14 de março de 2019

Capítulo 19

Para outros, o conflito deixou cicatrizes permanentes — o frio impiedoso, o medo e a proximidade de uma morte prematura e sem sentido, além da inevitável degradação das condições de vida em um navio de guerra pequeno e desgastado pelas intempéries — suficientes para criar uma eterna aversão à guerra.
RICHARD WOODMANARCTIC CONVOYS, 1941-1945

TRINTA E CINCO DIAS (UMA SEMANA ATÉ PLYMOUTH)

Em um canto no fundo da sala de conferência, Joe Junior se mexia com impaciência, talvez por achar injusto ficar confinado em um espaço tão limitado.
Margaret baixou os olhos para a barriga avantajada e observou os movimentos do bebê, que faziam seu velho caderno navegar a onda sísmica dos seus movimentos como um pequeno barco na água. Ela sabia como ele devia estar se sentindo. Nas semanas anteriores, o tempo no navio parecia ter estagnado. Ela sentira uma necessidade desesperada de ver Joe, e também uma frustração cada vez maior pela lentidão com que os dias se arrastavam. Agora que estavam em águas europeias, o tempo passava depressa e piorava sua inquietação.
Ela estava se sentindo grotesca. Sua barriga era uma bola imensa e a pele pálida estava riscada por veias púrpuras. Só com muita dificuldade conseguia enfiar os pés nas sandálias esgarçadas e encardidas, o único calçado que ainda lhe servia. No espelho do banheiro coletivo, seu rosto, que nunca fora fino, refletia a imagem de uma perfeita lua cheia. Como Joe ainda pode me querer?, perguntava ela. Ele se casara com uma garota ágil e ativa, que conseguia correr tão depressa quanto ele, que o desafiava em corridas a cavalo pelas intermináveis planícies verdes que rodeavam a fazenda. Uma garota que tinha um corpo firme e musculoso, que chegava a comovê-lo quando exibido nu.
Agora ele estaria ligado a uma porca gorda, balofa, de pés inchados, que precisava se sentar, ofegante, após subir um pequeno lance de escada. Alguém cujos seios, brancos e com algumas veias, sacudiam pesadamente e vazavam leite. Uma porca que repugnava até a si mesma. A conversa afetuosa de poucas semanas antes não bastava mais para tranquilizá-la. Como seria? Ele não tinha visto sua nova aparência.
Ela se remexeu na pequena cadeira de madeira e soltou um silencioso “ah” de desconforto. A palestra do dia tinha sido sobre “Coisas que seu marido pode ter visto”. Apesar do título, trazia apenas referências repetidas a “horrores inomináveis”, que o palestrante tinha, com certeza, considerado inomináveis demais para descrever. O importante, segundo o oficial encarregado do bem-estar, era não pressionar o marido sobre o que acontecera com ele. A história tinha mostrado que a maioria dos homens se sentia melhor quando apenas convivia com esse tipo de lembrança. Eles não queriam uma mulher que os pressionasse a contar tudo. O que os homens precisavam era de alguém que os ajudasse a esquecer aquilo, que pudesse proporcionar as alegrias de uma vida tranquila pela qual tinham lutado.
As palavras do palestrante fizeram Margaret sentir pela primeira vez que ela e Joe não eram parceiros, como ela imaginara, e que, por causa das diferenças de sexo e experiência, havia um imenso abismo entre eles. Joe tinha mencionado apenas uma vez um evento da sua lista pessoal de horrores: seu amigo Adie havia sido morto no Pacífico a menos de um metro dele, no convés, e Margaret o vira piscar repetidas vezes para conter as lágrimas. Ela não o pressionara por detalhes, não porque achasse que esse sofrimento era só dele, mas por ser australiana. De uma autêntica família de fazendeiros. E se deparar com os olhos de um homem cheios de lágrimas, mesmo que ele fosse irlandês (e todos sabiam como os irlandeses conseguem se emocionar), deixara Margaret com uma sensação estranha.
Haveria ainda mais inconvenientes, explicara o oficial, para as que vinham de continentes muito distintos. Praticamente não havia dúvidas de que haveria uma pressão extra sobre elas, por melhor e mais calorosa que fosse sua recepção pelos novos parentes britânicos. Ele sugeriu que as esposas encontrassem um amigo dentro da família. Ou que trocassem endereços com as amigas que fizeram no navio, para que tivessem com quem conversar caso estivessem particularmente preocupadas.
No decorrer de alguns meses, porém, elas poderiam perceber que seus maridos se irritavam com facilidade e, às vezes, ficavam mal-humorados.
— Antes de censurá-lo, pare um pouco para refletir e ver se não há outros motivos para essas explosões. Pense que ele pode ter se lembrado de coisas com as quais não quer atormentá-la. E talvez, antes de começar uma discussão, pensem no que seus maridos fizeram pelo país e por vocês mesmas. Temos uma expressão na Inglaterra. — Nesse momento, o oficial fez uma pausa e percorreu a pequena sala com o olhar. — “Mantenha-se firme mesmo na adversidade.” Foi isso que manteve nosso Império forte nos últimos anos. Sugiro que usem isso com frequência.

