14 de março de 2019

Capítulo 20


Para entender totalmente o tédio de semanas no mar, é preciso passar por essa experiência. Para muitos, as frustrações decorrentes desse tipo de vivência eram, a longo prazo, infinitamente mais prejudiciais à mente do que os riscos potenciais de um ataque inimigo… quando não estávamos combatendo o inimigo, combatíamos entre nós mesmos.
L. TROMAN, WINE, WOMEN AND WAR

DOIS DIAS ATÉ PLYMOUTH

Na ausência de cavalos e pista, ou de pilotos amadores que com certeza acabariam se metendo em alguma enrascada, não devia ser nenhuma surpresa que as apostas recaíssem sobre as cabeças impecavelmente penteadas das candidatas a Rainha do Victorious. Era possível que as Sras. Ivy Tuttle e Jeanette Latham ficassem um pouco desmoralizadas se descobrissem que, em conjunto, tinham apostas de um para quarenta ou que, ao saber que as suas eram de cinco para dois, o passo bamboleante de Irene Carter ficasse ainda mais marcado. No entanto, fazia vários dias que estava claro para todos que a verdadeira favorita era Avice Radley, com grande parte da tripulação do navio apostando um shilling ou mais nas suas tranças louras.
— Foster diz que estão fazendo grandes apostas nela — gritou Plummer, o fornalheiro júnior.
— Bem, fazem grandes apostas em muitas coisas — resmungou o marinheiro que saía para o plantão.
— Se ela conquistar o primeiro lugar, ele sabe que vai ter de pagar metade do dinheiro que ganhou com os cavalos em Bombaim.
Dentro de algumas horas, o navio entraria nas águas frias e agitadas da baía de Biscaia. Enquanto isso, mais de trinta metros abaixo do convés de voo, no compartimento do motor, a temperatura atingia insuportáveis quarenta graus ou mais. Tims, sem camisa, girava as rodas polidas que mandavam vapor para as turbinas, enquanto Plummer, que acabara de lubrificar o motor principal, tocava para conferir se não havia superaquecimento, e de vez em quando soltava um palavrão quando sua pele encostava no metal escaldante.
Entre os dois, o mostrador telegráfico repassava as ordens superiores para colocar os motores para “fazer fumaça” ou na “velocidade máxima”, no esforço de atravessar o mar revolto o mais depressa possível. Ao redor deles, o velho e cansado navio estalava e parecia gemer em protesto, mais alto ainda do que o incessante rugido do motor. Com esforço, o vapor escapava por válvulas em pequenos jorros. Os panos que tentavam sufocá-los ficavam encharcados de água fervente. Nessas emissões de vapor, o Victorious insistia em deixar clara a sua idade, enquanto seus múltiplos mostradores e medidores o observavam com a descarada despreocupação de uma velha teimosa.
Plummer acabou de apertar um parafuso, prendeu a chave de fenda no suporte na parede e se virou para Tims.
— Você não apostou em nenhuma delas, então?
— O quê? — perguntou Tims, com o semblante fechado.
Ele estava sempre de cara amarrada e de mau humor, mas Plummer, acostumado com isso, explicou:
— No concurso desta noite. — O ruído do motor era tão alto que ele precisou gesticular para dar mais sentido às palavras. — Tem muito dinheiro em jogo.
— É tudo besteira — retrucou Tims, com desdém.
— Gosto de ver as mulheres alinhadas vestindo aqueles maiôs pequenos, sabe? — Ele desenhou curvas no ar e fez uma careta indecente, que deixou suas feições adolescentes engraçadas. — Isso nos deixa no clima para encontrarmos nossas esposas.
Tims passou a impressão de ficar ainda mais mal-humorado. Secou a testa reluzente com um pano imundo, depois se abaixou para pegar uma chave inglesa. As águas cada vez mais agitadas faziam as ferramentas deslizar de forma barulhenta pelo chão, o que representava um perigo para as canelas e os dedos dos pés.
— Não sei por que está tão animado — resmungou ele. — Você está de serviço a noite inteira.
— Apostei duas libras naquela Radley — disse Plummer. — Duas libras! Apostei enquanto ela ainda estava três por um. Então, se ela ganhar, fico cheio da grana. Se não, vou apenas beber. Prometi à minha velha mãe que pagaria uma viagem a Scarborough para a família inteira. Mas sou otimista por natureza, sabe? Nunca acho que vou perder.
Ele estava distraído, imaginando alguma cena nos conveses acima.
— Aquela garota estava fantástica de maiô no concurso de Miss Pernas Mais Bonitas. Que belo par de perninhas finas! Você acha que dão alguma coisa especial para elas na Austrália? Ouvi dizer que metade das mulheres de lá são muito magras.
Tims, que não parecia interessado no assunto, estava com os olhos fixos no seu relógio de pulso.
Plummer prosseguiu:
— Todos os oficiais podem assistir, você sabe. Que injustiça, não? Mais duas noites a bordo e os oficiais têm direito a ver as meninas de maiô, enquanto nós continuamos enfurnados aqui embaixo, neste maldito motor. Sabia que os fuzileiros estão trocando de turno às nove da noite para que até eles consigam dar uma olhadinha? Uma regra para eles, outra para nós. Nada justo, não é? Agora que a guerra acabou, deviam conferir todas as injustiças da Marinha.
Plummer deu uma olhada no mostrador, soltou um palavrão, depois olhou para Tims, que estava virado para a parede.
— Ei, Tims, está tudo bem? Está preocupado com alguma coisa, não é?
— Fique no meu lugar por meia hora — pediu Tims, já seguindo para a escotilha de saída. — Preciso fazer uma coisa.

