30 de março de 2019

Capítulo 20

Isto é bem pior que a prova com obstáculos, pensou Matt. E construir uma casa de jornal. E andar sobre brasas. Este é sem dúvida o pior evento dos aspirantes até agora.
Ele torceu a escova de dentes na mão para alcançar o pequeno nicho no fundo do revestimento das paredes, na sala de aspirantes da Vitale Society. A escova de dentes saiu preta de sujeira antiga e teias de aranha penduradas, e Matt fez uma careta de nojo. Suas costas já estavam doendo de ficar recurvado.
— Como está indo, soldado? — perguntou Chloe, agachada ao lado dele, com uma esponja pingando na mão.
— Sinceramente, não sei como esfregar esta sala vai nos ajudar a desenvolver honra, liderança e todas as coisas de que Ethan vive falando — disse Matt. — Acho que este é só um jeito de eles economizarem uma grana no serviço de faxina.
— Bem, dizem que a limpeza é uma virtude — lembrou Chloe, e riu. Ele gostava de seu riso. Era meio borbulhante e ressonante.
Por dentro, ele revirou os olhos consigo mesmo. Borbulhante e ressonante. Chloe tinha uma risada bonita, era o que ele queria dizer.
Eles vinham passando muito tempo juntos desde a morte de Christopher. Matt achava que nada podia ser pior do que morar com as coisas de Christopher quando o próprio Christopher não estava mais ali, mas os pais do menino vieram e empacotaram tudo, afagando gentilmente as costas de Matt como se ele merecesse alguma solidariedade, quando eles é que tinham perdido o filho único. E, com o espaço deixado pelas coisas de Christopher, tudo ficou mil vezes pior.
Meredith, Bonnie e Elena tentavam reconfortá-lo. Queriam tanto que Matt ficasse bem de novo, e ele se sentia culpado por não estar, tornando ainda mais difícil ficar na companhia delas.
Chloe passou a visitá-lo no quarto, ficando com ele ou levando-o ao refeitório ou outro lugar, mantendo-o em contato com o mundo quando ele tinha vontade de se trancar. Havia algo tão tranquilo nela. Elena, a única menina que ele amara — antes, cochichou parte dele —, dava muito mais trabalho. Por dentro, ele se encolheu pela deslealdade a Elena, mas era verdade.
Agora Matt começava a despertar e se interessar pelas coisas de novo. E ele sempre notava com uma surpresa renovada a covinha linda que Chloe tinha na bochecha direita, ou o brilho de seu cabelo preto, ou a graça e a beleza de suas mãos, apesar de em geral estarem sujas de tinta.
Até agora, porém, eles eram só amigos. Talvez... talvez fosse hora de mudar isso.
Chloe estalou os dedos na cara dele, e Matt percebeu que a estivera encarando.
— Está tudo bem, amigo? — perguntou ela com um leve franzido na testa, e Matt teve de se conter para não beijá-la bem ali.
— Sim, só voei um pouco. — Ele sentiu um rubor se esgueirar pelo rosto. Sorria feito um pateta, sabia disso. — Quer ajudar com estas paredes?
— Claro, por que não? — respondeu Chloe. — Vou jogar sabão na parede, e você continua fazendo isso aí com a escovinha de dentes.
Eles trabalharam juntos por um tempo, Chloe de vez em quando deixando cair água com sabão de propósito na cabeça de Matt.
Enquanto prosseguiam pelo revestimento, o nicho sob o rodapé ficou mais fundo, até que não era mais um nicho, mas um buraco. Matt esfregou a escova por baixo — cara, como estava sujo ali — e sentiu algo se mexer.
— Tem alguma coisa aqui embaixo — disse a Chloe, plantando a mão no chão e enfiando os dedos no buraco. Passou as mãos e a escova de dentes em volta, tentando puxar o que havia embaixo em direção a eles, mas não conseguiu pegar.
— Olhe — chamou Chloe depois de um instante —, acho que o forro pode deslizar aqui em cima. — Ela sacudiu a parte da madeira até que o material soltou um guincho e ela conseguiu levantá-lo. — Hummm — murmurou ela, confusa. — Uau, parece um compartimento secreto. Mas parece que já faz algum tempo que ninguém abre.
