14 de março de 2019

Capítulo 22

Lembre-se de que o Exército não a levará a destino algum sem antes verificar que “aquele homem” está à sua espera. Em resumo, considere-se uma encomenda postal registrada.
INFORMAÇÃO CONTIDA EM UM FOLHETO DISTRIBUÍDO PARA AS ESPOSAS DE GUERRA QUE VIAJAVAM A BORDO DO ARGENTINA, MUSEU IMPERIAL DA GUERRA

VINTE E QUATRO HORAS ATÉ PLYMOUTH

Foi preciso esperar várias horas até a temperatura baixar o suficiente para uma verificação geral, mas quando a equipe de trabalho desceu, ficou evidente que seria impossível consertar a sala do motor central. O calor derretera o encanamento e fundira os rebites no chão. Paredes e escotilhas ficaram deformadas e metade dos alojamentos dos marinheiros no andar de cima estava destruída. Os conveses tinham empenado tanto com o calor que diversos pórticos acabaram vindo abaixo. Muitos marinheiros haviam doado cobertas e travesseiros para que os que tinham perdido colchões e outros pertences pudessem dormir com relativo conforto no hangar dianteiro. Ninguém reclamou. Quem acabou perdendo fotos e cartas se consolava ao pensar que dentro de vinte e quatro horas poderia ver em carne e osso as pessoas daquelas preciosas lembranças. Os que ainda se recordavam da tragédia do Indomitable ficaram aliviados por nenhuma vida ter sido perdida. Ainda que a guerra não lhes tivesse ensinado mais nada, essa lição tinha sido aprendida.
— Acha que conseguimos nos arrastar até o porto?
Highfield estava sentado no passadiço e observava as nuvens cinzentas que se dissipavam e deixavam à mostra partes de um céu azul-claro que parecia pedir desculpas pelo que acontecera na noite anterior.
— Estamos a menos de um dia de distância. Temos um motor que ainda funciona. Não vejo por que não chegaríamos.
— Parece que nosso velho Victorious sofreu um bocado. — A voz de McManus estava baixa. — E alguma coisa me diz que vocês ficaram limitados demais com relação a conforto.
Highfield afastou as lembranças de suportes de armamento e da sua garganta em carne viva. Tomou mais um gole do suco de limão com mel que seu imediato tinha preparado.
— Está tudo bem, almirante. Não há nada com o que se preocupar. O pessoal… cuidou de mim.
— Que bom. Vou dar uma olhada no seu relatório. Fico feliz que tenha conseguido manter a situação sob controle e sem assustar demais as passageiras.
Pelo receptor, a risada do homem parecia metálica.
Highfield saiu do passadiço e parou no convés de voo. Vindo lá de trás, uma fileira de homens percorria lentamente toda sua extensão e esfregava o chão para apagar as manchas da fumaça que chegara até aquela altura. Os baldes respingavam água com espuma acinzentada à medida que eles avançavam. Era preciso evitar as áreas empenadas pelo calor, onde não era seguro andar. Vários fuzileiros tinham construído barreiras para proteger o local ao redor. Os danos eram visíveis, mas estava tudo organizado. Quando chegassem a Plymouth, o navio de Highfield estaria sob controle.
Ele não perdera nem um homem sequer.
Ninguém estava perto o suficiente para ouvir o longo suspiro de alívio de Highfield quando ele voltou para o passadiço. O que não significa, no entanto, que isso não tenha acontecido.

