14 de março de 2019

Capítulo 17

Entre os 300 itens diferentes que a Cruz Vermelha disponibilizou a bordo para uso das mulheres havia roupas de cama, toalhas, papel de carta, remédios e produtos de beleza, além de toneladas de frutas em conserva, leite, biscoito, carne e caixas de chocolate. A Cruz Vermelha também providenciou 500 espreguiçadeiras dobráveis de lona e um livro específico sobre partos.
SYDNEY MORNING HERALD3 DE JULHO DE 1946

VINTE E SEIS DIAS

Podemos supor, com relativa segurança, que um porto de renome, ainda mais um utilizado como uma escala importante durante grande parte da guerra, tenha visto passar por seus portões quase tudo que se possa imaginar. Armas, munição, alimentos, sedas, especiarias, soldados, comerciantes, textos sagrados e lixo, e sem despertar muitos comentários.
Os mais velhos recordariam o rugido ameaçador de seis tigres brancos confinados em caixotes que seguiam para a casa de um magnata do cinema americano. Outros não esqueceriam a reluzente cúpula dourada de um templo, encomendada por algum chefe de estado europeu vaidoso. Mais recentemente, durante várias semanas o porto ficara tomado por uma rara fragrância depois que um guindaste com cinco mil frascos de perfume enjoativo deixou sua carga cair no cais.
No entanto, o espetáculo de cerca de seiscentas mulheres à espera do desembarque em Bombaim bloqueou totalmente o trânsito nas imediações de Alexandra Lock. As mulheres, uma do lado da outra nos conveses, usavam vestidos de verão, leves e coloridos. Acenavam com chapéus e bolsas, e suas vozes liberavam a energia de três semanas e meia no mar. Centenas de crianças corriam pelo cais, com os braços erguidos, gritando que as mulheres jogassem mais e mais moedas. Pequenos rebocadores se movimentavam como satélites ao redor da imensa proa. Seus motores barulhentos puxavam o Victorious para posicioná-lo da maneira correta no cais. Enquanto o navio seguia suavemente para seu local, algumas passageiras comentavam alto que estavam surpresas de ver um navio tão grande se encaixar em uma comporta. Outras se queixavam do cheiro e passavam lenços brancos nos rostos brilhantes. Ao longo de todo o cais, olhares se erguiam na direção do majestoso porta-aviões que não transportava mais aeronaves. Homens e mulheres vestindo túnicas e saris coloridos, soldados, estivadores, comerciantes, todos paravam para observar o navio cheio de mulheres fazer a manobra de entrada.
— Fiquem juntas e não se afastem da via principal! — A oficial lutava para se fazer ouvir no meio da algazarra das mulheres desesperadas para desembarcar. — E voltem no máximo às dez da noite. O comandante Highfield deixou claro que não vai tolerar atrasos. Todas entenderam?
Tinham se passado poucos meses desde o motim dos marinheiros indianos no porto. Eles haviam entrado em greve para protestar contra suas condições de vida. As razões do aumento das hostilidades ainda eram assunto de debates, mas não restava dúvidas de que o conflito havia deflagrado uma violenta batalha armada entre tropas inglesas e os rebeldes que durara vários dias. Ocorreram várias discussões acaloradas sobre a sensatez da permissão para o desembarque das mulheres. No entanto, considerando que elas tinham permanecido a bordo em Colombo e Cochin, não parecia justo mantê-las no navio por mais tempo. A oficial ergueu bem alto uma prancheta e com a mão livre enxugou o suor do rosto.
— A oficial de serviço vai anotar os nomes conforme as senhoras forem voltando a bordo. Cada uma deve verificar se o seu nome está registrado.
O calor estava arrebatador e Margaret se agarrou à lateral do navio, torcendo, enquanto a multidão se espremia em torno dela, para encontrar um lugar para se sentar. Avice, ao seu lado e com uma das mãos acima dos olhos para protegê-los do sol forte, estava na ponta dos pés e descrevia, aos gritos, o que conseguia enxergar.
— Precisamos visitar o Portal da Índia. Parece que todo mundo faz isso. E dizem que o Willingdon Club é maravilhoso, mas fica a alguns quilômetros da cidade. Lá tem quadra de tênis e piscina. Acha que devemos pegar um táxi?
— Eu quero encontrar um bom hotel e ficar com os pés para cima por meia hora — respondeu Margaret.
Elas tinham ficado em pé durante as quase duas horas que o Victorious levara para baixar a âncora, e a temperatura alta demais deixara seus tornozelos inchados.
