14 de março de 2019

Capítulo 18

Agora é possível entender por que os soldados ingleses respeitam mulheres de uniforme. Elas conquistaram o direito ao respeito máximo. Quando alguém vir uma mulher vestindo um uniforme cáqui ou no tom azul da Força Aérea com uma fita na túnica, deve lembrar que ela não conseguiu isso apenas tricotando mais meias do que as outras pessoas em um concurso em Ipswich.
PEQUENO GUIA DA GRÃ-BRETANHA, DEPARTAMENTOS DA GUERRA E DA MARINHA, WASHINGTON, DC

TRINTA E TRÊS DIAS

O governador de Gibraltar era conhecido não só em toda a Marinha, como também no serviço civil britânico pela sua inteligência extraordinária. Ele construíra uma reputação de estrategista importante durante a Primeira Guerra Mundial, e durante a carreira diplomática foi recompensado por suas habilidades táticas e capacidade de observação. Entretanto, até esse homem precisou observar por vários minutos o poço do elevador antes de entender o que havia à sua frente.
Enquanto o levava até o convés de voo, onde seria feita a apresentação de boas-vindas pela Banda dos Fuzileiros Navais, o comandante Highfield xingou ao se dar conta de que não havia verificado o trajeto antes. Um elevador era um elevador. Ele nunca poderia imaginar que alguém teria coragem de pendurar calcinhas num lugar como aquele. Havia brancas, bege, acinzentadas pelo uso ou de tecido delicado com renda francesa. Sutiãs e cintas modeladoras também balançavam no espaço cavernoso, imitando as bandeirolas estendidas que saudavam o grande homem a bordo. E lá estava ele, o suprassumo do serviço diplomático britânico, no glorioso navio de guerra de Highfield, rodeado por marinheiros numa formação perfeita e uniformes impecáveis, diante de um varal onde estavam penduradas calcinhas e outras peças íntimas.
Dobson. Ele devia saber, e ainda assim preferira não avisá-lo. O comandante Highfield xingou sua perna, que o confinara no escritório aquela manhã e proporcionara ao seu imediato uma grande oportunidade. Ele não se sentira bem e decidira descansar, pois sabia que o dia seria longo e difícil. Então confiara em Dobson, que devia garantir que tudo corresse bem. Devia ter imaginado que ele encontraria um jeito de ridicularizá-lo.
— Eu… O senhor vai descobrir que esta não é uma travessia convencional — arriscou o comandante Highfield, quando conseguiu se recompor o suficiente para falar. — Pode ver que tivemos de ser um pouco… pragmáticos com relação a alguns procedimentos.
O governador estava boquiaberto e com as bochechas coradas. O rosto de Dobson, sob seu quepe, não deixava transparecer qualquer reação.
— Eu acrescentaria, Sua Excelência, que de modo algum isso é um indicador do nível do nosso respeito. — Ele tentou injetar algum humor na sua voz, mas não conseguiu.
A esposa do governador, segurando a bolsa na frente do corpo, cutucou discretamente o marido e inclinou a cabeça.
— Não é nada que a gente já não tenha visto, comandante — disse ela de forma graciosa, mas manteve a boca contraída como se talvez estivesse achando graça. — Acho que a guerra nos expôs a cenas bem mais assustadoras do que essa.
— É verdade — concordou o governador. — É verdade. — O tom da sua voz, no entanto, sugeria que aquilo era improvável.
— É mesmo admirável que o senhor chegue a este ponto para que suas passageiras se sintam confortáveis. — Ela colocou a mão na manga de Highfield, com uma expressão compreensiva. — Podemos prosseguir?
As coisas melhoraram no convés de voo. Após o embarque do governador e de outros passageiros em Aden, o Victorious começou seu lento caminho rumo ao norte ao longo do Canal de Suez, um filete de água prateada margeado por dunas que refletiam o sol com tanta intensidade que era impossível admirar a paisagem sem proteger os olhos. Apesar do calor, as esposas pareciam alegres sob guarda-sóis e chapéus de abas largas, animadas pela banda que continuava tocando apesar da temperatura elevada tornar até os trajes de verão desconfortáveis.
Depois que os homens retornaram às suas tarefas de rotina, o governador e a esposa aceitaram fazer parte do júri do concurso de sapateado, que consistia na última prova para a eleição da Rainha do Victorious, competição que tinha o único objetivo de manter as mulheres ocupadas. Protegido dos raios solares nocivos por um enorme guarda-chuva, munido de um copo de gim-tônica com gelo e diante de uma fileira de garotas risonhas, até o governador estava animado. Sua esposa, que aproveitara o tempo para conversar com cada candidata, acabou concedendo o prêmio da prova a uma loura muito bonita. A escolha parecia ter sido unânime, considerando as calorosas congratulações das outras candidatas. Mais tarde, ela disse a Highfield que considerava as australianas “um grupo muito simpático de mulheres que tiveram muita coragem para deixar as famílias e fazer uma viagem tão longa”. Contagiado pela alegria da tarde, ele não conseguiu discordar.
Até que tudo voltou a dar errado.
O comandante Highfield estava prestes a anunciar que o evento tinha chegado ao fim e a sugerir que ele e os novos passageiros fossem para os conveses inferiores, onde o cozinheiro preparara um almoço tardio, quando percebeu uma movimentação estranha a estibordo. O Victorious avançava tranquilamente por um campo militar e as mulheres, assim que viram uma grande quantidade de homens caucasianos, tinham se aglomerado na amurada do convés de voo. Seus belos vestidos coloridos balançavam com a brisa, e elas acenavam, animadas, para os homens bronzeados que tinham parado de trabalhar para vê-las passar e cumprimentá-las. Quando se debruçou na amurada para ver melhor, Highfield ouviu os gritos estridentes das mulheres e percebeu os acenos entusiasmados dos homens sem camisas e com os olhos semicerrados por causa do sol amontoados na cerca de arame.
Highfield observou a cena com atenção para conferir se suas suspeitas estavam certas. Depois, com muita tristeza, pegou o alto-falante.
— Sou muito grato por terem acolhido tão bem os nossos convidados, o governador e a esposa — disse, vendo as costas do governador se enrijecerem sob seu traje branco tropical enquanto observava a cena. — Servirão refrescos no hangar da frente para quem quiser se refrescar. Além disso, talvez as senhoras fossem gostar de saber que os homens para os quais estão acenando são prisioneiros alemães.