* * *

Era a segunda vez que o marinheiro assistente dos oficiais fazia sinal para que ele o ajudasse a limpar a praça-d’armas. Foi preciso que Jones dissesse “Ande, meu chapa, mexa-se”, para tirar Nicol do seu devaneio.
Ao redor deles, os oficiais tinham acabado de comer e se retiravam para fumar cachimbos e ler cartas ou jornais antigos. Durante todo o almoço, fizeram brincadeiras sobre o estado dos motores do Victorious e até uma aposta para saber se aguentariam chegar a Plymouth. Outra brincadeira paralela, motivo de muita discussão irreverente, envolvia três marinheiros que foram chamados para se apresentar diante da Comissão de Entrevistas do Almirantado para tentar uma promoção ao posto de oficial. Todos se divertiram ao imaginar as possíveis respostas de um deles, que era conhecido por ter a inteligência e o comportamento de uma mula.
— Está cochilando, meu chapa? — Jones praticamente o jogara na sala anexa ao alojamento dos oficiais. — O imediato estava de olho em você enquanto brindavam. Você estava parecendo mais um saco de batatas. Em determinado momento, cheguei a pensar que ia enfiar as mãos nos bolsos!
Nicol não conseguia responder. Ficar em posição de sentido durante os brindes era um gesto automático para ele. Como engraxar as próprias botas ou se candidatar para plantões extras. No entanto, coisas estranhas estavam acontecendo com seu senso de responsabilidade.
Ele tinha imaginado que a desembarcariam, e que ele iria logo atrás. Durante o almoço, se permitira sonhar acordado com a chance de que o marido mandasse “Não é bem-vinda, não venha” para ela, mas logo censurou a si mesmo por desejar que ela passasse por essa vergonha.
Mas não havia nada que ele pudesse fazer. Quando fechava os olhos, visualizava seu rosto atento. O sorriso breve e radiante que ela lhe concedera quando dançaram juntos. A sensação de encostar na sua cintura, de sentir as mãos dela tocando as suas de leve.
Com quem ela tinha se casado? Será que contou sobre o seu passado para o marido? Pior ainda, será que ele tinha feito parte disso? Pelo visto não havia como fazer essas perguntas sem dar a entender que ele, como todos os outros, tinha o direito de opinar sobre sua vida. Que direito ele tinha de perguntar a ela o que quer que fosse?
Esses pensamentos fizeram com que ele fechasse os olhos para não impor a si mesmo as imagens que preferia deixar de lado. No alojamento, os companheiros, acostumados com as visitas temporárias de demônios de guerra, permitiam que ele se mantivesse a distância. Esses demônios voltavam com regularidade para assombrá-lo, de leve, a princípio, mas depois enchiam sua cabeça com lembranças sombrias. Talvez eu pudesse contar para ela, pensou ele. Tentar explicar o que sinto. Falar poderia ser uma válvula de escape. Ela não precisaria responder.
Mas mesmo quando as palavras começavam a fazer sentido em sua mente, ele sabia que não seria capaz de expressá-las. Ela criara um futuro, encontrara certa estabilidade. Ele não tinha o direito de dizer ou fazer nada que pudesse interferir nisso.
Na noite anterior, ele observara as constelações que tanto o intrigavam no passado. Estava xingando a conjunção de planetas que tinham feito seus caminhos se separarem no momento em que o encontro poderia tê-los redimido. Eu poderia ter feito ela feliz, pensou ele. Como o tal marido desconhecido poderia dizer o mesmo? Ou talvez fosse o próprio egoísmo dele que quisesse compensar e diminuir o sentimento de culpa ao se considerar o salvador dela.
Foi essa percepção incômoda que o forçou a tomar a decisão de trocar de turno com Emmett, o que o manteve, nos dias seguintes, bem afastado dela. Não era mais o passado da mulher que o incomodava. Era que ela tivesse conseguido escapar daquilo.
— O supervisor ainda estava no buraco dele às dez para as onze da manhã. Devia ter escutado o comandante dizendo: “Você não tem mais qualificação para ser supervisor do que qualquer uma daquelas mulheres lá embaixo.” E sabe onde ele estava, não é? O mestre de armas acredita que ele estava na enfermaria com o americano. Fazia pesquisas sobre as… propriedades curativas do álcool.
As pessoas caíram na gargalhada. Ele contemplou o retrato do Rei, que ocupava um lugar importante na parede, depois ocupou seu lugar ao lado de Jones, se preparando para sair do alojamento dos oficiais. Nicol recebera um telegrama quatro dias depois de mandar o seu. Dizia apenas: “Obrigada!” O ponto de exclamação, com tudo o que implicava, lhe causara arrepios.

