30 de março de 2019

Capítulo 26

— Tem certeza de que não quer que a gente ligue para seus pais, senhorita? — A voz do segurança do campus era ranzinza, mas gentil, a expressão preocupada.
Por um segundo, Meredith se deixou imaginar tendo os pais que ele devia estar imaginando: que correriam para resgatar a filha, a abraçariam e levariam para casa até que as imagens horríveis da morte da amiga desbotassem. Mas os pais dela só lhe diriam para ela continuar seu trabalho. Diriam que qualquer outra reação era um fracasso. Se ela se permitisse ser fraca, mais gente morreria.
Ainda mais porque Samantha era uma caçadora, de uma família de caçadores, assim como Meredith. Ela sabia exatamente o que o pai teria dito se ela telefonasse. “Que isto lhe sirva de lição. Você nunca está segura.”
— Vou ficar bem — disse ao segurança. — Minhas colegas de quarto estão lá em cima.
Ele a deixou sair, observando-a subir a escada com uma expressão agoniada.
— Não se preocupe, senhorita — disse ele. — A polícia vai pegar esse sujeito.
Meredith reprimiu a resposta, a de que ele parecia depositar muita fé numa força policial que ainda não encontrara pistas do paradeiro dos desaparecidos nem resolvera o assassinato de Christopher. Mas ele só estava tentando reconfortá-la. Ela assentiu e acenou para ele.
Ela mesma não tivera mais sucesso que a polícia, nem mesmo com a ajuda de Samantha. Nem tentara o suficiente, tão distraída que estava com a casa nova e os novos amigos.
Por que agora?, perguntou-se Meredith de repente. Não lhe ocorreu antes, mas esta era a primeira morte, ataque ou desaparecimento que acontecia num quarto de alojamento, e não no pátio ou nas calçadas do campus. O que quer que tenha sido, veio especificamente atrás de Samantha.
Meredith lembrou-se da figura escura que ela perseguiu depois de ter atacado uma garota, uma menina que disse não se lembrar de nada. Lembrou-se do clarão de cabelo louro quando a figura virou. Será que Samantha morreu porque elas chegaram perto demais do assassino?
Os pais dela tinham razão. Ninguém estava seguro. Meredith precisava se esforçar mais, precisava continuar com seu trabalho e seguir cada pista que tivesse.
No andar de cima, a cama de Bonnie estava vazia. Elena levantou a cabeça de onde estava deitada, enroscada na cama. Parte de Meredith notou que o rosto de Elena estava molhado de lágrimas, e sabia que em geral ela teria largado tudo para reconfortar a amiga, mas agora precisava se concentrar na descoberta do assassino de Samantha.
Meredith foi até o próprio armário, abriu e pegou uma bolsa preta e pesada, além do estojo de caçadora.
— Onde está Bonnie? — perguntou, jogando a bolsa na cama e desafivelando-a.
— Ela saiu antes de eu me levantar — respondeu Elena, com a voz trêmula. — Acho que tinha um grupo de estudo hoje de manhã... Meredith, o que está acontecendo?
Meredith abriu a bolsa e retirou suas facas e estrelas ninja.
— O que está acontecendo? — perguntou Elena de novo, mais insistente, arregalando os olhos.
— Samantha morreu — respondeu Meredith, testando a ponta de uma faca no polegar. — Foi assassinada em sua cama por quem está atacando o campus, e precisamos detê-lo.
A faca podia estar mais afiada — Meredith negligenciara a manutenção de suas armas —, então procurou uma pedra de amolar na bolsa.
— Como? Ah, não, ah, Meredith. Eu sinto muito. — As lágrimas começaram a escorrer por seu rosto de novo e Meredith a olhou, estendendo a bolsa com o bastão.
— Tem uma caixinha preta na minha mesa com três frascos de extratos venenosos diferentes — disse ela. — Acônito, verbena e veneno de serpente. Não sabemos com o que estamos lidando, então é melhor encher as seringas com uma variedade de coisas. Tenha cuidado — acrescentou.
A boca de Elena se abriu e, depois de alguns segundos, ela a fechou com firmeza e assentiu, enxugando o rosto com o dorso da mão. Meredith sabia que sua mensagem — lamente depois, aja agora — tinha sido recebida, e que Elena, como sempre, trabalharia com ela.
