30 de março de 2019

Capítulo 23

— Não sei como ficou tão tarde — comentou Elena pela terceira vez enquanto eles seguiam apressados pela calçada e passavam pelo pátio. — Bonnie e Meredith devem estar preocupadas comigo.
— Elas sabem que você está comigo — disse Damon, andando sem se abalar ao lado dela.
— Acho que elas não vão achar isso reconfortante. — Elena mordeu a língua quando Damon lhe lançou um olhar.
— Depois de todo o tempo que lutamos lado a lado, elas ainda não confiam em mim? — perguntou ele com a voz sedosa. — Eu ficaria terrivelmente magoado. Se me importasse com o que elas pensam.
— Não quero dizer que elas acham que você me faria mal. Não pensam mais assim. Ou que você não me protegeria. Acho que elas se preocupam que você... dê em cima de mim. Ou coisa parecida.
Damon parou e olhou para Elena. Depois pegou a mão dela e virou a palma para cima, passando um dedo pela parte interna do braço, acompanhando a veia que ia do pulso de Elena até o cotovelo.
— E o que você acha? — perguntou, sorrindo gentilmente.
Elena puxou a mão de volta, fuzilando-o com os olhos.
— É claro que elas têm razão. Pare com isto. Apenas amigos, lembra?
Depois de um suspiro longo, Damon recomeçou a andar, e Elena correu para alcança-lo.
— Que bom que você decidiu ir à festa comigo — disse ela por fim. — Vai ser divertido.
Damon lançou um olhar negro por entre os cílios, mas não disse nada.
Sempre era divertido ficar com Damon, pensou Elena, ouvindo o estalo dos próprios saltos e vendo a própria sombra crescer e desaparecer enquanto eles passavam sob as luzes da rua. Ou, pelo menos, sempre era divertido quando Damon estava de bom humor e nada tentava matá-los, duas circunstâncias que ela queria que coincidissem com mais frequência.
Stefan, o doce e querido Stefan, era o amor de sua vida. Elena não tinha dúvidas disso. Mas Damon a deixava impetuosa e animada, tomada por algo maior que ela mesma. Damon fazia com que ela se sentisse especial.
E ele estava mais descontraído que de costume. Depois que Matt saiu, eles vasculharam mais um pouco a biblioteca, e Damon comprou fritas e refrigerante da máquina do porão. Eles se sentaram a uma das mesinhas, conversaram e riram. Não era nada chique nem elegante, nada parecido com as festas em que ele foi seu acompanhante na Dimensão das Trevas, mas era confortável e divertido. Quando ela olhou o celular, e ficou assustada ao ver que tinha se passado mais de uma hora.
E agora Damon até se ofereceu para ir a uma festa de universitários com cerveja. Talvez ele estivesse tentando se entender com os amigos dela. Talvez eles pudessem mesmo ser amigos, depois que as coisas se ajeitassem de algum modo entre Stefan e ele.
Elena tinha chegado a esse ponto em suas reflexões quando de repente teve a sensação inconfundível e arrepiante de que estava sendo observada. Os pelinhos de sua nuca se eriçaram.
— Damon — disse ela baixinho. — Tem alguém nos observando.
As pupilas de Damon se dilataram e ele farejou o ar. Elena sabia que ele procurava com seu Poder por uma resposta, se havia alguém concentrado neles.
— Nada — disse Damon depois de um momento. Ele colocou a mão sob o braço de Elena, puxando-a para mais perto. — Pode ser só sua imaginação, princesa, mas vamos ter cuidado.
O couro da jaqueta de Damon era macio no corpo de Elena, e ela se segurou firme nele ao saírem na rua que dividia o campus.
Do outro lado, um carro que estava em ponto morto junto ao meio-fio ligou o motor. Os faróis se acenderam, ofuscando Elena. O braço de Damon se fechou em sua cintura, tirando-lhe o fôlego.
O carro cantou pneu e disparou em direção aos dois. Elena entrou em pânico — ahmeu Deus, ah, meu Deus, pensou, impotente — e ficou paralisada. Depois estava voando pelo ar, Damon segurando-a com tanta força que doía.
Quando eles bateram na grama do outro lado da rua, Damon parou por um momento, ajustando o aperto em Elena, e ela espiou o carro, que tinha passado por onde eles estavam segundos antes e fazia a volta numa derrapada. Não conseguia distinguir nada, nem que carro era, nem nada do motorista; atrás das luzes altas, tudo era apenas uma forma escura e volumosa.
Uma forma escura e volumosa que dava uma guinada na grama e vinha atrás deles. Damon xingou e a puxou para continuar, desta vez correndo e não voando, e os pés de Elena mal tocavam o chão. Seu coração estava aos saltos. Ela sabia que Damon não podia usar toda sua velocidade se quisesse manter Elena junto. Eles viraram a esquina de um prédio e se recostaram na parede, cercados de arbustos.
O carro passou em disparada, depois virou, as rodas deixando longas marcas de derrapagem, e voltou à rua.
— Despistamos — sussurrou Elena, ofegante.
— Irritou alguém ultimamente, princesa? — Os olhos de Damon estavam penetrantes.
— Eu devia perguntar isso a você — retorquiu Elena. Ela se abraçou. De repente sentia muito frio. — Acha que pode ter sido por causa da Vitale Society? — perguntou, com a voz tremendo. — Alguma coisa sobre eles e meus pais?
— Não sabemos quem ou o que estaria do outro lado daquele alçapão — respondeu Damon sombriamente. — Ou talvez Matt...
— Matt não — disse Elena com firmeza. — Ele nunca me machucaria.
Damon assentiu.
— É verdade. Ele é ridiculamente honrado, o seu Matt. — Ele abriu um sorriso de esguelha. — E ele ama você. Todo mundo ama você, Elena. — Ele tirou a jaqueta e colocou nos ombros dela. — Mas uma coisa é certa. Se o motorista daquele carro achava que eu era humano, agora deve pensar outra coisa.
Elena puxou o casaco para mais perto do corpo.
— Você me salvou — disse ela baixinho. — Obrigada.
Os olhos de Damon estavam brandos quando ele a abraçou.
— Eu sempre a salvarei, Elena — prometeu. — A esta altura, não sabe disso? — Suas pupilas dilataram, e ele a puxou para mais perto. — Não posso perder você — murmurou ele.
Elena sentiu que ia desmaiar. O mundo era tragado pelos olhos negros de Damon e ela era atraída para eles, para a escuridão. Uma parte mínima dela disse não, mas, ainda assim, ela se curvou para ele e sua boca encontrou a de Damon.