* * *

Desde o café da manhã, pelo menos uma centena de mulheres esperava pacientemente na fila perto da escotilha principal que fosse autorizado o retorno às cabines. Em voz baixa, tinham comentado sobre o estado em que encontrariam seus pertences e sobre o medo de que as roupas para o desembarque, que haviam sido escolhidas com tanto cuidado, tivessem sido danificadas pela água e pela fumaça. Embora não houvesse nenhum dano aparente naquele convés, bastava passar o dedo em uma parede ou em um beliche para confirmar que estava tudo coberto por uma fina camada de fuligem.
Enquanto esperavam e conversavam, atentas a cada instrução do alto-falante para não perder o aviso de que a entrada delas estava liberada, mais mulheres iam para a fila.
Margaret, por estar no final da gravidez e com dificuldade de se locomover, entrou assim que a escotilha foi aberta, e já se encontrava dentro da cabine quando as outras mulheres ainda estavam ao pé da escada.
— Maudie! Maudie!
A porta tinha ficado aberta. Ela se ajoelhou e olhou embaixo dos dois beliches.
— Maudie! — gritou mais uma vez.
— Já deu uma olhada no refeitório? Ainda tem muita gente lá em cima — comentou uma oficial que enfiara rapidamente a cabeça pela fresta da porta.
Margaret se virou, perplexa, até se dar conta de que a mulher tinha imaginado que ela estava procurando outra passageira.
— Maudie!
Margaret procurou embaixo de todas as cobertas, levantou os colchonetes e, desesperada, chegou a rasgar os lençóis. Nada. A cachorrinha não estava embaixo de nenhuma cama, de nenhum colchonete. Também não estava dentro do chapéu de Margaret, que costumava ser seu lugar preferido.
Margaret começava a pensar no trabalho que teria pela frente na busca por Maudie quando ouviu um grito. Ficou imóvel por um instante, mas quando outra pessoa gritou “O que aconteceu?”, saiu correndo porta afora e, com passos pesados, seguiu pelo corredor em direção aos banheiros.
Mais tarde, ela se deu conta de que talvez já soubesse o que era mesmo antes de chegar lá. Aquele era o único lugar que Maudie conhecia no navio, o único outro lugar em que poderia pensar em encontrar Margaret. Ela parou na soleira da porta, olhando fixo para as garotas reunidas perto das pias. Acompanhou os olhares das outras até onde havia uma cachorrinha estendida atrás da porta. Viu também várias marcas escuras das patinhas na parede ladrilhada, por onde ela devia ter tentado escapar.
Margaret chegou mais perto, se ajoelhou no chão úmido e suspirou fundo. As pernas do animal estavam rígidas e o corpo, frio.
— Ah, não. Ah, não.
O rosto de Margaret se contorceu como o de uma criança. Ela pegou o pequeno corpo da cachorrinha nos braços.
— Ah, Maudie, me desculpe. Eu sinto muito mesmo.
Ficou ali por alguns minutos, beijando o pelo molhado, tentando devolver vida ao corpinho do animal, mesmo sabendo que não havia esperança.
Na verdade, ela não chorou na hora, conforme relataram as mulheres que assistiram à cena. Apenas continuou ajoelhada, abraçada a Maudie, parecendo sentir uma dor profunda.
Por fim, quando os olhares ansiosos ao seu redor deram lugar a murmúrios, ela tirou o cardigã e o enrolou no cãozinho morto. Depois, com um gemido e a mão apoiada na parede manchada, se levantou. Aconchegou Maudie no colo, como se segurasse um bebê.
— Quer… quer que eu chame alguém? — perguntou uma das mulheres, segurando Margaret pelo braço.
Ela não pareceu ouvir.

* * *

Chorando muito, Margaret fez o caminho de volta pelo corredor, agarrada ao seu embrulho. As mulheres que não estavam ocupadas com os próprios pertences danificados pela fumaça tentavam espiar, curiosas para descobrir a identidade daquele bebê.
Um murmúrio inquietante havia tomado conta do navio. As passageiras que voltavam para as cabines não pareciam aliviadas ao conversar, ainda que o pior estrago que suas coisas sofreram fosse apenas uma camada de fuligem. A noite tinha mostrado a elas como era precária a vida no mar, e isso as deixara abaladas. A viagem não era mais uma aventura. Não havia uma sequer que não demonstrasse enorme vontade de chegar logo ao destino. Ainda que não soubessem o que lhes reservava.