* * *

A cachorrinha começou a latir de forma inesperada quando Margaret abriu a porta. Em pânico, tapou com a mão o focinho de Maude Gonne e se apressou para a cama, murmurando:
— Quieta! Quieta, Maudie! Fique quieta agora!
A cadela latiu mais duas vezes, e Margaret quase bateu nela, coisa que nunca fizera.
— Cale a boca! — resmungou, com os olhos fixos na porta. — Vamos, fique quietinha — murmurou, e a cachorra deu várias voltas ao redor do próprio corpo em cima do beliche da sua dona.
Sentindo-se culpada, Margaret olhou para o relógio, se perguntando quando poderia levá-la para passear de novo. Maude Gonne tentara fugir várias vezes. Como Joe Junior, pensou ela, o confinamento começava a pesar.
— Fique calma, por favor — pediu. — Falta pouco, prometo.
Só então percebeu que não estava sozinha na cabine.
Avice estava deitada no beliche, imóvel, virada para a parede, com os joelhos na barriga.
Margaret observou a colega enquanto a cachorra, sem muito entusiasmo, pulava para o chão e arranhava a porta. Ela fez as contas e percebeu que era o quarto dia que Avice estava prostrada assim. Nas poucas ocasiões em que tinha se levantado para comer, ela beliscara alguma coisa no prato, depois se desculpara e saíra da mesa. Estava enjoada, respondia ela, quando perguntavam qual era o problema. Embora o mar não estivesse agitado.
Margaret se debruçou sobre a menina prostrada, como se seu rosto pudesse dar alguma dica do que estava acontecendo. Certa vez, fizera isso achando que Avice estava dormindo e sentira um misto de surpresa e constrangimento ao ver seus olhos bem abertos. Ela não sabia se devia falar com Frances: talvez Avice estivesse com algum problema de saúde, mas considerando que o relacionamento das duas não era dos melhores, achava que não era justo colocá-las em uma situação embaraçosa.
Além disso, Frances quase nunca estava na cabine. Por razões que ninguém conseguia explicar, ela passara a ajudar na enfermaria depois que o Dr. Duxbury aceitou, com muita satisfação, a responsabilidade de organizar a final do concurso de Rainha do Victorious. Ela desaparecia durante várias horas todos os dias, e não dizia a ninguém por onde andava. Margaret achava que devia ficar contente por ela estar tão mais feliz, mas sentia muito sua falta. Sozinha, ela tinha muito mais tempo para refletir, e, como seu pai costumava dizer, isso nunca era bom.
— Avice? — sussurrou ela. — Está acordada?
Ela não respondeu de imediato.
— Estou — disse, afinal.
Constrangida, Margaret parou no meio do pequeno quarto, esquecendo-se, por um momento, do seu corpo volumoso, enquanto tentava descobrir o que fazer para melhorar a situação.
— Quer… que eu lhe traga alguma coisa?
— Não.
O silêncio dominou o ambiente. Minha mãe saberia o que fazer, pensou. Teria pegado Avice nos braços com aquele seu jeito maternal e falado: “Vamos, conte o que está acontecendo.” Diante de toda aquela segurança, Avice teria confessado suas angústias, seus problemas de saúde, as saudades que sentia de casa, ou o que quer que fosse que a estava perturbando.
Só que sua mãe não estava lá. E Margaret tinha tanta condição de pegar Avice nos braços quanto de remar para levar aquele maldito navio até a Inglaterra.
— Posso pegar uma xícara de chá — sugeriu ela.
Avice não disse nada.

