14 de março de 2019

Capítulo 23

Surgiram histórias de amor e vários casamentos foram realizados. Como estávamos em território holandês, era preciso assinar muita papelada… Em geral, o dentista fazia as alianças com sua broca, e o material dos vestidos para a cerimônia variava do tule branco dos mosquiteiros aos uniformes do Corpo de Enfermeiras do Exército Australiano… De acordo com o regulamento do Exército, a noiva voltava para a Austrália pouco depois.
A SPECIAL KIND OF SERVICE, JOAN CROUCH

MOROTAI, ILHA HALMAHERA, 1946

— Sei que é irregular — disse Audrey Marshall —, mas você os viu. Sabe pelo que ela passou.
— Acho difícil acreditar.
— Ela era uma criança, Charles. Quinze anos, pelo que me disse.
— Ele gosta muito dela, posso garantir isso.
— Então, que mal pode causar?
A enfermeira-chefe abriu uma gaveta e tirou lá de dentro uma garrafa com um líquido marrom-claro. Ergueu-a e ele assentiu, mas recusou o acréscimo de água clorada que estava em uma jarra em cima da escrivaninha. Eles pretendiam conversar mais cedo, mas acontecera um acidente na estrada que levava à unidade americana de radar: um jipe tinha batido em um caminhão holandês de suprimentos e capotado, matando uma pessoa e ferindo duas. O capitão Baillie passara mais de uma hora com as autoridades holandesas, preenchendo formulários e discutindo o incidente com o chefe da unidade local. Um dos homens tinha feito parte da sua tropa, e estava abalado e exausto.
Tomou um gole, decidido a não lidar com esse novo problema antes de todos os que ele já tinha.
— Pode causar todo tipo de mal. O rapaz não está com a cabeça boa.
— Ele sabe que a ama e que isso o faria feliz. Além disso, o que mais ela pode fazer? Não tem como continuar sendo enfermeira, agora que todos sabem. Não pode ficar na Austrália.
— Ah, não exagere. O país é grande.
— Alguém descobriu que ela estava aqui, não foi?
— Não sei…
A enfermeira-chefe se debruçou na mesa.
— Ela é uma boa enfermeira, Charles. Uma boa moça. Pense no que ela fez pelos seus homens. Pense em Petersen e em Mills. Pense em O’Halloran, com aqueles ferimentos terríveis.
— Eu sei.
— Então, qual é o problema? O rapaz não tem dinheiro, não é? E você disse que ele também não tem família. — Ela baixou um pouco o tom de voz: — Sabe tão bem quanto eu que o estado dele é grave.
— E você sabe que sempre tentei impedir esse tipo de coisa. Para começar, tem toda aquela maldita papelada.
— Você mesmo me falou que tem um bom relacionamento com os holandeses. Eles vão assinar o que você entregar.
— Tem certeza de que esta é uma ideia sensata?
— Proporcionaria a ele um pouco de felicidade e daria a ela uma oportunidade. Conseguiria ir para a Inglaterra e seria uma excelente enfermeira lá. Que mal pode haver nisso?
Charles Baillie suspirou fundo. Colocou os óculos na escrivaninha e se virou para a mulher à sua frente.
— É difícil recusar um pedido seu, Audrey.
Ela sorriu com a satisfação de alguém que sabe que a batalha está ganha.
— Farei o que é preciso.
O capelão era um homem pragmático. Cansado de ver tanta dor e sofrimento, tinha sido fácil convencê-lo a ajudar. A jovem enfermeira, por quem tinha uma admiração especial, era uma ilustração perfeita dos poderes redentores do casamento, disse ele a si mesmo. E se isso permitiria ao pobre coitado esquecer um pouco os horrores vividos nas últimas semanas, ele tinha certeza de que Deus compreenderia seu gesto. Quando a enfermeira-chefe agradeceu, ele respondeu que acreditava que o Todo-Poderoso era mais pragmático do que qualquer um deles imaginava.
Dando os parabéns pela solução encontrada, e talvez com pouquíssima curiosidade sobre como os interessados reagiriam ao plano, os três continuaram na sala da enfermeira-chefe durante tempo suficiente para comemorar seu bom senso com mais um drinque. Por razões médicas, claro, justificou Audrey Marshall com um sorriso forçado e fazendo menção à palidez do capitão Baillie. Ela não suportava ver um homem pálido: sempre queria verificar se havia algum problema no sangue.
— O único problema com meu sangue é que não tem uísque suficiente nele — murmurou.
Eles brindaram à saúde da enfermeira Luke, ao seu futuro marido, ao fim da guerra e, por fim, a Churchill. Pouco depois das dez horas foram para a tenda da enfermaria, um pouco mais tensos, um pouco menos à vontade, para realizar a tarefa com a qual se comprometeram.
— Ela está na enfermaria B — disse a enfermeira que lia uma carta na mesa do plantão.
— Com o cabo Mackenzie — acrescentou a enfermeira-chefe, virando-se de forma triunfante para o capitão Baillie. Funcionaria bem para todos. — Não falei?
Eles seguiram pelo corredor de areia entre as camas, com cuidado para não acordar os homens dormindo, e em seguida afastaram a cortina para entrar na enfermaria seguinte. Com um palavrão, o capitão Baillie deu um tapa no mosquito que pousou na sua nuca. Por fim, pararam.
A enfermeira Luke ergueu a cabeça quando os ouviu entrar. Virou-se para eles com olhos arregalados, indecifráveis. Estava inclinada sobre o leito de Alfred “Chalkie” Mackenzie, quase todo ainda coberto por mosquiteiro. Ela puxava um lençol branco da Marinha até o rosto do enfermo.

