14 de março de 2019

Capítulo 2

Os dois cangurus machos, ambos saídos da bolsa da mãe há apenas 12 meses, que voarão para Londres dentro de pouco tempo, vão comer cinco quilos de feno durante o trajeto. A Qantas Empire Airways anunciou ontem que os cangurus passariam somente 63 horas no ar.
SYDNEY MORNING HERALD, 4 DE JULHO DE 1946

TRÊS SEMANAS PARA O EMBARQUE

Querido Ian,
Você nem imagina: eu vou! Sei que não vai acreditar, porque eu mesma quase não acredito, mas é verdade. Papai conversou com um dos seus antigos colegas da Cruz Vermelha que tinha amigos no alto escalão da Marinha Real. E logo em seguida recebi a informação de que havia um lugar para mim no próximo navio, mesmo que, a rigor, meu caso não fosse prioridade.
Para evitar tumulto, falei para as outras esposas que eu precisava visitar minha avó, mas agora estou aqui, trancada no hotel Wentworth, em Sydney, esperando uma brecha para embarcar antes delas.
Mal posso esperar para ver você, querido. Sinto muito sua falta. Minha mãe disse que, quando nossa casa nova estiver organizada, ela e papai vão nos visitar assim que possível. Eles planejam viajar pelo novo serviço “Canguru” da Qantas. Você sabia que é possível chegar a Londres em apenas 63 horas, voando em um Lancastrian? Ela me pediu para perguntar o endereço da sua mãe, para que possa mandar o resto dos meus pertences quando eu já estiver na Inglaterra. Tenho certeza de que eles vão ficar mais tranquilos com relação a tudo depois de conhecer seus pais. Eles parecem achar que vou parar numa cabana de barro em algum lugar na zona rural inglesa.
Seja como for, meu querido, aqui estou, praticando minha assinatura, me lembrando de responder quando me chamarem de “Senhora” e ainda me acostumando a usar uma aliança no dedo. Foi muito decepcionante não podermos ter uma lua de mel adequada, mas realmente não me importo com o local, contanto que seja ao seu lado. Vou encerrar a carta agora, pois passarei a tarde no Clube das Esposas Americanas em Woolloomooloo para descobrir do que vou precisar para a viagem. As esposas norte-americanas recebem todas as informações necessárias, ao contrário de nós, pobres esposas inglesas (não é incrível dizer isso?). Bem, se eu tiver que ouvir mais uma versão de “Quando um cara do Alabama conhece uma garota de Gundagi”, acho que darei um jeito de criar asas para voar até você.
Cuide-se, meu amor, e me escreva assim que tiver um tempo livre.
Sua Avice

Nos quatro anos desde sua criação, o Clube das Esposas Americanas promovia reuniões a cada duas semanas em uma elegante casa de estuque bem próximo do Jardim Botânico Real. No início, o objetivo era ajudar as jovens que vinham de Perth ou de Canberra durante as intermináveis semanas de espera pela autorização para viajarem até seus maridos americanos. O Clube as ensinava a confeccionar colchas de patchwork, a cantar o hino nacional dos Estados Unidos, e ainda dava conselhos básicos para as que estivessem grávidas ou amamentando.
Também ajudava as que não sabiam dizer se estavam paralisadas pelo medo da viagem longa ou pela possibilidade de nunca conseguir embarcar.
Nos últimos tempos, o clube tinha perdido sua característica puramente americana: no ano anterior, o U.S. War Brides Act, decreto que permitia a entrada nos Estados Unidos de esposas estrangeiras de soldados americanos, havia precipitado a partida de doze mil mulheres recém-batizadas de “esposas australianas”, portanto o patchwork fora substituído por tardes de bridge e conselhos sobre como encarar a comida inglesa e o racionamento.
