14 de março de 2019

Capítulo 25

Seiscentas e cinquenta e cinco esposas australianas de marinheiros britânicos desembarcaram na Inglaterra na noite de ontem, quando o porta-aviões Victorious ancorou em Plymouth. Trouxeram consigo as seguintes histórias:
AVENTURA — A Sra. Irene Skinner, de 23 anos, descendente do reverendo Samuel Marsden, estabelecido na Austrália desde 1794, disse: “Temos a intenção de nos acomodar na ilha de Terra Nova, na Inglaterra, na Austrália ou, para falar a verdade, em qualquer lugar onde possamos encontrar aventura e nos sintamos bem.”
ROMANCE — A Sra. Gwen Clinton, de 24 anos, cujo marido mora em Wembley, falou sobre seu casamento: “Nos hospedamos no mesmo lugar em Sydney. Fiquei encantada por ele, e o amor se encarregou do resto.”
PESSIMISMO — A Sra. Norma Clifford, de 23 anos, esposa de um engenheiro naval: “Me disseram que era difícil comprar sapatos na Inglaterra.” Ela trouxe 19 pares.
DAILY MAIL, 7 DE AGOSTO DE 1946

PLYMOUTH

— Não vou desembarcar. Eu… mudei de ideia.
— Que história é essa, Miriam? Não seja boba.
— Já disse que mudei de ideia. Olhei de novo as fotos e confirmei que a aparência dele não me agrada.
Sentada na borda do beliche, Margaret escutava a conversa acalorada que vinha da cabine ao lado. Fazia quase meia hora que as mulheres discutiam aos gritos. A infeliz Miriam parecia ter se trancado à chave e nenhuma das suas companheiras de cabine, que estavam esperando na fila do banheiro, conseguia entrar para se vestir.
Como algumas oficiais haviam previsto, o caos se instalara. Ao redor das desafortunadas passageiras da cabine 3F, mulheres corriam de um lado para outro nos corredores, reclamando aos gritos sobre pertences extraviados ou amigas desaparecidas. Os alto-falantes transmitiam infindáveis instruções aos homens que se preparavam para o desembarque, ao mesmo tempo em que os marinheiros discutiam entre si enquanto terminavam as tarefas de última hora. As oficiais já estavam reunidas na passarela de desembarque, preparadas para a última missão: verificar que todas as esposas estavam prontas para desembarcar, que haviam recolhido suas bagagens e que seriam entregues em segurança aos seus responsáveis.
— Senhoras, segundo turno, última chamada para o refeitório, última chamada para o refeitório. — O alto-falante fez o anúncio e depois desligou.
Protegida de toda aquela agitação e sem Avice e Frances, a cabine estava em silêncio. Margaret olhou para sua roupa. Ela só estava entrando em um vestido, mas as costuras já começavam a esgaçar. Tentou limpar uma pequena mancha de óleo, sabendo que isso não melhoraria sua aparência.
— Pode pelo menos me passar a combinação, Miriam? Não podemos ficar aqui fora a manhã inteira.
— Não vou abrir a porta — gritou Miriam com a voz histérica.
— É um pouco tarde para isso. O que está planejando fazer? Criar asas e voar de volta para casa?
A pequena mala, cuidadosamente arrumada, estava aos pés do beliche. Margaret alisou o cobertor onde Maudie costumava se deitar e suspirou fundo.
Era a primeira manhã em que ela não conseguia comer nada, nem ao menos uma torrada pura. O nervosismo a deixava enjoada.
— Não me importo! Não vou sair daqui.
— Ah, pelo amor de Deus! Olhem, chamem aquele fuzileiro. Ele vai nos ajudar. Ei! Você!
Imóvel no beliche, Margaret ouviu passos do outro lado da porta. Intrigada, a abriu e logo deu um passo atrás quando o fuzileiro caiu com todo o seu peso dentro da cabine.
— Oi — disse Margaret, enquanto ele tentava se levantar.
— Desculpe.
Uma mulher chegou correndo à porta de Margaret com uma toalha enrolada na cabeça. Ela se dirigiu a Nicol:
— Miriam Arbiter se trancou na nossa cabine. Não conseguimos pegar nossas roupas.
O fuzileiro coçou a cabeça. Para Margaret estava óbvio que ele tinha acabado de acordar. Ela torceu o nariz, surpresa, quando percebeu que ele cheirava a álcool, e se inclinou um pouco para ter certeza de que ele era quem ela imaginava.
— Temos que estar prontas para desembarcar em menos de uma hora e não podemos pegar nossas coisas. O senhor precisa buscar alguém para nos ajudar.
De repente, ele pareceu entender onde estava.
— Preciso falar com Frances — disse, se levantando com dificuldade.
— Ela não está aqui.
— O quê? — perguntou ele, assustado.
— Ela não está aqui.
— Como consegui perdê-la?
— Olhe, fuzileiro, pode nos ajudar a resolver este problema, por favor? Preciso dar um jeito no meu cabelo, caso contrário não vai secar a tempo.
A garota parada no vão da porta apontou para o relógio de pulso.
— Ela voltou ontem à noite, mas foi embora de novo.
— Onde ela está? — Nicol agarrou o pulso de Margaret. A ansiedade estava evidente em sua expressão, como se só naquele instante ele percebesse como estava próximo o momento de elas se dispersarem. — Precisa me falar, Maggie.
— Não sei. — Em seguida, ela compreendeu algo de que já suspeitava havia semanas. — Achei que ela podia estar com você.