* * *

Quando o fuzileiro voltou com duas novas canecas de chá ainda quente, Avice estava dormindo. Ele bateu duas vezes, entrou e atravessou com cuidado o pequeno cômodo. Colocou as canecas na mesa entre as camas. Tinha um pouco de esperança de encontrar a oficial ali com elas.
Frances, ao lado de Avice, se sobressaltou. Ficou claro que ela não imaginava vê-lo. Suas bochechas coraram um pouco. Ele achou que ela estivesse exausta. Poucas horas antes, talvez tivesse cedido à vontade de tocá-la. Mas naquele momento, depois de ouvir suas palavras, sabia que não devia. Então voltou para a porta e parou, as pernas um pouco separadas e os ombros eretos, como se pretendesse reafirmar algo para si mesmo.
— Eu… eu não estava esperando por você — murmurou ela. — Achei que tivesse sido convocado para fazer outra coisa.
— Desculpe, demorei demais.
— O Dr. Duxbury já me deu alta. Estou só juntando minhas coisas para voltar. Avice deve passar a noite aqui. Ainda devo vir aqui para conferir se está tudo bem com ela. Todo mundo está sobrecarregado.
— Ela está bem?
— Vai melhorar — respondeu Frances. — Eu ia procurar Maggie. Como ela está?
— Não muito bem. A cachorrinha…
— Ah… — Ela pareceu desapontada. — Ah, não. E ela está sozinha?
— Tenho certeza de que vai ficar feliz com sua companhia.
Ela ainda não tinha trocado de roupa e ele estava morrendo de vontade de limpar a mancha escura em seu rosto. Cerrou o punho às costas.
Ela deu um passo à frente e olhou de novo para Avice, que continuava dormindo.
— Pensei sobre o que você falou — murmurou ela, com a voz baixa e conspiratória. — Que a guerra nos obrigou a fazer coisas das quais não nos orgulhamos. Antes de você dizer isso, sempre achei que eu fosse a única…
Ele não estava esperando essa confidência. Recuou um passo, sem saber o que dizer e quase implorando para ela não continuar. Ao mesmo tempo, estava desesperado por ouvir suas palavras.
— Sei que nem sempre conseguimos falar… com sinceridade. Isso é… complicado, e a verdade pode nem sempre ser… — Ela interrompeu o que dizia e seus olhos brilharam quando olhou para ele. — Mas quero agradecer por isso. Você me… Serei sempre grata pelo que me disse. E pela oportunidade de termos nos conhecido. — As últimas palavras foram pronunciadas com pressa, como se as tivesse forçado a sair enquanto ainda tinha coragem para isso.
De repente ele se sentiu pequeno, desamparado.
— Sim. Bem… — disse ele, afinal, quando conseguiu formular as palavras. — É sempre um prazer fazer uma nova amizade. — Sentiu-se mesquinho no instante em que abriu a boca, então acrescentou: — Senhora.
Houve uma breve pausa.
— Senhora? — repetiu ela.
O sorriso tímido de Frances desaparecera. A diferença era tão sutil que o fuzileiro achou que só ele mesmo seria capaz de perceber. Não tenho escolha, ele queria gritar para ela. É por você que estou fazendo isso.
Ela o encarou. O que viu em seu rosto a fez baixar a cabeça e desviar o olhar.
— Desculpe — disse ele. — Preciso ir agora. Tenho coisas a fazer. Mas… você vai gostar da Inglaterra.
— Obrigada. Aprendi muita coisa nas palestras.
Para ele, a frieza das suas palavras foi como uma bofetada.
— Bem… espero que se lembre sempre de mim… — disse Nicol, com as mãos tensionadas junto ao corpo — …como um amigo. — Essa palavra nunca tinha soado tão inadequada.
Ela piscou um pouco depressa demais e, envergonhado, ele desviou o olhar.
— É muita gentileza sua, mas não acredito que isso aconteça, fuzileiro — retrucou ela. Respirou fundo, se virou e voltou a dobrar as roupas espalhadas em cima da cama. Sua voz, quando ela disparou a resposta, soou brusca, cheia de mágoa. — Afinal de contas, nem sei seu nome.

