30 de março de 2019

Capítulo 24


Rindo, Bonnie tropeçou ao descer a escada, o pé saindo do sapato de salto alto.
— Aqui está, Cinderela — disse Zander, pegando o sapato e ajoelhando-se diante dela. Ajudou-a a calçá-lo, com os dedos quentes e firmes no arco do pé. Bonnie fez uma falsa mesura, reprimindo o riso.
— Obrigada, milorde — agradeceu ela, sedutora.
Ela se sentia fabulosa, tão bobalhona e feliz. Era quase como se estivesse bêbada, mas só tinha tomado uns goles de cerveja. Não, ela estava bêbada. Bêbada de Zander, de seus beijos, de suas mãos gentis, de seus grandes olhos azuis. Ela pegou a mão de Zander e ele sorriu, aquele longo sorriso lento, e Bonnie simplesmente tremeu.
— Parece que a festa está acabando — disse ela quando eles chegaram ao térreo.
Era bem tarde, quase duas da manhã. Só havia alguns grupos de convidados mais resistentes: um bando de rapazes de fraternidade perto da cerveja, algumas meninas do departamento de teatro dançando com gestos largos dos braços, um casal sentado de mãos dadas no primeiro degrau da escada numa conversa intensa. Meredith, Stefan, Samantha e Matt haviam desaparecido, e Elena, se é que apareceu na festa mesmo, também saíra. Os amigos de Zander tinham ido embora ou sido expulsos.
— Tchau, tchau — cantarolou Bonnie às poucas pessoas que ainda restavam.
Ela não teve a chance de conversar com nenhum deles, mas todos pareciam muito legais. Talvez da próxima vez que fosse a uma festa, ficasse mais tempo e realmente se relacionasse com pessoas que ainda não conhecera.
Veja todos os novos amigos que os amigos dela fizeram no campus. Bonnie deu um aceno especial para as pessoas que vira com Matt recentemente — um cara baixinho cujo nome ela achava que era Ethan e aquela menina de cachos escuros e covinhas. Não eram calouros. Ela adorara todo mundo esta noite, mas eles mereciam ainda mais, porque tinham visto como Matt era um cara maravilhoso. Eles responderam ao aceno, meio hesitantes, e a menina sorriu, aprofundando as covinhas.
— Eles parecem muito legais — comentou Bonnie a Zander, e ele olhou para os dois ao abrir a porta.
Hummm — disse ele com indiferença, e seu olhar, só por um minuto, fez Bonnie tremer.
— Não são? — perguntou ela, nervosa. Zander virou a cara, voltando a atenção para ela, e seu sorriso brilhante e caloroso se espalhou pelo rosto. Bonnie relaxou; a frieza que vira nos olhos de Zander devia ter sido só um truque da luz.
— Claro que são, Bonnie. Só me distraí por um segundo. — Ele passou o braço por seus ombros, puxando-a para perto, e plantou um beijo no alto de sua cabeça. Ela suspirou de satisfação, aninhando-se nele.
Eles andaram juntos por um tempo.
— Olhe as estrelas — disse Bonnie baixinho. A noite estava clara, e elas brilhavam no céu. — É porque começou a fazer frio à noite que podemos enxergá-las tão bem.
Zander não respondeu, apenas soltou um murmúrio grave e gutural de novo, e Bonnie o olhou por entre os cílios.
— Quer tomar café comigo de manhã? — perguntou. — Aos domingos, o refeitório tem waffles que a gente mesmo faz, com muitas coberturas diferentes. Uma delícia.
Zander olhava ao longe com aquela expressão distraída que assumiu da última vez que eles atravessaram o campus juntos.
— Zander? — chamou Bonnie com cautela, e ele franziu a testa para ela, mordendo o lábio, pensativo.
— Desculpe — disse ele. Zander retirou o braço dos ombros de Bonnie e recuou alguns passos, sorrindo rigidamente. Todo o seu corpo estava tenso, como se ele estivesse prestes a sair correndo.
— Zander? — chamou Bonnie novamente, confusa.
— Esqueci uma coisa — disse ele, evitando seus olhos. — Tenho que voltar à festa.
— Ah, eu vou com você — ofereceu Bonnie.
— Não, está tudo bem. — Zander se remexia de um pé para o outro, olhando por cima do ombro de Bonnie como se, de repente, preferisse estar em qualquer outro lugar que não fosse ali com ela.
Abruptamente, avançou e lhe deu um beijo desajeitado, chocando os dentes, depois recuou e se virou, andando para o outro lado. Seus passos se apressaram e logo ele estava correndo para longe dela, desaparecendo na noite. De novo. Ele não olhou para trás.
Bonnie, de repente sozinha, tremeu e olhou em volta, espiando a escuridão por todos os lados. Estava tão feliz um minuto atrás e agora sentia frio e desânimo, como se tivesse levado um balde de água gelada.
Só pode ser brincadeira comigo — disse ela em voz alta.


