aquilo significava para os dois, ela ficara em silêncio. Sentara-se no gramado, com o rosto impassível, como se tivesse apenas condições de ouvir o que ele dizia.
— Frances? — Ele se sentara ao lado dela. — Você se lembra do que me disse na noite em que os aviões foram jogados no mar? Acabou, Frances. É hora de seguir em frente.
Ela tinha se virado lentamente para ele, com uma expressão quase aflita, como se não conseguisse acreditar no que ele estava dizendo.
— Esta é a beleza disso tudo, Frances. Temos direito à felicidade agora. Ou melhor, conquistamos esse direito.
Sob a aparente determinação, havia um discreto indício de pânico na voz dele, como se, de algum modo, ela ainda pudesse recusar o direito de ser feliz. Como se ele também pudesse ser uma das coisas das quais ela precisava se privar para sofrer as consequências dos seus erros.
— Nós conquistamos esse direito, Frances. Está me escutando? Nós dois.
Ela mantivera os olhos fixos nos próprios pés, e por um instante ele pensara que ela continuava fechada para ele. Inalcançável. Depois ele tinha reparado que ela estava chorando, como se seu peito lutasse para conter uma imensa e incontrolável emoção.
Ela havia deixado escapar um leve ruído, e ele percebeu que ela sorria e chorava ao mesmo tempo, enquanto, desajeitadamente, deslizava a mão no gramado à procura da dele.
Eles tinham permanecido assim por bastante tempo, com as mãos entrelaçadas, apoiadas na grama áspera. Famílias inteiras tinham passado por eles conversando com animação a caminho de casa, olhando de propósito uma vez ou outra para eles, mas sem curiosidade. Um fuzileiro naval e sua amada, reunidos depois de uma vida inteira separados.
— Você se chama Nicol — dissera ela, acompanhando com os dedos os ferimentos ainda visíveis em seu rosto. — O comandante me contou. Nicol. Seu nome é Nicol.
Ela demonstrou sua alegria ao dizer o nome dele. Era como se tivesse descoberto um tesouro.
— Não — retrucou ele com firmeza. Depois, quando continuou, sua voz soou estranha, pouco familiar até mesmo para ele, porque fazia anos ninguém dizia aquela palavra. — Eu me chamo Henry.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!