* * *

Margaret estava perto da proa no convés de voo, junto das amarras. Um cardigã envolvia sua grande cintura e um lenço de cabeça tentava, sem sucesso, impedir que o cabelo chicoteasse seu rosto. Estava de costas para o passadiço e mantinha a cabeça curvada sobre o pequeno embrulho em seus braços.
O céu estava cinzento, coberto de nuvens carregadas de chuva que ameaçava desabar a qualquer instante. Enormes albatrozes seguiam o rastro do barco como se estivessem presos por fios invisíveis. De tempos em tempos, Margaret baixava os olhos para o pequeno embrulho e mais lágrimas caíam na lã do agasalho, escurecendo-o com manchas minúsculas e irregulares. Ela as secava suavemente com o polegar e murmurava outro pedido de desculpas para o pequeno corpo rígido.
O vento e o lenço na cabeça a impediram de ouvir Frances chegar por trás. Quando a viu, não sabia dizer quanto tempo fazia que a amiga estava ao seu lado.
— Vou sepultá-la no mar. Só estou tentando juntar coragem, você entende?
— Sinto muito, Maggie.
Frances estava com o olhar vazio. Hesitante, ergueu a mão para tocar a amiga.
Margaret secou os olhos com a palma da mão. Balançou a cabeça e suspirou de desespero diante da sua incapacidade de se controlar.
Parecia não haver uma distinção definida entre o céu e o mar. As águas sombrias e pouco acolhedoras ficavam mais claras conforme se aproximava do horizonte, mas logo escureciam para depois se fundir com as nuvens carregadas.
Era como se o navio seguisse em direção ao nada, como se a própria navegação só pudesse ser um ato de fé cega.
Algum tempo depois, muito antes de se sentir preparada, Margaret deu um passo à frente. Hesitou por um instante, segurando o pequeno corpo bem próximo ao seu, muito mais do que ela ousaria fazer se o animal ainda tivesse vida.
Então se inclinou, deixou escapar um leve som gutural e jogou o pequeno embrulho no mar. Não fez nenhum barulho.
Margaret se agarrou à amurada com os dedos tensos, ainda impressionada com a distância que estava das ondas, e contendo a vontade de parar o navio, de recuperar o que havia perdido. De repente, o mar deu a impressão de ser imenso demais, uma traição fria em vez de um fim tranquilo. Ela sentiu os braços insuportavelmente vazios.
Ao seu lado, sem dizer nada, Frances apontou para a água.
Dava para ver o cardigã bege, era uma pequena mancha pálida flutuando na superfície muito abaixo delas. Em seguida, afundou no rastro de espuma. Não o viram mais. Ainda em silêncio, deixaram a brisa moldar as roupas nas suas costas, enquanto contemplavam a espuma formada pelo Victorious, que se repartia na água e então desaparecia.
— Será que enlouquecemos, Frances? — perguntou ela, por fim.
— O quê?
— Que diabo de decisão foi essa que tomamos?
— Não tenho certeza do que…
— Abandonamos tudo, todas as pessoas que amamos, nossa casa, nossa segurança. E para quê? Para sermos agredidas e depois rotuladas de vagabundas, como Jean? Para que a Marinha interrogue sobre nosso passado, como se fôssemos criminosas? Para passar por tudo isso e no fim alguém dizer que não somos bem-vindas? Porque não há garantia, certo? Nada prova que esses homens e suas famílias vão nos aceitar, não é mesmo?
Sua voz era mais alta que o vento.
— E o que é que eu sei sobre a Inglaterra? O que realmente sei sobre Joe e sua família? Sobre bebês? Eu nem sequer conseguia tomar conta da minha cachorrinha… — Baixou a cabeça.