* * *

No banheiro da enfermaria, Avice passava mais uma camada de batom. Com duas camadas de rímel, seus cílios ressaltavam os grandes olhos azuis. Sua pele, em geral branca como papel, estava com uma cor muito mais saudável. Era sempre importante estar com a melhor aparência possível, principalmente em ocasiões especiais, e essa era a maravilha dos cosméticos. Com um pouco de pó compacto, ruge e um belo batom, ninguém saberia que coisas terríveis a atormentavam. Seria impossível saber que ela continuava um pouco trêmula, mesmo que ainda estivesse com olheiras. Sob a lingerie vermelha-escura e um espartilho de boa qualidade, ninguém diria que sua cintura tinha aumentado, ainda que apenas dois ou três centímetros, nem que o que restava dos seus sonhos continuava indo embora com o sangue que empapava chumaços de algodão.
Ninguém precisaria saber que ela se sentia como se tivesse sido literalmente virada do avesso.
É isso, pensou ela, se olhando no espelho. Eu pareço… pareço…
Ele não estaria lá para recebê-la. Ela sabia disso com tanta certeza quanto acreditava que agora finalmente o conhecia. Ele esperaria até ter notícias dela, não se manifestaria até estar seguro de qual seria sua reação. Se ela dissesse sim, ele faria as mais belas declarações de amor eterno. Era provável que passasse anos repetindo que a amava, que a adorava e que ninguém (ela não conseguia dizer “sua esposa”) era tão importante para ele. Se ela dissesse que não o queria, suspeitava que ele ficaria triste por alguns dias, mas logo se consolaria dizendo a si mesmo que era um felizardo por ter conseguido escapar. Ela imaginava que naquele momento ele devia estar na mesa da cozinha, com os pensamentos fixos na chegada do navio, de mau humor e mantendo distância da tal inglesa que não entendia nada. Uma mulher que, se conhecesse Ian tão bem quanto ela, preferiria não fazer muitas perguntas sobre as razões do seu mau humor.
A oficial, para quem talvez tenha sido criada a expressão “rápida no gatilho”, enfiou a cabeça pela fresta da porta.
— Está bem, Sra. Radley? Já pedi para levarem sua mala até o convés para que não precise carregar nada. — Deu um sorriso simpático. — Não acha que parece cem por cento melhor do que ontem? Está tudo bem? — Fez um sinal com a cabeça na direção da barriga de Avice e baixou discretamente o tom de voz, embora não houvesse mais ninguém por perto. — Quer que eu pegue mais alguma roupa íntima sua na lavanderia?
— Não, obrigada — respondeu Avice. Depois de tudo pelo que tinha passado, ela não sentia a menor vontade de discutir sua roupa de baixo com uma desconhecida. — Estarei pronta em dois minutos. Obrigada.
A oficial se retirou.
Avice colocou o batom de volta no seu nécessaire de maquiagem e passou uma última camada de pó no rosto. Parou um instante, virou-se para um lado e para outro, conferindo seu reflexo, um gesto muito praticado. Depois, por apenas um segundo, sua expressão de contentamento sumiu e ela viu o que havia por trás das bochechas cuidadosamente rosadas e dos olhos disfarçados com maquiagem.
Eu pareço, pensou ela, mais madura…