* * *

Margaret se deitou na cama e ficou quase uma hora lendo, sem coragem de deixar Avice sozinha nem Maude Gonne, que ela achava que não ficaria quieta.
Lá fora, o discreto aumento no balanço do navio indicava que estavam entrando em águas mais frias e agitadas. Depois de semanas a bordo, elas estavam acostumadas com a oscilação do Victorious e com o constante zumbido dos motores, portanto conseguiam ignorar as ordens insistentes transmitidas pelos alto-falantes a cada quinze minutos.
Margaret tinha começado a escrever uma carta para o pai, mas logo descobrira que não tinha nenhuma novidade para contar sobre a vida a bordo. Ela não conseguia pensar em colocar no papel o que realmente acontecera e, fora isso, só poderia falar sobre sua espera. Como se estivesse em uma fila, ela esperava sua vida nova começar.
Decidira, então, escrever para Daniel: fez diversas perguntas sobre a égua, e um pedido urgente para que ele retirasse a pele do maior número possível de coelhos para visitá-la na Inglaterra. Daniel escrevera apenas uma vez, uma carta que ela recebera em Bombaim, com poucas linhas, em que ele não contava muito além da situação das vacas, do tempo, e do enredo de um filme a que assistira na cidade. De todo modo, seu coração se acalmara. Ela havia sido perdoada, era o que aquelas poucas linhas lhe diziam. Se seu pai o tivesse ameaçado com o cinto para que escrevesse, ele teria enfiado uma folha em branco no envelope, sem obedecê-lo. Alguém bateu com força na porta e ela pulou em cima da cachorrinha para abafar seus latidos. Agarrando o animal, fingiu ter um acesso de tosse, numa tentativa de dissimular o som.
— Espere aí — gritou, colocando delicadamente, mas com firmeza, sua mão enorme no focinho de Maude Gonne. — Estou indo.
— A Sra. A. Radley está aí?
Margaret se virou para o beliche de Avice, que piscou várias vezes e se sentou. Suas roupas estavam amarrotadas, o rosto pálido e impassível. Ela deslizou devagar para o chão, levando a mão ao cabelo.
— Avice Radley — disse, abrindo uma fresta da porta.
Havia um jovem marinheiro à sua frente.
— A senhora recebeu um telegrama. Vá à sala de rádio hoje à tarde.
Margaret soltou a cachorrinha às suas costas e deu um passo à frente para segurar o braço de Avice.
— Ai, meu Deus — disse, sem querer.
O marinheiro observou as duas com olhos arregalados. Depois colocou um pedaço de papel na mão de Avice.
— Não fique assim, senhora… É uma boa notícia.
— Qual? — perguntou Margaret.
Ele a ignorou e esperou que Avice baixasse os olhos antes de voltar a falar, com um tom de voz animado:
— É da sua família. Seus parentes estarão em Plymouth para recebê-la quando chegar de navio.