Muitas das jovens esposas que frequentavam o clube se hospedavam com famílias de Leichhardt, Darlinghurst ou nos subúrbios. Elas estavam em uma situação estranha, pois a vida que levavam na Austrália ainda não havia terminado e a que as esperava ainda não começara. Enquanto isso, focavam nas minúcias de um futuro que conheciam pouco e sobre o qual não tinham controle. Não causava surpresa, portanto, que os encontros quinzenais abordassem sempre um único assunto.
— Uma conhecida minha de Melbourne viajou numa cabine de primeira classe no Queen Mary — contou uma jovem de óculos. O navio havia sido considerado o Santo Graal dos transportes. A Austrália não parava de receber cartas com relatos das glórias da famosa embarcação. — Ela escreveu que passava quase o tempo todo se bronzeando na beira da piscina. Contou que havia jantares dançantes, salões de jogos, tudo. E as mulheres usavam vestidos fantásticos feitos no Ceilão. O único problema era que ela precisava dividir a cabine com uma jovem senhora e seus filhos. Um horror. Havia marcas de dedos sujos nas suas roupas e, além disso, ela era obrigada a acordar às cinco e meia da manhã, hora em que o bebê começava a chorar.
— Filhos são uma bênção — argumentou a Sra. Proffit, em tom afável, enquanto verificava a costura de um chapéu verde na cabeça de um macaco marrom de pelúcia.
Naquele dia, elas estavam preparando presentes para as crianças vítimas dos bombardeios de Londres. Uma das jovens havia recebido da sogra inglesa o livro Dicas úteis e práticas. Para o encontro da semana seguinte, a Sra. Proffit tinha programado ensinar como fazer um colar com anilhas de identificar galinhas e um robe com antigos corpetes de renda.
— Sim, filhos são uma bênção — repetiu ela, lançando a todas um olhar afetuoso. — Um dia vocês vão entender.
— E não ter filhos é a maior bênção de todas — murmurou a jovem de olhos castanhos ao lado de Avice.
O comentário foi acompanhado de uma cutucada bastante vulgar com o cotovelo.
Se fossem outros tempos, Avice não teria passado nem cinco minutos na companhia daquela mistura peculiar de mulheres. Algumas pareciam ter desembarcado diretamente do interior, ainda com poeira vermelha nos sapatos…
Ou, na verdade, pareciam ter passado muitas horas aguentando palestras intermináveis de alguma solteirona de meia-idade que vira na guerra uma forma de animar um pouco o que provavelmente havia sido uma vida melancólica. Mas já fazia quase dez dias que ela estava em Sydney com o amigo do seu pai, Sr. Burton, a única pessoa que ela conhecia ali, e o Clube das Esposas se tornara sua única forma de contato social. (Ela ainda não sabia ao certo como explicar ao pai o comportamento do Sr. Burton. Embora houvesse tido que dizer pelo menos quatro vezes que era uma mulher casada, parecia não fazer a mínima diferença para ele.)
Havia outras doze jovens no encontro daquele dia. Poucas tinham passado mais de uma semana com os maridos, e mais da metade não os vira durante a maior parte do ano. O repatriamento de tropas por navio era uma prioridade. As “esposas desparceiradas”, como passaram a ser conhecidas, não eram. Algumas haviam preenchido os formulários mais de um ano antes, e desde então quase não receberam mais notícias. Pelo menos uma, cansada das suas acomodações precárias, tinha desistido e voltado para casa. As outras continuavam esperando, estimuladas por uma esperança cega, pelo desespero, pelo amor ou, na maioria dos casos, por uma mistura dos três sentimentos.
Avice foi a última a entrar no grupo. Ao ouvir as outras contarem as histórias das famílias que as abrigavam, agradeceu em silêncio aos pais pela excelente acomodação do hotel. Seu entusiasmo teria sido muito menor se ela tivesse sido forçada a se hospedar com algum casal de velhos rabugentos. Do jeito que estava, a situação se tornava um pouco menos emocionante a cada dia.
— Se essa Sra. Tidworth me perguntar mais uma vez “Ah, querida, ele ainda não mandou buscar você?”, juro que vou partir para cima dela.