Depois que Chloe conseguiu soltar o revestimento, eles viram que o espaço atrás era pequeno, com apenas 30 centímetros de altura e largura, além de alguns centímetros de profundidade. Estava cheio de teias de aranha. Dentro dele havia algo retangular, embrulhado num tecido que um dia devia ter sido branco, mas agora estava cinzento de poeira.
— É um livro. — Matt o pegou. A sujeira na parte externa do tecido era grossa e macia, e saiu em suas mãos. Desenrolando, ele descobriu que o livro por dentro estava limpo.
— Uau — exclamou Chloe, baixinho.
Parecia antigo, bem antigo. A capa de couro escuro estava lascada, e as bordas das páginas eram ásperas, como se cortadas à mão, e não por uma máquina. Virando um pouco o livro, Matt via os restos de dourado que deviam formar o título, mas agora estavam gastos.
Matt abriu-o no meio. Era escrito à mão, com tinta preta, em golpes fortes e elegantes. E totalmente indecifrável.
— Acho que é latim. Quem sabe? — disse Matt. — Entende alguma coisa de latim?
Chloe meneou a cabeça. Matt voltou para a primeira página, e uma palavra saltou para ele. Vitale.
— Deve ser a história da Vitale Society — disse Chloe. — Ou segredos antigos dos fundadores. Que legal! A gente devia levar para o Ethan.
— Sim, claro — respondeu Matt, distraído. Virou mais algumas páginas, e a tinta passou de preta a marrom escura. Parece sangue seco, pensou, estremecendo, depois afastou a imagem. Era só uma tinta antiga que o tempo havia desbotado para o marrom.
Uma palavra ele reconheceu, escrita três vezes — não, quatro — na página: Mort. Significava morte, não é? Matt passou o dedo na palavra, de cenho franzido. Apavorante.
— Vou mostrar ao Ethan — disse Chloe, levantando-se e pegando o livro. Ela atravessou a sala e interrompeu a conversa de Ethan com outra menina. Do outro lado da sala, Matt observou o rosto de Ethan se abrir num sorriso lento enquanto ele pegava o livro.
Depois de alguns minutos, Chloe voltou, sorrindo.
— Ethan ficou muito animado. Disse que vai nos falar sobre ele quando conseguir alguém para traduzir o livro.
Matt assentiu.
— Incrível — exclamou ele, livrando-se do que restava de sua inquietação. Esta era Chloe, a risonha Chloe, e ele tentaria não pensar em morte, sangue ou qualquer coisa mórbida perto dela. — Ei — disse ele, afastando as ideias sombrias e concentrando-se nas luzes douradas do cabelo escuro dela. — Você vai à festa na McAllister House hoje à noite?


Talvez sem prender para trás, pensou Elena, olhando-se criticamente no espelho. Ela tirou o prendedor do cabelo e deixou as mechas douradas, sedosas e lisas caírem sobre os ombros. Muito melhor.
Ela estava bem, notou, passando os olhos desapaixonadamente por seu reflexo. Seu vestido preto e curto de alcinhas acentuava a pele de pétala de rosa e o cabelo claro, e os olhos azul-escuros pareciam imensos.
Sem Stefan, porém, o que importava sua aparência?
Ela olhou a própria boca se apertar no espelho enquanto afastava esse pensamento. Embora tivesse muita saudade de sentir a mão de Stefan na dela e seus lábios nos dela, por mais que quisesse estar com ele, agora era impossível. Ela não podia ser Katherine. E o orgulho também não a deixava se abater. Não é para sempre, disse Elena a si mesma com rigor.
Bonnie apareceu e passou o braço pelos ombros de Elena, avaliando as duas no espelho.
— Estamos ótimas, não é? — perguntou, animada. — Pronta para ir?