* * *

A oficial segurou o braço de Frances para ajudá-la a subir na cama, surpresa de ver como um esforço tão pequeno a deixara cansada. Depois colocou uma coberta em cima dela e arrumou melhor a que já envolvia seus ombros. O fuzileiro afastou o braço e, com relutância, soltou a mão da garota. Quando eles se entreolharam, ela sentiu sua exaustão passar por um instante.
— Estou bem — disse ela à oficial. — Obrigada, mas estou mesmo bem. Eu ficaria ainda mais confortável no meu beliche.
— O Dr. Duxbury avisou que todas as pessoas que caíram na água precisam passar algumas horas em observação. Você pode estar com hipotermia.
— Garanto que não.
— Ordens são ordens. Talvez a liberem na hora do chá.
A oficial se dirigiu então à cama de Avice e prendeu as cobertas debaixo do colchão, um gesto maternal que fez Frances se lembrar no mesmo instante do hospital de Morotai. As duas haviam sido acomodadas em uma sala anexa à enfermaria, onde ficavam estocados os produtos de limpeza, supôs Frances, levando em conta o cheiro forte de alvejante e as inúmeras caixas ao redor. Havia listas coladas nas paredes com a relação de diferentes produtos, e também armários trancados com chave onde guardavam itens que pudessem ser inflamáveis. Frances estremeceu.
— Desculpem pelo quarto — disse a oficial. — Deixamos na enfermaria os homens que inalaram fumaça, e não podíamos misturar vocês com eles. Este foi o único lugar que conseguimos para as duas. Mas será por poucas horas, está bem?
O fuzileiro, a centímetros da cama de Frances, não desviava os olhos dela, que percebia a intensidade do seu olhar e aproveitava o momento. Ainda sentia o braço dele a envolvendo quando Nicol a ajudou a subir de volta a bordo. Seu rosto estava tão próximo que, se ela houvesse inclinado um pouco mais a cabeça, teria conseguido sentir a pele dele roçar na sua.
— Está confortável agora, Sra. Radley?
— Estou ótima — respondeu Avice com o rosto enfiado no travesseiro.
— Que bom. Preciso ver se os homens aqui ao lado estão bem, mas voltarei assim que puder. Trouxe roupas limpas para a senhora trocar quando estiver mais disposta. Vou deixar bem aqui — disse a oficial, guardando em um pequeno armário a pilha de roupa cuidadosamente dobrada. — Agora tenho certeza de que essas duas senhoras não vão recusar uma xícara de chá. Fuzileiro, pode fazer as honras da casa? Está um verdadeiro caos lá embaixo e não quero brigar para conseguir entrar na cozinha.
— Será um prazer.
Frances sentiu o breve aperto da mão dele e, por um segundo, se esqueceu do quarto, de Avice, do incêndio. Tinha a sensação de estar novamente no bote salva-vidas, os olhos fixos nos dele e, sem pronunciar uma palavra sequer, dizia tudo o que sempre quisera dizer, tudo o que nunca achara que teria vontade de falar.
— Vou dar uma olhada nos seus cortes mais tarde — murmurou ela.
Frances precisou se controlar para não tocar no rosto dele, mas imaginou a sensação de passar os dedos em sua pele, a delicadeza com que trataria dos seus ferimentos.
Ele olhou para trás enquanto andava até a porta. Sorriu quando reparou que ela ainda o observava, ajeitando inconscientemente o cabelo com a mão.
— Imagino que você não pretenda ficar ao meu lado o tempo todo, não é? — A voz de Avice quebrou o silêncio assim que ele fechou a porta.
Com relutância, Frances se forçou a dar atenção às palavras da garota.
— Eu não me importo do lado de quem vou ficar — respondeu, friamente.