Stefan tamborilava os dedos na parede a suas costas, olhando toda aquela gente espremida: conversando, rindo, discutindo, bebendo, dançando. Sua pele se arrepiava de ansiedade. Onde ela estava? Matt disse que a vira na biblioteca há mais de uma hora, e que ela pretendia vir à festa.
Decidindo-se, Stefan partiu para a saída. Talvez Elena não quisesse que ele entrasse em contato agora, mas havia mortes e desaparecimentos. Valia a pena ela ter raiva dele, desde que ele soubesse que ela estava bem.
Ele passou por Meredith, envolvida numa conversa com a amiga, e falou:
— Vou procurar Elena. — Ele teve a rápida impressão de que ela hesitara, estendendo a mão para impedi-lo, mas deixou-a para trás.
Abriu a porta e saiu para o ar frio da noite. Os seguranças do campus ainda estavam na porta verificando identidades, mas deixaram ele passar sem comentário nenhum, interessados apenas nas pessoas que tentavam entrar na festa.
Lá fora, o vento corria pelas árvores, e uma lua crescente estava alta e branca acima dos prédios que o cercavam. Stefan enviou seu Poder, procurando os traços distintos de Elena.
Ainda não sentia nada. Havia muita gente próxima demais por ali, e Stefan só percebia a mistura de vestígios de milhares de humanos, suas emoções e força vital mesclando-se num grande zunido subjacente do qual era impossível para ele, a essa distância, isolar qualquer indivíduo específico, mesmo um tão singular quanto Elena.
Se ele tivesse se alimentado de sangue humano recentemente, teria sido mais fácil. Stefan não podia deixar de pensar saudosamente em como o Poder o tomou quando ele bebeu com regularidade dos amigos. Mas isso foi quando Fell’s Church precisou de suas melhores defesas contra os kitsune. Não beberia sangue humano só por prazer ou conveniência.
Stefan andou a passos rápidos pelo pátio, ainda enviando ondas exploradoras de Poder em volta e à frente. Se não conseguisse localizar Elena assim, iria aonde ela tinha sido vista pela última vez. Tinha esperanças de que seu Poder captasse algum indício dela assim que se aproximasse da biblioteca.
Todo o seu corpo pulsava de ansiedade. E se Elena tivesse sido atacada, e se ela tivesse desaparecido misteriosamente para nunca mais voltar, deixando essa distância estranha como última lembrança? Stefan acelerou o passo.
Estava a meio caminho da biblioteca quando a nítida sensação de Elena o atingiu como um murro. Em algum lugar perto dali.
Ele olhou para os dois lados e a viu. Uma dor horrível atingiu seu peito, como se pudesse realmente sentir o coração se partindo. Ela estava beijando Damon. Eles estavam meio escondidos nas sombras, mas a pele clara e o cabelo louro de Elena brilhavam. Estavam concentrados um no outro, tanto que, apesar de seu Poder, Damon não tinha consciência da presença de Stefan, nem mesmo quando ele se aproximou dos dois.
— Era por isto que você queria um tempo longe, Elena? — perguntou Stefan, a voz soando oca e distante. Enfim dando pela presença dele, os dois se separaram, o rosto de Elena lívido de choque.
— Stefan — disse ela. — Por favor, Stefan, não, não é o que parece. — Ela estendeu a mão e a puxou de volta, hesitante.
Tudo parecia tão distante para Stefan; ele sabia que estava tremendo, que a boca estava seca, mas era quase como se visse a dor de outra pessoa.
— Não posso fazer isto — disse ele. — De novo, não. Se eu lutar por você, vou acabar destruindo todos nós. Exatamente como aconteceu com Katherine.
Elena balançava a cabeça, de mãos estendidas para ele, suplicante de novo.
— Por favor, Stefan.
— Não posso — repetiu Stefan, recuando, a voz baixa e desesperada.
E então, pela primeira vez, ele olhou para Damon, e uma fúria cega o atingiu, superando de pronto o torpor.
— Você só sabe tomar as coisas — disse Stefan com amargura. — Esta é a última vez. Não somos mais irmãos.
O rosto de Damon se abriu em consternação por uma fração de segundo, e os olhos se arregalaram como se estivesse prestes a falar, mas depois ele endureceu novamente, retorcendo a boca com desdém e mexendo a cabeça para Stefan. Muito bem, indicava o gesto, então dê o fora.
Stefan cambaleou, virou-se e correu, movendo-se com toda graça e velocidade sobrenaturais que podia, deixando-os muito para trás enquanto Elena gritava:
— Stefan!

Um comentário:

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Boa leitura, E SEM SPOILER!