* * *

Se tivesse conseguido assistir ao início da etapa final do concurso Rainha do Victorious, o jovem Plummer talvez ficasse menos confiante com a sua viagem para Scarborough. Porque Avice Radley, embora fosse de longe a favorita, parecia curiosamente apagada. Ou, em termos hípicos, de acordo com a comparação feita por um dos marinheiros, não estava muito diferente de um asno de três patas.
Empoleirada no estrado improvisado, ao lado das concorrentes e diante das mesas onde havia sido servido o último jantar formal das mulheres, ela estava pálida e parecia preocupada, apesar do brilho do seu vestido vermelho de seda e do reflexo do cabelo louro como trigo. Enquanto as outras candidatas riam, agarradas umas às outras na tentativa de se equilibrar em cima do salto alto, e o navio parecia afundar sob seus pés, ela estava isolada, com um sorriso cada vez mais fraco e o olhar sombrio e distante.
Durante duas vezes, o Dr. Duxbury, anfitrião da cerimônia daquela noite, tinha segurado sua mão e tentado convencê-la a falar sobre seus planos para a nova vida e sobre os melhores momentos da viagem. Ela passara a impressão de não reparar nele, nem mesmo quando ele cantou Waltzing Matilda pela terceira vez.
Talvez fossem os enjoos matinais, observara uma das mulheres. Todas as futuras mães ficavam com uma aparência terrível nos primeiros meses. Era apenas questão de tempo. Outras, menos generosas, sugeriram que, sem vestidos deslumbrantes e maquiagem, Avice Radley não era a beldade que todos imaginavam. Além disso, quando a comparavam à sublime Irene Carter, deslumbrante com seu traje pêssego e azul, e parecendo indiferente às águas turbulentas, era difícil discordar.
O Dr. Duxbury parou de cantar e recebeu alguns escassos aplausos educados. Não fazia sentido aplaudir tantas vezes a mesma canção e, de qualquer jeito, era possível que o cirurgião estivesse bêbado demais para conseguir reparar na plateia.
Por fim, ele notou que o capitão-tenente acenava freneticamente na outra extremidade do estrado e fazia gestos teatrais para o comandante, erguendo as palmas como se quisesse sugerir que ninguém lhe havia falado nada.
— Senhoras — começou Highfield, levantando-se depressa, talvez para impedir que Duxbury recomeçasse a cantar. Esperou o hangar ficar aos poucos em silêncio. — Senhoras… Como sabem, esta é a última festividade noturna no Victorious. Como amanhã à noite atracaremos em Plymouth, todas as senhoras passarão a tarde organizando seus pertences e confirmando com as oficiais de serviço que cada uma terá alguém à sua espera e um lugar para ir. Amanhã de manhã, vou discutir com mais detalhes os últimos acertos no convés de voo, mas agora eu gostaria de lhes dizer algumas palavras.
As mulheres, muitas animadas e nervosas com a expectativa, estavam com os olhos fixos no comandante, cochichando e se cutucando sem parar.
Ao redor, com as mãos para trás e as costas apoiadas nas paredes, os homens observavam. Marujos, oficiais, fuzileiros, mecânicos: todos de uniformes de gala em respeito à ocasião. Highfield se deu conta de que para alguns seria a última oportunidade de usar o traje. Olhou para o próprio uniforme, ciente de que em pouco tempo aconteceria o mesmo com ele.
— Não posso… não posso fingir que esta foi a carga mais fácil que já transportei — afirmou. — Não posso fingir que fiquei entusiasmado com a ideia… por mais que eu saiba que alguns homens ficaram. O que posso dizer é que, como um “milico”, como alguns de nós, oficiais da Marinha, somos chamados, considero que esta travessia foi a mais… instrutiva que fizemos. Bem, não quero entediá-las com um longo discurso sobre as dificuldades que enfrentarão no destino que escolheram. Tenho certeza de que já escutaram muita coisa sobre isso. — Ele balançou a cabeça na direção do oficial encarregado do bem-estar e ouviu uma risada educada percorrer o local. — Mas tenho que dizer que as senhoras, como todos nós, provavelmente acharão os próximos doze meses os mais desafiadores… e espero que gratificantes… da vida. Por isso, o que eu gostaria de dizer é que as senhoras não estão sozinhas.
