14 de março de 2019

Capítulo 24

Quando o porta-aviões Victorious chegou a Plymouth na noite de ontem… algumas jovens estavam tão ansiosas para ver o que fosse possível da Inglaterra que se aglomeraram em um pilar que acabou cedendo com a pressão. Vinte delas caíram no convés abaixo, de uma altura de dois metros e meio. Nenhuma se machucou. No entanto, uma não pôde compartilhar a alegria geral. Após uma viagem de vinte e um mil quilômetros, foi informada de que o marido, que devia estar à sua espera, passou a ser considerado desaparecido após um acidente de avião.
DAILY MIRROR, QUARTA-FEIRA, 7 DE AGOSTO DE 1946

OITO HORAS ATÉ PLYMOUTH

Um uniforme da Marinha, sem o suporte de uma estrutura humana, é uma coisa curiosa. Com seu tecido grosso e escuro e os botões de bronze trabalhados, sugere categorias bem distintas de seres, de desfiles, do esforço — passar, consertar, limpar — envolvidas na sua conservação. Sugere a patente, as rotinas e os hábitos de quem veste. Conforme as insígnias e os galões, o uniforme também pode fazer referência a conflitos. E conta uma história de batalhas ganhas ou perdidas, de sacrifícios feitos. De bravura e de medo.
Porém, um uniforme nada revela sobre uma vida. Highfield contemplou o seu, passado com capricho pelo intendente, e que estava pendurado e com as dragonas protegidas por papel de seda, pronto para ser usado pela última vez quando o Victorious atracasse no dia seguinte. O que esse uniforme conta sobre mim?, pensou ele, passando a mão pela manga. Identifica um homem que só sabia quem era quando participava de uma guerra? Ou de um homem que percebe agora que as coisas das quais sempre quis manter distância, como intimidade e relações sociais, foram as que mais lhe fizeram falta?
Highfield se virou para o mapa dobrado em cima da mesa ao lado de um compasso. Mais adiante estava seu baú, empacotado pela metade. Ele sabia onde o intendente o teria colocado. Não precisou enfiar a mão muito embaixo das roupas impecavelmente dobradas para encontrar o porta-retratos que durante os últimos seis meses ficara virado para baixo dentro da gaveta. Pegou-o e tirou o papel de seda com o qual Rennick o envolvera por precaução. No porta-retratos de moldura prata havia a fotografia de um rapaz, com o braço sobre os ombros de uma mulher sorridente que tentava, com uma das mãos, afastar as mechas castanhas que o vento insistia em soprar para seu rosto.
Ele havia garantido à irmã que se tornaria um homem. A Marinha transformava meninos em homens. Ele saberia se cuidar.
Ficou encarando a imagem do rapaz sorridente com um braço sobre os ombros da esposa. Depois afastou um pouco o mapa e colocou o porta-retratos em pé em cima da mesa. Seria a última coisa que ele levaria daquele navio.
Estavam a poucas horas de Plymouth. Quando as mulheres acordassem, o navio estaria se preparando para desembarcá-las rumo às suas novas vidas. No dia seguinte, desde cedo, o navio enfrentaria um turbilhão de atividades: intermináveis verificações e conferências, mulheres e homens enfileirados à espera das bagagens, todos os procedimentos regulamentares e obrigatórios envolvidos na tarefa de levar para o porto um navio de prestígio. Ele já tinha passado por tudo isso, a animação, a espera nervosa dos homens prestes a desembarcar. Só que dessa vez a guerra havia acabado. Eles sabiam que a folga estava garantida, que o retorno era definitivo.
Correriam para fora do navio diretamente para os abraços lacrimosos, os olhos semicerrados em gratidão, a animação incontida dos filhos. Sairiam dali a pé ou em carros barulhentos para casas que se pareceriam ou não com as que eles ainda guardavam na memória. Se tivessem sorte, haveria, por fim, a sensação de um vazio preenchido.
Nem todos teriam tanta sorte. Ele vira alguns parentes seguirem para o porto mesmo depois de receberem o temido telegrama, incapazes ou sem querer aceitar que seu John, seu Robert ou seu Michael jamais voltaria para casa. Era possível identificá-los, mesmo no meio da multidão, pelo olhar fixo na passarela de desembarque, as mãos agarrando bolsas ou jornais, na esperança de comprovar que se tratava de um erro.
Por outro lado, havia a bordo pessoas como Highfield. Aquelas que não tinham o retorno marcado por sorrisos ou agradecimentos clamorosos e que seguiam discretamente em meio a empurrões e famílias reunidas, e talvez fossem recebidos a quilômetros de distância pela alegria muda de parentes que os toleravam por piedade, por terem o mesmo sangue. Por obrigação.
Highfield olhou de novo para o uniforme que usaria pela última vez no dia seguinte. Depois puxou uma cadeira, se sentou e começou a escrever.

