30 de março de 2019

Capítulo 1


Querido Diário
Estou com tanto medo.
Meu coração martela, minha boca está seca e minhas mãos tremem. Enfrentei tanto e sobrevivi: vampiros, lobisomens, espectros. Coisas que nunca imaginei que fossem reais. E agora estou apavorada. Por quê?
Simplesmente porque vou embora de casa.
Sei que isso é inteira e loucamente ridículo. Na verdade, mal estou saindo de casa. Vou para a universidade, só a algumas horas de carro desta querida casa onde moro desde bebê. Não, não vou começar a chorar de novo. Dividirei um quarto com Bonnie e Meredith, minhas duas melhores amigas em todo o mundo. No mesmo alojamento, a apenas alguns andares dali, estará meu amado Stefan. Meu outro melhor amigo, Matt, ficará a uma curta caminhada do campus. Até Damon estará num apartamento da cidade próxima.
Sinceramente, eu só poderia ficar mais perto de casa se não saísse dela. Estou sendo tão fraca. Mas parece que acabei de voltar — para minha casa, minha família, minha vida —, depois de ficar exilada por tanto tempo, e, de repente, tenho de partir mais uma vez.
Acho que estou com medo em parte porque as últimas semanas de verão foram maravilhosas. Concentramos toda a diversão dos últimos meses — se não fosse pela luta com os kitsune, a viagem à Dimensão das Trevas, a batalha com o espectro do ciúme e todas as outras coisas Nada Divertidas que fizemos — nessas três gloriosas semanas. Fizemos piqueniques e festinhas de pijama e fomos nadar e fazer compras. Fomos à feira do condado, onde Matt ganhou um tigre de pelúcia para Bonnie e ficou vermelho feito um pimentão quando ela deu um gritinho e pulou nos braços dele. Stefan até me beijou no alto da roda-gigante, como qualquer cara normal faria com a namorada em uma linda noite de verão.
Estávamos tão felizes. Tão normais quanto eu pensei que nunca mais conseguiríamos ser.
Acho que é isso que me assusta. Tenho medo de que essas poucas semanas tenham sido um interlúdio luminoso e dourado e que, agora que as coisas estão mudando, tenhamos de voltar às trevas e ao horror. Parece aquele poema que li na aula de inglês no outono passado: Nada que é dourado permanece. Não para mim.
Até Damon...

Os passos no corredor do primeiro andar a distraíram, e a caneta de Elena Gilbert parou. Ela olhou as últimas duas caixas espalhadas pelo quarto. Stefan e Damon deviam ter chegado para buscá-la.
Mas ela queria terminar seus pensamentos, expressar a última preocupação que a importunou nessas semanas perfeitas. Voltou ao diário, escrevendo com mais rapidez para registrar o que pensava antes de ter de ir embora.

Damon mudou. Desde que derrotamos o espectro do ciúme, ele tem sido... mais gentil. Não só comigo, nem só com Bonnie, por quem ele sempre teve um fraco, mas até com Matt e Meredith. Ele ainda consegue ser tremendamente irritante e imprevisível — não seria Damon sem isso —, mas não tem aquela virulência cruel. Não como antigamente.
Parece que ele e Stefan estão se entendendo. Eles sabem que amo os dois e mesmo assim não deixaram o ciúme se intrometer entre eles. Estão próximos, agindo como verdadeiros irmãos, de um jeito que nunca vi. Um equilíbrio delicado entre nós três durou todo o fim do verão. E me preocupa que qualquer passo em falso de minha parte venha fazer com que este equilíbrio se desfaça e que, como o primeiro amor dos dois, Katherine, eu separe os irmãos. Então perderemos Damon para sempre.

Tia Judith chamou, impaciente.
— Elena!
— Já vou! — Rapidamente, Elena escreveu mais algumas frases em seu diário.

Ainda assim, é possível que esta nova vida seja maravilhosa. Talvez eu vá encontrar tudo o que procuro. Não posso ficar na escola, nem em minha vida em casa, para sempre. E quem sabe? Talvez desta vez o dourado tenha vindo para ficar.