Elas não repararam no convés inundado sob seus pés nem nos olhares dos marinheiros que pintavam a outra extremidade do local.
— Você sabe… Preciso dizer… Acho que cometi um erro terrível. Fui atraída pela ideia de não precisar mais cozinhar e limpar para meu pai e os meninos. E agora que estou aqui, tudo o que quero é minha família. Quero minha família de volta, Frances. Quero minha mãe. — Ela chorava copiosamente. — Quero minha cachorrinha.
As lágrimas a impediam de enxergar, mas ela sentiu os braços magros e fortes de Frances envolverem seus ombros.
— Não, Maggie, não. Vou ficar bem. Você tem um marido que te ama. Que te ama de verdade. Vai dar tudo certo.
Margaret queria ser convencida.
— Como pode dizer isso depois de tudo o que aconteceu aqui?
— Joe é único, Maggie. Até eu sei disso. E você tem uma vida maravilhosa pela frente, porque é impossível que a família dele não te ame. E você vai ter um bebê lindo que vai amar como jamais imaginou amar alguém. Ah, se pelo menos você soubesse quanto eu…
O rosto de Frances se contorceu e soluços vulcânicos explodiram do seu peito, com uma incontrolável torrente de lágrimas, e o abraço que ela deu em Margaret para reconfortá-la se tornou uma tentativa de reconfortar a si mesma. Ela tentou se desculpar, se recompor, balançou a mão em um silencioso pedido de desculpas, mas não conseguia parar.
Margaret, em grande demonstração de amizade, a abraçou.
— Acalme-se — murmurou com a voz fraca. — Ei, fique tranquila, Frances, você não é assim…
Acariciou seu cabelo, ainda preso para trás, como na noite anterior. Deve ser o choque, pensou, lembrando-se da cena das duas mulheres caindo no mar agitado. Sentia-se culpada por não ter conferido se Frances estava bem. Abraçou a amiga, num pedido de desculpas silencioso, esperando a tormenta passar.
— Você tem razão. Ficaremos bem — murmurou, passando a mão no cabelo de Frances. — Podemos até nos tornar vizinhas, não acha? E trate de escrever para mim, Frances. Não conheço mais ninguém aqui, e com certeza não poderei contar com Avice. Você é tudo o que tenho…
— Não sou o que você pensa. — Frances estava chorando tanto que começou a chamar atenção. Um pequeno grupo de marinheiros fumando na outra extremidade do convés de voo as observava. — Não sei nem por onde começar a contar…
— Ah, por favor, já está na hora de deixar tudo isso para trás. — Ela secou os olhos. — Olhe, pelo que sei, você é uma ótima garota. Sei o que é preciso e até um pouco do que não precisava. E quer saber? Continuo achando que você é uma ótima garota. E acho bom você continuar mantendo contato comigo!
— Você é… muito… gentil.
— Você queria mesmo dizer “roliça”, não é?
Mesmo sem querer, Frances sorriu.
— Ei, vocês duas! Saiam daí!
Elas se viraram e notaram que um oficial acenava para que se aproximassem.
Margaret se voltou para a colega.
— Vamos, Frances, diga que não vai sumir. Não você.
— Ah, Maggie… estou tão…
— Não — interrompeu ela. — Este é nosso recomeço. Tudo novo. Como você disse, vai ficar tudo bem. Vamos fazer com que fique tudo bem.
Abraçou Frances quando as duas começaram a andar pelo enorme convés.
— Porque não podemos ter passado por tudo isso em vão, não é mesmo? Vamos fazer com que tudo dê certo.