— Vamos ter tempo de sobra para isso, Margaret. Nós, grávidas, precisamos fazer o possível para nos manter ativas. Ah, olhem! Daqui a pouco vão nos deixar desembarcar.
Havia uma fila para embarcar nos gharries, que eram pequenas carroças puxadas por cavalos, que levariam as mulheres até o Portão Vermelho, na entrada do porto. As que já tinham descido a passarela de desembarque estavam agrupadas ao redor deles, conversando, conferindo várias vezes se não tinham esquecido as bolsas e os chapéus, ou apenas apontando para a cidade ao longe.
Do outro lado do portão, Margaret viu avenidas largas e arborizadas, ao longo das quais se enfileiravam grandes hotéis, casas e lojas. As ruas e calçadas eram bastante movimentadas. A solidez da terra firme e o amplo espaço ao redor a deixaram um pouco tonta, e várias vezes ela sentiu o corpo oscilar, sem ter certeza de que era por causa do calor ou da longa permanência no mar.
Duas mulheres passaram por elas equilibrando na cabeça enormes cestas de frutas com a mesma desenvoltura com que as esposas do Victorious usavam seus chapéus. As duas cochicharam alguma coisa e, ao rirem, taparam a boca com os dedos cheios de anéis. Enquanto Margaret as observava, uma notou alguma coisa no chão. Sem inclinar o corpo, ergueu o pé descalço, pegou o objeto com os dedos, o colocou na mão e depois no bolso.
— Fantástico! — exclamou Margaret, que não conseguia enxergar os próprios pés havia semanas.
— Parece que vai ter um jantar dançante no Green’s Hotel. — Avice estava verificando suas anotações na agenda. — Algumas esposas do convés 8D vão lá mais tarde. Falei que talvez nos encontrássemos com elas para tomar chá. Mas estou louca para fazer compras. Tenho a impressão de que já comprei tudo que tinha na cooperativa do navio.
— Só quero me sentar — murmurou Margaret. — Não ligo para fazer turismo nem compras. Só quero um pedaço de terra firme e um maldito lugar para me sentar.
— Você acha mesmo que devia ter esse linguajar? — repreendeu Avice, baixinho. — Não é muito elegante ouvir isso de alguém no… seu…
Avice não terminou a própria frase, e, no mesmo instante, Margaret ouviu um murmúrio geral. Ela se perguntou o que tinha causado aquilo. Acompanhando o olhar das outras, se virou e viu Frances descendo a passarela atrás delas. Vestia uma blusa azul-clara abotoada até o pescoço e calça cáqui. Usava seu chapéu de abas largas e óculos de sol, mas o cabelo ruivo e as pernas compridas confirmavam que era mesmo ela.
Ela hesitou no final da passarela, talvez por perceber o silêncio à sua volta. Em seguida, ao ver a mão de Margaret estendida, abriu caminho pelas mulheres para chegar até onde ela e Avice estavam. Conforme ela andava, as outras recuavam um passo, como se fosse o milagre da divisão das águas.
— Mudou de ideia, então? — Margaret ouviu sua voz ressoar no silêncio que se seguiu.
— Sim — confirmou Frances.
— Você acabaria enlouquecendo se continuasse a bordo por mais tempo, não acha? — comentou Margaret, olhando para Avice. — Ainda mais com este calor.
Frances ficou imóvel, com os olhos fixos em Margaret.
— É bem perto — disse.
— Bem, voto por encontrar um bar ou um hotel onde a gente possa…
— Ela não vai andar por aí com a gente.
— Avice!
— As pessoas vão comentar. E só Deus sabe o que pode acontecer… Pelo que disseram, os antigos clientes dela estão circulando pelas ruas. Eles podem pensar que somos da mesma laia…
— Não seja ridícula. Frances é muito bem-vinda para vir com a gente.
Margaret sabia que todas as mulheres ao redor estavam escutando. Bando de bruacas maldosas, como seu pai diria. Com certeza nada do que Frances tivesse feito, seja lá qual fosse seu passado, justificaria um tratamento daqueles.
— Com você, talvez — retrucou Avice. — Então vou encontrar outra pessoa para me fazer companhia.
— Frances — disse Margaret, desafiando as outras mulheres a falarem mais alguma coisa —, você é muito bem-vinda para vir comigo. Vou ficar feliz com a sua companhia.
Era difícil ver alguma coisa por trás dos óculos de sol de Frances, mas parecia estar olhando de soslaio para a multidão de mulheres fazendo cara feia para ela.
— Você pode me ajudar a encontrar um bom lugar para me sentar.