* * *

Highfield estava na passarela superior, acima do passadiço, ao lado de Dobson, do primeiro-tenente e do operador de rádio. Pelo interfone, dava ordens ao timoneiro, em um convés abaixo, enquanto o velho e majestoso navio de guerra entrava devagar nas águas mais estreitas, e a costa inglesa, no início apenas um indício nebuloso, se transformava em sólida realidade. Embaixo, alinhados com perfeição na amurada do convés de voo, estavam os marinheiros, em uniformes de gala, enquanto oficiais de patentes mais altas executavam o “Procedimento Alfa” ou “Prod A”, como a cerimônia de despedida era conhecida entre eles.
Estavam quase em silêncio absoluto, com os pés afastados e as mãos para trás, e suas roupas imaculadas pareciam de algum modo dissimular o cansaço e o mau estado do navio em que viajavam. Para o comandante, a aproximação do porto era tradicionalmente um dos momentos mais importantes da viagem: era impossível não se encher de orgulho ao chegar em um imponente navio de guerra, com seus homens nos conveses abaixo e já escutando as manifestações de boas-vindas da multidão no cais. Highfield sabia que não havia um só homem entre eles que não esqueceria por um instante sequer os infortúnios dos últimos meses para se concentrar no prazer de uma cerimônia como aquela.
Não era bem o caso do Victorious. Com o motor engasgando e o leme ameaçando emperrar toda hora, o pobre navio se arrastava a duras penas até o cais, ajudado por mecânicos e rebocadores, alheio à beleza das falésias de Devon e Cornualha que se erguiam de um lado e de outro. Bem cedo naquela manhã, depois de inspecionar a casa de máquinas a estibordo, o engenheiro-chefe tinha comentado que era muito bom que finalmente estivessem voltando para casa. Ele não tinha certeza se conseguiria fazer o navio partir em uma nova viagem. “O Victorious sabe que cumpriu seu papel”, observara com a voz confiante, enxugando as mãos no macacão. “E não aguenta mais. Devo dizer, comandante, que sei como ele se sente.”
— Atenção a bombordo. Alterar curso para zero seis zero.
Ele se virou para o operador de rádio e mais uma vez ouviu a mesma instrução.
A luz estava particularmente brilhante, o tipo de iluminação que prenuncia um belo dia de céu claro. A baía de Plymouth estava linda, uma despedida digna para o velho navio e uma boa recepção para as esposas, pensou Highfield. Algumas nuvens brancas deslizavam pelo céu límpido, e o mar cintilante salpicado de espuma refletia de algum modo um pouco da glória daqueles homens. Depois de Bombaim e Suez, depois do interminável azul barrento do oceano, tudo parecia ter um tom extraordinário de verde.
O cais tinha começado a se encher logo ao amanhecer. Primeiro chegaram alguns homens ansiosos com a gola erguida para se proteger do frio, fumando ou sumindo por alguns instantes para uma nova rodada de chá e torradas. Depois apareceram grupos maiores, famílias que se reuniam ao longo do cais, e de vez em quando apontavam para o navio se aproximando. Ou acenavam para as mulheres já no convés. O operador de rádio havia conversado com o responsável pelo porto e com membros da Cruz Vermelha Britânica. Ficou sabendo que alguns dos maridos tinham sido obrigados a dormir diante da porta de casa por falta de quartos disponíveis em toda Plymouth.
“Tripulação aos postos de manobra, tripulação aos postos de manobra, todos fora da plataforma, desocupem o convés superior, fechem todas as portas e escotilhas.” Então o alto-falante se calou. Era a última instrução antes de chegarem ao porto.
Com as mãos apoiadas na amurada à sua frente, o comandante observava a manobra. Estavam voltando para casa. O que quer que isso significasse.

* * *

Nicol tinha inspecionado a enfermaria, o refeitório do convés e até o banheiro das mulheres, o que provocara gritaria e tumulto. No momento, estava quase correndo pelo convés do hangar em direção ao refeitório, onde a maior parte das mulheres havia se reunido, sem se importar com os olhares curiosos das últimas a voltarem do café da manhã. Elas andavam de braços dados, com o cabelo bem penteado e as roupas impecavelmente passadas. Seus ombros curvados indicavam nervosismo. Ele passara duas vezes por outros fuzileiros a caminho do convés de voo. Ao vê-lo apressado e conhecendo sua fama, eles tinham imaginado que ele recebera alguma missão oficial urgente. Só mais tarde, quando repararam em seu uniforme amarrotado e na barba por fazer, se deram conta de que Nicol estava bem pouco apresentável. É incrível como alguns homens têm a tendência de descuidar da aparência quando sabem que estão a caminho de casa, pensaram.
Ele parou de repente diante da porta principal e examinou o lugar. Ali ainda havia cerca de trinta mulheres: tão perto do desembarque, a maioria acabava de arrumar as malas, algumas esperavam no convés dos barcos ou em torres de tiro, as saias infladas pela forte brisa do mar. Observou-as por um instante, esperando que uma ou outra se virasse ou erguesse a cabeça, para ter certeza de que nenhuma delas era quem ele procurava. Xingou a si mesmo por ter bebido tanto.
Por onde começar a busca? Havia gente em tudo quanto era lugar. Em meia hora, como conseguiria encontrar alguém naquele labirinto de cabines e compartimentos, no meio de seiscentas outras mulheres?