Elena! Sua carona está esperando!
Tia Judith agora, sem dúvida nenhuma, estava ficando estressada. Ela queria levar Elena à faculdade. Mas Elena sabia que não conseguiria se despedir da família sem chorar, por isso pediu a Stefan e Damon que a levassem. Seria menos constrangedor ficar emocionada em casa do que chorar por todo o campus da Dalcrest. Como Elena decidira ir com os irmãos Salvatore, tia Judith se ocupou com cada detalhezinho, receosa que a carreira universitária de Elena não fosse começar com perfeição se ela não estivesse presente para supervisionar. Tudo porque tia Judith a amava, Elena sabia.
Ela fechou o diário de capa de veludo azul e o largou numa caixa aberta. Levantou-se e foi em direção à porta, mas, antes de abrir, virou-se para olhar seu quarto uma última vez.
Estava tão vazio, sem seus pôsteres preferidos na parede e metade dos livros da estante. Só algumas roupas continuavam no armário e na cômoda. A mobília ainda estava toda no lugar. Mas agora seu quarto perdera a maior parte de suas posses e mais parecia um quarto impessoal de hotel do que o refúgio confortável de sua infância.
Tanta coisa aconteceu ali. Elena se lembrava de se aconchegar com o pai junto à janela para ler quando era pequena. Ela, Bonnie e Meredith — e Caroline, que antigamente também era uma boa amiga — passaram pelo menos cem noites ali contando segredos, estudando, vestindo-se para festas ou só ficando juntas. Stefan a beijou ali, no início da manhã, e desapareceu rapidamente quando tia Judith veio acordá-la. Elena se lembrou do sorriso cruel e triunfante de Damon quando ela o convidou a entrar pela primeira vez, o que parecia fazer milhões de anos. E, não muito tempo atrás, sua alegria quando ele apareceu numa noite escura, depois de todos pensarem que estava morto.
Houve uma batida baixa na porta, e ela se abriu. Stefan estava na soleira, olhando-a.
— Está pronta? — perguntou ele. — Sua tia está meio preocupada. Acha que você não terá tempo de desfazer as malas antes da orientação aos alunos, se não formos agora.
Elena se aproximou para abraçá-lo; ele estava com um cheiro limpo e amadeirado, e ela aninhou a cabeça em seu ombro.
— Estou indo — disse ela. — É que é difícil dizer adeus, sabe? Tudo está mudando.
Stefan virou-se para ela e tomou sua boca suavemente em um beijo.
— Eu sei — disse ele em seguida, passando gentilmente o dedo pela curva de seu lábio inferior. — Vou levar essas caixas para baixo e lhe dar mais um minuto. Tia Judith vai se sentir melhor se vir a mala do carro sendo ocupada.
— Tudo bem. Já desço.
Stefan saiu do quarto com as caixas e Elena suspirou, olhando ao redor novamente. As cortinas de flores azuis que a mãe fizera quando Elena tinha 9 anos ainda cobria as janelas. Elena se lembrou da mãe a pendurando, com os olhos meio lacrimosos, quando sua menininha disse que era grande demais para cortinas do Ursinho Puff.
Foi a vez dos olhos de Elena se encheram de lágrimas, e ela colocou o cabelo atrás das orelhas, espelhando o gesto que a mãe usava quando se esforçava para pensar. Elena era nova demais quando os pais morreram. Talvez, se eles estivessem vivos, ela e a mãe agora fossem amigas, se entenderiam como iguais, e não apenas como mãe e filha.
Os pais também tinham estudado na Dalcrest. Foi lá que se conheceram, na realidade. No térreo, em cima do piano, havia uma foto deles vestindo beca de formatura no gramado ensolarado à frente da biblioteca da Dalcrest, rindo, incrivelmente jovens.
Talvez a ida para a Dalcrest aproximasse Elena deles. Talvez ela aprendesse mais sobre as pessoas que eles foram, não apenas a mãe e o pai que ela conheceu quando pequena, e encontrasse sua família perdida em meio aos prédios neoclássicos e gramados da faculdade.
Ela não estava indo embora. Estava avançando.
Elena cerrou firmemente o queixo e saiu do quarto, apagando a luz.
No térreo, tia Judith, o marido, Robert, e a irmã de 5 anos de Elena, Margaret, estavam reunidos no saguão, esperando, olhando Elena enquanto ela descia a escada.
Tia Judith estava alvoroçada, claro. Não conseguia ficar quieta; suas mãos se retorciam, alisavam o cabelo, mexiam nos brincos.