Ele percorreu com o olhar a plateia silenciosa e atenta. Os botões dourados do seu uniforme brilhavam sob as luzes fortes do convés do hangar.
— Aqueles entre nós que sempre se dedicaram às Forças Armadas terão que encontrar novos meios de vida. Aqueles entre nós que foram profundamente modificados pela experiência da guerra terão que encontrar novas maneiras de conviver com as pessoas próximas. Todos os que sofreram terão que descobrir formas de perdoar. Estamos voltando para um país que talvez não nos pareça mais tão familiar quanto antes. É possível que nós mesmos nos consideremos estranhos em nossa terra. Por isso, senhoras, repito: terão que enfrentar um grande desafio. Mas também quero dizer que foi um imenso prazer e um privilégio acompanhá-las durante esta viagem. Temos orgulho em dizer que agora todas fazem parte do nosso grupo. E espero que, quando se lembrarem com alegria dos seus primeiros anos na Inglaterra, pensem nesta travessia não só como a viagem rumo a nova vida, mas como o início dela.
Poucas pessoas teriam percebido que, durante parte do seu discurso, ele parecia falar para uma mulher em particular, que, quando ele disse “as senhoras não estão sozinhas”, seu olhar se fixou um pouco mais nela do que em qualquer outra. Mas isso era irrelevante. Houve um breve silêncio, e logo todas começaram a aplaudir, algumas, a gritar, até que, pouco a pouco, os aplausos e as manifestações de entusiasmo tomaram conta do local.
O comandante Highfield se sentou depois de assentir em sinal de agradecimento a todas as esposas, sem distinguir seus rostos. As manifestações não tinham vindo apenas das mulheres, ele percebeu, tentando não sorrir tanto quanto gostaria. Tinham vindo dos homens também.
— O que achou? — perguntou ele à garota ao seu lado, com o peito ainda estufado de orgulho.
— Excelente, comandante.
— Em geral, não sou muito bom com discursos — confessou —, mas neste caso acho que foi apropriado.
— Acho que ninguém aqui discordaria, senhor. Suas palavras foram… belamente escolhidas.
— As outras garotas já pararam de ficar encarando você? — perguntou ele, sem olhar para ela, para passar a impressão para as outras mesas de que apenas agradecia pelo prato que o intendente acabava de servir.
— Não — respondeu Frances, pegando uma garfada de peixe. — Mas isto é normal, comandante. — Ela não precisou acrescentar que já estava acostumada.
Highfield observou Dobson, sentado dois lugares à frente, que evidentemente ainda não estava acostumado. Depois de observar o mar por quase quarenta anos sem proteger os olhos, a visão de Highfield não era mais tão boa quanto antes.
Entretanto, até ele conseguia entender as palavras que saíam da boca desdenhosa do seu imediato e sua expressão de reprovação.
— Ele está ridicularizando o navio, esta é a verdade — murmurou, furioso, para seu guardanapo adamascado. — É como se quisesse nos desmoralizar.
O capitão-tenente ao seu lado reparou que o comandante os observava, e ficou com o rosto corado.
Highfield sentiu o navio balançar sob seus pés quando passou por outra onda.
— Um cálice de licor, enfermeira Mackenzie? Tem certeza de que não gostaria de algo mais forte?
Ele esperou o navio se estabilizar para erguer seu copo e brindar.

* * *

Seria só por vinte minutos. O motor estava funcionando muito melhor, ou pelo menos tão bem quanto possível. Eram duas libras! E Davy Plummer ficaria furioso se precisasse permanecer sozinho lá embaixo, na casa de máquinas, enquanto todos os outros, do simples marujo até os telegrafistas, assistiam ao desfile das candidatas de maiô.
Além disso, ele sairia da Marinha assim que voltassem para Blighty. O que fariam com ele se o encontrassem fora do seu posto uma única vez? Obrigariam a voltar nadando para casa?
Davy Plummer avaliou os medidores de temperatura que precisavam ser conferidos, passou pano úmido nos canos mais problemáticos, amassou o cigarro com o pé e, após dar uma rápida olhada para trás, subiu de dois em dois os degraus que levavam ao corredor e à escotilha de saída.