— Essa velha desgraçada adora perguntar isso. Fez a mesma coisa com Mary Knight quando ela se hospedou lá. Tenho certeza de que, na verdade, o que ela quer é que a gente receba um telegrama dizendo: “Não venha.”
— É o tipo de demonstração de pena que não consigo suportar.
— Você não deve esperar por muito tempo, não é?
— Quando será que chega o próximo?
— Daqui a cerca de três semanas, mais ou menos, segundo a ordem de embarque que recebi — respondeu a jovem de olhos castanhos.
Achou que talvez ela tivesse dito que se chamava Jean, mas Avice era péssima com nomes e os esquecia assim que era apresentada a alguém.
— Seria ótimo se fosse um navio tão bom quanto o Queen Mary — continuou a jovem. — Tinha até salão de beleza com secador de cabelo. Estou desesperada para arrumar direito meu cabelo antes de rever Stan.
— Ela foi uma mulher fantástica, a Queen Mary — disse a Sra. Proffit na outra ponta da mesa. — Uma verdadeira dama.
— Já recebeu sua ordem de embarque? — perguntou uma jovem sardenta, franzindo as sobrancelhas para Jean.
— Na semana passada.
— Mas você não tem prioridade. Inclusive, disse que só mandou os papéis um mês atrás.
Houve um breve silêncio. Ao redor da mesa, várias garotas trocaram olhares, mas logo voltaram a se concentrar nos bordados. A Sra. Proffit ergueu os olhos. Ela parecia ter percebido que o clima pesara um pouco de repente.
— Alguém precisa de mais linha? — perguntou, espiando por cima dos óculos.
— Bem, às vezes a pessoa tem sorte — respondeu Jean antes de pedir licença para sair da mesa.
— Como foi que ela conseguiu? — perguntou a sardenta, virando-se para as duas mulheres perto dela. — Já faz quase quinze meses que estou esperando, e ela já vai embarcar no próximo navio? Como isso pode estar certo? — Seu tom de voz ficava cada vez mais incisivo por causa da injustiça da situação.
Avice fez uma anotação mental de que seria melhor não mencionar a autorização que recebera.
— Ela está esperando um bebê, não é? — murmurou outra garota.
— O quê?
— Jean. Ela está grávida. E sabem de uma coisa? Os americanos não permitem o embarque depois que a mulher passa dos quatro meses.
— Quem está bordando o pinguim? — perguntou a Sra. Proffit. — Vocês vão ter que guardar linha preta para quem estiver fazendo o pinguim.
— Esperem aí — interrompeu uma ruiva que enfiava linha na agulha. — Stan, o marido dela, foi embora em novembro. Ela disse que ele estava no mesmo navio que o meu Ernie.
— Então não tem como ela estar grávida.
— Ou está… e…
Os olhos de todas se arregalaram e se encontraram, o que foi acompanhado de estranhas risadas.
— Sarah, querida, que tal fazer um pequeno canguru?
A Sra. Proffit abriu um grande sorriso para as garotas e tirou da sua bolsa de pano vários pedaços de feltro bege.
— Esses filhotes de canguru são muito fofos, não acham?
Vários minutos mais tarde, Jean voltou à sua cadeira e cruzou os braços de forma agressiva. Ao perceber que não era mais o assunto da conversa, pareceu relaxar, embora devesse ter questionado o motivo da repentina concentração das outras mulheres na confecção dos brinquedos.
— Conheci Ian, meu marido, em um chá dançante — contou Avice, numa tentativa de quebrar o silêncio. — Fiz parte do comitê de recepção a jovens senhoras, e ele foi o segundo homem a quem ofereci uma xícara de chá.
— Foi só isso que ofereceu a ele? — Jean fizera a pergunta. Ela devia saber.
— Pelo que ouvi dizer, não me parece que a ideia que a maioria das pessoas tem sobre hospitalidade seja igual à sua — retrucou ela.
Avice se lembrava de que ficara corada enquanto servia o chá. Ele não desviara os olhos dos seus tornozelos, dos quais, aliás, ela sentia grande orgulho.
