30 de março de 2019

Capítulo 18

Ao acordar na manhã seguinte, Elena descobriu que Damon havia ido embora, o cobertor bem dobrado ao pé da cama. Meredith se vestia para o treino da manhã, de olhos sonolentos e em silêncio, e se limitou a assentir quando Elena passou por ela; Elena aprendera há muito tempo que Meredith era inútil para conversar antes de ter tomado a primeira xícara de café. Bonnie, que só tinha aulas à tarde, era um montinho sob as cobertas.
Certamente Meredith teria dito alguma coisa se tivesse notado Damon no chão, pensou Elena ao passar no refeitório para pegar um muffin antes da aula. Talvez Damon nem tenha ficado. Elena mordeu o lábio ao pensar naquilo, chutando pedrinhas a caminho da aula. Imaginara que ele ficaria, que ele queria mantê-la em segurança. Seria certo ela gostar disso e sentir mais do que uma pontada de mágoa por ele ter ido embora?
Não queria que Damon fosse apaixonado por ela, queria? Não era parte do motivo para ela colocar o namoro com Stefan em suspenso? Para que ela e Damon pudessem tirar um ao outro da mente? Mas...
Eu sou uma pessoa horrível, percebeu ela.
A reflexão sobre seu caráter durou todo o caminho até a aula de história do Sul, e ela rabiscava tristemente no caderno quando o professor Campbell — James — entrou. Dando um pigarro alto, ele se dirigiu à frente da sala, e Elena relutantemente desviou a atenção dos próprios problemas para se concentrar nele.
James parecia diferente. Inseguro, percebeu Elena. Seus olhos não brilhavam como de costume, e ele de alguma forma parecia menor.
— Houve outro desaparecimento — falou em voz baixa. Surgiu um tagarelar ansioso pelo resto da turma, e ele ergueu a mão. — Desta vez a vítima... e acho que a esta altura podemos dizer que estamos falando de vítimas, e não de alunos que simplesmente saem do campus... infelizmente é aluna desta turma. Courtney Brooks está desaparecida; foi vista pela última vez voltando para seu alojamento depois de uma festa na noite passada.
Percorrendo a sala com os olhos, Elena tentou se lembrar de quem era Courtney Brooks. Uma menina alta e calada com cabelo cor de caramelo, pensou ela, e viu seu lugar vazio.
James levantou a mão novamente para aquietar o clamor crescente de vozes amedrontadas e emocionadas.
— Por este motivo — disse ele devagar —, creio que hoje devemos adiar a continuação de nossa discussão sobre o período colonial para eu lhes contar um pouco sobre a história da Dalcrest College. — Ele olhou para os rostos confusos da turma. — Entendam que esta não é a primeira vez que coisas incomuns acontecem no campus.
Elena franziu a testa e, observando os colegas de turma, viu que sua confusão se espelhava em outros rostos.
— A Dalcrest, como muitos de vocês sem dúvida sabem, foi fundada em 1889 por Simon Dalcrest com o objetivo de proporcionar educação aos filhos ricos da aristocracia sulista pós-guerra. Ele dizia querer que a Dalcrest fosse considerada a “Harvard do Sul”, e que ele e sua família estivessem na vanguarda do intelectualismo e do conhecimento acadêmico no novo século que logo chegaria. Isso é descrito com frequência nas histórias oficiais do campus.
“Mas é menos notório que as esperanças de Simon se frustraram em 1895, quando seu filho rebelde de 20 anos, William Dalcrest, foi encontrado morto com outros três nos túneis sob a universidade, no que pareceu um pacto de suicídio. Alguns objetos e símbolos encontrados nos túneis com os corpos sugeriam ligações com magia negra. Dois anos depois, a esposa de Simon, Julia Dalcrest, foi brutalmente assassinada no lugar que agora é a reitoria; o mistério que cercou sua morte nunca foi esclarecido.”
Elena olhou para os colegas. Será que eles sabiam disso? Os folhetos da universidade mencionavam quando foi fundada e por quê, mas nada sobre suicídios e assassinatos. Túneis sob a universidade?
— Julia Dalcrest é uma entre pelo menos três fantasmas que os boatos dizem assombrar o campus. Os outros fantasmas são de uma menina de 17 anos que se afogou, novamente em circunstâncias misteriosas, quando veio ao campus para um baile de fim de semana em 1929. Dizem que ela vaga gemendo pelos corredores da McClellan House, deixando poças de água no caminho. O terceiro é um rapaz de 21 anos que desapareceu em 1953, cujo corpo foi encontrado três anos depois no porão da biblioteca. Conta-se que o fantasma dele é visto entrando e saindo das salas da biblioteca, correndo e olhando para trás, apavorado, como se alguém o perseguisse.