Querida Iris,
Tenho notícias para lhe dar. Não vou voltar para Tiverton. Por favor, mande minhas desculpas ao lorde Hamworth e diga que estou disposto a indenizá-lo por qualquer perda financeira que minha decisão possa acarretar.
Decidi, após muita reflexão, que a vida em terra provavelmente não foi feita para mim…

Nicol não conseguia pensar em outro lugar para ir. Já era quinze para uma da manhã e o alojamento continuava repleto de homens barulhentos, animados com a espera e as doses extras de bebida. Eles arrancavam as fotos das paredes e as jogavam nas mochilas abarrotadas, trocavam informações sobre os lugares aonde iriam, sobre o que gostariam de fazer primeiro. Se as esposas arranjassem alguém que pudesse tomar conta das crianças… Ele não tinha vontade de se sentar entre os colegas, não se sentia em condições de participar das brincadeiras bem-humoradas. Precisava ficar sozinho para refletir sobre o que lhe acontecera.
Ainda sentia o sabor dos lábios de Frances. Seu corpo estava tenso, tomado por uma dolorosa sensação de urgência. Será que ela o odiava? Será que não o considerava melhor do que Tims ou qualquer outro? Por que ele reagira daquele modo, quando ela havia passado semanas, anos até, desprezando os homens que a viam apenas como um corpo?
Ele tinha subido para o convés de voo, mas não esperava ter companhia.
O comandante estava de pé na proa, diante do passadiço. Estava com camisa sem manga e com a cabeça descoberta, ao vento. Quando chegou ao convés, Nicol parou na escotilha e pensou em dar meia-volta, mas Highfield já percebera sua presença e o fuzileiro sentiu que não poderia ignorá-lo.
— Acabou seu turno?
Nicol deu um passo à frente para ficar ao lado do comandante. Fazia frio no convés, era a primeira vez que ele realmente sentia frio desde que tinham saído da Austrália.
— Sim, comandante. Não vamos ficar de serviço nas cabines das passageiras esta noite.
— Era você quem vigiava a da enfermeira Mackenzie, não era?
Nicol o olhou com frieza. Mas o comandante parecia tranquilo e perdido em pensamentos.
— Isso mesmo, comandante.
Ele não conseguia acreditar que ela tivesse ficado magoada. Suas mãos frias o puxaram para perto, em vez de afastarem. A cabeça de Nicol parecia girar com aquela incerteza. Como pude agir assim depois do que Fay me fez passar?
As mãos do comandante estavam enfiadas no fundo dos bolsos.
— Estão todas bem agora, não é? Ouvi dizer que duas estavam na enfermaria.
— Estão bem, comandante.
— Ótimo. Ótimo. Onde está Duxbury?
— Ele… hum… acredito que esteja tirando um cochilo.
O comandante o olhou de soslaio, pareceu notar algo na expressão de Nicol e deixou escapar um suspiro fraco mas evidente.
— Você é casado, Nicol? Não consigo lembrar se Dobson me falou alguma coisa sobre isso.
Antes de responder, Nicol observou o ponto onde o oceano escuro encontrava o céu. Um punhado de estrelas apareceu quando as nuvens se afastaram e também a lua, que iluminou por um breve instante a infinita paisagem em movimento.
— Não, comandante — respondeu. — Não mais.
Ele reparou no olhar curioso de Highfield.
— Não fique entusiasmado demais com a liberdade, Nicol. A falta de responsabilidade, de vínculos… pode ser uma faca de dois gumes.
— Estou começando a entender isso, comandante.
Eles permaneceram ali por algum tempo em um silêncio sociável. Os pensamentos de Nicol estavam tão agitados quanto o mar, e ele ficava arrepiado quando pensava na garota na sua cabine. O que eu devia ter feito?, perguntou a si mesmo. O que devo fazer?
Highfield se aproximou um pouco mais de Nicol. Tirou uma caixa de charutos do bolso e ofereceu um ao fuzileiro.
— Pegue um. Para comemorar. Minha última noite como comandante. Minha última noite depois de quarenta e três anos na Marinha.
Nicol aceitou o charuto e o comandante o acendeu, com a mão em concha para proteger a chama da brisa do mar.
— O senhor vai sentir falta. Daqui.
— Não vou, não.
Perplexo, Nicol se virou para ele.
— Logo mais vou voltar ao mar — explicou Highfield. — Vou tentar a Marinha Mercante, esse tipo de coisa. Ouvi dizer que há uma grande demanda por tripulantes. Não sei, Nicol. Essas garotas me fizeram refletir. Se elas conseguem mudar de vida…
Ele deu de ombros.
— O senhor não acha… que merece passar um tempo em terra?
O comandante suspirou.
— Não tenho certeza, Nicol, se conseguiria me adaptar à vida em terra. Não por muito tempo.
Em algum lugar sob seus pés, as placas metálicas do convés de voo do Victorious rangeram, sinalizando um movimento tectônico distante. Os dois homens contemplaram a superfície repintada, as áreas ao ar livre onde o interior do navio ficava exposto ao céu noturno. Pensaram no motor, cujo esforço ficava evidente com a vibração sentida e nos rastros irregulares de espuma, quando na verdade deviam formar uma linha extensa e contínua na água. O navio sabia. Os dois percebiam.
