30 de março de 2019

Capítulo 17

— Esta foi demais! Sério! — Bonnie estava feliz, pulando de mãos dadas com Zander. — Eu sou tipo a Rainha da Moedinha. Quem diria que eu tinha esse talento oculto?
Rindo, Zander lançou o braço sobre os ombros dela puxando-a para mais perto.
— Você é mesmo incrível — concordou ele. — Jogos de bebida, visões, astrologia. Alguma outra habilidade que eu deva conhecer?
Aninhando-se nele, Bonnie franziu a testa numa falsa concentração.
— Não me lembro de nada agora. Mas cuidado com minha excelência geral. — A camiseta dele era macia e gasta, e Bonnie inclinou um pouco a cabeça para pousar o rosto ali. — Que bom que nossos amigos se deram bem — disse ela. — Achei que Marcus e Meredith se entenderam de verdade, não foi? Não no sentido amoroso, nada disso, o que é bom, porque Meredith tem um namorado super sério, mas parecia que eles falavam a mesma língua secreta de atletas. Talvez a gente possa sair em grupo de novo um dia desses.
— É, Meredith e Marcus realmente se ligaram na malhação — concordou Zander, mas houve uma certa hesitação no tom que fez Bonnie parar e olhá-lo incisivamente.
— Não gosta de minhas amigas? — perguntou ela, magoada.
Ela, Meredith e Elena sempre tiveram o que chamavam em particular de “irmandade velociraptor”. Pise no calo de uma delas e as outras duas se aproximam para protegê-la. Zander tinha de gostar delas.
— Não, eu gostei muito — garantiu Zander. Hesitou, depois acrescentou: — Elena parecia meio... pouco à vontade. Talvez a gente não seja do tipo que ela goste.
Bonnie enrijeceu.
— Está chamando minha melhor amiga de esnobe? — perguntou.
Zander acariciou suas costas, tentando apaziguá-la.
— Mais ou menos. Quero dizer, ela é legal, mas meio esnobe. O tipo de esnobe mais tranquilo. Eu só quero que ela goste de mim.
— Ela não é esnobe. — Bonnie ficou indignada. — E, mesmo que fosse, teria motivos de sobra. Ela é linda, inteligente e uma das melhores amigas que já tive. Eu faria qualquer coisa por ela. E ela também faria qualquer coisa por mim. Então não importa que seja esnobe — concluiu, olhando feio para ele.
— Venha cá — disse Zander. Eles estavam perto do prédio de música, e ele a puxou para um canto iluminado, perto da porta da frente. — Senta aqui comigo? — pediu, acomodando-se nos degraus de tijolo e puxando a mão dela.
Bonnie se sentou, mas estava decidida a não se aninhar nele de novo. Em vez disso, manteve alguma distância entre os dois e encarou a noite com teimosia, o queixo firmemente cerrado.
— Escute, Bonnie — disse Zander, tirando uma longa mecha de cabelo ruivo de seus olhos. — Vou conhecer Elena melhor e sei que vou gostar dela. Farei com que ela goste de mim também. Sabe por que vou conhecê-la melhor?
— Não, por quê? — disse Bonnie, olhando para ele com relutância.
— Porque eu quero conhecer você melhor. Pretendo passar muito tempo com você, Bonnie McCullough. — Ele a cutucou gentilmente com o ombro, e Bonnie se derreteu.
Os olhos de Zander eram tão azuis, do azul que tem a manhã no primeiríssimo dia das férias de verão. Tinham inteligência e humor, com um leve toque de rebeldia. Ele se inclinou em direção a ela, e Bonnie tinha certeza de que ele estava prestes a beijá-la, enfim seu primeiro beijo.
Ela virou a cabeça para trás a fim de encontrar os lábios dele, de cílios fechados e palpitando.
Depois de um momento esperando o beijo que não veio, ela se sentou reta, abrindo os olhos. Zander olhava para além dela, para a escuridão do campus, de cenho franzido. Bonnie deu um pigarro.
— Oh — disse ele —, desculpe, Bonnie, eu me distraí por um minuto.
— Se distraiu? — ecoou Bonnie, indignada. — O que quer dizer com...
— Espere um minutinho. — Zander pôs um dedo sobre os lábios, calando-a.
— Ouviu alguma coisa? — perguntou Bonnie, um arrepio desconfortável subindo pelas costas.
Zander se levantou.
— Desculpe, acabo de me lembrar de uma coisa que preciso fazer. Te vejo depois, está bem? — Com um aceno desanimado, sem nem olhar para Bonnie, ele correu em direção à escuridão.
Bonnie ficou boquiaberta.
— Espere! — disse ela, levantando-se com dificuldade. — Vai me deixar aqui... —Zander tinha sumido — Sozinha? — terminou numa voz bem fraquinha.
Que ótimo. Bonnie foi para o meio da calçada, olhando em volta, e esperou um minuto para ver se havia algum sinal de que Zander voltaria. Mas não havia ninguém à vista. Ela nem ouvia mais os passos dele.
Havia poças de luz sob os postes na calçada, mas não iam muito longe. Uma brisa sacudiu as folhas das árvores no pátio, e Bonnie estremeceu. Não tem sentido ficar aqui, pensou, e começou a andar.