* * *

A votação estava encerrada e Avice Radley tinha perdido. Os membros do júri, composto por Dr. Duxbury, duas oficiais e o capelão, concordaram que queriam dar o prêmio para a Sra. Radley (o Dr. Duxbury ficara particularmente impressionado com sua apresentação de Shenandoah na semana anterior), mas sentiram que, diante do seu desempenho desanimado na noite da final, da sua relutância em sorrir e da resposta surpreendente à pergunta “O que você mais tem vontade de fazer quando finalmente chegar à Inglaterra?” (Irene Carter: “Conhecer minha sogra”; Ivy Tuttle: “Levantar fundos para os órfãos da guerra”; Avice Radley: “Não sei”) e do seu repentino desaparecimento depois disso, só restava uma escolha.
Irene Carter exibiu sua faixa costurada a mão com a emoção e as lágrimas de alegria de alguém que acabou de ter um bebê. Afirmou que aquela havia sido a melhor viagem da sua vida. Que, sinceramente, tinha a sensação de ter feito pelo menos seiscentas novas amigas. E esperava que todas encontrassem na Inglaterra a felicidade que com certeza mereciam. Nem sabia como começar a agradecer à tripulação pela sua generosidade e eficiência. Ela tinha certeza de que todos ali presentes concordariam que as palavras do comandante haviam sido uma verdadeira inspiração. Só quando ela começou a agradecer aos seus antigos vizinhos em Sydney, citando nome por nome, é que o comandante Highfield interveio e anunciou que, se os homens afastassem as mesas para o lado, a Banda dos Fuzileiros Navais começaria a tocar para quem quisesse dançar.
— Dançar! — cantarolou o Dr. Duxbury, e várias mulheres se afastaram rapidamente dele.
Davy Plummer, de pé na parte de trás do estrado onde estava a banda, fez uma expressão de nojo ao olhar para a folha de apostas escrita à mão que recebera de Foster menos de dois dias antes, então a amassou e enfiou no fundo do bolso do macacão. Malditas mulheres. Apesar do grande número de apostas na sua vitória, aquela garota não tinha como ficar com uma aparência pior nem se tivesse enfiado um saco de papel na cabeça. Ele estava prestes a voltar para a casa de máquinas quando reparou em duas garotas paradas em um canto. Elas cochichavam alguma coisa, tapando a boca com a mão.
— Nunca viram um trabalhador antes? — perguntou ele, puxando a lateral do macacão.
— Estávamos nos perguntando se você pretendia dançar — disse a menor e mais loura. — E também se conseguiria fazer isso sem manchar nossa roupa de óleo.
— As senhoras não têm ideia do que um mecânico é capaz de fazer com as mãos.
Davy Plummer deu um passo à frente, já tendo esquecido a aposta perdida.
Porque, afinal de contas, ele era otimista por natureza.