— Tome cuidado para ela não encontrar um bom lugar para se deitar.
Frances virou bruscamente a cabeça e seus dedos apertaram com força a bolsa.
— Venha — disse Margaret, segurando-a pela mão. — Vamos conhecer o velho Portal da Índia.
— Na verdade, mudei de ideia.
— Ah, não! Pode ser que você não tenha outra oportunidade de conhecer a Índia.
— Não. Obrigada. Eu… Bem, vejo você mais tarde.
Antes que Margaret tivesse a chance de dizer mais alguma coisa, Frances já dera meia-volta e desaparecera no meio da multidão.
As mulheres se reaproximaram, murmurando palavras de indignação.
Margaret observou a passarela ao longe e ainda conseguiu distinguir a silhueta alta e magra da amiga subindo devagar por ali. Esperou até vê-la desaparecer dentro do navio.
— Foi maldade sua falar aquilo, Avice.
— Não sou uma pessoa ruim, Margaret, então não precisa me olhar assim. Sou sincera, só isso. Não quero estragar meu passeio na cidade por causa dessa mulher. — Ela ajeitou o cabelo e colocou o chapéu com cuidado. — Além disso, no nosso estado, acho que é melhor reduzirmos nossas preocupações ao mínimo. Isso não pode nos fazer bem.
A fila tinha avançado. Avice entrelaçou o braço no de Margaret e a conduziu rapidamente para um gharry.
Margaret sabia que devia ir atrás de Frances, pois, se ela insistisse naquele passeio, significaria que tolerava o tratamento que a amiga recebeu. Mas estava desesperada para sentir a terra firme sob os pés. E era tão difícil saber o que dizer…

* * *

Com poucas mulheres a bordo, o navio se tornara um turbilhão de atividades específicas: equipes de marinheiros circulavam por conveses que normalmente eram interditados aos homens e limpavam, pintavam, poliam. No convés de voo, muitos deles, ajoelhados, se esforçavam para usar as escovas cheias de espuma para tirar do concreto cinzento as manchas com reflexos coloridos deixadas pelo combustível das aeronaves. Pequenos rebocadores descarregavam imensos engradados com frutas frescas e legumes, que eram levados para o porão através das escotilhas, enquanto do outro lado os petroleiros começavam a reabastecer o navio.
Em outras circunstâncias, Frances teria gostado de ver o navio em operação, totalmente envolvido no seu ritmo normal de atividades. Agora reparava apenas no sorriso forçado do oficial de serviço no alto da passarela de desembarque e no olhar de cumplicidade que ele trocou com o colega quando ela mostrou o cartão de identificação para o reembarque. Percebeu os olhares demorados da equipe de pintura, os olhares retraídos e o cumprimento apenas murmurado do oficial que antes sorria ao lhe desejar um bom-dia.
Nos últimos dias, ela havia se perguntado como era possível alguém se sentir tão solitária em um navio que transportava tanta gente.
Estava a poucos passos do pequeno dormitório quando o viu. Antes, ela dizia a si mesma que seus passeios pelo navio eram apenas para tomar um pouco de ar fresco, para fugir do espaço asfixiante da cabine. No momento, ao reconhecer o homem que vinha em sua direção, se deu conta de que não havia sido sincera consigo mesma.
Ela baixou os olhos e examinou a própria roupa, como costumava fazer instintivamente havia muito tempo, quando estava de serviço. Sentiu um calafrio percorrer sua pele, um misto de angústia e expectativa. Não tinha ideia do que dizer a ele. Sabia apenas que naquele momento ele com certeza se sentiria na obrigação de falar com ela, afinal estavam próximos demais um do outro para que ele a ignorasse.
Os dois pararam. Trocaram um brevíssimo olhar, pois logo desviaram os olhos.
— Vai desembarcar? — perguntou ele, apontando para o porto.
O rosto dele não revelava nada, nenhum indício. Perguntou a si mesma se devia agradecer por ele ter a dignidade de lhe dirigir a palavra.
— Não… E-eu decidi ficar aqui.
— Aproveitar a paz e o silêncio.
— Mais ou menos isso.
Talvez ele não quisesse falar com ela, mas era educado demais para magoá-la.
— Bem… o máximo de paz possível aqui com… com todo esse…
Ele apontou para onde uma equipe de mecânicos consertava uma peça do navio, falando besteira uns para os outros enquanto trabalhavam.
— Sim — respondeu ela, sem conseguir pensar em outra coisa para dizer.