* * *

Avice tinha chorado por quase vinte minutos, o que no início parecera um exagero, mas depois se tornara algo alarmante. Margaret deixou de lado as rixas do passado, subiu no beliche de Avice e se sentou ao seu lado, tentando não pensar em como a cama estalava ameaçadoramente com seu peso.
— Está tudo bem, Avice — repetia, sem parar. — Ele está bem. Ian está bem. Esse maldito telegrama foi só um susto.
O comandante não estava muito contente, informara o marinheiro, rindo. Disse que vai passar a usar a sala de rádio para transmitir as listas de compras. Mas tinha autorizado o recebimento da mensagem.
Margaret resmungou e disse:
— Não deviam ter mandado alguém passar aqui sem mais nem menos. Com certeza sabiam que você ficaria assustada. Ainda mais no seu estado, não é?
Ela tentou arrancar um sorriso da garota, mas Avice não respondeu. Os soluços acabaram diminuindo, até se tornarem só um eco. Por fim, quando sentiu que o pior havia passado, Margaret desceu do beliche.
— Agora descanse um pouco — disse ela, sabendo que seria uma recomendação inútil. — Acalme-se um pouco. — Ela se deitou no seu beliche e começou a falar sobre os planos para os poucos dias que restavam: as melhores palestras para ver, os preparativos de Avice para a final do Rainha do Victorious, qualquer coisa que ajudasse a afastar a tristeza da colega. — Você precisa usar de novo aqueles sapatos de cetim verde — disse, entusiasmada. — Nem imagina quantas mulheres dariam tudo por eles, Avice. Aquela garota da cabine 11F disse que viu alguns parecidos na Australian Women’s Weekly.

* * *

Os olhos de Avice estavam vermelhos e inchados. Você não entende, pensou ela, com o olhar fixo na parede branca e sem prestar atenção na interminável sequência de palavras que chegava aos seus ouvidos. Por um instante, achei que tudo fosse ficar bem, que haveria um jeito de escapar disso.
Ela se deitou em completo silêncio, como se de algum modo pudesse se petrificar.
Apenas por um momento, pensei que eles tivessem vindo me dizer que ele estava morto.