* * *

— Sra. Annette Trevor.
No alto da passarela, a oficial esperava a Sra. Trevor abrir caminho até a frente do grupo. Um murmúrio percorreu a multidão e logo surgiu uma garota loura com um longo cabelo cacheado, o chapéu torto na cabeça e uma mala na mão.
— Sou eu! — gritou ela. — Estou descendo!
— Sua bagagem foi liberada pela alfândega. Seus baús estarão à disposição no cais e a senhora precisará comprovar a identidade para recuperá-los. Pode desembarcar. — A oficial transferiu a prancheta para a mão esquerda. — Boa sorte — cumprimentou-a.
A Sra. Trevor, já com os olhos fixos no outro lado da passarela, retribuiu distraidamente o aperto de mão e, em seguida, com a mala apoiada no quadril, começou a descer, se equilibrando nos sapatos de salto alto.
O barulho era ensurdecedor. A bordo, ouviam-se as vozes animadas das mulheres que viravam a cabeça para um lado e para outro, em busca de algum parente em meio a tantos rostos desconhecidos. No final da passarela de desembarque, vários fuzileiros formavam uma barreira diante da multidão, para conter quem tentava se aproximar demais.
No cais, uma banda tocava Colonel Bogey, e um megafone tentava inutilmente fazer as pessoas se afastarem um pouco. Grupos se acotovelavam, gritavam palavras de boas-vindas e acenavam, na esperança de atrair a atenção ao gritar mensagens que eram levadas pelo vento e se perdiam na cacofonia generalizada.
Margaret esperava na fila com o coração acelerado, torcendo para que não demorasse muito até que finalmente pudesse se sentar. A mulher à sua frente não parava de saltitar para conseguir ver por cima das cabeças das outras. E já esbarrara duas vezes em Maggie. De modo geral, isso bastaria para Margaret murmurar algumas palavras maldosas no ouvido dela, mas naquele momento sua boca estava seca e o nervosismo a paralisava.
Tudo parecia tão repentino, tão precipitado. Ela não tivera tempo para se despedir de ninguém, nem de Tims, nem do cozinheiro do refeitório do convés de voo, nem das duas companheiras de cabine, que pareciam ter evaporado. Está tudo acabado?, indagou ela. Os últimos vínculos com meu país sumiram assim, sem mais nem menos, na brisa do mar?
Quando a primeira passageira chegou ao final da passarela de desembarque, ouviu-se um clamor, e flashes das máquinas fotográficas iluminaram o ar. A banda começou a tocar Waltzing Matilda.
— Estou tão nervosa que acho que vou fazer xixi na calça — disse a garota ao seu lado.
— Por favor, que ele esteja à minha espera, que ele esteja à minha espera — murmurava outra para si mesma.
— Sra. Carrie Wilson. — Os nomes passaram a ser chamados mais depressa. — Sua bagagem foi liberada pela alfândega…
— O que foi que eu fiz? — perguntou Margaret, observando aquele país estranho e desconhecido.
Onde estava Frances? Avice? Durante várias semanas, aquele momento não passara de um sonho distante, um objetivo quase impossível de ser atingido, mas no qual ela nunca havia deixado de pensar. Agora que o sonho se concretizava, ela estava confusa, despreparada. Percebeu que jamais se sentira tão sozinha na vida.
Então, de repente, lá estava seu nome. Repetido duas vezes antes de ela ouvir: Sra. Margaret O’Brien… Sra. O’Brien?
— Vamos, é você! — exclamou uma das garotas ao lado, empurrando-a. — Mexa--se. É hora de desembarcar.

