14 de março de 2019

Capítulo 21

A das AMARRAS dos navios que tanto amamos,
B da BELEZA das esposas, louras ou morenas,
C da CORAGEM que nunca lhes faltou,
D da DISTÂNCIA que percorríamos em milhas náuticas,
E do ESFORÇO para dar nosso melhor,
F da FORÇA sempre colocada à prova…
IDA FAULKNER, ESPOSA DE GUERRA, CITADO POR JOANNA LUMLEY EM FORCES SWEETHEARTS, WARTIME ROMANCE FROM THE FIRST WORLD WAR TO THE GULF

O fornalheiro bombeiro emergiu da fumaça preta com o mesmo passo hesitante de um cego. Segurava com uma das mãos a mangueira e com a outra, estendida, esperava a ajuda que o levaria para um lugar seguro. Sua máscara de fumaça estava preta, e as mãos que se apressaram a retirá-la da sua cabeça perceberam, com os dedos queimando, como estava quente.
Green tossiu e esfregou os olhos cobertos de fuligem. Em seguida, endireitou o corpo e se virou para o comandante.
— Fomos obrigados a recuar, comandante. Fechamos todas as escotilhas que pudemos, mas o fogo já se alastrou para a casa de máquinas a estibordo. O sistema de irrigação não funcionou. — Tossiu e cuspiu um catarro preto no chão, depois ergueu os olhos, que estavam brancos, contrastando com o rosto escurecido pela fuligem. — Acho que não chegou ao tanque de alimentação principal, caso contrário teria acontecido uma explosão na sala de controle de máquinas.
— E se tentássemos espuma química?
— Tarde demais para isso, comandante. Não é mais apenas um incêndio em combustível.
Ao seu redor, a equipe de fuzileiros, fornalheiros e bombeiros navais estava a postos, com mangueiras e extintores nas mãos, à espera de instruções para combater o fogo.
No Indomitable, Highfield era conhecido por saber a localização de cada sala, cada cabine, cada porão da sua cidade flutuante, sem nunca ter que consultar um mapa. Em seguida, ele imaginou como o fogo poderia se propagar no Victorious, seu irmão gêmeo.
— Sabemos qual direção as chamas estão seguindo?
— Só podemos torcer que se propaguem para estibordo. Assim, talvez perderemos o motor de estibordo, mas o fogo vai se extinguir no espaço aberto. Acima disso fica o tanque de óleo lubrificante e o turbogerador.
— Então o pior que poderia acontecer seria ficarmos imobilizados.
Ao redor, a sirene de incêndio continuava soando no corredor lotado. Ao longe, Highfield ouvia as mulheres sendo reunidas no posto de evacuação.
— Comandante?
— O que foi?
— Não tenho como garantir que o fogo vá seguir naquela direção.
Combatido a tempo, um incêndio na casa de máquinas poderia ter sido apagado com extintores e, na pior das hipóteses, com uma mangueira. Mesmo descoberto tardiamente, o fogo poderia ser contido formando barreiras de mangueiras, jogando água nas paredes externas para manter baixa a temperatura da sala. Esse incêndio, no entanto, e só Deus sabe como, já tinha avançado demais. Onde estavam os homens?, ele tinha vontade de gritar. Onde estavam os extintores? Os malditos borrifadores? Era tarde demais para pensar em qualquer uma dessas coisas.
— Acha que o fogo pode chegar à sala de controle de máquinas?
O homem assentiu.
— Se isso acontecer, também vai chegar às salas de ogivas e bombas.
— Isso mesmo, comandante.
Aquele avião. Aquele rosto. Highfield se esforçou para afastar a imagem.
— Tire as mulheres do navio.
— O quê?
— Desçam os botes salva-vidas.
Dobson olhou para o mar agitado.
— Comandante, eu…
— Não vou correr nenhum risco. Desçam os botes salva-vidas. Isso é uma ordem! Green, reúna seus homens e equipamentos. Dobson, preciso de pelo menos dez homens. Vamos evacuar as salas de bombas e manter o pessoal o mais longe possível. Depois inundaremos tudo. Tennant, quero que você e outros dois homens verifiquem se é possível chegar à passagem abaixo da sala da bomba principal. Abram as escotilhas do depósito de óleo lubrificante e inundem o local. Inundem o máximo de compartimentos ao redor das duas salas de máquinas.
— Mas fica acima do nível da água, comandante.
— Olhe essas ondas, meu chapa. Pelo menos uma vez faremos esse maldito mar trabalhar a nosso favor.