Era como se as horas que passaram juntas no bote salva-vidas nunca tivessem existido, como se Avice, incomodada por ter sido salva por Frances, estivesse determinada a restabelecer a distância entre elas.
— Estou com dor no estômago. Este corpete é muito apertado. Pode me ajudar a tirar?
Avice deslizou devagar para fora da cama. Seu cabelo estava separado em mechas pálidas grudadas pelo sal. Sem nenhum cuidado especial, Frances a ajudou a tirar o vestido de festa arruinado, a cinta apertada e o sutiã. Foi no momento em que ajudava Avice a voltar para a cama que ela reparou na mancha que se espalhava aos poucos pelas costas do robe de seda cor de pêssego. Então se inclinou para examinar melhor a roupa suja e confirmou suas suspeitas.
Esperou Avice se deitar e se aproximou, tensa.
— Preciso contar uma coisa. Você está sangrando.
Naquele pequeno cômodo com caixas empilhadas até o teto, as duas observaram o robe em silêncio. Avice o retirou e ficou olhando a mancha vermelha que estava sujando também o lençol. Viu no rosto de Frances o que aquilo significava, mas não houve mudança perceptível no seu comportamento.
Sem fazer nenhum comentário, Avice aceitou a toalha limpa que a colega lhe ofereceu.
— Sinto muito — disse Frances, não muito à vontade. — Pode… Pode ter sido o choque com a água.
Estava preparada para ouvir Avice gritar com ela, sem perder a oportunidade de acrescentar o bebê perdido à lista dos supostos pecados de Frances. Mas a mulher não disse nada, e apenas ouviu a enfermeira que, com voz tranquila, recomendou que continuasse deitada, colocasse a toalha naquele lugar e tomasse um ou dois analgésicos.
Por fim, Avice falou:
— Na verdade, foi melhor assim. Coitadinho do pequeno bastardo.
Houve um breve e constrangedor silêncio, como se até ela estivesse surpresa com sua escolha de palavras.
Os olhos de Frances se arregalaram.
Avice balançou a cabeça. De repente, a ergueu e, se inclinando para a frente como se estivesse engasgada, começou a chorar. Seus soluços angustiantes preencheram o quarto improvisado e pouco depois ela voltou a se deitar no leito estreito, com o rosto coberto pelo lençol. Os soluços abafados sacudiam seu corpo como se fossem provocados por abalos sísmicos.
Frances largou o vestido que segurava, subiu em silêncio na cama de Avice e se sentou ao seu lado, atônita. Ficou assim por algum tempo, até que, sem conseguir suportar mais aquele choro, passou os braços ao redor do corpo da colega num gesto de carinho. Avice não a afastou, mas também não se encostou nela. Era como se estivesse tão concentrada em sua infelicidade que nem sequer reparasse na presença de Frances ali.
— Vai ficar tudo bem — disse a enfermeira, sem saber se conseguiria justificar suas palavras. — Vai ficar tudo bem.
Os soluços finalmente diminuíram. Frances pegou mais analgésicos na farmácia e também um sedativo, caso fosse necessário. Quando voltou, Avice estava com as costas na parede e um travesseiro debaixo do corpo. Enxugou os olhos, depois fez sinal para Frances trazer seu vestido, do qual tirou um pedaço de papel amassado e úmido.
— Aqui está, pode ler com calma agora.
— Você não é bem-vinda, não venha?
— Ah, não. Ele me quer, sim…
Avice estendeu a carta e, tendo certeza de que haviam ultrapassado alguma barreira, Frances a pegou e leu com atenção os trechos que não tinham sido apagados pelas águas do Atlântico.