* * *

O comandante tinha começado a indicar o passadiço para o prefeito da cidade quando um oficial apareceu na porta.
— Uma das passageiras quer vê-lo, comandante.
O prefeito, um homem atarracado e de ombros curvados, tinha mostrado uma vontade incontrolável de tocar em tudo.
— Elas vêm para se despedir de vez, não é? — perguntou.
— Peça para ela entrar.
Antes mesmo de vê-la, Highfield imaginou quem seria. Ela parou na soleira da porta e corou ao notar quem o acompanhava.
— Ah, desculpe — disse ela, gaguejando. — Não tive a intenção de interrompê-lo.
A atenção do prefeito estava concentrada nos mostradores e ponteiros à sua frente, dos quais seus dedos insistiam em se aproximar.
— Imediato, dê atenção ao prefeito por um instante, por favor.
Ignorando o olhar fixo de Dobson, seguiu para a porta. Ela estava usando uma blusa azul-clara de manga curta e calça cáqui. Tinha o cabelo preso na nuca.
Parecia exausta e extremamente triste.
— Só queria me despedir e confirmar que o senhor não precisa mais de mim para nada. Enfim, só queria ter certeza de que está tudo bem.
— Tudo ótimo — respondeu ele, baixando os olhos para a própria perna. — Acho que podemos dizer que está liberada agora, enfermeira Mackenzie.
Ela olhou para o cais lotado de gente logo abaixo.
— Vai ficar bem? — perguntou ele.
— Vou, sim, comandante.
— Não tenho dúvida quanto a isso.
Ele sabia que gostaria de dizer mais coisas para aquela mulher calada e enigmática. Queria conversar mais uma vez com ela, ouvir mais histórias sobre seu tempo de serviço, fazê-la explicar as circunstâncias do seu casamento. Ele tinha amigos em cargos altos e queria garantir que ela arranjaria um bom trabalho. De que sua aptidão não seria desperdiçada. Afinal de contas, não havia garantia de que todas aquelas mulheres seriam bem aceitas.
Na frente dos seus homens, no entanto, ele não tinha condições de dizer nada. Pelo menos, nada que pudesse parecer apropriado. Ela deu um passo à frente e os dois trocaram um aperto de mão. O comandante tinha reparado nos olhares curiosos dos outros homens.
— Obrigado… por tudo — disse ele, baixinho.
— O prazer foi meu, comandante. Fico feliz de ter conseguido ajudar.
— Se algum dia… de algum modo, eu puder ajudá-la, ficarei muito feliz se me permitir…
Ela sorriu para ele e, por um instante, a tristeza desapareceu dos seus olhos.
Em seguida, ela foi embora balançando a cabeça, o que deu ao comandante a certeza de que ela não recorreria a ele.

* * *

Margaret parou diante do marido. O fato imutável de que ele estava ali a deixou atônita e sem palavras por um instante. Assim como a beleza simples dele em trajes civis. Assim como seu cabelo ruivo. E as pontas achatadas dos seus dedos compridos. O modo que ele admirava sua barriga. Ela afastou uma mecha de cabelo e se arrependeu de não ter feito um penteado bonito. Tentou falar, mas percebeu que não sabia o que dizer.
Joe a observou durante o que lhe pareceu uma eternidade. Ela estava chocada por considerá-lo quase um desconhecido naquele lugar desconhecido. Como se aquele novo ambiente o tivesse transformado em um estranho. A inibição fez com que ela baixasse os olhos. Em pânico e envergonhada sem saber o motivo, ficou paralisada. Até que ele deu um passo à frente com um grande sorriso e disse:
— Caramba, mulher, você parece uma baleia!
Ele a abraçou, repetindo diversas vezes seu nome e apertando-a com tanta força que o bebê chutou em protesto, o que fez Joe dar um pulo para trás, surpreso.
— Dá para acreditar nisso, mãe? Ela dissera que ele chuta como uma mula, e não estava errada. Que tal? — Ele tocou a barriga da esposa, depois segurou sua mão. Observou seu rosto. — Meu Deus, Maggie, é tão bom ver você.
Ele a abraçou de novo, e depois a soltou, mesmo relutante. Instintivamente, Margaret agarrou a mão do marido como se fosse sua tábua de salvação naquele novo país. Então viu a mulher ao seu lado, dois passos atrás, com um lenço na cabeça e a mala de mão debaixo do peito, dando a impressão de não querer interferir. Enquanto Margaret tentava, constrangida, ajeitar o vestido apertado demais, a mulher se aproximou com um grande sorriso.
— Margaret, querida. Estou muito feliz em conhecê-la. Olhe só para você… deve estar exausta.
Houve um breve silêncio e depois, enquanto Margaret tentava encontrar palavras para responder, a Sra. O’Brien deu um passo à frente e a abraçou.
— Como você é corajosa — disse ela, encostada no seu cabelo. — Toda essa distância… longe da família… Bem, não se preocupe. A partir de agora vamos tomar conta de você. Está me ouvindo? Vamos formar uma família feliz.
Ela sentiu as mãos da sogra acariciando suas costas e aspirou um suave perfume maternal de lavanda, água de rosas e fornada de pão. Margaret não soube dizer quem ficou mais surpreso, ela ou Joe, quando desatou a chorar.

