30 de março de 2019

Capítulo 21

— Por que está demorando tanto? — perguntou Bonnie, quicando nos calcanhares.
— Deixe de ser tão nervosinha — disse Meredith distraidamente, esticando o pescoço para ver por cima da multidão na frente do McAllister. Havia uma espécie de gargalo na entrada do alojamento que reduzia o passo de todos. Ela tremeu na blusa fina; estava começando a esfriar à noite.
— Tem segurança na porta — avisou Bonnie quando elas chegaram mais perto da entrada. — Estão pedindo identidade para as pessoas? — Sua voz estava estridente de indignação.
— Só estão vendo se a pessoa tem carteira de estudante — explicou alguém no grupo —, para saber se você não é uma assassina louca de fora do campus.
— Entendi — disse o amigo. — Só podem entrar os assassinos do campus.
Alguns riram de nervoso. Bonnie ficou em silêncio, mordendo o lábio, e Meredith tremeu de novo, desta vez por motivos que nada tinham a ver com o frio.
Quando enfim chegaram à frente da fila, os seguranças olharam rapidamente suas identidades e gesticularam para elas entrarem. Lá dentro estava apinhado, e a música bombava, mas ninguém parecia realmente no clima para uma festa. As pessoas se reuniam em pequenos grupos, falando baixo e olhando em volta, nervosas. A presença dos seguranças lembrou a todos do perigo que espreitava, invisível, pelo campus. Qualquer um podia ser o responsável, até alguém ali naquele exato momento.
Ao pensar nisso, a visão que Meredith tinha da sala se alterou, os outros alunos transformando-se de inocentes a sinistros. Aquele cara de fraternidade de cabelo encaracolado no canto — ele estava fitando sua linda acompanhante com algo mais do que simples desejo? O rosto dos desconhecidos se distorceu cruelmente, e Meredith respirou fundo, acalmando-se, até que todos parecessem normais de novo.
Samantha vinha na direção dela com um copo de plástico vermelho.
— Tome — disse ela, entregando um refrigerante a Meredith. — Todo mundo está tenso hoje, é de arrepiar. É melhor ficarmos atentas e não bebermos — sugeriu ela, já no mesmo clima de Meredith.
Bonnie se despediu de Meredith com um aperto em seu braço e partiu na multidão para procurar Zander. Meredith bebeu o refrigerante e olhou, cautelosa, para os estranhos que a cercavam.
Apesar do mal-estar geral que permeava a festa, alguns estavam tão envolvidos com os outros que conseguiam se divertir assim mesmo. Ela viu um casal se beijar, tão concentrado um no outro que parecia não haver mais ninguém no mundo. Não estavam preocupados com os ataques e desaparecimentos no campus, e Meredith se viu sentindo uma pontada aguda de inveja. Ela sentia falta de Alaric, tinha saudade dele com uma intensidade profunda que não dava descanso, mesmo quando não pensava conscientemente nele.
— O assassino pode estar bem aqui nesta festa — comentou Samantha, infeliz. — A gente não devia sentir alguma coisa? Como podemos proteger alguém se não sabemos a quem combater?
— Eu sei — disse Meredith.
A multidão se separou e ela viu um rosto que não esperava: Stefan, recostado na parede mais distante. Seus olhos se iluminaram quando a viram, e ele olhou para além dela com um meio-sorriso esperançoso já se formando nos lábios.
Coitado. Por mais que Meredith pensasse na decisão de Elena de dar um tempo — e, a propósito, Meredith achava que Elena tinha razão; graças ao seu envolvimento com os dois Salvatore, todos se metiam em problemas —, não conseguia deixar de ter pena dele. Stefan tinha o jeito de alguém que vivia a mesma pontada aguda de solidão e saudade que Meredith sentia ao pensar em Alaric. Devia ser pior para ele, porque Elena estava muito perto e havia escolhido se separar dele, contrariando seus desejos.
— Com licença um segundo — disse ela a Samantha, indo em direção a Stefan.
Ele a cumprimentou educadamente e perguntou sobre as aulas e o treinamento de caçadora, embora ela soubesse que ele ardia de vontade de perguntar sobre Elena. Ele sempre tinha boas maneiras.
— Ela ainda não chegou, mas virá com certeza — disse Meredith, interrompendo uma das amabilidades dele. — Teve que fazer uma coisa primeiro. — O rosto de Stefan se abriu num sorriso de alívio agradecido, depois ele franziu o cenho.
— Elena virá sozinha? — perguntou. — Depois de todos os ataques?
— Não. — Meredith o tranquilizou. Não tinha pensado nisso, e não achava que devia contar que Elena estava com Damon. — Ela está com outras pessoas — preferiu dizer, e ficou feliz com a impressão de que sua resposta o satisfez.
Meredith bebericou o refrigerante e torceu ardentemente para que Elena tivesse o bom-senso de não trazer Damon à festa.