* * *

— Então, lá estava eu, com água suja até as orelhas, panelas boiando nas galerias da cozinha, e o navio inclinado quarenta e cinco graus a bombordo. Nesse momento, o velho chega andando com dificuldade, me olha de cima a baixo, usa o quepe para esvaziar vários litros de água acumulada no fundo da embarcação e diz: “Highfield, espero que não esteja usando meias de cores diferentes uma da outra. Não vou permitir que alguém se vista fora do padrão no meu navio.”
O comandante esticou a perna.
— A melhor parte é que ele tinha razão. Só Deus sabe como conseguiu enxergar embaixo de um metro de água, mas tinha razão.
Frances se empertigou e sorriu.
— Tive enfermeiras-chefes assim — disse ela. — Acho que, inclusive, elas conseguiam dizer quantos comprimidos havia em cada frasco.
Começou a guardar os instrumentos de volta na maleta.
— Ah — disse Highfield, pigarreando. — Bem, então. Quarenta e um torpedos tirados das caixas, sem revestimento, duas caixas vazias, trinta e duas bombas, a maioria desmontada, quatro caixas de munição para carregadores de onze centímetros, uma caixa de munição para canhões duplos, nove caixas de armamento variado, carregadores para armas de pequeno porte e canhões antiaéreos. Ah, e vinte e duas cargas para diversas pistolas, que estão trancadas nos meus depósitos pessoais.
— Alguma coisa me diz que o senhor ainda não está totalmente preparado para a aposentadoria — comentou Frances.
Lá fora, por trás do ombro esquerdo do comandante, o sol começava a se pôr. Afundava em direção ao horizonte em um ritmo mais lento do que nos dias anteriores. O mar se estendia ao redor, e seu tom acinzentado era a única indicação de uma temperatura mais amena. Passaram, com mais frequência, a serem seguidos por gaivotas que mergulhavam no rastro deixado pelo navio à procura de sobras ou lixo que o cozinheiro jogava ao mar, ou de pedaços de biscoitos que as mulheres arremessavam apenas para aproveitar o momento em que as aves os apanhavam ainda no ar.
Highfield se inclinou à frente: a pele sobre a cicatriz na sua perna parecia cera de vela derretida.
— Como está…?
— Bem — respondeu ela. — O senhor já deve sentir a melhora.
— Já me sinto melhor, sim — confirmou ele. Depois, encontrando o olhar dela, acrescentou: — Ainda está dolorido, mas melhorou muito.
— Sua temperatura corporal está normal.
— Achei que eu estava com alguma febre tropical.
— Pode ser também.
Ela sabia que ele se sentia melhor. Estava visível na sua conduta. Ele não precisava mais esconder nada. Havia um brilho diferente em seus olhos, e ele sorria facilmente. Quando se levantava, era mais por se sentir orgulhoso do que pelo desespero de provar que ainda conseguia ficar de pé.
Ele tinha começado a contar outra história: a de uma maleta de torpedo que havia sumido. Frances acabara de fazer o curativo e se sentou diante dele para ouvir. O comandante já tinha contado essa mesma história alguns dias antes, mas ela não se importava. Sentia que ele não era o tipo de pessoa que se comunicava com facilidade. Um homem solitário, ela concluíra. Muitas vezes ela constatara que quem ocupava cargos altos era mais solitário.
Além disso, diante da frieza com que ainda era tratada pela maioria das mulheres, da estranha melancolia de Avice e da ausência de Nicol, ela precisava admitir que gostava da companhia dele.
— … e o homem corado estava usando o material apenas para cozinhar seu peixe. Ele não encontrara um lugar melhor para fazer isso — explicou. — Quando soubemos o que tinha acontecido, demos graças a Deus por ele não ter usado uma ogiva.
Highfield deu uma risada que mais pareceu um latido, e deixou até ele mesmo surpreso. Frances sorriu de novo, se esforçando para não demonstrar que já ouvira a mesma coisa. Depois de cada história, ele olhava rapidamente para ela, e isso bastava para que Frances percebesse sua falta de jeito com as mulheres. Ele não devia querer incomodá-la. Ela não o deixaria pensar que esse era o caso.
— Sra. Mackenzie… posso lhe oferecer um drinque? Em geral, tomo um gole de alguma coisa a esta hora do dia.
— Obrigada, mas não bebo.
— Garota sensata.
Ela o observou contornar a escrivaninha. Era um móvel bonito, em madeira cor de noz e com detalhes em couro verde-escuro. Com tapetes, quadros e cadeiras estofadas confortáveis, a sala particular do comandante ficaria muito bem em qualquer casa de alto padrão. Ela pensou nas precárias condições dos homens nos conveses inferiores, que tinham apenas redes, armários de vestiário e mesas desbotadas. Em nenhum outro lugar, a não ser na Marinha Britânica, ela vira uma diferença tão gritante nas condições de vida dos homens, e isso a levou a pensar sobre o país para onde estava indo.
— Como o senhor conseguiu isso? — perguntou ela, enquanto ele se servia de uma bebida.
— O quê?
— O ferimento na perna. Nunca me contou.
Ele estava de costas para Frances e ficou imóvel por tempo o bastante para entender que a pergunta não havia sido tão inconsequente quanto fora a intenção.
— Não precisa me contar — apressou-se a dizer. — Desculpe, não quis ser intrometida.