* * *

No convés dos barcos, Nicol tentava convencer uma garota aos prantos e com os braços ao redor do colete salva-vidas a entrar no bote.
— Não consigo — gritava ela, apontando para o mar escuro e agitado abaixo. — Olhe! Não dá!
Em torno deles, os fuzileiros se esforçavam para manter a ordem e a calma, apesar das sirenes e das instruções transmitidas de outras partes do navio. De tempos em tempos, uma mulher gritava que estava vendo fumaça ou pelo menos sentindo o cheiro, e o medo dela contagiava as outras. Apesar disso, a garota aos prantos não era a única que se recusava a entrar nos botes salva-vidas que, comparados com a estabilidade do Victorious, pareciam rolhas de cortiça balançando precariamente nas águas agitadas.
— Você precisa entrar — gritou ele. Seu tom de voz ficava cada vez mais firme.
— E as minhas coisas? O que vai acontecer com elas?
— Estarão a salvo. O fogo logo vai ser apagado e vocês vão embarcar de volta. Venha agora. A fila está aumentando.
Resignada, e ainda chorando, a jovem esposa permitiu que a levassem para dentro do barco e a fila avançou um pouco. Atrás dele, centenas de mulheres esperavam. Elas haviam sido instruídas a abandonar o convés do hangar e seguir para os botes salva-vidas. A maioria ainda usava vestido de festa. O vento que soprava forte deixava seus braços arrepiados. Elas se agarravam umas às outras e tremiam. Algumas choravam, outras exibiam sorrisos enormes e nervosos, como se quisessem se convencer de que tudo aquilo não passava de uma animada aventura. Uma em cada três se recusava terminantemente a embarcar e precisava receber ordens ou ser levada à força. Nicol não as culpava: ele também não queria entrar em um bote salva-vidas.
Sob a fraca iluminação dos holofotes, notou que alguns homens também se lembravam do Indomitable. Eles trocavam olhares enquanto tentavam não revelar demais em suas expressões, e se mantinham concentrados em fazer as esposas enfrentarem com relativa segurança o mar abaixo.
A próxima mão feminina agarrou a dele. Era Margaret, com o rosto redondo pálido.
— Não posso abandonar Maudie — disse ela.
Ele levou alguns segundos para entender o que ela estava falando.
— Frances está lá embaixo e vai trazê-la. Vamos, não há tempo a perder.
— Como sabe?
— Margaret, você precisa embarcar.
Ele via os rostos ansiosos das mulheres balançando no bote suspenso.
— Vamos, suba agora. Não faça as outras esperarem.
Ela agarrava a mão de Nicol com uma força surpreendente.
— O senhor precisa falar para ela trazer Maudie.
Nicol semicerrou os olhos e observou a fumaça e a movimentação nos conveses inferiores. Não era pela cachorrinha que ele temia.
— Nicol, você entra naquele ali — ordenou o capitão fuzileiro, que apareceu atrás dele e apontou para o barco prestes a descer. — Confira se todas estão com coletes salva-vidas.
— Senhor, prefiro esperar no convés, se for…
— Quero você naquele barco.
— Senhor, se não fizer diferença, eu vou…
— Nicol, vá para o barco. É uma ordem.
O capitão fuzileiro indicou a pequena embarcação com a cabeça, enquanto o barco de Margaret desaparecia pela lateral do navio. Depois, voltou a olhar para Nicol.
— O que diabo aconteceu com seu rosto?
Alguns minutos mais tarde, o barco de Nicol atingiu as ondas com um baque abafado e espirrou muita água, o que fez muitas mulheres gritarem. Atrapalhado e com dificuldade para colocar o colete salva-vidas em uma garota particularmente histérica, Nicol deu uma olhada em todos os barcos que já estavam na água até que viu Emmett. O jovem fuzileiro fazia um sinal para indicar que havia um único remo.
— Não tem corda — gritou. — E falta metade dos remos. Esse maldito navio é um ferro-velho flutuante.
— Ele seria substituído em pouco tempo. Denholm nos informou isso logo depois do nosso último exercício de evacuação — gritou outra voz.
Nicol procurou e encontrou seus dois remos. Ele teve sorte. Estavam seguros. Poderiam flutuar a noite inteira, se fosse preciso. Ao redor, o mar estava escuro e agitado. As ondas não estavam tão altas a ponto de causar um medo excessivo, mas tinham tamanho suficiente para manter as mulheres agarradas às bordas das pequenas embarcações. Acima, apesar do zumbido nos ouvidos, ele escutava as instruções transmitidas com cada vez mais urgência pelos alto-falantes, agora em conjunto com a sirene. Observou o navio danificado: uma pequena porém perceptível nuvem de fumaça escapava pelo vão abaixo da cabine das mulheres.
Saia logo, pediu ele em silêncio. Vá para um lugar onde eu possa ver você.
— Não consigo me aproximar de você — gritou Emmett. — Como vamos fazer para manter os barcos juntos?
— Saia. Saia daí agora — pediu ele de novo, dessa vez em voz alta.
— Olhe — disse uma mulher atrás dele —, sei o que podemos fazer. Venham, meninas…