Suboficial Ian Stewart Radley. Vinte e seis anos, cinco a mais que ela, diferença que Avice considerava ideal. Ele era alto, tinha boa postura, olhos da cor do mar e um elegante sotaque britânico. Suas mãos grandes e macias a tinham feito estremecer na primeira vez que roçaram nas dela, embora ele estivesse apenas lhe oferecendo um biscoito. Ele a convidara para dançar, apesar de não haver ninguém na pista e, como era um oficial do Exército, ela achara que seria uma desfeita recusar. O que custava dançar um pouco com um homem que todos os dias enfrentava diretamente a morte?
Menos de quatro meses depois, se casaram em uma cerimônia elegante no cartório civil de Collins Street. O pai ficara desconfiado e fizera a esposa perguntar à filha — com discrição, numa conversa de mulher para mulher, é claro — se havia outro motivo para um casamento tão apressado além da iminente partida de Ian. Ele dissera ao pai dela, de forma muito respeitosa, que ficaria feliz em esperar, se esse fosse o desejo dele e da mãe de Avice, que jamais faria qualquer coisa para contrariá-los. A menina, no entanto, estava decidida a se tornar a Sra. Radley. A guerra acelerara tudo, encurtando o tempo que costumava ser destinado a esse tipo de acontecimento. E ela sabia, desde aquela primeira xícara de chá, que não havia outro homem no mundo com quem poderia pensar em se casar, ninguém mais a quem ela consideraria oferecer seus diversos dons.
— Mas não sabemos nada sobre ele, querida — dissera a mãe, contorcendo as mãos.
— Ele é perfeito.
— Você sabe que não é disso que estou falando.
— Do que mais precisa saber? Ele está na linha de defesa de Brisbane, não é mesmo? Ter protegido nosso país, arriscando a própria vida a vinte mil quilômetros de casa para nos salvar dos japoneses, não o faz merecer minha mão?
— Não precisa ser melodramática, querida — dissera seu pai.
Eles tinham cedido, sem dúvida. Como sempre faziam. Sua irmã Deanna ficara furiosa.
— Meu Johnnie estava hospedado com minha tia Vi — contou outra jovem. — Eu achava ele tão lindo! Entrei sorrateiramente no quarto dele na segunda noite que passou lá, e deu nisso…
— É melhor mesmo resolver tudo depressa — acrescentou outra, provocando risadas estridentes. — Marcar o território.
— Ainda mais se Jean estiver por perto.
Até Jean achou graça no comentário.
— Então, quem quer aprender a fazer um destes lindos colares? — A Sra. Proffit segurava uma corrente com anéis de alumínio de tamanhos variados. — Tenho certeza de que é isto que as damas mais elegantes estão usando na Europa.
— Na próxima semana aprenderemos a transformar mantas de cavalo em elegantes capas para usar à noite.
— Ouvi isso, Edwina — disse a Sra. Proffit, colocando com cuidado o colar em cima da mesa.
— Desculpe, Sra. P., mas se meu Johnnie me visse usando uma coisa dessas, ficaria sem saber se deveria me beijar ou conferir meu traseiro para ver se eu havia colocado um ovo.
Houve uma explosão de gargalhadas, quase como uma crise de histeria, contida apenas a grande custo.
A Sra. Proffit suspirou e largou seu artesanato. Isso já era de se esperar, conforme a data do embarque se aproximava, mas aquelas meninas conseguiam ser muito desgastantes!

* * *

— Então, quando você embarca?
A casa da família que hospedava Jean ficava a duas ruas de distância do hotel Wentworth, por isso ela e Avice seguiram juntas pelo caminho de volta, a passo lento. Apesar da aparente antipatia mútua, as meninas relutavam em ficar sozinhas nos seus quartos mais uma noite.
— Avice, sua autorização de embarque é para quando?