Foi como se ele não a tivesse escutado. Tampou a garrafa e voltou a se sentar. Tomou um grande gole do líquido âmbar e, em seguida, começou a falar. O Victorious, disse, não era seu navio.
— Comandei o irmão gêmeo deste aqui, o Indomitable. Desde 1939. Depois, pouco antes do Dia da Vitória, fomos atacados. Tínhamos seis Albacore, quatro Swordfish e só Deus sabe o que mais lá em cima tentava nos dar cobertura, homens em todos os canhões, mas nada os atingia. Eu sabia desde o início que estávamos perdidos. Meu sobrinho era piloto. Robert Hart. Vinte e seis anos. Filho de Molly, minha irmã mais nova… Era um… Éramos muito unidos. Ele era um bom menino.
Os dois foram brevemente interrompidos por batidas na porta. Highfield deixou clara sua irritação. Ele se levantou e caminhou com passos pesados. Abriu a porta, deu uma olhada nos papéis que lhe foram entregues e assentiu para o jovem telegrafista.
— Muito bem — murmurou.
Frances, ainda concentrada nas palavras anteriores do comandante, mal percebeu a interrupção.
Highfield se sentou de novo e largou os papéis ao seu lado na escrivaninha.
Seguiu-se um longo silêncio.
— Ele… foi abatido? — perguntou ela.
— Não — respondeu o comandante após tomar mais um gole do seu drinque. — Não. Acho que ele teria preferido isso. Uma das bombas caiu no porão número dois e provocou a explosão de vários conveses, do alojamento dos oficiais à sala central de máquinas. Perdi dezesseis homens na primeira explosão.
Frances conseguia imaginar a cena a bordo. Ela quase sentia o cheiro de fumaça e combustível, ouvia os gritos dos homens que estavam presos nas chamas.
— Inclusive seu sobrinho.
— Não… não, este é o problema. Demorei muito para resgatá-los, entende? O deslocamento de ar me jogou longe e fiquei um pouco atordoado. Não percebi que a explosão tinha sido tão perto dos depósitos de munição. O fogo rachou vários dutos internos e se propagou até o leme, o sistema de pilotagem e o gabinete do almirante, depois voltou a aparecer sob o transportador de munição. Quinze minutos depois da primeira bomba, uma nova explosão destruiu metade do interior do navio. — Ele balançou a cabeça. — O barulho foi ensurdecedor… ensurdecedor. Tive a impressão de que o céu havia se partido. Eu devia ter mandado mais homens descer para verificar se as escotilhas estavam fechadas, para impedir que o fogo se alastrasse.
— O senhor poderia ter perdido mais homens ainda.
— Cinquenta e oito ao todo. Meu sobrinho estava na plataforma de controle. — Hesitou. — Não consegui chegar até ele.
Frances estava imóvel na cadeira.
— Eles me obrigaram a abandonar o navio. — Highfield falava depressa e com a voz rouca, como se as palavras tivessem esperado tempo demais para serem ditas. — Estava afundando e meus homens… os que ainda conseguiam se manter de pé… estavam nos botes. O mar estava sinistramente calmo, e eu conseguia ver todos os barcos flutuando abaixo de mim, quase imóveis, como lótus em um tanque. Os homens içavam os feridos da água e os barcos ficavam cobertos de sangue e combustível. Fazia muito calor. Os que permaneciam a bordo molhavam os próprios corpos com mangueiras, apenas para tentar continuar no navio. E enquanto procurávamos recuperar os feridos, enquanto o navio se desfazia em pedaços e ardia em chamas, os malditos japoneses continuavam nos rondando. Não atiravam mais, apenas rodeavam acima de nós, como abutres. Pareciam ter prazer em nos ver sofrer.
Highfield tomou um gole da sua bebida.
— Eu ainda estava tentando encontrá-lo quando me mandaram abandonar o navio. — Ele baixou a cabeça. — Dois destroieres chegaram para nos ajudar. Finalmente, vi que os japoneses se afastavam. Fui obrigado a desembarcar. Todos os meus homens me observaram deixar o navio afundar, mesmo sabendo que podia ter homens vivos lá dentro, homens feridos. Talvez até Hart. — Ele fez uma pausa. — Nenhum me dirigiu a palavra. Eles só… me encaravam.
Frances fechou os olhos. Ela ouvira histórias semelhantes, sabia que deixavam cicatrizes. Não havia nada que ela pudesse dizer para reconfortá-lo.
Eles ouviram o alto-falante chamar as mulheres para visitar uma exposição de trabalhos em feltro na proa. Frances ficou surpresa ao reparar que em algum momento anoitecera e do lado de fora a escuridão era total.
— Não é a melhor maneira de encerrar uma carreira, não acha?
Ela percebeu que a voz dele estava entrecortada.
— Comandante — disse ela —, as únicas pessoas que têm todas as respostas são as que nunca se defrontaram com as perguntas.
Do lado de fora dos quartos, as luzes do convés se acendiam aos poucos, lançando uma fria luminosidade néon pela janela. Eles ouviram os ecos de uma conversa barulhenta enquanto vários homens saíam da praça-d’armas e o alto-falante repetia sem parar a mensagem: “Preparem-se para receber barcaça de lixo a bombordo.”
O comandante Highfield olhou para os próprios pés, depois para Frances, digerindo a verdade do que ela dissera. Tomou um grande gole da sua bebida sem desviar os olhos dela.
— Sra. Mackenzie — disse ele, colocando os óculos na mesa —, me fale sobre o seu marido.