Matt localizou Chloe do outro lado da sala. Esta era a noite, decidiu. Já bastava de brincar, trocar olhares, abraços e apertos de mão gentis e platônicos. Ele queria saber se ela sentia o mesmo, se ela sentia que talvez houvesse alguma coisa digna de ser explorada entre os dois.
Ela falava com alguém, um cara que ele reconheceu da Vitale, e o cabelo castanho e cacheado dela brilhava levemente sob a luz do teto. Havia tanta vida em Chloe: seu riso, o modo como ouvia o que o cara dizia, atenta e envolvida, o rosto concentrado.
Matt queria beijá-la mais do que qualquer coisa.
Partiu para atravessar a sala até ela, cumprimentando conhecidos ao passar. Não queria parecer mal-educado e ansioso demais, não queria dar a entender que ia direto até ela, mas também não queria parar e perdê-la na multidão.
Matt.
Matt sentiu um solavanco como se tivesse sido golpeado quando a saudação muda o atingiu. Girando para ver de onde vinha, encontrou Stefan parado bem atrás, e fechou a cara para ele com irritação. Ele odiava quando Stefan entrava em sua cabeça daquele jeito.
— Podia simplesmente ter dito oi — disse a Stefan com a maior brandura que pôde. — Sabe como é, em voz alta.
Stefan baixou a cabeça, ruborizando.
— Desculpe. Foi grosseria minha, eu só queria chamar sua atenção. Está muito barulhento aqui. — Ele gesticulou em volta e Matt se perguntou, como acontecia às vezes, como pareceria a vida de um adolescente moderno ao vampiro. Stefan vivera mais do que Matt um dia viveria, mas parecia que o rock alto e a pressão dos corpos em volta dele o deixavam constrangido, mostrando as falhas em seu disfarce como alguém jovem. Ele se esforçava muito, por Elena, Matt sabia.
— Estou esperando Elena — disse Stefan. — Você a viu? — As rugas em seu rosto mostravam ansiedade e, num átimo, desfez-se a imagem que Matt tinha de Stefan como alguém muito velho e deslocado no salão. Stefan parecia dolorosamente novo, solitário e preocupado.
— Vi — respondeu Matt. — Acabei de vê-la na biblioteca. Ela disse que vinha para cá depois. — Ele mordeu a língua para não acrescentar que a vira lá com Damon, justo ele. Matt não sabia o que estava havendo entre Elena e os irmãos, mas imaginava que Stefan não precisava saber que Elena e Damon estavam juntos.
— Eu devia ficar longe dela — confidenciou Stefan com tristeza. — Ela acha que está se colocando entre mim e Damon e quer um tempo para nós todos resolvermos as coisas antes de ficarmos juntos de novo. — Ele olhou para Matt, quase suplicante. — Mas pensei que, como tem tanta gente aqui, não íamos ficar a sós mesmo.
Matt tomou um gole da cerveja, com a mente trabalhando furiosamente. Agora ele sabia que tinha razão em não contar que vira Elena e Damon juntos. Que jogo Elena estava fazendo agora?
Também foi um choque perceber como ele estava por fora. Quando foi que tudo isso aconteceu? Desde a morte de Christopher, ele andou evitando os amigos, passando tanto tempo concentrado na Vitale Society que não notou essa mudança na vida deles. O que mais estava perdendo?
Stefan ainda o olhava como se buscasse aprovação, e Matt esfregou a nuca pensativamente e propôs:
— Você devia conversar com Elena. Diga que está infeliz sem ela. O amor vale esse risco.
Enquanto Stefan assentia, os olhos de Matt procuraram Chloe na multidão. O cara com quem ela conversava sumira, e ela estava sozinha naquele momento, mordendo o lábio ao vasculhar a sala. Matt estava prestes a pedir licença e ir até lá quando outra voz falou em seu ouvido.
— Oi, Matt, como está passando?
Ethan apareceu ao lado dele, concentrando os olhos castanhos dourados nos de Matt, que se sentiu endireitar as costas e colocar os ombros para trás, tentando parecer leal e honroso, um candidato promissor, tudo o que a Vitale queria dele. Matt via esta reação a Ethan em outros aspirantes: eles queriam ser e fazer o que Ethan queria deles. Algumas pessoas eram líderes naturais, pensou Matt.
Eles conversaram por um minuto, não sobre a Vitale Society, é claro, não na frente de Stefan, mas simplesmente sobre futebol, aulas e a música que estava tocando, e então Ethan voltou seu sorriso caloroso para Stefan.
— Oh, humm, Ethan Crane, Stefan Salvatore — apresentou Matt, acrescentando: — Stefan e eu fizemos o ensino médio juntos.
Stefan e Ethan entraram em uma conversa, e Matt procurou Chloe novamente. Ela não estava mais no lugar onde ele a vira, e ele começou a entrar em pânico, até que a encontrou novamente na multidão, movimentando-se com a música.
— Não posso deixar de perceber um leve sotaque, Stefan — dizia Ethan. — Você é da Itália?
Stefan sorriu timidamente.
— A maioria das pessoas nem o nota mais — comentou. — Meu irmão e eu saímos da Itália há muito tempo.
— Ah, seu irmão também veio para cá? — perguntou Ethan, e Matt decidiu que os dois pareciam bem satisfeitos juntos, não havendo problema em se afastar agora.
— Vejo vocês depois. — Dando outro gole na cerveja, Matt deu passos firmes em direção a Chloe. Seus olhos brilhavam, as covinhas apareciam, e ele sabia que a hora era certa. Como tinha dito a Stefan, o amor vale o risco.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!