“Há também boatos de várias outras ocorrências misteriosas: um aluno desapareceu em 1963 por quatro dias e reapareceu, dizendo ter sido sequestrado por elfos.”
Um riso nervoso correu pela turma, e James agitou um dedo, reprovando a plateia. Ele parecia estar se empertigando, se inflando como fazia quando estava sob a influência da atenção da turma.
— A questão — disse ele — é que a Dalcrest é um lugar incomum. Tirando elfos e fantasmas, há uma pletora de ocorrências incomuns documentadas, e brotam boatos e lendas pelo campus a cada ano. Mortes misteriosas. Sociedades secretas. Histórias de monstros. — Ele fez uma pausa dramática e olhou a turma. — Peço a vocês: não façam parte da lenda. Sejam inteligentes, fiquem em segurança e andem juntos. Turma dispensada.
Os alunos se olharam, inquietos, assustados com a súbita dispensa quando ainda restava mais de meia hora de aula. Apesar disso, começaram a pegar seus pertences e sair da sala em grupos de dois ou três.
Elena pegou a bolsa e correu para a frente da sala.
— Professor — disse ela. — James.
— Ah, Elena — falou James. — Espero que tenha prestado atenção hoje. É importante que vocês, meninas, estejam atentas. Os meninos também, na verdade. O que afeta este campus não parece discriminar. — De perto, ele parecia pálido e preocupado, mais velho do que no início do semestre.
— Fiquei muito interessada no que disse sobre a história da Dalcrest — disse Elena. — Mas você não falou do que está acontecendo agora. O que acha que está havendo?
O rosto do professor Campbell se vincou em rugas ainda mais amargas, e seus olhos brilhantes não se fixaram nela.
— Bem, minha cara, é difícil dizer. Sim, muito difícil. — Ele lambeu os lábios, nervoso. — Passei muito tempo nesta universidade, sabe, anos e anos. A esta altura, não há muitas coisas nas quais eu não acreditaria. Mas eu simplesmente não sei — disse ele baixinho, como se falasse consigo mesmo.
— Tem outra coisa que quero lhe perguntar — continuou Elena, e ele a olhou atentamente. — Fui ver a foto sobre a qual me falou. Aquela de você com meus pais quando eram alunos daqui. Todos usavam o mesmo broche na foto. Era azul e tinha a forma de um V.
Ela estava perto o bastante de James para sentir que todo o corpo dele foi tomado por um solavanco de surpresa. Seu rosto perdeu o caráter amargo e pensativo, ficando inexpressivo.
— Ah, é? Nem imagino o que seja. Deve ser algo que Elizabeth fez. Ela sempre foi muito criativa. Agora, minha cara, eu preciso mesmo correr. — Ele passou por Elena e escapuliu, saindo às pressas da sala, apesar de outros alunos tentarem detê-lo com perguntas.
Elena o observou sair, sentindo as próprias sobrancelhas se erguerem de surpresa. James sabia mais do que dizia, isso era certo. Se ele não queria contar — e ela não ia desistir dele ainda —, ela descobriria de outra maneira. Aqueles broches tinham significado; a reação dele provava isso.
Que mistério podia estar ligado a um broche? James tinha dito algo sobre sociedades secretas?


— Depois da morte de meus pais — disse Samantha a Meredith —, fui morar com minha tia. Ela também vinha de uma família de caçadores, mas não sabia nada sobre isso. Parecia que nem queria saber. Continuei fazendo artes marciais e tudo que podia aprender sozinha, mas não tinha com quem treinar.
Meredith lançou a luz da lanterna nos arbustos escuros sobre o prédio de música e agitou o facho. Nada para ver, a não ser plantas.
— Você fez um bom trabalho treinando a si mesma — disse ela a Samantha. — Você é inteligente, forte e cautelosa. Só precisa confiar em seus instintos.
Foi ideia de Samantha patrulhar o campus juntas depois do poente, verificar os lugares onde a menina desaparecida, Courtney, tinha sido vista pela última vez, para ver se descobriam alguma coisa.
Meredith tinha se sentido poderosa no início da noite, pronta para a luta, com sua irmã caçadora ao lado. Mas agora, embora fosse interessante patrulhar com Samantha, ver a vida de caçadora pelos olhos dela começava a fazer parecer que elas só estavam andando a esmo.