— Então aproveite. É difícil conseguir algum espaço a bordo. Espaço de verdade, quer dizer…
Talvez ele compreenda mais coisas do que está querendo dar a entender, pensou ela.
— Sim — disse ela. — É verdade.
— Eu…
— Ei, fuzileiro.
Um marinheiro, com o quepe caindo sobre o olho, estava indo na direção deles com um papel na mão.
— Querem que você passe na sala de controle antes do plantão. Para acertar detalhes da visita do governador.
Quando o homem se aproximou, Frances percebeu que ele a reconhecera. O olhar que ele lançou a ela enquanto entregava o papel lhe deu calafrios.
— Com licença — disse ela, já enrubescendo.
Quando se virou, Frances tinha a esperança de que ele lhe pedisse para esperar, ou que dissesse alguma coisa que revelasse que não a enxergava da mesma forma que os outros. Fale alguma coisa, pediu em silêncio. Qualquer coisa.
Um pouco mais tarde, ela abriu bruscamente a porta da cabine e a fechou com força. Encostou-se ali, as costas roçando através da blusa a impiedosa superfície metálica. De tão cerrado, seu maxilar chegava a doer. Até então ela nunca tinha pensado na injustiça da vida, pelo menos não em relação a si mesma. Ela vira o sofrimento de muitos pacientes, e às vezes se questionava por que Deus tirava a vida de um e deixava outro sentindo uma dor insuportável. Nunca pensara na injustiça do que ela mesma vivenciara: fazia tempo que descobrira que era melhor não pensar naqueles anos. Naquele momento, no entanto, com todas as outras emoções fervilhando dentro dela, sentia que estava oscilando entre o desespero total e a fúria cega com relação ao que sua vida tinha se tornado. Ela não sofrera o suficiente? Será que era aquilo, e não o que ela vivera durante a guerra, a verdadeira provação que teria que enfrentar? Quanto mais devia pagar?
Maude Gonne, talvez percebendo que Margaret tinha desembarcado, arranhava a porta sem parar. Frances se abaixou, pegou a cachorrinha e se sentou com ela no colo. Mas isso não bastou para acalmá-la. Na verdade, Maude Gonne não deu a menor atenção a Frances, que contemplava os olhinhos esbranquiçados que nada viam e insistia em acariciar aquele pequeno corpo trêmulo e desesperado por uma única pessoa.
Frances apertou a cachorrinha no peito, na esperança de lhe dar algum consolo.
— Eu sei — sussurrou, encostando a bochecha na cabeça macia do animal. — Acredite em mim, eu sei.

* * *

Acostumados com o forte calor de Bombaim, e alheios aos enormes ventiladores que zuniam acima das suas cabeças, os garçons do bar do Green’s Hotel estavam suando demais. O suor escorria por seus rostos brilhantes e se acumulava nos colarinhos dos uniformes brancos imaculados. No entanto, seu desconforto tinha menos a ver com o calor, pois a noite estava relativamente amena, do que com os intermináveis pedidos das mulheres que haviam escolhido aquele bar para encerrar seu dia em terra firme.
— Se eu tiver que esperar um minuto a mais pelo meu drinque, juro que vou ter uma conversinha com aquele homem — reclamou Avice, se abanando com o leque que comprara naquela mesma tarde e de olho no garçom infeliz que tentava abrir caminho entre os clientes com a bandeja erguida no alto. — Não aguento mais — insistiu ela, quando ele já voltava para o bar.
— Ele está fazendo o que pode — disse Margaret.
Ela tomara o cuidado de beber devagar o seu drinque, pois imaginara que, com o bar lotado, o serviço seria lento. Estava se sentindo revigorada: tinha conseguido manter os pés no alto por meia hora, e no momento apoiava a cabeça no encosto da cadeira, curtindo a brisa suave que vinha do ventilador de teto.
Era a mesma coisa em todos os lugares: no Green’s, no Bristol Grill, no hotel Taj Mahal: a combinação de passageiras do Victorious e soldados de diversos navios de guerra atracados ao mesmo tempo tinha congestionado a área do porto com potenciais festeiros, homens alegres e afoitos pelo fim da guerra e pela proximidade cada vez maior de casa. Elas tinham passado em vários outros bares antes de decidirem que talvez no Green’s conseguissem se sentar. Nesse momento, daquele lugar privilegiado na varanda, podiam olhar para trás pela arcada que precedia a pista de dança, já lotada de homens e mulheres que lançavam olhares esperançosos… e, às vezes, cobiçosos… para as mesas.