Ela ficou em dúvida se devia ou não revelar a verdade. Tinha certeza absoluta de que Jean, imatura e vulgar, não era o tipo de pessoa com quem geralmente gostaria de se relacionar, ainda mais se o que haviam dito sobre sua situação fosse verdade. Mas Avice também não costumava guardar pequenos segredos, e passar a tarde inteira sem contar sobre seus planos já demandara um enorme esforço.
— Igual à sua. Para daqui a três semanas. Qual é o nome do navio? Victorious?
— É uma droga, não é?
Jean acendeu um cigarro, colocando as mãos em concha para evitar que a brisa do mar o apagasse. Por reflexo, ofereceu um para Avice, que franziu o nariz e recusou.
— O que foi que você disse?
— Que esse navio é uma droga. Tem gente que viaja no Queen Mary, mas nós vamos numa lata velha.
Um carro passou devagar por elas e dois soldados se penduraram para fora das janelas e gritaram grosserias. Jean sorriu para eles e acenou com a mão que segurava o cigarro, enquanto o carro desaparecia na esquina.
Avice se colocou na frente dela.
— Desculpe, mas não estou entendendo o que você quer dizer.
— Você não ouviu a Sra. Proffit? Que é casada com o comandante?
Avice negou com a cabeça.
Jean deu um sorriso amarelo.
— Bem, não acredito que o que nos espera seja exatamente salões de beleza ou cabines de primeira classe. Nosso Victorious é um maldito porta-aviões.
Avice passou um instante encarando a outra garota, depois sorriu. Era o tipo de sorriso que ela reservava para quando os empregados da sua casa faziam alguma coisa particularmente idiota.
— Acho que você deve estar enganada, Jean. Senhoras não viajam em porta-aviões. — Ela comprimiu os lábios enquanto deixava a fumaça escapar. — Além disso, não haveria espaço para todas nós.
— Você realmente não sabe nada, não é?
Avice controlou sua raiva por estar sendo tratada dessa maneira por alguém que devia ser pelo menos cinco anos mais nova do que ela.
— Eles não têm mais nenhum transporte decente. Vão nos enfiar em qualquer coisa para nos fazer chegar lá. Acho que pensam que quem quiser realmente ir se contentará com qualquer navio que eles oferecerem.
— Tem certeza disso?
— Até a velha Sra. P. parecia um pouco apreensiva. Acho que ela estava com medo de que suas meninas chegassem na Inglaterra com macacões e cobertas de combustível. Não é exatamente a impressão que ela quer que a elite australiana passe.
— Um porta-aviões?
Avice sentiu uma leve vertigem. Procurou a mureta mais próxima e se sentou. Jean se acomodou ao lado dela.
— Isso mesmo, um porta-aviões. Nunca me preocupei em perguntar o nome. Só imaginei que… Bem, devem ter feito algumas pequenas modificações, é claro.
— Mas onde vamos dormir?
— Não faço ideia. No convés, com os aviões?
Avice arregalou os olhos.
— Meu Deus, Avice, você é ainda mais ingênua do que eu pensava — observou Jean, que apagou o cigarro, se levantou e seguiu em frente.
Talvez fosse imaginação sua, mas Avice teve a impressão de que Jean estava sendo cada vez mais grosseira.
— Eles vão encontrar um jeito de nos acomodar lá. De qualquer modo, vai ser melhor do que ficar ainda mais tempo aqui. Teremos uma cama, comida, e a Cruz Vermelha vai tomar conta de nós.
— Ah, acho que não.
Em seguida, o rosto de Avice ficou sombrio. Então ela resolveu apressar o passo. Se ligasse logo, talvez conseguiria falar com o pai antes que ele fosse para o clube.
— O que quer dizer com isso?
— Não tenho condições de viajar numa coisa dessas. Meus pais não aceitariam, para início de conversa. Eles estavam achando que eu ia fazer a travessia de navio. Num daqueles que tinham sido requisitados para transporte, sabe. Essa foi praticamente a única razão para eles permitirem que eu fosse.
— Em tempos de guerra precisamos aceitar o que nos oferecem, garota. Você sabe disso.