* * *

A cerimônia de coroação da Rainha do Victorious seria quinze para as dez da noite. Isso dava a Frances quase quinze minutos para atravessar o corredor e pegar as fotos do Hospital Geral da Austrália, que o comandante Highfield pedira para ver.
O álbum de fotografias estava no seu baú no porão, mas ela guardava suas preferidas (a primeira tenda de atendimento, o baile no Porto Moresby, Alfred) dentro de um livro ao lado da sua cama. Frances correu com passos leves pelo corredor que ligava o hangar aos quartos, se apoiando às vezes na parede para manter o equilíbrio.
De repente, parou.
Ele estava do lado de fora da porta da cabine, tirando um cigarro do maço. Levou-o à boca e a olhou de soslaio, de um jeito que indicava que não se surpreendera com sua presença.
Ela não o via desde que ele chegara à torre de tiro com Tims. Havia se esforçado para afastar a ideia de que ele a evitava desde então, e por diversas vezes pensara em perguntar ao outro fuzileiro por que ele passara a fazer os plantões noturnos.
Ela visualizara seu rosto tantas vezes e imaginara várias conversas, portanto, vê-lo em carne e osso foi irresistível. Por mais que seus pés a conduzissem na direção dele, ela sentiu sua timidez natural retornar e instintivamente passou de leve a mão na saia.
Parou diante da porta, sem saber se devia entrar ou não. Ele estava usando o uniforme de gala e ela foi tomada pela lembrança da noite em que haviam dançado juntos, do momento em que ele, ao segurá-la, a fizera roçar naquele mesmo tecido escuro.
— Quer um? — perguntou ele, estendendo o maço de cigarros para ela.
Frances pegou um. Ele aproximou a chama para que ela não precisasse se inclinar na direção dele para acender. Quando baixou a cabeça, ela descobriu que não conseguia desviar os olhos das mãos dele.
— Vi você na mesa do comandante — disse ele.
— Não percebi.
Mas ela olhara para ele. Diversas vezes.
— Eu nem devia estar lá. — A voz dele parecia estranha.
Ela deu uma tragada no cigarro, tendo certeza de que se sentiria constrangida qualquer que fosse a atitude que tomasse.
— Não é comum convidar uma mulher para se juntar a ele à mesa.
Ela sentiu a temperatura do seu sangue diminuir vários graus.
— Não conheço os hábitos dele — respondeu, cuidadosamente.
— Acho que isso nunca aconteceu nesta viagem.
— Quer dizer alguma coisa com isso?
Ele pareceu perplexo. Frances deixou o constrangimento de lado.
— É óbvio que quer saber por que eu, entre tantas passageiras, fui convidada para me sentar à mesa do comandante.
Ele cerrou o maxilar. Por um instante, ela conseguiu imaginar como teria sido a aparência dele quando criança.
— Eu só estava… curioso. Passei para visitá-la uma tarde, mas então a vi… sair da sala do coman…
— Ah. Agora entendo. Não foi uma pergunta. Foi uma insinuação.
— Eu não quis…
— Então veio questionar minha conduta?
— Não, eu…
— Ah, então o que pretende fazer, fuzileiro? Relatar o comandante? Ou só a puta?
Esta última palavra deixou os dois em silêncio. Ela mordeu o lábio. Ele continuou ao seu lado, os ombros ainda eretos como se estivesse de serviço.
— Por que está falando comigo desse jeito? — perguntou ele com uma voz calma.
— Porque estou cansada, fuzileiro. Cansada de ter cada um dos meus atos julgado por pessoas ignorantes que sempre encontrarão alguma coisa para reclamar de mim.
— Não julguei você.
— Como não? — gritou ela, furiosa. — Não quero perder meu tempo me explicando. Não vou me preocupar em tentar melhorar a opinião dos outros sobre mim se eles não se preocupam em ver…
— Frances…
— Você é tão cruel quanto os outros. Achei que fosse diferente. Achei que me entendesse um pouco, que compreendesse o que compõe minha personalidade. Deus sabe o motivo! Deus sabe por que te considerei capaz de ter sentimentos que não lhe são dignos…
— Frances…
— O que foi?
— Desculpe o que falei. Eu a vi… e… sinto muito. É verdade. Aconteceram coisas que me fizeram… — Ele interrompeu a frase. — Escute, vim vê-la porque precisava que você soubesse de uma coisa. Fiz coisas na guerra… das quais não me orgulho. Nem sempre tive um comportamento que as pessoas… as que desconhecem todas as circunstâncias… considerariam admirável. Nenhum de nós, nem mesmo seu marido, pode dizer que sempre teve uma boa conduta.
Ela ficou encarando-o.
— Era só isso que eu queria dizer — completou ele.
Ela sentiu a cabeça doer. Apoiou a mão na parede, com a impressão de que o chão oscilava sob seus pés.
— É melhor sair daqui agora — sugeriu ela, baixinho. Não conseguia mais olhar para ele. Mas sentia seus olhos fixos nela. — Boa noite, fuzileiro — concluiu com firmeza.
Ela esperou até ouvir seus passos seguindo na direção da área do hangar. O balanço do navio não alterava seu ritmo regular, e quando ouviu a escotilha ser fechada, teve certeza de que ele tinha mesmo ido embora.
Então fechou os olhos com força.