* * *

Irene Carter tinha se aproximado de Avice após o concurso para dizer que estava feliz por ela ter ganhado.
— É melhor tirar o máximo proveito dessas pernas antes que surjam varizes, não acha?
E ela também foi mostrar as últimas cartas recebidas, sete no total, sendo nada menos de quatro do marido.
— Você precisa ler as suas para nós — disse, com os olhos escondidos sob os óculos de sol. — Minha mãe falou que tem convidado a sua para tomar chá desde que as duas descobriram que somos companheiras de viagem. Elas devem estar desesperadas para saber o que estamos aprontando.
E aposto que você conta todos os detalhes para ela, pensou Avice.
— Bem, vou tomar um chá e ler as cartas de Harold. Você recebeu muitas?
— Ah, muitas — respondeu Avice, balançando-as no ar. Havia só uma de Ian. Ela a enfiara embaixo da carta da mãe para que Irene não percebesse. — Enfim, boa sorte com a próxima prova. É a da roupa mais elegante, acho, por isso tenho certeza de que você vai se sair muito bem. Está tão bronzeada que bastaria usar uma echarpe na cintura para passar por uma nativa.
Com o “certificado” em mãos, Avice se afastou, demonstrando o mínimo de presunção que conseguiu, pelo menos.
Frances não estava na cabine. Ultimamente, ela quase nunca estava. Avice achava que ela devia estar se escondendo em algum lugar. Margaret tinha ido a uma palestra sobre lugares para se visitar na Inglaterra. Então Avice tirou os sapatos, jogou-os longe e se deitou para ler a última correspondência de Ian num raro momento de privacidade.
Deu uma olhada nas cartas do pai (negócios, dinheiro, golfe), da mãe (detalhes sobre a viagem, vestidos), da irmã (“estou muito feliz sozinha, obrigada, blá-blá-blá”), e só depois pegou o envelope de Ian. Observou sua letra, pensando em como dava para perceber o tom autoritário até na tinta e no papel. Sua mãe sempre dizia que os homens com letra feia eram um pouco imaturos. Essa característica sugeria que, de algum modo, seu caráter ainda não estava formado.
Consultou o relógio de pulso: faltavam dez minutos para o primeiro turno do almoço. Teria tempo para ler. Abriu-a e deu um pequeno suspiro de prazer.
Quinze minutos mais tarde, ela continuava com os olhos fixos na carta.