* * *

Quando elas desceram para a cabine após o jantar, os homens continuaram escovando, polindo, pintando, e também se queixando. Dava para ouvir a conversa deles nos corredores, apesar das vozes animadas das mulheres organizando suas coisas. Não há sentido nisto, eles reclamavam. Logo mais o navio ia virar sucata, de todo modo. Não entendiam por que o maldito Highfield não podia lhes dar uma maldita folga. Ele não sabia que a guerra tinha acabado? Apesar de tudo, Frances estava tranquila: ela não o vira desde o incêndio, e as palavras dos marinheiros diziam tudo que ela precisava saber sobre como ele estava.
Depois de atravessarem a escotilha e entrarem na área das cabines, Frances teve uma pequena esperança de encontrar o fuzileiro na frente da porta delas. Embora não houvesse serviço naquela noite, talvez ele estivesse lá, com os pés plantados no chão, na posição habitual, e seus olhos então encontrariam os dela em uma silenciosa cumplicidade.
Mas o corredor estava vazio, como o de cima. Apenas as mulheres, muito agitadas, corriam de um lado para outro, trocavam produtos de maquiagem entre si e pediam opinião para as outras sobre qual roupa usar no desembarque. Talvez fosse melhor assim. Ela sentia os nervos à flor da pele, como se a histeria e a apreensão antecipada que dominavam o navio a tivessem contaminado também.
— Boa noite, Sra. Mackenzie. — Era Vincent Duxbury, vestindo um terno de linho cor de creme. — Pelo visto, temos chance de encontrá-la logo mais na enfermaria. Fico feliz de vê-la voltando ao trabalho.
Ele inclinou o chapéu para cumprimentar as duas e saiu andando alegremente, assobiando o que parecia ser Frankie e Johnny.
Sra. Mackenzie. Enfermeira Mackenzie. E não havia motivo para querer que as coisas fossem diferentes, ela disse a si mesma, enquanto ajudava Margaret a entrar na pequena cabine. Nunca houvera. Ela, mais do que ninguém, sabia disso.