* * *

— Não vou sair daqui.
Frances conseguira controlar Avice, sem se importar mais com o que a garota achava dela, nem com sua reação à aproximação física das duas. Ela estava ouvindo o barulho dos botes salva-vidas se chocando em ondas e os gritos das mulheres que saíam do navio, e foi tomada pelo medo cego de que talvez não conseguissem escapar.
Tentou não deixar seu temor transparecer para Avice que, ela suspeitava, não tinha condições de pensar racionalmente. Frances odiava aquela garota idiota, burra demais até para reconhecer que a vida das duas corria perigo.
— Sei que é difícil, mas você precisa sair agora.
Ela mantivera um tom de voz suave durante os dez últimos minutos. Calmo, tranquilizador, neutro, do jeito que costumava falar com os feridos mais graves.
— Não me resta mais nada — murmurou Avice com a voz áspera como lixa. — Está me ouvindo? Está tudo acabado. Estou arruinada.
— Tenho certeza de que as coisas podem ser resolvidas…
— Resolvidas? Como? Devo me descasar? Remar de volta para a Austrália?
— Avice, esta não é a hora…
Ela já sentia cheiro de fumaça. Um calafrio percorreu seu corpo da cabeça aos pés.
— Ah, como você conseguiria entender? Logo você, que tem a moral de um gato de rua.
— Precisamos sair daqui.
— Não me importo. Minha vida acabou. Posso muito bem ficar aqui…
Avice começou a chorar. No convés acima delas, alguma coisa se espatifou. O estremecimento que isso provocou na pequena cabine pareceu ter tirado Avice do seu estupor.
O rosto de um homem apareceu na fresta da porta.
— Vocês não deviam estar aqui. Larguem suas coisas e venham — gritou ele. Parecia disposto a entrar na cabine, mas um grito na outra extremidade do corredor o distraiu. — Agora! — insistiu e se afastou.
Apavorada, Frances olhou para a porta ainda a tempo de ver as patas traseiras da cachorrinha desaparecendo por ali. Considerou correr atrás, mas a expressão de medo de Avice a fez compreender quais eram as prioridades.
Houve outro estrondo e um homem na extremidade do convés do hangar gritou:
— Fechem as escotilhas! Fechem as escotilhas agora!
— Ai, meu Deus!
Frances tinha uma força impressionante. Ela segurou Avice por um braço, puxou seu vestido e a arrastou para fora da cabine, sabendo que pelo menos ela se deixaria levar. O corredor estava tomado pela fumaça. Frances tentou se abaixar e tapou a boca e o nariz com a mão.
— Para a torre de tiro — gritou, apontando a direção.
Aos tropeções, quase sem enxergar, com os pulmões ardendo e doendo, as duas correram para lá.
Com dificuldade, abriram a porta da escotilha e caíram na área externa, ofegantes e enjoadas. Frances conseguiu chegar à amurada e se debruçou ali, tão aliviada por respirar um ar mais puro que demorou um minuto para entender o que acontecia abaixo dela: um emaranhado de barcos unidos por cordas marrons.
Ela ergueu os olhos para o pórtico vazio do navio e verificou que todos os botes já estavam na água. O som de vozes próximas indicava que ainda havia homens no convés. Mas ela não conseguia pensar num jeito de chegar até eles.
Alguém as viu e gritou. Braços se agitaram lá embaixo nos botes salva-vidas.
— Saiam daí! Saiam logo!
Frances olhou para a água, depois para a garota ao seu lado, que ainda usava seu melhor vestido. A enfermeira era ótima nadadora, portanto conseguiria mergulhar e voltar à superfície no meio dos barcos. Ela não devia nada a Avice. Devia menos do que nada.
— Não temos como subir para o convés de voo. Há muita fumaça no corredor — avisou ela. — Vamos ter que pular.
— Não consigo — disse Avice.
— Não é tão alto assim. Olhe… Vou segurar você.
— Não sei nadar.
Frances ouviu alguma coisa estalar na lateral do navio, indício de uma situação catastrófica que ela não queria enfrentar. Agarrou Avice e elas se debateram, enquanto Frances tentava desesperadamente arrastá-la para a amurada.
— Me largue! — gritou Avice. — Não toque em mim!
Ela estava descontrolada, arranhando e socando os braços e os ombros da colega. A fumaça entrava pela fresta sob a escotilha. De algum lugar bem mais abaixo, Frances ouvia vozes femininas chamando por elas. Sentiu um cheiro acre e seu coração foi tomado pelo medo. Segurou Avice pelo vestido e a arrastou até a torre de tiro. O solado de borracha do seu sapato derrapou no chão de metal, ela escorregou e, no mesmo instante, pensou: e se ninguém me resgatar? Então ouviu um grito e, agarradas uma à outra, braços e pernas balançando no ar, pularam na água escura.