* * *

Frances e Margaret estavam sentadas no refeitório do convés quando o marinheiro encontrou as duas. Elas tinham acabado de tomar sorvete. Frances já estava acostumada com o relativo silêncio que surgia sempre que ela se atrevia a aparecer em público. Margaret defendia a amiga com unhas e dentes. Algumas vezes, tinha perguntado às pessoas que a encaravam mais ostensivamente se queriam um pouco do seu sorvete, e ainda as insultava baixinho, deixando-as vermelhas de vergonha.
— Sra. Frances Mackenzie? — perguntara o marinheiro.
Ele era tão jovem que seu pescoço nem preenchia o colarinho do uniforme.
Ela assentiu. Fazia dias que meio que esperava por isso.
— O comandante Highfield gostaria de recebê-la no escritório, senhora. Devo acompanhá-la.
O refeitório ficou em silêncio. Margaret empalideceu.
— Acha que é por causa da cachorrinha? — sussurrou.
—Não — respondeu Frances com tom grave. — Com certeza não.
Pela expressão das outras mulheres, ficou claro que elas também tinham essa certeza. “Você não é bem-vinda, não venha”, começaram a sussurrar. Só que, dessa vez, as esposas não pareceram aflitas.
— Não demore — gritou alguém assim que ela saiu do refeitório. — Não vai querer que as pessoas comecem a falar.

* * *

Avice estava deitada na cama. De algum lugar ali perto veio um som estranho, um gemido baixo e gutural, e não ficou surpresa ao perceber que vinha dela mesma.
Ela olhou para a mão que segurava a carta, depois para a aliança no seu dedo fino. O quarto começou a girar à sua volta. De repente, se jogou do beliche, se ajoelhou e vomitou violentamente na bacia que deixara ali nos primeiros dias que sentira enjoo. Vomitou até ficar com dor nas costelas e sentir a garganta arder. Abraçou o próprio corpo, como se esse fosse o único modo de impedir que se esvaziasse de vez. Entre um soluço e outro, ouvia sua própria voz gritar “Não! Não! Não!”, como se estivesse se recusando a aceitar que aquela monstruosidade pudesse ser verdade.
Por fim, exausta, se encostou com dificuldade no beliche, o cabelo colado no rosto por causa do suor, os braços trêmulos e as pernas instáveis no chão duro. Seu vestido estava amarrotado e a maquiagem, borrada. Perguntou a si mesma se tudo aquilo não teria sido um pesadelo. Talvez a carta não existisse. O mar podia pregar esse tipo de peça nas pessoas, ela já ouvira muitos marinheiros dizer isso.
Mas a carta estava no seu travesseiro. Escrita com a letra de Ian. Com sua bela letra. Com sua bela, terrível, diabólica letra.
Ouviu do lado de fora o som dos saltos altos de um grupo de mulheres que passavam conversando. Maude Gonne, que estava bem atrás da porta, ergueu a cabeça como se esperasse ouvir uma voz familiar entre elas, mas depois, desapontada, colocou-a entre as patas.
Avice acompanhou o som. Sua cabeça girava como se ela estivesse bêbada. Sentia-se desconectada de tudo. Naquele momento, não havia nada que ela quisesse mais do que se deitar. Um peso enorme comprimia seu peito. Não lhe restava mais nada a fazer senão contemplar o piso de vigas metálicas.
Empurrou a bacia para baixo da cama. Apesar do cheiro, do metal implacável embaixo dela e do cabelo molhado, se deitou no chão com os olhos fixos na outra carta aberta ao seu lado. Sua mãe escrevera:

Avisei a todos que a festa será no Savoy. Papai conseguiu um preço muito vantajoso graças a um dos contatos que ele tem no ramo hoteleiro. Avice, querida, você não vai acreditar, mas os Darley-Henderson estarão presentes, porque incluíram a cidade no roteiro da viagem de volta ao mundo que farão. Como se isso não bastasse, o governador e a esposa disseram que também participarão. As pessoas parecem muito mais dispostas a viajar agora que a guerra acabou. E está confirmado que sua foto vai sair na Tatler. Querida, posso ter duvidado do seu casamento, mas agora preciso dizer que estou muito contente com sua viagem. Faremos um evento que dará o que falar durante meses não só em Melbourne como também em metade da Inglaterra!
Sua mãe que a ama
P.S. Não dê atenção à sua irmã. Ela está um pouco mal-humorada. Deve ser inveja, imagino.
P.P.S. Ainda não tivemos notícias dos pais de Ian, o que é uma pena. Pode pedir, por favor, que nos mande o endereço deles para entrarmos em contato? Quero saber se tem alguém especial que desejam convidar.

A tarde havia sido longa e cansativa, e como seria um esforço grande demais se levantar quando Frances entrasse na cabine, o comandante Highfield ficou atrás da sua escrivaninha para se apoiar nela, se necessário. A chegada do governador e as dificuldades da comitiva haviam lhe deixado exausto, e era por essa razão, e talvez para evitar que a garota ficasse envergonhada, que ele preferira que o encontro acontecesse na presença do capelão ou de uma oficial.
Ela parou no vão da porta quando o marinheiro anunciou sua entrada, e continuou ali até ele ir embora, segurando com firmeza uma bolsinha. Era a segunda vez que ele a via de perto e ela realmente chamava atenção. Apenas sua atitude a impedia de ser atraente. Parecia ter desenvolvido a habilidade de ficar em segundo plano, e depois de ter lido o relatório sobre ela, ele entendia o motivo.
O comandante Highfield fez um sinal para que ela se sentasse. Ele passou um tempo olhando para baixo, tentando encontrar a melhor maneira de abordar o assunto e desejando que, pelo menos daquela vez, ele tivesse conseguido delegar sua autoridade de comandante para outra pessoa. Questões disciplinares com seus homens eram tratadas de forma direta: havia um procedimento a seguir e uma punição a aplicar, se fosse o caso. Mas com as mulheres era diferente, pensou ele, exasperado, atento à que estava diante dele e se lembrando das que tinham estado ali antes dela. Além de toneladas de bagagem, elas levavam para o navio todos os seus problemas, criavam novos durante a viagem e, para completar, faziam os outros se sentirem culpados e errados apenas por seguirem as regras.
Do lado de fora, o alto-falante anunciou o intervalo de almoço dos homens. Ele esperou ficar silêncio novamente.
— Sabe por que chamei a senhora aqui? — perguntou.
Ela não respondeu. Piscou devagar para ele, como se o comandante devesse se explicar.
Vamos, homem, disse ele a si mesmo. Acabe logo com isso. Depois você pode tomar uma boa dose de uma bebida forte.
— Fiquei sabendo que alguns dias atrás a senhora se envolveu em um incidente lá embaixo, na casa de máquinas. Durante a investigação, ouvi coisas que… me deixaram um pouco preocupado.
Rennick contara a história para ele na noite anterior. Um mecânico tinha se aproximado dele e falado discretamente sobre vários problemas que estariam surgindo e também sobre o que se comentava sobre a garota. Rennick não hesitara em contar para Highfield: ninguém mencionaria uma coisa daquelas para o intendente do comandante sem imaginar que tudo iria parar nos ouvidos do seu superior.
— É sobre a sua… a sua vida antes de embarcar neste navio. Sinto muito, mas precisamos abordar o assunto, por mais constrangedor que possa ser para a senhora. Para o bem-estar dos meus homens e para mantermos as boas maneiras a bordo, preciso saber se esses… esses boatos têm fundamento.
Ela não disse nada.
— Devo deduzir, pelo seu silêncio, que eles não são… falsos?