Eu devia ter contado isso muito tempo atrás. Mas amo você, querida, e não podia suportar ver sua expressão triste quando eu falasse. Também não conseguia lidar com a menor possibilidade que fosse de perdê-la… Por favor, não me entenda mal. Não estou pedindo que não venha. O que você precisa saber é que meu relacionamento com minha esposa é mais fraternal do que qualquer coisa. Você, meu amor, é muito mais para mim do que ela poderia ser…
Quero que saiba que todas as palavras que disse na Austrália foram sinceras. Mas você precisa entender… as crianças ainda são muito pequenas e não sou de fugir das responsabilidades. Talvez quando elas crescerem um pouco possamos voltar a pensar sobre o assunto, não acha?
Sei que estou pedindo muito, mas reflita sobre isso nos dias que ainda passará a bordo. Tenho algum dinheiro guardado, e poderia arranjar um lugarzinho simpático para você em Londres. Poderíamos ficar juntos duas noites por semana, o que, se parar para pensar, é mais tempo do que a maioria das esposas de marinheiros passa com os maridos…
Avice, você sempre disse que o que importava era estarmos juntos. Prove para mim, querida, que isso era verdade…

Enquanto absorvia as últimas palavras, Frances não sabia se devia encarar Avice de frente. Não queria que a garota pensasse que ela ficava feliz com a desgraça alheia.
— O que vai fazer? — perguntou, cautelosa.
— Voltar para casa, acho. Isso não era possível enquanto eu estava… Mas agora posso agir como se nada tivesse acontecido. E nada aconteceu. De qualquer jeito, meus pais não queriam que eu fosse para a Inglaterra. — Sua voz estava fraca e fria.
— Você vai ficar bem, sabe disso.
O modo que ela reagiu ao seu comentário mostrou uma característica da antiga Avice: pela sua expressão arrogante, Frances teve certeza de que o que ela dissera e quem ela era não tinham importância. Avice largou a carta na colcha e olhou para Frances sem demonstrar constrangimento.
— Como faz para continuar vivendo com todo esse peso sobre os ombros? Com toda essa desgraça?
Frances percebeu que, pela primeira vez, as palavras de Avice não eram tão grosseiras quanto soavam. Por trás do rosto pálido havia uma curiosidade genuína em seu olhar. Ela estava escolhendo cuidadosamente as palavras.
— Acho que descobri… que todos nós carregamos algum peso. Algum fardo de vergonha.
Frances enfiou a mão embaixo do corpo de Avice, puxou a toalha e verificou a extensão da mancha. Escondeu-a discretamente e lhe entregou outra.
Avice mudou de posição na cama.
— E seu fardo foi aliviado. Porque você encontrou alguém disposto a aceitar você. Apesar do seu… do seu passado.
— Não tenho vergonha de quem sou, Avice.
Frances reuniu as roupas sujas para que a oficial levasse para a lavanderia. Depois se sentou na cama.
— Você também precisa saber que fiz uma única coisa na vida da qual me envergonho. E não foi o que você está pensando.