Eu não, disse Avice para si mesma, correndo na direção do hotel. Não, não ela, cuja família era a maior fabricante de rádios de Melbourne.
— Também vão nos fornecer uniformes de mecânicos, caso algum avião precise de manutenção.
— Não estou achando muita graça nisso, na verdade.
— Mas devia rir.
Vá embora, garota repugnante, pensou Avice. Eu não colocaria o pé no mesmo navio que você nem para dar a volta na Baía de Sydney, ainda que fosse o Queen Mary.
— Não se preocupe, Avice. Tenho certeza de que vão conseguir encaixá-la em uma cabine de primeira classe na sala das caldeiras!
Na metade do caminho, ela ainda conseguia ouvir as palavras desagradáveis de Jean.

* * *

— Mamãe?
— Avice, querida, é você? Wilfred! É Avice!
Ela ouviu sua mãe gritando no corredor, podia imaginá-la na cadeira ao lado do telefone, o tapete persa sob seus pés, o sempre presente vaso de flores na mesinha ali perto.
— Como está, querida?
— Estou bem, mamãe, mas preciso falar com papai.
— Sua voz não parece boa. Você está bem mesmo?
— Estou.
— Ian mandou alguma notícia?
— Mãe, preciso falar com papai.
Avice se esforçou para não deixar sua impaciência transparecer na voz.
— Você vai me contar se acontecer alguma coisa?
— É minha princesinha?
— Ah, papai, graças a Deus. Tem um problema.
O pai permaneceu calado.
— Com o transporte.
— Falei pessoalmente com o comandante Guild. Ele me prometeu que você embarcaria no próximo…
— Não, não é isso. Ele me colocou em um navio.
— Qual é o problema, então?
Ela ouviu a mãe murmurar atrás do marido:
— Deve ser Ian. Aposto que é Ian.
Em seguida, Deanna acrescentou:
— Ele disse para ela não ir?
— Diga às duas que não tem nada a ver com Ian. O problema é o navio.
— Não estou entendendo, princesa.
— É um porta-aviões.
— O quê?
— Maureen! — sibilou ele. — Fique quieta. Não consigo ouvir uma palavra do que ela está dizendo.
Avice suspirou.
— É isso mesmo. O navio é um porta-aviões. Querem nos mandar para a Inglaterra em um porta-aviões.
Houve um breve silêncio.
— Querem que ela viaje em um porta-aviões — explicou o homem para a esposa.
— O quê? De avião?
— Não, sua burra. Em um navio que transporta aviões.
— Um navio de guerra?
Avice conseguia visualizar a mãe cambaleando, horrorizada. Deanna começou a rir. Era de se esperar: ela não havia perdoado Avice por ter se casado primeiro.
— O senhor vai ter que me colocar em outro navio — insistiu Avice. — Fale com quem arrumou um lugar para mim e diga que preciso viajar de outro jeito. Arranje outro navio.
— Você nunca falou nada sobre um porta-aviões! — exclamou a mãe. — Ela não pode viajar numa coisa dessas. Não com todos aqueles aviões decolando do convés o tempo inteiro. Vai ser perigoso!
— Pai?
— Eles afundaram o Vyner Brooke, não foi? — protestou a mãe. — Os japoneses podem tentar afundar o porta-aviões do mesmo jeito.
— Cale a boca, Maureen.
— Qual é o problema? Você vai ser a única mulher a bordo, princesa?
— Eu? Ah, não, mais ou menos seiscentas mulheres vão viajar — respondeu Avice, franzindo a testa. — É só porque vai ser horrível. Vão nos fazer dormir em colchonetes e não teremos nenhum conforto. Além disso, papai, o senhor precisava ver o tipo de gente que vai viajar comigo… O linguajar delas! Nem consigo repetir…
A mãe se intrometeu na conversa:
— Eu sabia, Avice. Esse pessoal não é como você. Não acho que seja uma boa ideia.
— Papai, pode resolver isso?
O pai suspirou fundo.