* * *

Na sala central de máquinas, em algum lugar embaixo do convés do hangar, o segundo injetor de óleo combustível — uma bomba alimentadora de alta pressão que transfere o combustível para a caldeira — sucumbiu ao que talvez tenha sido a idade, o estresse ou até a intolerância de um navio que sabia que estava prestes a ser desmantelado. Em seguida, rachou. Era uma fenda minúscula, talvez com menos de dois centímetros de comprimento, mas o óleo pressurizado conseguia escapar em pequenas bolhas escuras e viscosas, feito saliva no canto da boca de um bêbado. Depois pulverizava.
É impossível localizar os danos no motor de um navio, o ponto exato em que pequenas áreas de metal, enfraquecidas por fissuras ou pelo desgaste das juntas, atingem temperaturas internas elevadíssimas. Se não forem detectadas pelos inúmeros medidores espalhados pela casa de máquinas, ou pelo traiçoeiro ato de senti-las através de panos, só é possível descobri-las por acaso, ou seja, quando o óleo vaza dos canos rompidos.
Sem ser visto nem ouvido pelos humanos que confiavam nele, o motor central do Victorious seguia energicamente em frente, imperceptível, vermelho demais, quente demais. O óleo combustível se manteve por um breve instante no ar na forma de gotinhas quase invisíveis. Em seguida, o duto de exaustão, a centímetros do cano de combustível rachado, faiscou, como a malícia em um olhar diabólico, entrou em combustão e, com um repentino booom!, aproveitou a oportunidade.

* * *

Idiota. Maldito idiota. Nicol diminuiu o passo diante do depósito de roupas impermeáveis. Só mais uma noite e ela iria embora para sempre, uma noite que ele poderia ter aproveitado para dizer quanto ela significava para ele. Mas, em vez disso, agira como um perfeito idiota. Um adolescente enciumado. Ao fazer isso, havia provado a si mesmo que não era melhor do que os outros moralistas cretinos naquele velho navio cheio de vazamentos. Poderia ter falado mil coisas para ela, sorrido, demonstrado um pouco de compreensão. Ela saberia, então. Mesmo que não adiantasse nada, ela ficaria sabendo. Tão cruel quanto os outros, dissera ela. Pior do que tudo que ele já pensava de si mesmo.
— Que droga! — exclamou, dando um soco na parede.
— Aconteceu alguma coisa, fuzileiro?
Tims bloqueava a passagem no corredor, com o macacão encharcado de óleo e graxa. Algo ainda mais inflamável iluminava sua expressão.
— Qual é o problema? — perguntou ele, suavemente. — Não tem mais ninguém para disciplinar?
Nicol deu uma olhada nos nós dos dedos ensanguentados.
— Volte para o trabalho, Tims. — A bile subiu pela sua garganta.
— Volte para o trabalho? Quem você acha que é? O comandante?
Nicol olhou para além do colega. O corredor estava vazio. Não havia ninguém no convés G. Quem não estava de serviço se divertia e dançava no hangar. Ele se perguntou quanto tempo fazia que Tims estava ali.
— Sua amiguinha só traz problemas, não é? Ela não desistiu do que fazia, como você achou?
Nicol respirou fundo. Acendeu um cigarro, apagou o fósforo com o indicador e o polegar e o enfiou no bolso.
— Não consegue parar de pensar nela?
— Você pode se achar importante neste navio, Tims, mas daqui a dois dias será apenas mais um marinheiro desempregado, como todos os outros. Um nada. — Nicol tentou manter a voz calma, mas ainda ouvia a vibração da sua raiva mal contida.
Tims se apoiou nos calcanhares, se empertigou e então cruzou os braços musculosos.
— Talvez você não faça o tipo dela — disse ele, erguendo o queixo, como se tivesse pensado em algo. — Ah, desculpe, esqueci. Todo mundo faz o tipo dela, contanto que tenha duas bo…
Tims parecia esperar o primeiro soco, pois desviou. O segundo, no entanto, foi bloqueado por um violento uppercut do fornalheiro. Ele pegou Nicol desprevenido, acertou-o sob o queixo e jogou-o de costas na parede.
— Acha que sua putinha ainda vai te achar atraente agora, fuzileiro?
As palavras o atingiram como um golpe, mais forte do que o ruído dos motores, o eco distante da banda e o tinir desconsolado das amarras que se chocavam com a lateral do navio. E mais forte do que o sangue pulsando em seus ouvidos.
— Talvez só não tenha achado que você é homem suficiente para ela, com seu uniforme passadinho e sempre acatando ordens.
Ele sentiu a respiração de Tims na sua pele e o cheiro de óleo impregnado no colega.
— Ela contou como gosta de fazer aquilo, ou não? E disse que gostou de sentir minhas mãos nos seus peitinhos, que gostou de…
Rugindo, Nicol partiu para cima de Tims e os dois foram para o chão. Ele o esmurrou às cegas, sem saber onde os punhos o atingiam. Depois sentiu o fornalheiro agarrá-lo e viu um punho enorme se aproximar e acertá-lo. Mas não conseguia parar, mesmo estando em perigo. Quase não sentia a saraivada de golpes que recebia. Surgiu uma névoa de sangue, e toda a raiva das últimas seis semanas, dos últimos seis anos, forçava caminho por meio dos seus punhos e da sua força, enquanto ele xingava entre os dentes. Algo similar… talvez sua humilhação na frente de uma mulher, talvez as injustiças ao longo de vinte anos de serviço… parecia fornecer combustível para Tims, e, por isso, no meio da confusão de sangue, socos e chutes, nenhum dos dois ouviu a sirene, apesar da proximidade do alto-falante, logo acima de suas cabeças.
— Fogo! Fogo! Fogo! — avisavam com urgência. — Sigam para os postos de emergência! Reúnam-se na base 2. Todos os fuzileiros para o convés dos barcos.