* * *

O serviço de enfermagem do Exército Australiano tinha montado um posto de recrutamento em Wayville, perto do acampamento hospitalar. Já fazia algum tempo que ela estagiava como enfermeira no Hospital Showground de Sydney, e trabalhara para uma família importante em Brisbaine para pagar por seu treinamento. Naquele momento, solteira, sem filhos, com saúde e ótima recomendação da sua enfermeira-chefe, o recém-criado Hospital Geral da Austrália tinha interesse em contratá-la. Ela precisara mentir a idade, mas o olhar de compreensão do chefe da unidade quando ela levou algum tempo para calcular sua nova data de nascimento não deixara dúvida de que ela não era a primeira. Afinal de contas, estavam em guerra.
Frances contou que, para ela, trabalhar no hospital tinha sido como voltar para casa. Suas colegas eram impassíveis, competentes, bem-humoradas, piedosas e, acima de tudo, profissionais. Foram as primeiras pessoas que a aceitaram como ela era, que admiravam seu esforço e sua dedicação. Vinham das mais diversas regiões da Austrália e não se interessavam pelo passado dela. A maioria tinha um motivo para não ter marido nem filhos, mas quase nunca se alongavam no assunto. Além disso, as necessidades do trabalho exigiam que elas vivessem um dia por vez, sem pensar no futuro.
Ela nunca tentara entrar em contato com a mãe. Achava que talvez isso indicasse um traço cruel da sua personalidade, mas nem essa difícil percepção de si mesma a fizera mudar de ideia.
Durante muitos anos, elas serviram juntas em Northfield, em Porto Moresby e, por fim, em Morotai, onde Frances conheceu Chalkie. Durante esse período compreendeu que o que acontecera com ela não tinha sido a pior coisa do mundo, não se considerasse as atrocidades infligidas em nome da guerra. Ela havia segurado nos braços homens à beira da morte, tratado de ferimentos que a deixavam com vontade de vomitar, limpado privadas fedidas, lavado lençóis imundos e ajudado a montar tendas esfarrapadas pelo excesso de uso e mofo.
Apesar de tudo, achava que nunca tinha sido tão feliz.
Os homens se apaixonavam por ela. Isso não era novidade no hospital, onde vários deles não viam nenhuma garota havia muito tempo. Bastavam algumas palavras gentis e um sorriso para que eles lhes atribuíssem todas as qualidades que elas realmente tinham ou não. Frances achara que Chalkie fosse um desses. Que no seu delírio ele só visse o sorriso dela. Ele a pedia em casamento pelo menos uma vez por dia e ela, como fazia com os outros, lhe dava um pouco de atenção. Mas nunca se casaria.
Até o dia em que o artilheiro chegou.
— Foi o homem por quem você se apaixonou?
— Não. Foi o que me reconheceu. — Ela engoliu em seco. — Ele veio da unidade que tinha base montada perto do hotel onde morei anos antes. E eu sabia que chegaria o momento em que precisaria sair da Austrália, que esse seria o único jeito de escapar de… — Fez uma pausa. — Então decidi dizer sim.
— E ele sabia? O seu marido?
Até então as mãos de Frances estavam apoiadas nos joelhos. Mas, naquele momento, ela cruzou os dedos, descruzou-os e cruzou-os de novo.
— Nas primeiras semanas depois que o conheci, ele passava quase o tempo todo delirando. Reconhecia meu rosto. Havia dias em que achava que já estávamos casados. De vez em quando me chamava de Violet. Alguém me disse que esse era o nome da sua falecida irmã. Às vezes, tarde da noite, me pedia para segurar sua mão e cantar para ele. Quando a dor era forte demais, eu fazia isso, apesar de ter uma voz péssima. — Seus lábios esboçaram um sorriso discreto. — Nunca conheci um homem tão gentil. Na noite em que falei que aceitava seu pedido de casamento, ele chorou de felicidade.
Com dor, Avice fechou os olhos, e Frances esperou que a cólica da colega passasse. Depois continuou, e sua voz clara ecoou no quarto cada vez mais escuro.
— O capitão Baillie, chefe da unidade dele, sabia que Chalkie não tinha família. Sabia também que eu não teria muito a ganhar com o casamento, mas tinha certeza de que isso deixaria o paciente feliz. Então concordou, e suponho que poucos teriam feito isso. Não era uma coisa muito nobre da minha parte, imagino, mas eu gostava dele de verdade.
— E você sabia que assim conseguiria ir embora.
— Sim. — Mais uma vez ela deu um sorriso discreto. — Que ironia, não é mesmo? Uma mulher com meu passado se casa com o único homem que nunca encostou nela.
— Pelo menos você manteve sua reputação intacta.
— Não. Isso não aconteceu. — Frances passou a mão na saia imunda, endurecida pelo sal, a mesma que estava usando no bote salva-vidas. — Alguns dias antes de Chalkie e eu nos casarmos, eu estava sentada do lado de fora da tenda das enfermeiras, lavando ataduras, quando o artilheiro apareceu e… — ela engoliu em seco — … tentou enfiar a mão embaixo da minha saia. Gritei e dei um tapa forte no rosto dele. Era o único jeito de mantê-lo afastado. As outras enfermeiras saíram correndo dali e ele gritou para elas que eu só servia para aquilo. Que ele tinha me conhecido em Aynsville. Foi o ponto decisivo, entende? Era uma cidade muito pequena, e eu havia contado de onde viera. Elas sabiam que devia ser verdade. — Fez uma pausa. — Acho que teriam encarado melhor se ele tivesse dito que eu havia matado alguém.
— Alguém contou para Chalkie?
— Não. Mas acho que foi para evitar que ele sofresse. Bem, alguns preferiram ignorar a história. Acho que quando alguém vê a morte tão de perto, a reputação dos outros deixa de ser importante. Todos sabiam que Chalkie gostava de mim e que estava muito debilitado. Os homens são leais uns aos outros… e essa lealdade às vezes é demonstrada de um jeito bem estranho.
— As enfermeiras reagiram como eu ao julgar você?
— A maioria, sim. Mas acho que a enfermeira-chefe teve uma visão diferente das coisas. Fazia muito tempo que trabalhávamos juntas. Ela me conhecia… me conhecia como uma pessoa diferente. Só me aconselhou a aproveitar ao máximo o que Chalkie me dera. Não é todo mundo que consegue uma segunda chance na vida.
Avice se deitou e ficou encarando o teto.
— Acho que ela tinha razão. Ninguém precisa saber. Ninguém precisa saber… de nada.
Frances ergueu uma sobrancelha, desconfiada.
— Mesmo depois de tudo o que aconteceu?
Avice deu de ombros.
— A Inglaterra é um país grande. Tem uma população enorme. E Chalkie vai tomar conta de você.
Como Frances não respondeu, Avice perguntou:
— Ninguém contou para ele, no fim das contas? Nem depois de tudo aquilo?
— Não — respondeu Frances. — Ninguém contou para ele.

* * *

Do lado de fora, de onde ouvira toda a conversa, ainda segurando duas canecas de metal cheias de chá já frio, Nicol afastou suavemente a cabeça da porta e fechou os olhos.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!