Elena tremia tanto que Damon teve medo de ela se desintegrar. Ele a abraçou, reconfortando-a, e ela o olhou sem realmente parecer vê-lo, com os olhos vidrados.
— Stefan... — gemeu baixinho, e Damon teve de reprimir uma pontada aguda de irritação.
Então Stefan tinha exagerado na reação. Que novidade havia nisso? Damon estava ali, Damon estava com ela e a apoiava, e Elena precisava perceber isso. Ele ficou tentado a pegá-la firmemente pelo queixo e fazer com que ela realmente olhasse para ele.
Nos velhos tempos, ele teria feito exatamente isso. Ora essa, nos velhos tempos, ele teria mandado uma rajada de Poder a Elena até que ela ficasse dócil em seus braços, até que nem se lembrasse do nome de Stefan. Seus caninos coçavam de desejo só de pensar nisso. O sangue dela parecia vinho.
Mas esperar que Elena cedesse humildemente ao seu Poder nunca funcionou muito bem, admitiu para si mesmo, com a boca se curvando num sorriso.
Entretanto ele não era mais assim. E não a queria desse jeito. Ele estava se esforçando muito, embora odiasse admitir até a si mesmo, para ser digno de Elena. Para ser digno até de Stefan, pensando bem. Foi reconfortante finalmente ter o irmão mais novo olhando para ele com algo além de ódio e repulsa.
Bem, isso acabara. A trégua hesitante, o início da amizade, a fraternidade, o que havia entre ele e Stefan tinha terminado.
— Vamos, princesa — murmurou a Elena, ajudando-a a subir a escada até a porta. — Só mais um pouco.
Ele não podia se arrepender de terem se beijado. Ela era tão linda, tão viva e vibrante. E tinha um gosto tão bom.
E ele a amava, com toda a intensidade possível para um coração duro. Sua boca se curvou de novo e ele sentiu o gosto da própria amargura. Elena nunca seria dele, não é? Mesmo quando Stefan deu as costas a ela, o idiota hipócrita, era só nele que ela pensava. A mão livre de Damon, a que não estava pousada de um jeito protetor sobre o ombro de Elena, cerrou-se num punho.
Eles tinham chegado ao alojamento de Elena, e Damon pegou a chave na bolsa dela, destrancando a porta.
— Damon — disse Elena, virando-se na soleira para olhá-lo nos olhos pela primeira vez desde que Stefan os pegou no meio do beijo. Ela ainda estava lívida, mas resoluta, com a boca numa linha firme. — Damon, isso foi um erro.
O coração de Damon despencou feito uma pedra, mas ele sustentou o olhar dela.
— Eu sei — disse com a voz firme. — Mas tudo vai se ajeitar no final, princesa, você verá. — Ele forçou os lábios a se abrirem num sorriso tranquilizador, dando-lhe apoio. O sorriso de um amigo.
Então Elena se foi, a porta do quarto se fechando firme às suas costas.
Damon deu meia-volta, xingando, e chutou a parede de trás. Ela estalou e ele chutou de novo, com uma satisfação acre ao sentir o reboco se quebrando.
Houve um murmúrio vindo de trás das outras portas no andar, e Damon ouviu passos se aproximando, alguém vindo investigar o barulho. Se tivesse de lidar com alguém agora, provavelmente mataria a pessoa. Não seria uma boa ideia, por mais que pudesse desfrutar do momento, não com Elena bem ali.
Atirando-se em direção a uma janela aberta no corredor, Damon se transformou tranquilamente num corvo em pleno ar. Era um alívio esticar as asas, pegar o ritmo do voo e sentir a brisa nas penas, erguendo-o e sustentando-o. Ele voou pela janela com alguns golpes fortes das asas e se lançou na noite. Pegando o vento, disparou para bem alto, apesar da escuridão da noite. Precisava do vento correndo pelo corpo, precisava da distração.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!