Quando, pela terceira vez, ela não respondeu, ele ficou pouco à vontade. Essa sensação, aliada ao desconforto físico, lhe deixou impaciente. Ele se levantou, talvez para impressioná-la com a autoridade, e contornou a escrivaninha.
— Não estou tentando persegui-la deliberadamente, senhorita…
— Senhora — corrigiu ela. — Sra. Mackenzie.
— Mas regras são regras, e elas estabelecem que não posso permitir que mulheres do… seu tipo viajem em um navio cheio de homens.
— Do meu tipo.
— A senhora sabe o que quero dizer. Já é difícil ter esse grande número de mulheres a bordo com tantos homens por perto. Analisei suas… circunstâncias, e não posso permitir sua presença aqui, sob o risco de desestabilizar meu navio.
Só Deus sabia o que o governador de Gibraltar diria se soubesse da presença dessa passageira em particular. Sem falar no que a esposa dele pensaria. Eles mal haviam se recuperado do episódio com os prisioneiros alemães.
Ela ficou encarando os próprios sapatos por algum tempo. Depois ergueu a cabeça.
— Comandante Highfield, está me expulsando do navio? — Sua voz estava baixa e tranquila.
Ele ficou aliviado por ela ter abordado esse assunto.
— Sinto muito, mas parece que não tenho escolha.
Ela parecia pensativa e sua conduta não demonstrou surpresa com a resposta. Mas seus olhos semicerrados evidenciavam também desprezo pelo que ouvira.
Não era isso que ele esperava. Raiva, talvez. Ou uma crise de histeria, como no caso das duas outras desafortunadas. Ele pedira para o marinheiro ficar do lado de fora da porta, por garantia.
— A senhora tem liberdade para dizer o que quiser — falou ele quando o silêncio ficou constrangedor. — Quer dizer, em sua defesa.
Houve uma longa pausa. Então, ela colocou as mãos no colo.
— Em minha defesa… Sou enfermeira. Faz quatro anos e meio que trabalho com isso. Durante esse tempo, tratei milhares de homens e salvei a vida de muitos.
— É muito bom que… tenha conseguido…
— … que tenha conseguido me tornar um ser humano respeitável? — Sua voz tinha um tom seco.
— Não foi isso que…
— Mas não posso fazer nada, não é? Porque nunca vão me deixar esquecer o passado. Nem que eu esteja a milhares de quilômetros de distância.
— Não quis insinuar que…
Ela o encarou de frente. Ele teve a impressão de que ela erguera os ombros de maneira ofensiva.
— Sei muito bem o que o senhor está insinuando, comandante. Que meu relatório de serviços prestados é o que menos importa sobre mim. Como a maioria dos passageiros deste navio, o senhor preferiu julgar meu caráter pela primeira coisa que ouviu. E agir com base nisso. — Ela alisou o vestido sobre os joelhos e respirou fundo, como se tivesse dificuldade para manter a calma. — O que eu ia dizer, comandante Highfield, antes de o senhor me interromper, é que durante minha carreira cuidei de milhares de homens, muitos dos quais haviam sido aterrorizados e fisicamente torturados. Alguns eram meus inimigos. Muitos estavam com a vida por um fio. E nenhum… — ela fez uma pausa para retomar o fôlego — … nenhum deles me tratou com a falta de consideração que o senhor acaba de demonstrar.
Ele não esperava que ela falasse com tanta firmeza. E com tanta clareza. Não esperava que o acusado acabasse sendo ele.
— Escute — começou ele em tom conciliador —, não posso fingir que não conheço seu passado.
— Não, e eu também não, ao que parece. Posso apenas tentar levar uma vida que seja útil aos outros. E não pensar demais em coisas que podem ter saído do meu controle.
O silêncio dos dois foi constrangedor. O comandante tentava pensar depressa em alguma solução para aquela situação extraordinária. Ouviu conversas abafadas do lado de fora e baixou a voz para preservar a dignidade de ambos.
— Olhe… está dizendo que o que aconteceu não foi por sua vontade? Que a senhora pode ter sido… mais vítima do que culpada?
Se ela estivesse disposta a se arrepender, a prometer que seu comportamento futuro seria diferente, talvez então…
— O que estou dizendo é que, seja como for, isso não lhe diz respeito. — Ela estava com os nós dos dedos brancos por causa da emoção contida. — As únicas coisas que lhe dizem respeito, comandante, são minha profissão que, como ficará sabendo pela lista de passageiros e meu relatório de serviços, caso tenha interesse em consultá-los, é a de enfermeira, meu estado civil e meu comportamento a bordo do seu navio, que seguiu todas as exigências de conduta.