* * *

Frances deixara Margaret no quarto pouco depois das nove e meia da noite. A tristeza e o cansaço decorrente da gravidez conspiravam para levar a amiga a uma doce narcolepsia. Quase todas as noites, e ultimamente durante cerca de duas ou três vezes, Margaret precisava descer do beliche para ir, sonolenta e com o passo pesado, ao banheiro feminino no fundo do corredor. No caminho, cumprimentava com a cabeça os fuzileiros ainda em serviço. Naquela noite ela não acordara, e Frances, que precisava voltar à enfermaria para ver Avice, ficou contente com isso.
Ela percorreu os corredores silenciosos, e seus sapatos macios quase não fizeram barulho quando passou pelas portas fechadas. Nas outras cabines, o ar estava impregnado com o perfume dos cremes faciais aplicados sem moderação.
As paredes pareciam reluzir com o brilho dos vestidos impecavelmente lavados, nelas pendurados. O sono das passageiras era interrompido não só pelo incômodo dos bobes e grampos na cabeça, mas também por sonhos agitados. Não na nossa pequena cabine, pensou Frances. Margaret até tinha tentado prender o cabelo, mas logo desistira, resmungando. Ela pensou que se ele não a quisesse naquele momento, daquele jeito, era pouco provável que um penteado à la Shirley Temple fizesse diferença.
Com o cabelo ao natural, Frances continuou andando, com pensamentos tão sombrios quanto as águas do mar. Como um marinheiro que tenta impedir uma inundação, ela se esforçava para fechar as escotilhas da mente para os pensamentos que a atormentavam. Subiu saltitando os degraus que levavam à enfermaria e acenou com a cabeça para um marujo solitário que passava apressado com um embrulho embaixo do braço.
Ela ouviu o canto antes de chegar à sala da enfermaria. Prestou atenção para descobrir de onde vinha. Pelo som rouco das vozes e pelas palavras que conseguiu distinguir, deduziu que o Dr. Duxbury estava fazendo os homens cantarem trechos de musicais. A fraca qualidade da interpretação fez Frances supor que o estoque de bebida alcoólica da enfermaria estivesse bem menor do que nos dias anteriores. Em outra ocasião, ela talvez o denunciasse, ou pelo menos entrasse na sala para resolver a questão por conta própria. Naquele momento, nada mais importava. Restavam apenas poucas horas a bordo. Restavam poucas horas para o próprio navio. Quem era ela para julgar se os homens deviam ou não cantar?
A cantoria acabou seguindo para o lado melancólico. Frances entrou discretamente e, apesar da iluminação fraca, viu o leito onde estava a garota pálida e imóvel.
O pior, para Avice, já passara. Estava dormindo, enfraquecida e frágil, com a colcha e o cobertor áspero da Marinha puxados até o pescoço. No seu sono ela franzia a testa, como se já previsse o que a esperava nas semanas seguintes.
Frances manteve as luzes apagadas, mas em vez de subir na cama livre, se sentou na pequena cadeira ao lado. Ficou ali por algum tempo, observando as caixas de papelão ao redor e ouvindo a cantoria que havia recomeçado, pontuada por tosses isoladas ou por interrupções do Dr. Duxbury, que oferecia versões alternativas. Por trás dos sons da sala ao lado, ouviu o ruído do único motor em funcionamento, mais fraco e menos dinâmico do que antes, e imaginou os fornalheiros xingando por estarem derretendo de calor com o esforço de levar o navio até o porto. Pensou no navegador, no operador de rádio, no marinheiro de serviço e em todos os outros ainda acordados de uma ponta à outra daquele imenso navio. Imaginou todos retornando para suas famílias, as mudanças que precisariam enfrentar. Pensou no comandante Highfield, acomodado em sua câmara luxuosa, sabendo que talvez aquela fosse sua última noite no mar. Todos nós precisamos encontrar novas formas de viver, dissera ele. Novas formas de perdoar.