* * *

O capitão fuzileiro o segurou com força no momento em que ele tentava abrir a porta da enfermaria. Nicol se livrou da mão que agarrava seu ombro.
— Caramba, fuzileiro, por onde andou?
Ele estava furioso.
— Eu… eu estava procurando uma pessoa, senhor.
Nicol havia revistado quase todo o navio: o único lugar que faltava era o convés de voo.
— Olhe só o seu estado! Que diabo aconteceu com você, meu chapa? E o Prod A? Todos os homens estão no convés de voo, mas há um maldito buraco onde você devia estar.
— Desculpe, senhor…
— Desculpe? Desculpe? O que você acha que aconteceria se todo mundo fizesse o mesmo que você e decidisse não aparecer, hein, caramba? Olhe só para você! Está com um cheiro insuportável de bebida!
Mais uma vez, ele ouviu gritos de alegria vindo do lado de fora. Do lado de fora. Ele precisava ir para os conveses. Lá poderia verificar com uma das oficiais se Frances havia desembarcado. Era possível que, naquele exato momento, ela se preparasse para deixar o navio.
— Estou decepcionado com você, Nicol. Você, que de todas as pessoas…
— Desculpe, senhor, mas preciso ir.
O capitão fuzileiro ficou boquiaberto. Seus olhos se arregalaram.
— Ir? Você precisa ir?
— É um assunto urgente, senhor.
Ele inclinou o corpo para passar por baixo do braço do seu superior, cujos gritos enfurecidos ainda ressoavam em seus ouvidos enquanto subia a escada de três em três degraus.