Algumas tinham começado a beber coquetel John Collins e ponches de rum na hora do almoço e começavam a sentir os efeitos de uma ressaca monumental. Estavam apáticas e pareciam pouco à vontade, com a maquiagem escorrendo e os penteados desfeitos.
Margaret não se sentia culpada por monopolizar a cadeira. Indiferente ao calor e à poeira, e também ao seu próprio “estado delicado”, Avice a arrastara para tudo quanto foi lugar naquela tarde. As duas tinham entrado em todas as lojas europeias, passado pelo menos uma hora na loja de departamentos Army & Navy e outra hora negociando com homens e rapazes que as abordavam com promoções aparentemente imperdíveis. Margaret logo se cansara de pechinchar, pois não parecia correto tentar economizar uma ou duas rupias diante da pobreza extrema dos vendedores. Mas Avice entrara no jogo com um entusiasmo surpreendente, e passou boa parte da noite admirando suas inúmeras compras e se vangloriando dos preços que conseguira.
Margaret ficara encantada com o pouco que conseguiram ver de Bombaim. Ao mesmo tempo, se espantara com a quantidade de indianos que dormiam nas ruas e com a aparente indiferença que demonstravam por viver em tais condições. Também se indignara com o contraste entre aqueles corpos magros e sua figura roliça, alimentada a leite; com suas incapacidades físicas e com as crianças praticamente nuas. Tudo isso a fez sentir vergonha das noites em que reclamara da falta de conforto no beliche.
O drinque chegou, e ela fez questão de dar gorjeta ao garçom na frente de Avice. Em seguida, ele desapareceu e ela se virou para contemplar o Victorious, que flutuava serenamente no porto. Com um sentimento de culpa, perguntou a si mesma se Frances estava dormindo. Todas as luzes estavam acesas, dando ao navio um ar festivo, mas sem aviões nem pessoas o convés de voo parecia vazio, como uma vasta planície sem habitantes.
— Ah! Um lugar vago! Podemos nos sentar com vocês?
Margaret se virou e viu Irene Carter, acompanhada de uma de suas amigas, puxar a cadeira à sua frente. Seus lábios com batom formaram um sorriso que não se refletiu no seu olhar. Apesar do calor, tinha um frescor inesperado e exalava um suave perfume de lírio.
— Irene — cumprimentou Avice com um sorriso também não muito simpático. — Que prazer.
— Estamos exaustas — disse Irene, jogando várias sacolas embaixo da mesa. Em seguida, ergueu a mão para chamar um garçom, que chegou no mesmo instante. — Com todos esses nativos atrás da gente o tempo inteiro… Precisei pedir ajuda de um dos oficiais para que me deixassem em paz. Acho que não percebem como podem ser chatos.
— Vimos um homem sem pernas — comentou sua amiga, uma garota rechonchuda e que parecia triste.
— Sentado na rua em um tapete! Conseguem imaginar uma coisa dessas?
— Acho que ele foi largado lá — prosseguiu a menina. — Talvez alguém tenha abandonado ele.
— Nem percebemos. Estávamos muito ocupadas com as compras, não é, Margaret? — comentou Avice, apontando para suas sacolas.
— É verdade — concordou Margaret.
— Compraram algo interessante? — perguntou Irene.
Margaret teve a impressão de ter visto certo desdém no seu olhar.
— Ah, nada do seu interesse — respondeu Avice, sem tirar o sorriso do rosto.
— É mesmo? Ouvi dizer que você comprou alguma coisa para a final do Rainha do Victorious.
— Natty Johnson viu vocês na loja de departamentos Army & Navy — comentou a garota gorducha.
— Ah, aquela roupa? Acho que não vou usar no dia. Para ser sincera, ainda nem parei para pensar no que vou vestir.
Margaret riu com desdém e tomou um gole da sua bebida. Avice tinha passado quase uma hora inteira na frente do espelho experimentando vários modelos.
“Eu queria saber o que Irene Carter vai usar”, resmungara ela. “De todo modo, tenho certeza de que não vai chegar aos meus pés.”
Ela gastara mais dinheiro em três vestidos novos do que o pai de Margaret gastaria em ração para gado durante um ano inteiro.
— Bem, acho que vou pegar alguma coisa no meu baú — disse Irene. — Afinal de contas, é só uma brincadeira, não é mesmo?
— Claro que sim.
Caramba, pensou Margaret, observando o sorriso frio de Avice.
— Não poderíamos estar mais de acordo — interveio Irene. — Sabe de uma coisa, Avice? Vou falar para as garotas que andam fofocando sobre você levar o concurso muito a sério que elas estão completamente erradas. É isso. — Fez uma pausa. — E que ouvi isso de fonte segura.