Preciso experimentar novamente a sensação que tive na primeira vez que subi a bordo, disse a si mesma. A sensação de alívio e expectativa. Preciso esquecer tudo o que aconteceu e fazer de conta que esse homem nunca existiu. Por outro lado, agradeceria a Chalkie todos os dias da sua vida pelo que ele lhe proporcionara.
Era o mínimo que podia fazer naquelas circunstâncias.
Ouviu um barulho, e se deu conta de que devia ter cochilado. Uma tosse tão discreta, tão distante na extremidade da sua consciência que mesmo mais tarde ela não conseguia entender como havia conseguido acordar com aquilo. Abriu só um olho, observou a silhueta de Avice na penumbra, com uma leve esperança de vê-la se sentar na cama e pedir um copo d’água. Mas Avice não se mexeu.
Frances se empertigou e ouviu com atenção.
Mais uma tosse. O tipo de tosse que tem o intuito de chamar atenção. Ela deslizou da cadeira e atravessou o quarto.
— Frances — murmurou uma voz tão baixa que só ela conseguiria ouvir. Depois de novo: — Frances.
Imaginou se ainda estaria dormindo. Na sala ao lado, o Dr. Duxbury cantava Danny Boy. De repente, ele começou a chorar histericamente e foi consolado pelos homens ao seu lado.
— Você não devia estar aqui — murmurou ela, dando um passo à frente.
Não abriu a porta. As instruções eram muito rígidas para todos: naquela noite homens e mulheres não se misturariam, advertira o imediato do navio, como se o fato de ser a última noite a bordo pudesse induzir a loucuras de cunho sexual.
Por um momento, ele permaneceu calado. Depois disse:
— Eu queria ter certeza de que você estava bem.
Ela balançou a cabeça para mostrar sua incompreensão e suspirou lentamente.
— Estou… bem.
— O que eu disse… Não tive a intenção…
— Por favor, não se preocupe. — Ela não queria ter essa conversa de novo.
— Queria dizer que… estou muito feliz. Feliz por ter conhecido você. E gostaria… gostaria…
Houve um longo silêncio. O coração dela estava disparado.
A cantoria na sala ao lado tinha parado. Em algum lugar, no Canal, tocou uma sirene de neblina. Ela continuou ali onde estava, no escuro, esperando que ele voltasse a falar, mas logo se deu conta de que a conversa acabara. Ele já tinha dito tudo.
Quase inconsciente de seus gestos, Frances se aproximou da porta, depois encostou a bochecha e ficou assim, em silêncio, até ouvir o que esperava. Então deu um passo para trás e abriu a porta.
Na penumbra do corredor, se deparou com os olhos sombrios e indecifráveis dele. Ficou encarando o fuzileiro, sabendo que era a última vez que veria aquele homem, e tentava aceitar um destino que, pela primeira vez, ela sentia vontade de destruir. Não lhe cabia o direito de desejá-lo. Precisava se convencer disso, ainda que cada célula do seu corpo gritasse o contrário.
— Bem… — Seu sorriso radiante e indeciso teria partido o coração dele. — Obrigada. Obrigada por cuidar de mim. De nós, quer dizer.
Frances se permitiu olhar para ele mais uma vez e depois, sem saber bem o porquê, estendeu a mão fina. Após um momento de hesitação, ele também estendeu a mão. Os dois trocaram um cumprimento formal, sem desviar os olhos um do outro.
— Hora de ir para a cama, rapazes. Precisam estar em forma de manhã!
Eles se entreolharam. A voz de Vincent Duxbury ficou mais alta quando a porta da enfermaria se abriu, lançando um retângulo de luz.
— Para casa, rapazes! Vocês vão para casa amanhã! Home, home on the range…
Ela o puxou para dentro do quartinho e, sem fazer barulho, fechou a porta.
Ficaram a poucos centímetros um do outro, ouvindo os homens saírem da enfermaria para o corredor. Houve muitos cumprimentos e um breve e doloroso acesso de tosse.
— Preciso confessar — disse o Dr. Duxbury — que vocês são os caras mais fantásticos que tive o privilégio… My merry band of brothers…
A cantoria dele pairou pelo corredor e em seguida foi acompanhada pelas vozes desafinadas dos outros.