* * *

Com uma chave inglesa na mão, o comandante tentava, com dificuldade, soltar a bomba do suporte que a prendia na parede.
— Saiam! — gritou ele para os três marinheiros fortes que carregavam a penúltima bomba do depósito. — Peguem a mangueira! Inundem o compartimento! Façam isto agora!
Ele retirara a máscara para que o escutassem melhor, e sua voz saiu rouca quando tentou falar e respirar.
— Comandante! — berrou Green, por trás da máscara. — Temos que sair agora.
— Não está soltando. Precisamos colocar a bomba em um lugar seguro.
— O senhor não vai conseguir soltar todas. Não dá tempo. Podemos inundar agora.
Mais tarde, Green achou que talvez Highfield não o tivesse escutado. Ele não queria abandonar o comandante, mas sabia que havia muito pouco a fazer diante da preocupação de alguém que quer manter os outros homens a salvo. Por isso se resignou.
— Comecem a jogar água — gritou Highfield. — Agora!
Ele se virou ao ouvir alguma coisa cair no chão. Quase sem enxergar, Green jogou sua máscara de fumaça para o comandante, na esperança de que ele a pegasse e que, de algum modo, conseguisse vê-la, apesar da fumaça. Com o coração apertado e apreensivo, saiu dali, empurrando seus homens.