Sua voz ganhara mais força. As pontas das suas orelhas pálidas estavam rosadas, o único sinal do seu nervosismo.
O comandante percebeu, um pouco perplexo, que talvez ele é que estivesse errado.
Baixou os olhos para os papéis que detalhavam os procedimentos para a expulsão de alguma esposa.
“Desembarque-a em Port Said”, dissera a supervisora da Cruz Vermelha da Austrália. “Talvez ela precise esperar um tempo até que um barco chegue para levá-la. Mas já adianto que várias delas desaparecem no Egito.” A pronúncia da palavra “delas” carregava um inconfundível tom de desprezo.
Meu Deus, que confusão, que maldita confusão. Ele gostaria de nunca ter começado aquela conversa que o colocara em uma situação constrangedora.
Mas o regulamento precisava ser cumprido e ele estava de mãos atadas.
Talvez por ter percebido alguma coisa na expressão dele, ela se levantou. Seu cabelo, puxado para trás, acentuava as olheiras e os ossos salientes, quase eslavos, do seu rosto. Por um instante, ele se perguntou se, antes de sair, ela tentaria agredi-lo, como fizera a outra garota, mas logo se sentiu culpado por ter pensado isso.
— Escute, Sra. Mackenzie, eu…
— Eu sei. O senhor quer que eu vá embora.
Ele procurava alguma coisa para dizer, buscava palavras que traduzissem a mistura correta de autoridade e pesar.
Ela estava a meio caminho da porta quando perguntou:
— Quer que eu dê uma olhada na sua perna?
As palavras finais do comandante ficaram travadas em seus lábios. Ele piscou.
— Vi o senhor mancando. Quando achou que estivesse sozinho. O senhor também deve saber que à noite eu costumava ficar sentada no convés de voo.
Highfield se sentiu completamente desconcertado. Percebeu que havia movido a perna para trás.
— Não acho que seja…
— Não vou tocar no senhor, se isso o deixa mais tranquilo.
— Não há nada de errado com a minha perna.
— Então não vou incomodá-lo.
Eles ficaram frente a frente, cada um em um lado da sala. Nenhum dos dois se mexeu. Não havia nada no olhar dela que sugerisse um convite.
— Eu não… Não contei para ninguém — confessou ele.
— Estou acostumada a guardar segredos — disse ela, encarando-o.
Ele desabou na cadeira e ergueu a perna da calça. Fazia dias que evitava ver o ferimento de perto.
Por um instante, ela ficou desarmada. Deu um passo atrás, mas logo aproximou-se para examiná-lo.
— O ferimento está visivelmente infeccionado. — Ela apontou para a perna, como se para pedir permissão, depois colocou as mãos ali e percorreu com o dedo todo o comprimento da lesão e a pele vermelha e inchada ao redor. — Sua temperatura subiu?
— Já me senti melhor — admitiu ele.
Ela ficou vários minutos analisando o ferimento.
Ele percebeu, com um pouco de vergonha, que não se esquivara assim que ela tocou sua pele.
— Acho que o senhor deve estar com osteomielite, uma infecção que se espalha pelo osso. Vai ser preciso fazer uma drenagem. E tomar penicilina.
— A senhora tem isso?
— Não, mas o Dr. Duxbury tem com certeza.
— Não quero envolvê-lo nisso.
Ela não demonstrou surpresa. Ele se perguntou se aquilo seria loucura. Não conseguia tirar da cabeça a expressão de espanto de Frances ao ver o estado da sua perna. E como a disfarçara imediatamente.
— O senhor precisa de ajuda médica — insistiu ela.
— Não quero que Duxbury seja informado — repetiu ele.
— Bem, já dei minha opinião profissional, comandante, e respeito seu direito de ignorá-la.
Ela se levantou e esfregou as mãos na calça. Ele pediu que ela esperasse, passou à sua frente, abriu a porta e chamou o marinheiro que continuava no corredor.
O rapaz entrou e ele olhou do comandante para a mulher à sua frente.
— Leve a Sra. Mackenzie à enfermaria — ordenou Highfield. — Ela vai buscar alguns itens.
Frances hesitou, aparentemente à espera de alguma ordem específica, de alguma instrução, mas nada aconteceu.
Ele estendeu a mão com a chave. Quando a pegou, ela tomou cuidado para que seus dedos não tocassem os dele.