Nos primeiros passos até o alojamento, Bonnie estava com muita raiva, rubra e humilhada. Como Zander pôde ser tão egoísta? Como pôde deixá-la inteiramente só no meio da noite, especialmente depois de todos os ataques e desaparecimentos no campus? Ela chutou com raiva uma pedrinha no caminho.
Alguns passos além, a raiva de Bonnie cessou. Estava com muito medo, e o medo expulsava a raiva. Ela devia ter voltado ao alojamento com Meredith e Elena, mas garantiu às duas, alegremente, que Zander a levaria de volta. Como ele pôde deixá-la? Ela se abraçou com força e continuou com a maior rapidez possível sem realmente correr, os sapatos idiotas de salto alto vamos-dançar machucando e fazendo os calcanhares doerem.
Era bem tarde; a essa altura, a maioria dos moradores do campus devia estar enfiada na cama. O silêncio era inquietante.
Quando os passos atrás dela começaram a soar, ficou ainda pior.
No início, ela não tinha certeza se realmente estava ouvindo passos. Aos poucos, ficou consciente do bater fraco e rápido ao longe, alguém se movendo com leveza e velocidade. Ela parou e escutou, e os passos ficaram mais altos e mais velozes ainda.
Alguém corria na direção dela.
Bonnie acelerou, tropeçando, na pressa. Seus sapatos escorregaram numa pedra solta na calçada e ela caiu, escorando-se nas mãos e num joelho. O impacto foi forte o suficiente para provocar lágrimas, mas ela tirou os sapatos, sem se importar de deixá-los para trás. Levantou-se, atrapalhada, e correu ainda mais rápido.
Os passos de seu perseguidor agora soavam com mais clareza, e começavam a alcança-la. O ritmo era estranho: passos periódicos e altos com batidas mais rápidas e mais leves entre eles. Bonnie percebeu com horror que havia mais de uma pessoa em seu encalço.
Seu pé escorregou de novo. Ela mal conseguiu manter o equilíbrio, cambaleando de lado alguns passos para não cair, perdendo mais terreno.
A mão pesada pousou no ombro de Bonnie, que gritou e girou o corpo, os punhos erguidos numa tentativa desesperada de se defender.
— Bonnie! — Meredith ofegou, segurando Bonnie pelos ombros. — O que está fazendo aqui fora sozinha? — Samantha apareceu ao lado delas, carregando os sapatos de Bonnie até que se recurvou, arfando.
— Você é rápida demais para mim, Meredith — disse ela.
Bonnie engoliu o choro de alívio. Agora que estava segura, teve vontade de se sentar e ter uma crise histérica.
— Você me assustou — disse ela.
Meredith parecia furiosa.
— Lembra que prometemos ficar juntas? — Os olhos cinzentos de Meredith estavam coléricos. — Você devia ter ficado com Zander até chegar em casa.
Bonnie, prestes a responder acaloradamente que não foi opção dela ficar ali fora sozinha, de repente fechou a boca e assentiu.
Se Meredith soubesse que Zander tinha deixado Bonnie sozinha, ela nunca, jamais o perdoaria. E Bonnie estava chateada por Zander tê-la abandonado, mas não o bastante para voltar Meredith contra ele. Talvez houvesse uma explicação. E ela ainda queria aquele beijo.
— Desculpe — disse Bonnie, resignada, olhando para os próprios pés. — Tem razão, eu devia ter feito isso.
Amolecida, Meredith passou o braço pelos ombros de Bonnie. Samantha entregou-lhe os sapatos em silêncio, e Bonnie os calçou.
— Vamos levar Samantha ao alojamento dela e depois iremos para casa juntas. Meredith a perdoava. — Você vai ficar bem conosco.


Ao virar o corredor para o quarto, Elena arriou e se encostou na parede por um momento. Tinha sido uma noite muito longa. Teve bebida e dança com o imenso Spencer de cabelo desgrenhado que, como Samantha a avisara, tentou pegar Elena e rodá-la.
As coisas ficaram ruidosas e se exacerbaram, mas o tempo todo seu coração doía. Ela não sabia se queria andar pelo mundo sem Stefan. É só por enquanto, disse a si mesma, endireitando-se e seguindo pelo canto.
— Olá, princesa — disse Damon. Elena enrijeceu, assustada.
Recostado no chão na frente do quarto dela, Damon de algum modo conseguia ficar elegante e com postura perfeita no que teria sido uma posição estranha para qualquer outro. Enquanto se recuperava do choque da presença dele ali, Elena se surpreendeu com a explosão de alegria que subiu por seu peito ao vê-lo.
Tentando ignorar aquele pulinho de felicidade interior, ela disse friamente:
— Eu já falei que não quero ver você por um tempo, Damon.
Ele deu de ombros e se levantou com graça.
— Querida, não estou aqui para pedir sua mão. — Seus olhos se demoraram na boca de Elena por um instante, mas ele continuou num tom seco e distante: — Só estou checando se você e a ruivinha estão bem, certificando-me de que não desapareceram com a coisa desagradável que está acontecendo neste campus.