O comandante Highfield deu uma tragada no charuto. Apesar da camisa fina, não parecia sentir frio.
— Sabia que ela serviu no Pacífico?
— Nossa embarcação? O Victorious?
— Não. A enfermeira Mackenzie, de quem você vigia a cabine, não é?
— Sim, comandante.
O que ela estava fazendo naquele momento? Será que estava pensando nele?
Sem se dar conta, levou a mão ao rosto, onde ainda sentia o toque dos dedos dela.
Ele mal ouvia o que o comandante dizia.
— Mulher corajosa. Como todas elas, aliás. Pense nisso. Amanhã, a esta hora, elas já saberão qual futuro lhes espera…
Com aquele homem, o homem que Nicol queria odiar, queria desprezar pelo simples fato de ter direitos sobre ela. Por outro lado, o jeito que ela o descrevera, como poderia odiar um soldado tão bom e atencioso? Como poderia desprezar o homem que conseguira, do leito de um hospital, ser um marido melhor do que ele jamais havia sido…?
Nicol se sentiu febril, apesar do ar fresco da noite. Pensou que seria melhor se afastar, ficar sozinho em outro lugar. Em qualquer lugar.
— Comandante, eu…
— Pobre moça. É a segunda a bordo, sabe.
Sua pele queimava. Sentiu uma vontade súbita de mergulhar na água fria do mar.
— Segunda o quê, comandante?
— Viúva. Recebi um telegrama ontem destinado a uma das garotas do convés B. O avião do marido caiu em Suffolk. Voo de treinamento, acredita?
— O marido da Sra. Mackenzie morreu?
Nicol ficou paralisado. Sentiu uma pontada de culpa, como se tivesse desejado que isso acontecesse.
— Mackenzie? Não, não, ele… ele morreu já faz algum tempo. Quando ela ainda estava no Pacífico. É uma decisão estranha, na verdade, deixar a Austrália sem ter ninguém à sua espera. De todo modo, a guerra é assim.
Ele inspirou diversas vezes, como se conseguisse detectar o cheiro da proximidade de terra firme.
Viúva?
— Olhe só a hora. Não vale mais a pena dormir agora. Vamos, Nicol, venha tomar um drinque comigo.
Viúva? A palavra ressoou de forma agradável na sua cabeça. Ele queria gritar: “Ela é viúva!” Por que não lhe contara? Por que não contara a ninguém?
— Então, Nicol, o que quer beber? Uísque?
— Comandante?
Ele olhou na direção da escotilha, subitamente desesperado para voltar à cabine de Frances, para contar que sabia. Por que não contei a verdade para ela?, pensou ele. Ela poderia ter se aberto comigo. De repente, Nicol compreendeu que talvez ela imaginasse que sua condição de casada lhe oferecia uma segurança que jamais tivera.
— Sua dedicação ao trabalho é admirável, Nicol, mas desta vez estou dando uma ordem. Relaxe um pouco.
Nicol parecia atraído pela escotilha.
— Comandante, eu realmente…
— Vamos, fuzileiro, me dê esse prazer. — Highfield esperou até ter certeza de que Nicol o acompanhava à sua cabine. Então olhou para ele com uma conspiração rara e ardilosa no sorriso. — Além disso, como aquele cachorrinho vai conseguir descansar se ouve sempre você andar para lá e para cá do lado de fora da porta?
Quando Nicol se virou, o comandante apontou o indicador para ele em sinal de repreensão.
— Sei o que acontece aqui dentro, Nicol. Posso estar quase me aposentando, mas garanto que quase nada do que acontece neste navio passa despercebido por mim.

* * *

Está tarde demais para acordá-la quando ele sai da câmara do comandante. Isso não lhe preocupa: sabe que tem tempo. Com o estômago cheio de uísque e aquela palavra ainda ressoando na cabeça, ele tem todo o tempo do mundo.
Semicerra os olhos para evitar a claridade excessiva do azul do céu enquanto atravessa o convés de voo e percorre sem pressa o convés do hangar. Ele para ao chegar à área feminina e aproveita o silêncio da madrugada e o som das gaivotas barulhentas na baía de Plymouth, o som do seu lar.
Nicol encara a porta, aquele retângulo de metal que ama como jamais amou outra coisa. Em seguida, após um momento de hesitação, ele se vira, apoia as mãos às costas e permanece do lado de fora, com os pés bem firmes no piso manchado pela fumaça, piscando devagar, ainda um pouco confuso com o excesso de bebida e charuto.
É o único fuzileiro que, na manhã seguinte, vai vestir um uniforme sujo e amassado. É o único fuzileiro que desobedecerá às ordens ao se aproximar das passageiras, o que é proibido.
É o único fuzileiro em serviço em todo o convés do hangar, e ele exibe uma expressão de orgulho, misturada com um sentimento indescritível de alívio.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!