* * *

Nicol ficara do lado de fora da sala de projeção por quase três quartos de hora. Ainda que tivesse sido autorizado a entrar, não queria ver Os melhores anos de nossas vidas, mesmo com o final feliz dos soldados voltando para casa. Sua atenção estava voltada para o final do corredor.
— Não consigo acreditar nisso — exclamou Jones, o galês, se secando no alojamento. — Ouvi dizer que ela desembarcaria. Depois o comandante vem com essa história de que houve um mal-entendido. Não foi isso, posso garantir. Você a viu, não foi, Duckworth? Nós dois a reconhecemos. Não estou entendendo.
Ele esfregou vigorosamente as mãos embaixo dos braços.
— Eu sei o motivo — intrometeu-se outro fuzileiro. — Ela está lá dentro tomando um drinque com o comandante.
— O quê?
— Na sala dele. O meteorologista acabou de levar um relatório com a previsão do tempo e ela está lá, aninhada no sofá com ele, bebendo.
— Que velho dissimulado — disse Jones.
— Ela não é boba nem nada.
— Highfield? Ele não conseguiria arranjar uma vagabunda em um bordel mesmo com uma nota de cinco libras atrás da orelha.
— É uma regra para nós e outra para eles, com certeza — afirmou Duckworth com amargura. — Acham mesmo que nos deixariam levar uma puta para o alojamento?
— Vocês devem estar enganados. — Nicol reagira antes de pensar no que estava dizendo. Suas palavras deixaram o clima pesado e causaram um breve silêncio. — Ela não está na sala do comandante. — Ele ergueu o tom de voz. — Quer dizer, não tem motivo para estar.
— Taylor sabe o que viu. E ainda tem mais: não é a primeira vez que ela vai lá. Ele acha que é a terceira vez esta semana que a viu com Highfield.
— Terceira vez, é? Ah, Nicol, meu camarada, você sabe tão bem quanto eu qual é o motivo. — A voz estridente de Jones se transformara em uma gargalhada. — O que acham disso, pessoal? Sessenta anos e finalmente nosso comandante descobriu os prazeres da carne!
Por fim, ele ouviu vozes. Enquanto se apoiava na parede, a porta do escritório do comandante se abriu. Ele segurou a respiração quando percebeu a fina silhueta sair com passos leves e se virar para o comandante. Não foi preciso se esforçar muito para confirmar quem era: sua imagem, em todos os detalhes, estava impressa de modo indelével na sua alma, como se entalhada em madeira.
— Obrigado — disse Highfield. — Não sei mais o que dizer. Em geral, não costumo…
Ela balançou a cabeça, como se para dizer que o que fizera por ele não era nada. Em seguida, ajeitou o cabelo. Nicol recuou para as sombras. Não costumo… o quê? Ele prendeu a respiração e não pensou em nada. Não se sentira assim quando sua esposa contou que o havia traído. Agora era pior.
Eles murmuraram alguma coisa que ele não conseguiu entender, mas logo a voz de Frances ficou alta de novo:
— Ah, comandante, esqueci de dizer… Dezesseis.
Nicol reparou que Highfield olhava para ela como se achasse graça.
Ela começou a se afastar na direção do hangar principal.
— Restam dezesseis injeções de penicilina no frasco grande. Sete no menor. E dez curativos fechados no saco branco. Pelas minhas contas, pelo menos.
Ele ouvia o riso do comandante se propagar por todo o corredor.

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