Ela ergueu seu copo como se fizesse um brinde. Margaret precisou morder o lábio com força para não rir da expressão de Avice.
As quatro mulheres ficaram juntas durante quase uma hora e meia, mais pela falta de mesas disponíveis do que por uma suposta amizade. Pediram curry de peixe. Margaret achou que estava delicioso, mas se arrependeu de ter comido quando bateu a indigestão. As outras, ao contrário, fizeram um drama abanando a boca e declarando que o prato estava intragável.
— Espero que não tenha feito nenhum mal ao bebê — disse Avice, colocando a mão na barriga inexistente.
— Fiquei sabendo da novidade! Parabéns! — exclamou Irene. — Seu marido sabe? Quer dizer, imagino que seja do seu marido — acrescentou, e depois caiu na gargalhada para mostrar que estava brincando.
— Acho que vamos receber a correspondência amanhã — respondeu Avice, e o sorriso, que costumava ser agradável, se tornara frio. — Imagino que ele já tenha contado para todo mundo. Vamos dar uma grande festa quando chegarmos a Londres. Por causa da guerra, tivemos a impressão de que ficamos o tempo todo separados, por isso teremos o que comemorar. É provável que seja no Savoy. E será, claro, uma comemoração dupla.
O Savoy é um bom lugar, pensou Margaret. Por um instante, Irene pareceu furiosa.
— A propósito, Irene, você quer ir também? Meus pais vão pegar o novo voo da Qantas na Austrália, e tenho certeza de que adorariam ver você. Como você não conhece ninguém em Londres, posso apostar que ficará feliz em fazer novos amigos. — Avice se inclinou para a frente, com uma postura conspiratória. — É sempre bom ter pelo menos um encontro com a alta sociedade, não acha?
Nossa!, pensou Margaret, que estava se divertindo com a situação. Aquilo era muito pior do que qualquer coisa que seus irmãos já haviam feito uns com os outros.
— Eu adoraria ter um encontro com a alta sociedade, se eu puder — respondeu Irene, secando os cantos da boca. — Vou ter que verificar quais são nossos planos, claro.
— Claro — respondeu Avice, bebericando sua água gelada com um sorriso discreto.
— De todo modo, será ótimo você ter alguma coisa com que se distrair.
Avice ergueu uma das sobrancelhas.
— Sim, estou falando dessa terrível história de você ser amiga de uma prostituta. Quem poderia imaginar? E isso logo depois que outra amiga sua foi surpreendida confraternizando com aqueles mecânicos imundos.
— E com a calcinha abaixada — completou a amiga gorducha.
— Bem, essa é uma forma de descrever a situação — ironizou Irene.
— Eu mal a conhe… — começou Avice.
Irene a interrompeu com um tom de voz sério:
— Você deve ter ficado preocupada, sem saber se seria considerada farinha do mesmo saco… Sabe como é, com tudo o que andam falando sobre sua cabine e o que acontece lá. Ficamos muito impressionadas com o seu estoicismo. Então, acho que sua reuniãozinha social é uma excelente ideia. Vai ser muito bom pensar em outra coisa.

* * *

A tarde já começava a se transformar em noite e, com a redução da claridade, seus pensamentos se tornavam cada vez mais sombrios. Incapaz de continuar por mais tempo no espaço apertado da cabine, ela considerou deixar o navio. Mas, além de não ter quem a acompanhasse, parecia que uma visita a Bombaim exigia certa robustez de espírito que ela não tinha. Então, resolveu sair e ir ao convés dos barcos, perto de onde se sentara com Maude Gonne apenas uma semana antes.
Ficou ali de pé, enquanto as luzes do porto refletiam e cintilavam na água escura, interrompidas vez ou outra pela passagem barulhenta de rebocadores e barcaças. Uma estranha combinação de odores de especiarias, óleo combustível, perfume e carne estragada saturava o ar, e ela sentiu que o simples ato de respirar era ao mesmo tempo arrebatador e desagradável. Seus pensamentos estavam um pouco mais serenos naquele instante. Prometeu a si mesma que faria o que sempre havia feito. Conseguiria superar tudo aquilo. Faltavam apenas duas semanas para chegar à Inglaterra e havia muito tempo ela aprendera que é possível superar qualquer coisa quando se tem força de vontade. Não pensaria no que poderia ter acontecido. Os homens que haviam sobrevivido à guerra em melhores condições, ela observara tempos atrás, eram aqueles capazes de viver um dia de cada vez. Aqueles para os quais até os mínimos prazeres da vida contavam. Ela tinha comprado um maço de cigarros na cooperativa do navio. Acendeu um, ciente de que seu gesto era autodestruidor, mas saboreou o gosto acre. Na margem oposta, pessoas chamavam umas às outras, e em algum lugar mais distante tocava uma melodia indiana, com notas longas e lúgubres.