* * *

Frances estava tão perto que ele sentia a respiração dela em seu pescoço. O corpo dela estava tenso, e ela ouvia com atenção, a mão involuntariamente ainda sobre a dele. Sua pele fria estava arrepiada.
— My merry band… la la la la.
Se ela não tivesse escolhido aquele instante para olhar para ele, talvez nada tivesse acontecido. Mas ela ergueu a cabeça com os lábios entreabertos como se quisesse fazer uma pergunta. Depois, percorreu com a ponta dos dedos o corte na testa do fuzileiro. Em vez de recuar, como pretendera, ele ergueu a mão, tocou de leve na dela e, em seguida, com mais firmeza, entrelaçou os dedos nos dela.
Do lado de fora, os homens cantavam cada vez mais alto. Pouco depois, o canto se transformou em conversa. Alguém caiu no chão e ao longe houve um “Ei, você!” abafado, seguido por passos firmes e autoritários.
Nicol mal escutava. Estava concentrado na respiração suave de Frances, em sentir seus dedos trêmulos. Com a pele em chamas, baixou a mão dela, roçou-a em seu rosto, sem sentir dor nem quando ela tocou a área ferida e inchada. Depois, a pressionou nos lábios.
Ela hesitou. Por fim, com um pequeno suspiro que podia ser de desespero, puxou sua mão de volta e aproximou os lábios dos dele. Apertou as mãos dele com força, como se quisesse mantê-las assim para sempre.
Foi delicioso. Quase no limite da indecência. Nicol queria absorvê-la, preenchê-la, fundir-se nela, transformá-la em uma parte de si mesmo. Eu sabia!, disse ele para si mesmo, cheio de alegria. Eu a conheço! Estranhamente, enquanto percebia a intensidade desesperada do seu desejo, ele sentiu que havia certo perigo, algo condenatório, sem saber direito se com relação a ela ou a si mesmo. Então abriu os olhos e a encarou. A dor e o desejo com os quais se deparou pareciam imensuráveis, algo tão chocante que lhe deixou com a sensação de não conseguir respirar. E quando Nicol aproximou de novo o rosto, foi ela quem recuou e levou a mão aos lábios, ainda sem desviar o olhar.
— Desculpe — sussurrou ela. — Desculpe, de verdade.
Olhou rapidamente para Avice, que continuava dormindo na cama, depois, com delicadeza, levou a mão ao rosto de Nicol, como se para gravar em alguma parte secreta de si mesma aquela visão e a sensação de tocá-lo.
Em seguida, saiu dali. Do lado de fora, os homens levaram um susto com a aparição de uma mulher no meio da noite. A porta do depósito se fechou devagar, mas com firmeza, entre eles. O ruído metálico ressoou como o portão de uma prisão.

* * *

A cerimônia aconteceu perto das onze e meia da noite de terça-feira. Em outras circunstâncias, teria sido uma noite linda para um casamento: a lua baixa e enorme no céu tropical banhava o acampamento com uma estranha luminosidade azul. A brisa suave quase não balançava as folhas das palmeiras, mas oferecia um discreto alívio para o calor.
Havia apenas mais três pessoas além da noiva e do noivo: o capelão, a enfermeira-chefe e o capitão Baillie. A noiva, com a voz quase inaudível, ficou o tempo inteiro sentada ao lado do noivo. O capelão fez o sinal da cruz várias vezes após a cerimônia e rezou para que tivesse agido corretamente. Com um Shiiiu!, a enfermeira-chefe calou as dúvidas que afligiam o capitão e o lembrou de que, considerando a situação do mundo ao redor, aquele ato insignificante não devia pesar na sua consciência.
A noiva se sentou na cama, com a cabeça baixa, e segurou a mão do homem ao seu lado, como se pedisse desculpas. No final das preces, enfiou o rosto pálido nas mãos e permaneceu assim por algum tempo, até que voltou a erguer a cabeça, um pouco ofegante, como um nadador que retorna à superfície.
— Terminamos? — perguntou a enfermeira-chefe, que parecia a pessoa mais tranquila do grupo.
O capelão assentiu, com a testa ainda franzida e os olhos baixos.
— Enfermeira?
Frances abriu os olhos. Ela parecia não conseguir, ou não querer, olhar para as pessoas à sua volta.
— Sim — disse Audrey Marshall, conferindo o relógio ao mesmo tempo em que estendia o braço para pegar suas anotações. — Horário da morte, onze e quarenta e quatro.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!