* * *

Avice os viu primeiro, antes que reparassem nela. Estava embaixo da torre de tiro, com o chapéu bem preso na cabeça para que não voasse, e observava o pequeno grupo no cais abaixo. Sua mãe usava um chapéu enfeitado com uma enorme pena azul-turquesa, o que parecia uma ostentação no meio das roupas sóbrias de tweed em tons de marrom ou cinza. Seu pai, com o chapéu enterrado até as sobrancelhas, como gostava, olhava ao redor a todo instante. Ela sabia quem ele estava procurando. Na mistura de uniformes da Marinha, ele devia estar se perguntando como alguém conseguiria encontrá-lo. Ela mal reparava no que a cercava, no que havia adiante do cais. De que adiantava, se ela já sabia que não ficaria no país?
— Radley. Sra. Avice Radley.
Avice respirou fundo, passou a mão na frente do casaco e andou devagar até o final da passarela de desembarque. Mantinha as costas tão eretas quanto as de uma modelo e o queixo empinado como se tentasse disfarçar seu andar desajeitado.
— Lá está ela! Lá está ela! — A voz estridente da mãe refletia sua animação. — Avice, querida! Olhe para cá! Olhe! Estamos aqui!
Na frente dela, onde a passarela encontrava o cais, uma das esposas, que Avice reconheceu das palestras sobre costura, bloqueou a passagem nos últimos degraus e se jogou nos braços de um soldado. Largou a bolsa e o chapéu que estava segurando na mão esquerda e o abraçou por um tempo interminável, as
mãos acariciando seu cabelo, o rosto dele colado no dela. Uma vez ou outra, eles se desgrudavam, roçavam os narizes e murmuravam o nome um do outro. Como não conseguia ultrapassá-los, Avice foi obrigada a continuar ali, presa na passarela, tentando desviar os olhos do casal que reacendia a paixão.
— Avice! — Sua mãe pulava freneticamente atrás do casal. — Lá está ela, Wilf! Olhe nossa menina!
Por fim, o soldado percebeu que estava impedindo a passagem das outras mulheres, então se desculpou rapidamente e puxou a esposa para o lado.
— Sabe como é — disse ele com um sorriso.
— Ah, sim — respondeu Avice. — Sei como é.
Sua mãe subiu correndo os últimos degraus para encontrá-la. Chorava de tanta felicidade.
— Ah, querida, é tão bom ver você de novo! O que acha disso? Foi uma surpresa e tanto, não?
O pai se aproximou para abraçá-la.
— Sua mãe não parou de choramingar desde que você foi embora. Ela não suportava imaginar que vocês não estivessem bem e em lados opostos do planeta. É uma bela prova de amor, não acha, princesa?
Havia tanto amor e orgulho no rosto dos dois, que Avice percebeu, horrorizada, que se eles continuassem assim, ela não aguentaria.
Deanna deu um passo à frente. Estava usando um conjunto novo cor de cereja.
— Qual delas era a prostituta? Mamãe quase teve um ataque quando recebeu a carta da Sra. Carter.
— Onde está Ian? — Sua mãe observava os rostos dos homens de uniforme da Marinha. — Acha que ele veio com a família?
— Espero que você não tenha perdido meus sapatos — sussurrou Deanna. — Quero que me devolva antes de ir embora daqui.
— Ele não vem — respondeu Avice.
— Não é possível que ele já tenha partido para uma nova missão. Achei que todos os homens seriam autorizados a vir recebê-las! — argumentou a mãe, levando a mão enluvada à boca. — Bem, graças a Deus nós viemos, Wilf. Não acha?
— Pelo menos a família de Ian vem recebê-la? Não tivemos notícias deles. — O pai a segurou pelo braço. — Trouxe um rádio para eles. Da melhor qualidade.
Avice parou e tentou manter a expressão mais digna possível.
— Ele não vem, papai. Houve… houve uma mudança nos planos.
Houve um breve silêncio. Seu pai se virou para ela. Avice achou que tinha escutado a irmã dar um leve sorriso de satisfação.
— O que quer dizer? Está querendo dizer que gastei quatrocentos dólares em passagens de avião e não vai ter nenhuma celebração? Você tem ideia de quanto custou esta viagem e…
— Wilf! — A mãe repreendeu o marido e se virou para a filha. — Avice, querida…
— Não quero falar sobre isso agora, neste cais cheio de gente.
Seus pais se entreolharam. Deanna não conseguia disfarçar a alegria com aquela novidade inesperada. Parecia impressionada com a dimensão da catástrofe pessoal de Avice.
Enquanto as quatro ainda estavam no cais, no meio da multidão alvoroçada, um alto-falante distante pediu que alguém fosse, por favor, à sala do capitão do porto buscar uma criancinha perdida. Ela estava usando um casaco vermelho e dizia se chamar Molly. Não tinham maiores informações.
Avice se virou para olhar o navio. Com passos imprudentes por causa dos sapatos de salto alto, uma das esposas descia a passarela correndo. Quando chegou ao cais, se jogou nos braços de um oficial que a ergueu do chão e a rodopiou várias vezes. Pelo uniforme, Avice reconheceu que ele era um oficial. Ela sempre tivera facilidade em reconhecer uniformes. Não digam mais nada, pediu ela em silêncio, mordendo o lábio. Nenhuma palavra a mais ou vou gritar tão alto que vai parar Plymouth inteira.
Sua mãe ajeitou o chapéu, levantou um pouco a estola de pele para proteger melhor os ombros e depois enganchou o braço no de Avice. Talvez por compreendê-la, talvez por ter notado alguma coisa na expressão da filha, preferiu não olhá-la de frente. Quando falou, sua voz soou fraca e claramente embargada:
— Bem, minha querida, no hotel, quando você estiver preparada, teremos uma conversinha. — Ela começou a andar. — É um hotel ótimo, sabe. Os quartos têm um tamanho excelente. Temos uma sala de estar só nossa junto aos quartos, e uma vista espetacular de toda a Cornualha…