Elena pôs o bastão na cama e encontrou a caixa de venenos na mesa de Meredith. Esta viu Elena pensar em como encher as minúsculas seringas hipodérmicas embutidas na madeira-de-lei do bastão, os dedos firmes puxando-as para fora e abrindo-as com cautela. Depois de ter certeza de que Elena sabia o que estava fazendo, Meredith voltou a amolar a faca.
— Eles devem ter vindo atrás de Samantha de propósito. Ela não foi uma vítima ao acaso — disse Meredith, com os olhos na faca enquanto a passava de forma ritmada na pedra. — Acho que precisamos supor que a pessoa sabe que estamos atrás dela e que, portanto, corremos perigo. — Ela estremeceu, lembrando-se do corpo da amiga. — A morte de Samantha foi brutal.
— Um carro tentou atropelar Damon e eu na noite passada — contou Elena. Estávamos investigando algo estranho na biblioteca, mas não sei se foi por isso. Não consegui ver o motorista.
Meredith parou de amolar a faca.
— Eu falei que Samantha e eu perseguimos alguém que atacava uma garota no campus — disse ela, pensativa —, mas não contei uma coisa, porque não tinha certeza. Ainda não tenho. — Ela relatou a Elena suas impressões sobre a figura vestida de preto, inclusive a impressão momentânea da palidez por baixo do capuz e de um cabelo quase branco.
Elena franziu o cenho, os dedos titubeando no bastão.
— Zander? — perguntou.
As duas olharam para a cama desfeita de Bonnie.
— Bonnie gosta dele de verdade — disse Meredith devagar. — Ela não saberia se houvesse alguma coisa errada com ele? Sabe como é... — Ela fez um gesto vago em torno da cabeça, tentando indicar as visões de Bonnie.
— Não podemos contar com isso. — Elena fechou a cara. — E ela não se lembra das coisas que vê. Não acho que ele seja o cara certo para Bonnie — continuou. — Ele é tão... quero dizer, ele é bonito e simpático, mas às vezes parece meio maluco, não acha? E os amigos dele são uns imbecis. Sei que a distância entre ter amigos horríveis e ser perigoso o suficiente para fazer algo assim é muito grande, mas não confio nele.
— Pode pedir a Stefan para observá-lo? — perguntou Meredith. — Sei que você está dando um tempo no namoro, mas isto é importante, e seria ótimo ter um vampiro de olho nele.
Stefan parecia tão triste na outra noite, pensou Meredith, distante. Por que Elena não ligava para ele? A vida era tão curta. Ela sentiu a lâmina da faca contra o polegar de novo. Melhor. Baixando a faca afiada, ela pegou outra.
Elena não respondeu, e Meredith levantou a cabeça, vendo que ela encarava firmemente o bastão, os lábios tremendo.
— Eu... Stefan não está falando comigo — disse ela de repente. — Não acho... Não sei se ele vai nos ajudar. — Ela fechou a boca com firmeza, claramente sem querer falar no assunto.
— Ah — disse Meredith. Era difícil imaginar Stefan não fazendo o que Elena queria, mas também estava claro que Elena não queria pedir. — Devo ligar para o Damon? — sugeriu com relutância. O vampiro mais velho era um mala, e ela não confiava nele, mas ele certamente sabia ser dissimulado.
Elena respirou fundo e assentiu rapidamente, com a boca cerrada.
— Não, eu ligo para ele — disse ela. — Vou pedir para ele investigar Zander.
Meredith suspirou e se recostou na parede, deixando a faca pender na cama. De repente, estava terrivelmente cansada. A espera por Samantha na academia esta manhã parecia ter sido mil anos atrás, mas ainda nem era hora do almoço. Ela e Elena olharam para a cama de Bonnie novamente.
— Temos que falar com ela sobre o Zander, não é? — perguntou Elena em voz baixa. — Temos que perguntar se ele ficou com ela a noite toda. E precisamos alertá-la.
Meredith assentiu e fechou os olhos, deixando a cabeça pousar no frio da parede, mas os abriu novamente. Embora estivesse cansada, sabia que as imagens da morte de Samantha voltariam se ela se permitisse parar por um minuto que fosse. Não tinha tempo para descansar, não enquanto o assassino estivesse à solta.
— Ela não vai ficar nada satisfeita com isso.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!