— É melhor tomar cuidado. Você não devia estar aqui.
Ela se sobressaltou.
— Ah! — exclamou. — É você.
— Sim, sou eu — respondeu ele, jogando fora o próprio cigarro. — Maggie não está com você?
— Ela desembarcou.
— Com todas as outras.
Ela se perguntou se haveria um modo delicado de pedir que ele a deixasse sozinha.
Ele usava o macacão de mecânico. Estava escuro demais para ver as manchas de combustível, mas ela sentiu o cheiro, misturado à fumaça do cigarro. Detestava o cheiro de combustível: tinha tratado muitos homens queimados impregnados com esse odor, e ainda conseguia sentir a densidade pegajosa do tecido que precisara arrancar da pele deles.
Vou voltar a trabalhar com enfermagem na Inglaterra, prometeu a si mesma. Antes de Frances partir, Audrey Marshall lhe entregara uma carta de recomendação. Com sua folha de serviços, não lhe faltariam oportunidades.
— Já esteve na Índia?
Ela não gostou de ter seus pensamentos interrompidos.
— Não.
— Mas já visitou muitos países, não é?
— Alguns. Quase sempre bases militares.
— Você é uma mulher viajada, então.
É porque Margaret não está aqui, pensou ela. Ele é um desses homens que precisam de plateia. Frances se esforçou para sorrir.
— Não mais do que qualquer outra que tenha servido o Exército, imagino.
Ele acendeu mais um cigarro e soltou a fumaça para o alto, pensativo.
— Mas aposto que você seria capaz de responder a uma pergunta.
Frances o encarou.
— Existe alguma diferença?
Ela franziu a testa. Em terra, dois veículos bloqueados em um beco sem saída começaram a buzinar. O ruído ressoou no porto, abafando a música.
— Como?
Ela precisou se inclinar à frente para ouvi-lo.
— Entre os homens. — Ele sorriu, e seus dentes brancos brilharam na escuridão. — O que quero saber é… se você tem preferência por alguma nacionalidade específica.
Pela sua expressão, ela teve certeza de que entendera bem o sentido das suas palavras.
— Com licença — disse ela.
Em seguida, se afastou, o rosto corando, mas no instante em que se preparava para abrir a escotilha ele se colocou na frente dela.
— Não adianta bancar a santinha comigo — retrucou ele.
— Pode me dar licença?
— Todos nós sabemos o que você é. Não precisa fugir do assunto — falou, em um tom monótono, de modo que ela levou um segundo para notar a ameaça contida em suas palavras.
— Pode me deixar passar, por favor?
— Sabe, me enganei totalmente sobre você. — Dennis Tims balançou a cabeça. — No alojamento, chamávamos você de Miss Geladeira. Miss Geladeira. Nem acreditávamos que fosse casada. Imaginávamos que, no máximo, fosse casada com algum crente fanático que a deixaria virgem pelo resto da vida. Erramos feio, não é mesmo?
Seu coração disparou quando ela pensou na possibilidade de empurrá-lo para chegar até a porta. Uma das mãos dele estava apoiada de leve na maçaneta. Ela percebia a confiança que ele tinha em sua força, a certeza de um homem que, fisicamente, costumava levar a melhor.
— Sempre tão correta e certinha, com blusas abotoadas até o pescoço. E, na verdade, não passa de uma vagabunda que sem dúvida convenceu o pobre coitado de um marinheiro qualquer a enfiar uma aliança no seu dedo. Como foi que conseguiu uma façanha dessas? Prometeu que daria só para ele, foi isso? Disse que ele foi o único que significou algo na sua vida?
Ele estendeu a mão na direção do seu peito e ela a afastou.
— Me deixe sair.
— Qual é o problema, Sra. Pudica? Até parece que ninguém aqui sabe…
Ele a agarrou pelos braços e a empurrou no corrimão. Frances tropeçou quando o peso dele caiu em cima dela como uma parede sólida. Ao longe, ela ouviu risadas que vinham do hotel perto do cais.
— Já vi mulheres feito você em um milhão de portos. Não deviam deixar esse tipo de gente subir a bordo — murmurou ele no seu ouvido.
— Tire as mãos de mim!