— Estamos ótimas — disse Elena rispidamente. — Estou aqui, e o namorado novo de Bonnie a está trazendo para casa.
— Namorado novo? — Damon ergueu uma sobrancelha. Ele sempre, de algum modo, tivera uma ligação com Bonnie. Elena sabia disso, e imaginou que o ego dele não deve ter ficado empolgado por ela ter superado a paixonite que concentrava em Damon. — E como você veio para casa? — perguntou Damon com acidez. — Notei que não arrumou um namorado novo para protegê-la. Ainda não, pelo menos.
Elena corou e mordeu o lábio, recusando-se a pegar a isca.
— Meredith acabou de sair para patrulhar o campus. Vejo que você não perguntou dela. Não quer saber se ela está em segurança?
Damon bufou.
— Tenho pena de qualquer demônio que vá atrás dessa aí — disse ele, demonstrando mais admiração do que qualquer outra coisa. — Posso entrar? Note que estou sendo educado novamente, esperando você aqui neste corredor sujo em vez de confortavelmente em sua cama.
— Pode entrar por um minuto — respondeu Elena de má vontade, abrindo a bolsa para procurar a chave.
Oh. Ela sentiu uma onda repentina de mágoa. No topo da bolsa, agora amassada e murcha, estava a margarida que tinha encontrado em sua porta no início da noite. Ela a tocou com gentileza, relutando em empurrá-la de lado na busca pela chave.
— Uma margarida — disse Damon com secura. — Que amor. Mas você não parece ter cuidado bem dela.
Ignorando-o de propósito, Elena pegou a chave e fechou a bolsa.
— Então você acha que os desaparecimentos e ataques se devem a demônios? Quer dizer algo sobrenatural? — perguntou ela, destrancando a porta. — O que você descobriu, Damon?
Dando de ombros, Damon a seguiu até o quarto.
— Nada — respondeu ele num tom implacável. — Mas não acho que os alunos desaparecidos tenham simplesmente surtado e voltado para casa, ou ido para Daytona Beach ou coisa assim. Acho que você precisa ter cuidado.
Elena se sentou na cama, puxou os joelhos para cima e pousou o queixo ali.
— Você usou seu Poder para tentar entender o que está havendo? Meredith disse que ia pedir isso a você.
Damon se sentou ao lado dela e suspirou.
— Amada, por menos que eu goste de admitir, até meu Poder tem limites. Se alguém for mais forte que eu, como Klaus era, pode se esconder. Se alguém é muito mais fraco, em geral não causa impressão suficiente para que eu o encontre, a não ser que eu já saiba quem é. E por um motivo ridículo — ele fechou a cara —, jamais consigo sentir os lobisomens.
— Então não pode ajudar? — indagou Elena, desanimada.
— Ah, eu não disse isso — respondeu Damon, e tocou uma mecha solta do cabelo dourado de Elena com um dedo. — Lindo — disse ele distraidamente. — Gosto do seu cabelo assim, preso para trás. — Ela se afastou, e ele baixou a mão. — Estou tentando — continuou Damon com os olhos brilhando. — Não tenho uma boa caçada há muito tempo.
Elena não sabia se devia achar isso reconfortante, mas achou, de um jeito meio assustador.
— Quer dizer que você vai ser incansável? — Ela foi tomada de um leve arrepio e ele assentiu, os longos cílios pretos velando um pouco os olhos.
Ela estava com muito sono, e mais feliz agora que vira Damon, embora soubesse que não devia tê-lo deixado entrar. Também sentia falta dele.
— É melhor você ir — disse ela, bocejando. — Conte-me o que descobrir.
Damon se levantou, hesitando na ponta da cama.
— Não gosto de deixar você sozinha aqui — ponderou ele. — Não com tudo que está acontecendo. Onde estão aquelas suas amigas?
— Vão chegar logo — disse Elena. Algo generoso nela a fez acrescentar: — Mas, se está tão preocupado, pode dormir aqui, se quiser. — Sentia falta dele, de verdade, e ele era um perfeito cavalheiro. Precisava admitir: sentia-se mais segura com Damon por perto.
— Posso? — Damon arqueou uma sobrancelha irônica.
— No chão — respondeu Elena com firmeza. — Sei que Bonnie e Meredith também ficarão felizes com sua proteção. — Era mentira. Embora Bonnie pudesse ficar empolgada ao vê-lo, havia uma boa chance de Meredith chutá-lo de propósito ao atravessar o quarto. Ela até podia usar botas pontudas especiais para isso.
Elena se levantou e pegou um cobertor no armário para ele, depois foi escovar os dentes e se trocar. Quando voltou, já pronta para dormir, ele estava deitado no chão, enrolado no cobertor. Os olhos de Damon se demoraram por um minuto na curva do pescoço de Elena, descendo para a camisola de renda branca, mas ele não disse nada.
Ela subiu na cama e apagou a luz.
— Boa noite, Damon — disse ela.
Houve uma leve agitação no ar. De repente, ele sussurrou suavemente em seu ouvido:
— Boa noite, princesa. — Lábios frios roçaram seu rosto e se foram.

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