* * *

As candidatas a Rainha do Victorious estavam sendo retiradas do estrado. Seus sorrisos ensaiados desapareceram, e Irene Carter enfiou a faixa de vencedora como se fosse um colete salva-vidas. Margaret olhou rapidamente para elas e, empurrada pela multidão, percebeu que seguia na direção da porta. Atrás delas, as mesas estavam abandonadas, tortas de maçã e salada de frutas nos pratos, copos já metade vazios. Ao seu redor, as mulheres não paravam de falar, nervosas e agitadas, e o tom das vozes aumentava e demonstrava medo a cada nova informação transmitida. Ela protegeu a barriga com a mão e tentou andar até a saída lateral a estibordo. Era como lutar contra uma correnteza particularmente forte.
Uma voz gritou de algum lugar à frente:
— Mais depressa, senhoras, por favor. As com sobrenome de N a Z devem se reunir no posto de evacuação B, todas as outras no posto de evacuação A. Continuem andando.
Margaret encontrara um caminho na lateral do grupo quando a oficial de serviço a segurou pelo braço.
— Por aqui, senhora.
Ela abriu os braços e indicou a saída à frente, obstruída por uma barreira de mulheres.
— Preciso dar uma passada lá embaixo — disse Margaret, xingando baixinho quando alguém lhe deu uma cotovelada nas costas.
— Ninguém está autorizado a descer. Sigam apenas para os postos de evacuação.
Margaret sentiu a aglomeração de pessoas forçando-a a avançar. Centenas de odores de perfume e de hidratantes invadiram suas narinas.
— Olhe, é muito importante. Preciso buscar uma coisa.
A mulher a olhou como se ela fosse idiota.
— Há um incêndio a bordo. É terminantemente proibido descer. Ordens do comandante.
A voz de Margaret ficou mais alta, numa mistura de angústia e frustração:
— A senhora não entende! Tenho que ir lá! Preciso ter certeza de que… Devo salvar minha… minha…
Talvez a oficial estivesse mais ansiosa do que queria aparentar e parecia brava. Ela soprou o apito numa tentativa de orientar alguém a seguir pela direita, depois o tirou dos lábios franzidos e gritou:
— Não acha que todas têm alguma coisa que gostariam de salvar? Consegue imaginar o caos que teríamos se deixássemos todas as mulheres revirarem as cabines em busca de álbuns de fotos ou joias? É um incêndio. Pelo que sabemos, pode inclusive ter começado nas cabines das mulheres. Agora, por favor, siga em frente ou vou chamar alguém para levá-la à força.
Dois fuzileiros já estavam trancando a escotilha de saída. Margaret olhou ao redor tentando encontrar outro caminho para descer, mas, com dor no coração, acabou seguindo a multidão.