— Bem, não é tão fácil assim, princesa. Precisei mexer alguns pauzinhos para conseguir colocá-la a bordo. E a maioria das mulheres já foi, de todo modo. Não sei quantos navios mais eles vão mandar.
— Bem, então me mande de avião. Posso voar de Qantas.
— Não é fácil assim, Avice.
— Não posso ir nesse navio horrível!
— Escute, filha, paguei muito caro para você viajar, entende? E estou desembolsando muito mais para hospedá-la nesse hotel só porque você não quer ficar nas acomodações da Marinha. Não posso pagar ainda mais por um voo até Blighty só porque você não gosta das instalações do navio.
— Mas, pai…
— Querida, eu adoraria ajudar, de verdade, mas você não faz ideia de como foi difícil conseguir um lugar no navio.
— Mas, pai! — Ela bateu o pé, e a recepcionista ergueu os olhos na sua direção. Então Avice baixou o tom: — Sei o que o senhor está fazendo… Não ache que não sei por que está se recusando a me ajudar.
A mãe se intrometeu e falou, com a voz firme:
— Avice, você tem razão. Acho que essa história de navio é uma péssima ideia.
— Acha mesmo?
Ela teve uma centelha de esperança. A mãe entendia a importância de uma viagem confortável. Sabia que as coisas deviam ser feitas corretamente. O que Ian pensaria se ela desembarcasse com a aparência de uma trabalhadora braçal?
— Sim. Acho que você deve voltar para casa logo. Pegue logo o primeiro trem amanhã de manhã.
— Para casa?
— Há incertezas demais nisso tudo. Essa história de porta-aviões me parece terrível, e você não recebe notícias de Ian há não sei quanto tempo…
— Ele está no mar, mãe.
— … sem contar que tudo parece conspirar contra você. Esqueça essa história toda, querida, e volte para casa.
— O quê?
— Você não sabe nada sobre a família desse homem. Nada. Sequer faz ideia se haverá alguém à sua espera do outro lado do mundo. Isso se o tal navio de guerra chegar lá algum dia. Volte para casa, querida, e resolveremos tudo daqui. Muitas garotas mudam de ideia. Lemos isso todos os dias nos jornais.
— Muitas garotas também são abandonadas — gritou Deanna.
— Sou casada, mãe.
— E tenho certeza de que encontraremos uma solução para isso. Quer dizer, na realidade, quase ninguém sabe.
— O quê?
— Bem, foi um casamento feito às pressas, não é mesmo? Pode ser anulado ou algo assim.
Avice não conseguia acreditar.
— Anulado? Que horror! Vocês são dois hipócritas! Eu sei muito bem o que estão fazendo. Vocês me colocaram no navio mais antigo e em pior estado que conseguiram encontrar para que eu desistisse da viagem.
— Avice…
— Bem, que pena. Nada disso vai mudar minha opinião sobre Ian.
A recepcionista, que tinha desistido de fingir que não ouvia a conversa, estava atenta, debruçada no balcão. Avice tapou o bocal do telefone e olhou para ela com as sobrancelhas franzidas. Constrangida, a mulher começou a mexer em alguns papéis.
O pai pegou o telefone de volta.
— Ainda está aí? Avice? — perguntou, suspirando fundo. — Olhe, vou mandar um pouco mais de dinheiro para você. Esqueça essa história por um tempo, se quiser. Fique tranquila no Wentworth. Depois voltamos a discutir esse assunto.
Avice ainda ouvia a mãe reclamando ao fundo. A irmã insistia em saber por que ela estava hospedada no melhor hotel de Sydney.
— Não, papai. Diga para mamãe e Deanna que embarcarei nesse maldito navio para encontrar meu marido. Eu mesma darei um jeito de chegar lá, ainda que isso signifique nadar em combustível e ficar no meio de marinheiros fedorentos, porque eu amo ele. Amo ele. Não vou mais ligar, mas o senhor pode dizer a ela… Pode dizer para a minha mãe que vou avisar quando chegar do outro lado do mundo. Quando Ian, meu marido, estiver comigo.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!