* * *

Frances reapareceu na superfície da água, com a boca bem aberta e o cabelo grudado no rosto. Ouviu vozes e sentiu mãos tentando puxá-la da água tão fria que quase a impedia de respirar. A princípio, o mar gelado não quis soltá-la. Tinha a impressão de que a água congelante agarrava sua roupa. Depois, exausta e ofegante, percebeu que estava no chão do bote, com ânsia de vômito e se contorcendo feito um peixe fora do mar. Vozes tentavam tranquilizá-la, e em seguida um cobertor envolveu seus ombros.
— Avice — murmurou ela.
Quando a ardência do sal em seus olhos diminuiu, ela viu a colega ser içada como um fardo para dentro da embarcação. Seu vestido reluzia com as manchas de óleo e ela mantinha os olhos bem fechados, como se temesse ver o futuro.
Frances queria perguntar se ela estava bem. Mas um braço a envolveu e a puxou para perto. Não a largou em seguida, como ela esperava. Ao contrário, a apertou com mais força, de forma que Frances sentiu a proximidade de um corpo sólido, a intensidade da sua proteção, e de repente ficou sem palavras. Frances, sussurrou uma voz em seu ouvido. Aliviada, fechou os olhos.

* * *

O comandante Highfield foi colocado no convés de voo, para onde os dois marinheiros o haviam levado. Os homens o rodearam, alguns com as mãos enfiadas nos bolsos, outros limpando suor ou fuligem do rosto e cuspindo ruidosamente para trás. Mais adiante, sob o céu escuro, havia gritos de confirmação de que o incêndio estava extinto em diferentes partes do navio.
— O fogo foi apagado, comandante — disseram. — Está sob controle. Conseguimos. — Apenas sussurraram as palavras, como se não tivessem certeza de que ele conseguia ouvir.
Conversariam mais depois, comentariam que não era justo que um homem na sua posição, com a sua idade, lutasse contra o fogo de forma tão imprudente. Ele seria censurado por não ter delegado ordens direito, por não ter pedido que outro oficial ficasse na retaguarda para observar melhor o quadro geral. No entanto, vários homens aprovariam suas atitudes. Pensariam em Hart e nos companheiros perdidos, e se perguntariam se não teriam feito o mesmo.
Essas considerações, porém, só seriam feitas horas, dias depois. Naquele momento, Highfield estava deitado no convés, indiferente às palavras e ao consolo.
Houve um silêncio prolongado, enquanto os homens observavam o corpo imóvel do comandante, ainda com o uniforme de gala, agora encharcado e manchado pela fumaça, com os olhos fixos em alguma catástrofe distante.
Os homens ficaram encarando Highfield e depois, disfarçadamente, se entreolharam. Um deles se perguntou se valia a pena chamar o médico a bordo, que estava organizando um concerto improvisado com os passageiros dos botes salva-vidas. Então o comandante ergueu o corpo, apoiando-se em um cotovelo. Seus olhos estavam injetados. Tossiu uma, duas vezes, e cuspiu um catarro escuro no chão do convés. Mexeu o pescoço, como se sentisse dor.
— Bem, o que estão esperando? — perguntou com uma voz rouca e os olhos enfurecidos. — Verifiquem todos os compartimentos. Depois mandem essas malditas mulheres saírem desses malditos botes e voltarem para este maldito navio.

* * *

Foram necessárias duas horas até o navio ser considerado seguro. Barcos de pesca espanhóis passaram por ali pouco antes do amanhecer e confirmaram que as passageiras ainda à espera na água não precisavam ser resgatadas com urgência. Eles teriam assunto por anos a fio se quisessem contar a história dos botes salva-vidas repletos de mulheres com vistosos e coloridos vestidos de festa que, com braços e pernas em posições caóticas, cantavam The Wild Rover No More. Os botes estavam unidos, como uma teia de aranha gigante, pelas meias-calças marrons esticadas das mulheres, amarradas umas às outras.
Havia dois fuzileiros em cada embarcação. A água batia na lateral dos botes, fazendo flutuar as meias descartadas ou rasgadas, que pareciam algas marrons na superfície. As mulheres cochicharam, com alívio e exaustão, quando souberam que não precisariam ficar muito mais tempo nos barcos pequenos. Que elas, e também seus pertences, estavam a salvo.
Ele não tirava os olhos dela. Com o corpo adormecido de Avice ainda enroscado no cobertor e descansando todo flácido em cima do seu, Frances retribuiu o olhar dele por cima dos corpos curvados das outras passageiras, em silêncio e sem piscar, como se os olhos dos dois estivessem conectados por um fio invisível.

* * *

O comandante estava vivo. O fogo, extinto.
Todos deviam voltar a bordo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!