* * *

A agulha perfurou sua perna. A ponta fina de metal deslizou mecanicamente para dentro e para fora da sua pele para retirar o líquido infectado. Apesar da dor do procedimento, Highfield sentiu que a angústia que o atormentava começava a se dissipar.
— O senhor vai precisar de mais uma dose de penicilina daqui a seis horas. Depois, uma dose por dia. Vamos começar com uma dose dupla, para que seu organismo combata a infecção. E quando chegar à Inglaterra, deve procurar logo seu médico. É possível que ele queira levá-lo para o hospital. O senhor teve sorte. Acho que não vai gangrenar — disse ela, voltando a atenção para o ferimento.
Sua voz tinha um tom calmo e neutro, e ela evitou ao máximo olhar para o rosto do comandante. Por fim, fez uma atadura na perna ferida e se sentou nos calcanhares para que ele pudesse baixar a perna da calça. Ela vestia a mesma blusa branca e a mesma calça cáqui do dia em que acompanhara a esposa mais jovem ao seu escritório.
Ele suspirou de alívio diante da perspectiva de uma noite sem dor. Ela começou a recolher o equipamento médico que trouxera da enfermaria.
— É melhor o senhor guardar parte deste material aqui — sugeriu ela, ainda olhando para o chão. — Vai precisar trocar o curativo amanhã. — Rabiscou algumas instruções em um pedaço de papel. — Fique com a perna para cima sempre que estiver sozinho. E tente mantê-la seca, principalmente quando o tempo estiver úmido. Pode tomar estes analgésicos, dois de cada vez.
Frances colocou as ataduras e o esparadrapo em cima da escrivaninha, depois enfiou a tampa de volta na caneta.
— Se piorar, deve procurar um cirurgião. E não pode perder tempo com isso.
— Vou dizer que houve um mal-entendido.
Ela ergueu a cabeça.
— Um caso de erro de identidade. Se puder dedicar parte do seu tempo durante o resto da viagem para aplicar as injeções de penicilina em mim, ficarei agradecido.
Ela olhou para ele e ficou de pé. Parecia surpresa, talvez pela primeira vez naquele dia. Engoliu em seco.
— Não fiz isso com este objetivo — disse ela.
Ele assentiu.
— Eu sei.
O comandante se levantou e transferiu com cuidado um pouco do seu peso para a perna machucada. Em seguida, estendeu a mão.
— Obrigado, Sra. Mackenzie… Enfermeira Mackenzie.
Ela olhou por um instante para a mão estendida. Considerando a espantosa serenidade que ela demonstrara até então, ele ficou surpreso ao ver lágrimas em seus olhos quando ela ergueu a cabeça e apertou a mão dele.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!