* * *

— Avice — gritava Frances no vão da porta da cabine silenciosa, enquanto observava a silhueta imóvel no beliche à sua frente. — Avice? Está me ouvindo?
Nenhuma resposta. Por um instante, Frances achou que Avice não respondia porque, como a maioria das mulheres, se recusava a falar com ela. Em circunstâncias normais, não teria insistido. Mas alguma coisa, talvez a palidez do seu rosto e o olhar confuso, fez com que ela perguntasse de novo.
— Saia daqui! — exclamou Avice. O tom da sua voz, porém, não correspondia à agressividade das palavras.
Então a sirene começou a tocar. Do lado de fora, no corredor, o alarme de incêndio soou, estridente e demorado, seguido pelo ruído de passos apressados.
“Equipe de bombeiro aproximando-se do motor central. Incêndio localizado no motor central. Todos os passageiros devem se dirigir aos postos de evacuação.”
Frances olhou para trás e se esqueceu de todo o resto.
— Avice, é o alarme tocando. Temos que ir. — A princípio, ela achou que talvez Avice não tivesse entendido o que a sirene significava. — Avice — repetiu, irritada —, isso quer dizer que há um incêndio a bordo. Precisamos sair daqui.
— Não.
— O quê?
— Eu não vou.
— Não pode ficar aqui. Desta vez não acredito que seja um treinamento.
O som do alarme provocou uma descarga de adrenalina em Frances. Ela percebeu que estava esperando o som de uma explosão. A guerra acabou, disse a si mesma, e se forçou a respirar fundo. Acabou. Mas como explicar o pânico do lado de fora? O que seria? Uma mina perdida? Não houvera nenhuma detonação, nenhuma vibração dissonante no ar que indicasse uma colisão direta.
— Avice, precisamos…
— Não.
Frances parou no meio da cabine, sem conseguir compreender o comportamento da colega. Avice nunca tinha participado de uma batalha: seu corpo não tremia de medo com o simples som de uma sirene. Mas ela precisava entender.
— Acompanhada de Margaret você vai, pelo amor de Deus?
Talvez ela estivesse se recusando porque era Frances pedindo que saísse.
Avice ergueu a cabeça. Parecia que não tinha escutado nada.
— Está tudo bem com você — disse ela, secamente. — Tem o seu marido, apesar de tudo. Quando desembarcar, estará livre, será respeitada. Para mim, não restará nada além de vergonha e humilhação.
Um apelo distante transmitido pelos alto-falantes se uniu ao alarme: “Fogo! Fogo! Fogo!” Frances tinha dificuldade em organizar os pensamentos.
— Avice, eu…
— Olhe!
Avice estava segurando uma carta. Parecia não ouvir as vozes ansiosas e os passos precipitados do lado de fora.
— Olhe só para isto!
No início, o medo impediu que Frances entendesse o sentido das palavras no papel diante dela. O medo havia deixado sua boca seca e confundido seus pensamentos. Cada célula do seu corpo a mandava sair dali, buscar segurança.
Sob o olhar de Avice, deu mais uma olhada na carta, sem prestar muita atenção. Dessa vez, porém, reparou no “sinto muito” e compreendeu que a garota devia estar diante de alguma catástrofe pessoal.
— Resolva isto mais tarde — disse, apontando para a porta. — Vamos, Avice, vamos para o posto de evacuação. Pense no bebê.
— Bebê? No bebê? — Avice olhou para Frances como se ela fosse idiota, e afundou de novo no beliche, resignada. — Ah, vá logo embora.
Enfiou o rosto no travesseiro e deixou Frances atônita, no vão da porta.

* * *

Nicol levou vários segundos para perceber que os braços que o erguiam não eram de Tims. Ele tinha disparado socos em todas as direções, seus punhos haviam golpeado o ar e a cada impacto sua cabeça era jogada para a frente e para trás, mas tinha apenas uma vaga consciência de que a última vez que seus golpes atingiram alguém, os gritos não foram do fornalheiro.
Ele cambaleou e sentiu os olhos arderem enquanto tentavam focar. Aos poucos percebeu que, a uma pequena distância, havia dois marinheiros debruçados sobre Tims.
Emmett ajeitava o casaco com uma das mãos e com a outra esfregava a testa.
— Que diabo você aprontou, Nicol? Precisa ir lá para cima, para os postos de evacuação. Tem que colocar as mulheres nos botes. Meu Deus, homem! Olhe só para o seu estado!
Só então ele notou o alarme, e ficou surpreso de não ter reparado antes. Talvez o zumbido em seus ouvidos tivesse abafado o barulho.
— Incêndio no motor central, Tims — gritava o jovem fornalheiro. — Droga, estamos com problemas.
A briga estava esquecida.
— O que aconteceu?
Apoiado em Nicol, Tims se levantou. Havia um longo corte em seu rosto. Nicol, que mal conseguia se manter em pé, perguntou a si mesmo se tinha feito aquele estrago.
— Não sei.
— O que foi que você fez? — perguntou Tims, agarrando os ombros do rapaz com sua enorme mão ensanguentada.
— Eu… eu não sei. Tirei cinco minutos para subir e dar uma olhada nas candidatas. Quando voltei, o corredor estava tomado pela fumaça.
— Você fechou? Fechou direito a escotilha?
— Não sei… Tinha fumaça demais. Nem sequer consegui chegar ao depósito de bombas.
— Merda! — Tims olhou para Nicol. — Vou até lá.
— Tem mais alguém no motor central?
Tims balançou a cabeça e estremeceu.
— Não. O encarregado tinha saído. Só estava aquele garoto imbecil.
O primeiro fio de fumaça entrou nas narinas dos homens e trouxe junto um breve e pesado silêncio.
— É culpa do comandante — exclamou Tims. — Esse Highfield é azarado. Vai nos levar com ele.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!