— A polícia achou o suéter dela em algum lugar por aqui — disse Samantha. — A gente devia procurar pistas.
— Tudo bem. — Meredith se conteve para não dizer que a polícia já dera uma busca ali com cães, procurando pistas, e havia uma boa chance de elas não acharem nada. Ela passou a lanterna pela grama e pela calçada. — Talvez seja melhor fazer isto durante o dia, quando podemos enxergar melhor.
— Acho que tem razão — disse Samantha, apagando a lanterna. — Mas é bom sair à noite, não acha? Quando estamos patrulhando, podemos proteger as pessoas. Evitar que as coisas saiam de controle. Levamos Bonnie para casa ontem à noite e a mantivemos segura.
Meredith sentiu uma palpitação de ansiedade. E se elas não tivessem aparecido? Será que Bonnie teria desaparecido no lugar de Courtney?
Samantha olhou para Meredith, com um sorrisinho repuxando os cantos da boca.
— É nosso destino, não é? Nascemos para isso.
Meredith sorriu para ela, esquecendo-se da ansiedade momentânea. Adorava o entusiasmo de Samantha pela caça, sua luta constante para melhorar, para combater as trevas.
— Nosso destino — concordou ela.
Do outro lado do pátio, alguém gritou.
Entrando em ação sem pensar, Meredith desatou a correr. Samantha estava alguns passos atrás, já lutando para acompanhá-la. Ela precisa trabalhar a velocidade, comentou friamente a parte de Meredith que sempre tomava notas.
O grito, estridente e assustado, voltou, um pouco à esquerda. Meredith mudou de rumo e disparou para lá.
Onde? Ela agora estava perto, mas não conseguia enxergar nada. Passou o facho da lanterna pelo chão, procurando.
Ali. No chão ali perto havia duas figuras prostradas, uma prendendo a outra no chão.
Todos ficaram parados por um momento, e Meredith correu em direção a eles, gritando “Pare! Saia daí! Saia!” e, um segundo depois, a figura que estivera prendendo a outra se levantou e correu para a escuridão.
Capuz preto, jeans preto, disse calmamente a tomadora de notas. Não dá para saber se é homem ou mulher.
Quem estivera preso era uma menina, e ela se encolheu e gritou quando Meredith passou correndo por ela, sem poder parar. Samantha vinha atrás, então podia ajudar a menina. Meredith tinha de pegar a figura em fuga. Suas longas passadas voavam pelo chão, mas ela não era rápida o suficiente.
Embora estivesse na maior velocidade possível, a pessoa de preto era mais rápida. Houve um vislumbre de palidez quando a criatura olhou para trás e se fundiu na escuridão. Meredith correu, procurando, mas não havia nada para ser encontrado.
Por fim, ela parou. Arquejando, tentando recuperar o fôlego, correu o facho da lanterna pelo chão, procurando alguma pista. Nem acreditava que tinha fracassado, que deixara o agressor escapar.
Nada. Nenhum vestígio. Elas chegaram tão perto e ainda assim ela só sabia que a pessoa que atacara a menina usava roupa preta e corria com uma velocidade insana. Meredith xingou e chutou o chão, depois se recompôs.
Aproximando-se da calma, ela voltou até a vítima. Enquanto Meredith perseguia o agressor, Samantha ajudara a menina a se levantar, e agora ela estava aninhada à lateral de Samantha, enxugando os olhos com um lenço.
Meneando a cabeça para Meredith, Samantha falou:
— Ela não viu nada. Acha que era um homem, mas não viu o rosto.
Meredith cerrou os punhos.
— Droga. Também não vi nada. Ele foi rápido demais... — Sua voz falhou enquanto lhe ocorria uma ideia.
— O que foi? — perguntou Samantha.
— Nada — disse Meredith. — Ele escapou. — Mentalmente, ela repassou o vislumbre momentâneo de um cabelo claro enquanto o agressor olhava para ela. Aquele tom; ela o vira em algum lugar recentemente.
Ela se lembrou de Zander, com o rosto virado para Bonnie. O cabelo louro-claro era do mesmo tom incomum, mas isso não era o bastante para investigá-lo, nem para contar a alguém. Uma impressão momentânea de cor não significava nada. Meredith afastou a ideia, mas, ao olhar para a escuridão novamente, ela se abraçou, sentindo um frio repentino.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!