* * *

Frances desceu lentamente a passarela, com a mala na mão direita e a outra apoiada de leve no corrimão. Ela se sentia invisível no meio de todas aquelas pessoas felizes, abraçadas umas às outras. Conforme chegava mais perto do cais, reconhecia o rosto de mulheres com as quais havia convivido durante as últimas seis semanas. Algumas exibiam sorrisos radiantes, outras choravam de emoção, todas apaixonadamente abraçadas pelos maridos. Por um breve instante, ela se permitiu imaginar como seria estar no lugar de uma daquelas mulheres para quem havia um abraço no fim da passarela de desembarque, para quem não havia apenas uma, mas muitas pessoas para lhe oferecer uma acolhida calorosa. Ela continuou descendo. Um recomeço, disse a si mesma. Era esse o objetivo da viagem. Conseguir um recomeço.
— Frances!
Ela se virou e viu Margaret acenando freneticamente, o que levantava seu vestido e deixava à mostra os joelhos roliços. Joe estava ao seu lado, com o braço ao redor dos seus ombros. Uma mulher mais velha segurava sua mão. Tinha uma expressão bondosa, parecida com a de Margaret, que estava radiante, apesar dos vestígios de lágrimas no rosto.
Frances andou na direção da amiga. Seus passos estavam surpreendentemente instáveis em terra firma e ela precisou se esforçar para não cambalear. As duas largaram as malas e se abraçaram.
— Você não pretendia ir embora sem meu endereço, não é?
Frances balançou a cabeça e olhou de relance para as duas pessoas que recebiam Margaret com satisfação como uma integrante da família. No navio, ela e Margaret estavam nas mesmas condições, mas agora, sozinha no meio de inúmeras famílias, se sentia diminuída.
Margaret pegou uma caneta com o marido e aceitou o pedaço de papel oferecido pela sogra. Encostou a caneta no papel, hesitou, em seguida riu e perguntou:
— Qual é meu endereço, afinal?
Joe também riu, depois rabiscou algo no papel que Margaret colocou na mão de Frances.
— Assim que se acomodar, me escreva e mande seu endereço, está me ouvindo? Esta é minha querida amiga Frances — explicou aos dois. — Ela ajudou a cuidar de mim. É enfermeira.
— Prazer em conhecê-la, Frances — disse Joe, estendendo sua mão enorme. — Venha nos visitar. Quando quiser.
Frances tentou lhe dar um aperto de mão igualmente cordial. A sogra de Margaret balançou a cabeça e sorriu antes de consultar o relógio de pulso.
— Joseph, o trem — murmurou ela.
Frances sabia que era hora de partir.
— Cuide-se — recomendou Margaret, apertando o braço da outra.
— Ficarei à espera de notícias — disse Frances, apontando para a barriga da amiga.
— Vai dar tudo certo — garantiu Margaret com confiança.
Frances observou os três se dirigirem para os portões do cais, de braços dados e ainda conversando, até que as pessoas aglomeradas ao redor taparam sua visão.
Ela respirou fundo, tentando se livrar do grande nó que sentia na garganta.
— Vai ficar tudo bem — disse para si mesma. — Um recomeço.
Nesse momento, ela se voltou para o navio. Havia homens se movimentando de um lado para outro, mulheres ainda acenando. Ela não reconhecia nada, ninguém. Ainda não estou preparada, pensou. Não quero ir. Então parou. Era apenas uma garota magra sendo empurrada pela multidão, com lágrimas escorreram pelo rosto.

* * *

Nicol abriu caminho pelas mulheres na fila. Várias reclamaram alto.
— Frances Mackenzie — gritou ele para a oficial. — Onde ela está?
A mulher se irritou.
— Quer me dar licença? Minha função é conferir o desembarque destas senhoras.
Ele a segurou pelo punho e, com a voz rouca de urgência, insistiu:
— Onde ela está?
Os dois se entreolharam. Então os olhos da mulher se semicerraram e ela percorreu várias páginas com a ponta da caneta.
— Mackenzie, você disse. Mackie… Mackenzie, B… Mackenzie, F. É ela?
Ele agarrou a prancheta.
— Ela já foi — respondeu a oficial, pegando a prancheta de volta. — Já desembarcou. Agora queira me dar licença.
Nicol correu para a lateral do navio, se debruçou na amurada para tentar ver no meio da multidão a silhueta inconfundível dela, forte e magra, com o cabelo ruivo desbotado pelo sol. No cais, milhares de pessoas ainda se acotovelavam, acenavam umas para as outras, sumiam e reapareciam.
Desesperado, sentindo um nó na garganta, ele começou a gritar:
— Frances! Frances!
Mas já estava consciente do tamanho da sua perda, da sua derrota. Sua voz, entrecortada por causa da emoção, pairou por um instante sobre a multidão, depois foi levada pelo vento na direção do mar.

* * *

O comandante Highfield foi quase o último homem a sair do navio. Ele havia realizado a cerimônia de despedida, ladeado por seus homens, mas parou na passarela, olhou ao longe, como se relutasse em desembarcar.
Depois de perceber que ele não tinha pressa de sair, alguns oficiais graduados se alinharam diante dele para lhe desejar felicidades para o futuro. Dobson se despediu da forma mais rápida possível e falou de modo ostensivo sobre sua próxima missão. Duxbury foi embora de braços dados com uma das passageiras. Rennick, que permaneceu a bordo até o último momento, se recusou a encarar Highfield nos olhos. Mas apertou calorosamente sua mão e recomendou, com a voz trêmula, que “se cuidasse um pouco”.
O comandante apoiou a mão em seu ombro e o apertou.
Então ele ficou sozinho no alto da passarela de desembarque.
As poucas pessoas que observavam do cais, as poucas que se importavam em lhe dar alguma atenção, apesar dos compromissos bem mais urgentes que as esperavam, comentaram mais tarde que era estranho ver um comandante completamente sozinho em uma ocasião como aquela, com tanta gente aglomerada no cais. E que, por mais estranho que pudesse parecer, raras vezes tinham visto um homem daquela idade parecer tão perdido.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!