— Ah, deixe disso! Você não espera que eu acredite que não está fazendo um serviço extra aqui…
— Por favor…
— Afaste-se, Tims.
A voz vinha do seu lado direito. Tims ergueu a cabeça, e Frances olhou por cima do seu ombro. Ele estava ali, os olhos faiscando de raiva sob a luz fraca.
— Afaste-se, Tims. — Seu tom de voz era glacial.
Tims identificou o homem, esboçou um sorriso, mas, em seguida, ficou sério de novo, como se estivesse em dúvida se devia assumir um tom amigável ou não.
— É só uma discussãozinha sobre pagamento — mentiu, afastando-se de Frances e revirando ostensivamente os bolsos. — Nada com o que precise se preocupar. Você sabe como são essas garotas.
Ela fechou os olhos para não ver o rosto do fuzileiro. Seu corpo inteiro tremia.
— Saia daqui — ordenou Nicol.
Tims parecia incrivelmente tranquilo.
— Como falei, fuzileiro, é só um desentendimento sobre preço. Ela quer cobrar o dobro do que costumamos pagar. Deve achar que nós, marinheiros, somos um público cativo, entende o que quero dizer?
— Saia daqui — insistiu o fuzileiro.
Ela se aproximou mais da parede, na tentativa de sair do campo de visão de Tims.
— Isso vai ficar só entre nós, certo? Imagino que não queira que o comandante saiba que está transportando uma puta. Nem quem são as amigas dela.
— Se eu flagrar você olhando mais uma vez para a Sra. Mackenzie durante o resto da viagem, vai se ver comigo.
— Com você?
— Pode não ser a bordo. Pode até não ser nesta viagem. Mas vai se ver comigo.
— É melhor não me tornar um inimigo, fuzileiro.
Tims estava perto da escotilha. Seus olhos faiscavam no escuro.
— Você não ouviu o que eu disse.
Por um instante, todos ficaram calados. Depois, lançando um último olhar furioso para os dois, Tims saiu pela escotilha e sumiu. Quando Frances achou que poderia respirar aliviada, a enorme cabeça raspada dele reapareceu.
— Ela fez um preço melhor para você, foi isso? — Tims riu. — Vou dizer à sua mulher…
Eles ouviram o barulho dos passos de Tims diminuir enquanto seguiam na direção do alojamento dos fornalheiros.
— Você está bem? — perguntou Nicol, baixinho.
Ela afastou uma mecha de cabelo do rosto e engoliu em seco.
— Estou, sim.
— Sinto muito — disse ele. — Ninguém tem o direito de… — A frase ficou em suspenso, como se ele não tivesse certeza do que pretendia dizer.
Ela não sabia se teria coragem de olhar para ele. Por fim, murmurou
“Obrigada” e saiu, disparada.

* * *

Quando ele voltou, havia apenas um fuzileiro no alojamento: Emmet, o jovem corneteiro, que dormia profundamente, com os braços atrás da cabeça, relaxado feito uma criança. O pequeno cômodo cheirava mal, e, além do ar pesado, havia cinzeiros cheios e sapatos espalhados. Nicol tirou o uniforme, se lavou e depois, com a toalha ao redor do pescoço e a água já evaporando da pele, pegou um bloco de papel do seu armário e se sentou em um banco.
Ele não costumava escrever cartas. Muitos anos antes, quando tentara uma vez, a caneta tinha tropeçado nas palavras, e os sentimentos colocados na página não espelhavam o que ele realmente sentia por dentro. Nesse momento, no entanto, as palavras fluíam com facilidade. Ele a deixaria partir. “Tem uma passageira a bordo”, escreveu ele, “uma garota com um passado tumultuado. Vê-la sofrer me fez entender que todo mundo, a despeito do que tenha vivido, merece uma segunda chance, ainda mais se houver alguém disposto a oferecer essa chance.”
Ele acendeu um cigarro, com o olhar perdido. Permaneceu assim por algum tempo, alheio aos homens discutindo no fundo do corredor, ao som do trompete que invadia o banheiro, aos homens que começavam a subir nas redes.
Por fim, colocou novamente a pena da caneta no papel. Amanhã ele levaria a carta para terra firme e a enviaria como telegrama, qualquer que fosse o preço.
“Acho que o que estou tentando dizer é que sinto muito. E que estou feliz por você ter encontrado alguém para amá-la, apesar de tudo. Espero que ele seja bom para você, Fay. E que você tenha a oportunidade de encontrar a felicidade que merece.”
Releu a carta duas vezes antes de perceber que havia escrito o nome de Frances.

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Boa leitura, E SEM SPOILER!