— Você está demais. — Elena olhou para Bonnie com carinho. A menina mais baixa praticamente brilhava de empolgação (os olhos faiscando, o sorriso luminoso, o rosto corado, a cabeleira ruiva voando aparentemente com vida própria) e o vestido azul curto e sapatos de salto alto eram lindos. O sorriso de Bonnie ficou maior.
— Vamos andando — disse Meredith, cheia de atitude.
Ela estava elegante e prática de jeans e uma blusa cinza macia e justa que combinava com seus olhos. Era difícil saber o que Meredith pensava, mas Elena a ouvira cochichando com Alaric ao telefone tarde da noite e deduziu que Meredith, no fundo, talvez também não estivesse com vontade de ir a uma festa.
Na rua, as pessoas andavam rapidamente em grupos grandes e silenciosos, olhando em volta, nervosas. Ninguém parava, ninguém estava só.
Meredith parou a meio passo e enrijeceu, de repente ciente de uma possível ameaça. Elena seguiu seu olhar. Ela estava enganada: uma pessoa estava sozinha. Damon se encontrava sentado num banco na frente do alojamento delas, com o rosto virado para o céu como quem toma sol, apesar da escuridão da noite.
— O que você quer, Damon? — perguntou Meredith, cautelosa. Sua voz não estava grosseira (eles já tinham deixado isso para trás, trabalhando juntos no verão), mas também não estava simpática, e Elena sentiu a amiga se eriçar ao lado dela.
— Elena, é claro — respondeu Damon com indolência, levantando-se e pegando suavemente o braço de Elena.
Bonnie olhou para os dois, confusa.
— Pensei que você não ia ficar com nenhum dos dois por um tempo — disse para Elena.
Damon falou em voz baixa no ouvido de Elena.
— É sobre a Vitale Society. Tenho uma pista.
Ela hesitou. Não contara às amigas sobre os indícios que descobrira com Damon de que a Vitale Society podia ser mais do que um mito, ou que podia ter alguma relação com seus pais. Ainda não havia muito o que dizer, e ela não estava preparada para contar sobre a possibilidade de os pais terem se metido com algum segredo obscuro, nem como a própria Elena se sentiu, vendo as imagens de quando eles eram jovens.
Decidindo-se, ela se virou para Meredith e Bonnie.
— Preciso ir com Damon por um minuto. É importante. Explico depois. Vejo vocês na festa daqui a pouco.
Meredith franziu a testa, mas assentiu, conduzindo Bonnie até a McAllister House. Ao saírem, Elena ouviu Bonnie dizer: “Mas a ideia não era...”
Com a mão firme no braço de Elena, Damon a levou para o lado contrário.
— Aonde vamos? — perguntou ela, sentindo-se consciente demais da maciez da pele de Damon e da força de seu aperto.
— Vi uma menina usando um daqueles broches da foto — respondeu Damon. — Eu a segui até a biblioteca, mas, depois de entrar, ela simplesmente desapareceu. Procurei por ela em toda parte. Uma hora depois, ela saiu pelas portas da biblioteca. Lembra quando eu disse que precisávamos procurar respostas em outro lugar, não na biblioteca? — Ele sorriu. — Eu estava errado. Tem alguma coisa acontecendo lá dentro.
— Quem sabe você simplesmente a perdeu? — perguntou Elena em voz alta. — A biblioteca é grande; ela pode ter se metido em alguma cabine de estudo ou coisa assim.
— Eu a teria encontrado — disse Damon rispidamente. — Eu sou bom em encontrar pessoas. — Seus dentes brilharam por um momento sob os postes.
O problema era que a biblioteca era normal demais. Depois de entrarem, Elena observou os pisos acarpetados de cinza, as cadeiras bege, as filas e mais filas de estantes e as luzes fluorescentes zumbindo. Era um lugar feito para estudar. Não parecia haver nenhum segredo escondido ali.
— Lá em cima? — sugeriu.
Eles pegaram a escada em vez do elevador para sair do térreo. Seguindo de andar em andar, não descobriram nada. Alunos lendo e tomando notas. Livros, livros e mais livros. No porão, havia uma sala com máquinas de refrigerante e pequenas mesas para descanso. Nada inesperado.