— Elena — disse ela —, tem certeza de que guardou tudo o que precisava? É muita coisa para se lembrar. — Ela franziu o cenho.
Graças à ansiedade óbvia da tia, foi mais fácil para Elena sorrir tranquilizadoramente e abraçá-la. Tia Judith retribuiu o abraço com força, relaxando por um momento, e fungou.
— Vou sentir sua falta, querida.
— Também sentirei saudade. — Elena apertou a tia um pouco mais, sentindo os lábios tremerem. Soltou uma risada trêmula. — Mas vou voltar. Se eu esquecer alguma coisa, ou se tiver saudade de casa, volto logo para passar o fim de semana. Não preciso esperar o Dia de Ação de Graças.
Ao lado delas, Robert jogava o próprio peso de um pé para o outro e pigarreou. Elena soltou tia Judith e se virou para ele.
— Escute, sei que os universitários têm muitas despesas — disse ele. — E não queremos que você tenha de se preocupar com dinheiro, então abrimos uma conta na loja dos alunos, mas... — Ele abriu a carteira e entregou um maço de notas a Elena. — Só por precaução.
— Oh. — Elena ficou comovida e meio perturbada. — Muito obrigada, Robert, mas não precisa fazer isto.
Desajeitado, ele a afagou no ombro.
— Queremos que tenha tudo de que precisar — disse com firmeza. Elena sorriu, agradecida, dobrou o dinheiro e colocou no bolso.
Ao lado de Robert, Margaret olhava obstinadamente para os sapatos. Elena se ajoelhou diante dela e pegou as mãos da irmã mais nova.
— Margaret? — incitou ela.
Os grandes olhos azuis a fitaram. Margaret franziu a testa e meneou a cabeça, com a boca numa linha firme.
— Vou sentir muito a sua falta, Meggie — disse Elena, puxando-a para mais perto, os olhos se enchendo de lágrimas de novo. O cabelo macio como dente-de-leão da irmã roçou no rosto de Elena. — Mas eu volto para o Dia de Ação de Graças, e talvez você possa me visitar no campus. Eu adoraria mostrar minha irmãzinha a todos os meus novos amigos.
Margaret engoliu em seco.
— Não quero que você vá — disse ela, a vozinha muito triste. — Você está sempre indo embora.
— Ah, meu amor — disse Elena, impotente, aninhando mais perto a irmã. — Mas eu sempre volto, não é?
Elena estremeceu. Mais uma vez, se perguntou o quanto Margaret se lembrava do que realmente tinha acontecido em Fell’s Church no ano anterior. As Guardiãs prometeram alterar as lembranças de todos daqueles meses sombrios, quando vampiros, lobisomens e kitsune quase destruíram a cidade — e quando a própria Elena morreu e renasceu —, mas parecia haver exceções. Caleb Smallwood se lembrava, e às vezes o rostinho inocente de Margaret ganhava uma expressão estranhamente perspicaz.
— Elena — disse tia Judith novamente, com a voz embargada e chorosa —, é melhor você ir.
Elena abraçou a irmã mais uma vez antes de soltá-la.
— Tudo bem. — Ela se ergueu e pegou a bolsa. — Ligo para vocês hoje à noite e conto como estou me ajeitando.
Tia Judith assentiu, e Elena lhe deu outro beijo rápido antes de enxugar os olhos e abrir a porta da frente.
Na rua, o sol brilhava tão forte que a fez piscar. Damon e Stefan estavam recostados na pick-up que Stefan alugou, com as coisas de Elena guardadas no porta-malas. Ao se aproximar, os dois levantaram a cabeça e, ao mesmo tempo, sorriram para ela.
Oh. Eles eram tão bonitos, os dois, que vê-los ainda a deixava trêmula depois de todo esse tempo. Stefan, seu amado Stefan, com os olhos verdes cintilando ao vê-la, era lindo com seu perfil clássico e aquela curvinha meiga e beijável no lábio inferior.
E Damon — todo pele clara luminescente, olhos pretos aveludados e cabelos sedosos — era elegante e letal ao mesmo tempo. O sorriso luminoso de Damon fazia algo dentro dela se esticar e ronronar como uma pantera reconhecendo seu parceiro.
Os dois pares de olhos a fitavam com amor e possessividade.
Os irmãos Salvatore agora eram dela. O que ia fazer a respeito disso? A ideia fez sua testa franzir e os ombros se recurvarem de nervosismo. Depois ela desfez conscientemente as rugas na testa, relaxou e sorriu para eles. O que tiver de ser, será.
— Hora de ir — disse ela, virando o rosto para o sol.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!