Elena parou num corredor das salas da administração, perto da máquina.
— Não vamos achar nada — disse ela a Damon. O rosto dele se retorceu de frustração, e ela acrescentou: — Acredito que você tenha encontrado alguma coisa aqui, de verdade, mas, sem nenhuma pista, nem mesmo sabemos o que procuramos.
Abriu-se uma porta atrás dela, com a placa Sala de Pesquisa, e Matt saiu de lá.
Ele parecia cansado, e Elena sentiu uma onda rápida de culpa. Depois da morte de Christopher, ela, Meredith e Bonnie pretendiam grudar em Matt. Mas ele sempre estava ocupado com o futebol ou as aulas e parecia não querer as três por perto. Ela percebeu, com choque, que não falava com ele havia dias.
— Ah, oi, Elena — disse Matt, sobressaltado. — Vai à festa hoje? — Ele cumprimentou Damon com um gesto estranho de cabeça.
— Mutt — cumprimentou Damon, abrindo um meio-sorriso, e Matt revirou os olhos.
Enquanto eles conversavam sobre a festa, as aulas e o novo seminamorado de Bonnie, Elena catalogou suas impressões de Matt. Cansado, sim — seus olhos estavam meio injetados e havia uma dureza nos lábios que não estava ali semanas antes. Mas por que ele estava com um cheiro tão forte de sabão? Ele nem estava particularmente limpo, pensou ela, examinando um risco de sujeira que descia pelo rosto até o pescoço de Matt. Parecia que algo tinha pingado em sua cabeça. Era quase como se ele estivesse limpando alguma coisa. Algo muito sujo.
Ocorreu-lhe uma ideia, e ela olhou para o peito dele. Estaria ele usando um dos broches em forma de V? Como se estivesse consciente do que ela se perguntava, Matt fechou mais o casaco.
— O que você estava fazendo nesta sala? — perguntou ela abruptamente.
— Hummm. — O rosto de Matt ficou vago por meio segundo, depois ele olhou para a porta, para a placa que dizia Sala de Pesquisa. — Pesquisa, é claro — respondeu. — Preciso ir — acrescentou. — Encontro você na festa mais tarde, está bem?
Ele tinha começado a se virar quando Elena por impulso estendeu a mão em direção ao seu braço.
— Por onde tem andado, Matt? Não o vi ultimamente.
Matt sorriu, mas não a olhou nos olhos.
— Futebol. O futebol universitário é puxado. — Ele afastou gentilmente a mão de Elena. — Até mais, Elena. Damon.
Eles o observaram sair, depois Damon assentiu para a porta de onde Matt viera.
— Vamos? — disse ele.
— Vamos aonde? — perguntou Elena, confusa.
— Ah, até parece que isso não foi suspeito — comentou Damon. Ele colocou a mão na maçaneta, e Elena ouviu a tranca estalar quando ele forçou a entrada.
A sala era muito entediante. Uma mesa, uma cadeira, um pequeno tapete no chão.
Talvez entediante demais?
— Uma sala de pesquisa sem livros? Nem um computador? — perguntou Elena. Damon inclinou a cabeça, refletindo; depois, com um movimento ágil, puxou o tapete para o lado.
Abaixo dele havia o contorno claro de um alçapão.
— Bingo. — Elena soltou o ar. Ela avançou, já se curvando para tentar abrir, mas Damon a puxou de volta.
— Quem está usando isto ainda pode estar aí embaixo — disse ele. — Matt acabou de sair, e duvido que estivesse sozinho.
Matt. Matt deveria saber o que estava acontecendo.
— Talvez eu deva falar com ele — disse Elena.
Damon franziu o cenho.
— Vamos esperar até saber com o que estamos lidando — sugeriu. — Não sabemos qual é o envolvimento de Matt nisso. Pode ser perigoso para você. — Ele segurava seu braço de novo e a puxava com gentileza, mas também com firmeza, para fora da sala. — Voltaremos depois.
Elena se deixou ser conduzida, pensando no que ele disse. Perigoso?, pensou. Mas Matt não faria nada que fosse perigoso para Elena, não é?

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